20.6.14

Emoção - Capitulo 4

 
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Atualmente
Chicago, 23 de dezembro de 2014

SÓ PORQUE Joe Jonas não via Demi Lovato há seis anos, isso não significava que ele não a reconhecera imediatamente. Isso significou, no entanto, que seu coração literalmente martelou no peito e o cérebro pareceu morrer. A imensa recepção aberta de seu escritório, decorada com luzes e folhagens, pareceu escurecer. Também pareceu encolher, ficando apertada, lhe esmagando as costelas, fazendo sua cabeça latejar, deixando-o desnorteado. Ele não conseguia formar um único pensamento coerente.

Bem, talvez um. Você cortou seu cabelo? Ele teve a presença de espírito de notar que os cachos longos e revoltosos que outrora caíam sobre as costas havia sido domados e encurtados. Então tudo simplesmente ficou em branco.

Ela não podia estar ali, certo? Não era possível que estivesse ali. Aquilo tinha de ser um sonho… ele ainda estava dormindo e ela estava visitando suas fantasias noturnas, do mesmo modo que fizera tão frequentemente ao longo dos anos.

Ele não conseguiu resistir, necessitando agarrar o momento antes de acordar. Ele levantou uma das mãos, colocou no ombro dela, sentiu a pessoa sólida, real sob a fantasia de elfo. Ela não se afastou imediatamente, e ele se inclinou um pouco mais perto, respirando profundamente, reconhecendo o perfume que era unicamente Demi. Não era uma perfume, um hidratante ou o xampu. Era simplesmente algo distinto e evocativo que incitava as lembranças dele, fazendo-o recordar de que ela havia sido a pessoa certa.

E ele a havia deixado escapar.

– Você não está sonhando – disse ela a ele, o tom seco.

Ele baixou a mão e deu um passo atrás, necessitando recuperar a concentração.

– Acho que isso significa que você também não está.

– Esse pensamento não cruzou minha mente – disse ela, os imensos olhos castanhos questionadores. – Eu certamente nunca esperava cruzar com você hoje, dentre todos os dias.

Ele sabia qual era aquele dia. Sabia bem. O que tornava aquele encontro ainda mais surreal.

– O mesmo aqui – murmurou ele.

Ambos ficaram em silêncio. Demi parecia tão surpresa quanto ele.

Bem, por que não estaria? Eles não se viam há anos. Apesar do que havia acontecido entre eles, do que havia compartilhado durante aquele feriado maravilhoso, nenhuma palavra foi trocada entre eles desde o meio de janeiro, quase seis anos atrás. Nem um cartão, nem um telefonema. Nenhuma oportunidade de se trombarem por aí já que, pelo que soubera da última vez, ela tinha se mudado para a Europa.

Mas ali estava ela. Não apenas em Chicago, mas no escritório dele.

No maldito escritório dele!

– O que você está fazendo aqui? – perguntou ele, o cérebro sem conseguir entender ainda. Devia ser óbvio. Demi era estudante de fotografia quando se conheceram. Além disso, ela estava carregando a bolsa de uma câmera. E estava vestida de elfo.

Um sorriso ameaçou tomar o lábios dele. Ele se lembrava daquela fantasia de elfo. Lembrava-se tão bem.

De repente, ele estava se lembrando tão bem de tudo.

Bem demais de algumas coisas.

– Estou trabalhando – explicou ela, empinando o queixo, a boca bonita se contraindo. – Por acaso você notou a sessão de fotos com o Papai Noel que estava acontecendo durante as últimas duas horas?

Ele mal tinha notado qualquer acontecimento, pois estava ocupado demais se sociabilizando. A festa de Natal dos funcionários era uma tradição antiga da Elite Construction, a empresa que seu avô havia fundado, e que ele agora administrava. Isso não significava que o chefe tinha muito tempo para participar dela. Ele circulara, agradecera aos funcionários, cumprimentara filhos e esposas, então retornara ao escritório nas últimas duas horas, saindo apenas para se despedir quando as coisas já estavam menos agitadas.

– Percebi – respondeu ele finalmente.

– Bem, era eu atrás da câmera.

– Eu sei disso, eu soube que você fez um ótimo trabalho e eu vim aqui para conhecê-los – disse ele, ainda desnorteado pela mera presença dela.

– Desculpe, o Papai Noel já foi embora. Não estamos fazendo mais fotos. No entanto, se você quiser se sentar no trono, acho que eu poderia tirar uma foto sua segurando uma bengalinha de doce e um ursinho.

Ainda atrevida. Deus, ele sempre gostara daquilo nela.

– Eu quis dizer que vim aqui para agradecer a você por concordar em fazer o trabalho na festa depois do pedido de última hora.

– Você não sabia que eu era o elfo até agora? – perguntou ela, soando levemente desconfiada. Como se perguntando se ele havia armado aquele pequeno encontro.

Hum. Se ele soubesse que ela estava por perto, poderia ter cogitado fazer exatamente isso… muito embora Demi provavelmente não fosse ficar animada a respeito, a julgar pelo olhar dela.

– Juro que eu não fazia ideia. – De repente ele ficou muito interessado em conversar com sua assistente, se perguntando como ela havia encontrado Demi. Ele também se perguntava se a mulher maternal e levemente intrometida estaria fazendo um trabalhinho de cupido. Ele não duvidaria disso. Ela não era nada além de uma romântica enrustida.

– Minha verdadeira pergunta era – continuou ele – o que você está fazendo aqui em Chicago? Você jurou que nunca mais moraria aqui. Pensei que você estivesse na Europa.

Aquele tinha sido o sonho dela, mora no exterior, ser uma fotógrafa viajante do mundo. Então o que tinha acontecido? Ela parecera totalmente determinada a nunca permanecer perto de casa e a tirar… fotos de crianças com o Papai Noel.

Ele olhou para cadeira forrada com veludo, para a neve falsa fofinha, para o tripé e para ela, vestida de elfo outra vez.

Como a vida dela descarrilara tão bruscamente?

– Fiquei na Europa durante algum tempo, cursei um semestre no exterior e voltei logo depois da formatura – disse ela.

Exatamente como ela havia planejado. E essa foi uma das razões para ela ter perdido o contato com ele, sabendo que um oceano inteiro iria separá-los, então por que se dar ao trabalho de tentar fazer algo funcionar quando a geografia dizia que não era possível?

– E?

– E eu não estava feliz, então terminei voltando para Nova York há alguns anos.

Anos. Ela esteve no mesmo continente durante anos. Uma viagem curta de avião. Tal ideia o deixou levemente enjoado, especialmente ao considerar a quantidade de vezes que ele pensara nela durante aquele mesmo período de tempo. A curiosidade para saber se ela havia mantido o mesmo número de celular e se as coisas iriam dar certo em Paris.

Talvez não. Mas provavelmente teriam dado certo com ela em Nova York. Droga.

– Como foi que Chicago entrou nessa história?

– Lembra-se de que cresci nessa região aqui?

Ele se lembrava, mas ela parecera inflexível a respeito de nunca retornar, associando o fato à sua perda trágica.

– Eu me lembro.

– Bem, mudei-me de volta para cá há dez meses para ficar mais perto do meu irmão.

Mesmo quando mais uma onda de prazer chocado o inundou… ela havia se mudado para cá, para a mesma cidade dele, o nome do irmão dela imediatamente surgiu em sua mente.

– Sam?

– Isso. Ele passou por um divórcio bem complicado e achei que iria ser bom para ele ter a família por perto.

– Que pena… esse divórcio, quero dizer.

– Sim, uma pena. Eu realmente pensei que eles iriam se resolver.

– Alguém mais? – murmurou ele antes que pudesse pensar melhor.

O corpo inteiro de Demi enrijeceu, e Joe se reprimiu mentalmente por abordar o assunto. Porque ele e Demi certamente não tinham entrado nesse campo.

Então, mais uma vez, será que eles um dia pensaram nisso? O que acontecera entre eles fora tão repentino, tão inesperado. Nenhum deles estava na posição certa para ter qualquer tipo de relacionamento… mentalmente, emocionalmente, financeiramente, ou de qualquer outro jeito.

Exceto fisicamente. Ah, sim. Eles tinham sido absolutamente perfeitos juntos.

Foi tão bom durante o período incrivelmente breve em que durou. Sinceramente, ao recapitular o fato, ele podia dizer que tinha sido a melhor véspera de Natal de sua vida.

Seguida pelo pior dia da Natal.

– Está gostando de ter voltado a Chicago? – perguntou ele, sentindo que ela estava tentando sair graciosamente pela tangente.

– É frio – disse ela, dando de ombros, sem ceder, sem abrandar seu tom. Ele supunha não poder culpá-la por isso.

– Parece que você se deu bem – disse ela, um tom quase rancoroso na voz. Ela o analisou, da cabeça aos pés, como se perguntando-se onde tinham ido parar o jeans, a camiseta e o cinto de ferramentas.

Em alguns dias, em muitos dias, ele ansiava para tê-los de volta. Usar um terno, mesmo que ele normalmente afrouxasse a gravata e arregaçasse as mangas em algum momento do dia, simplesmente não o empolgava do mesmo jeito que trabalhar manualmente sempre fizera.

– Acho que sim. E você?

Ela assentiu.

– Tenho meu próprio estúdio de fotografia.

– Ainda boicota o Natal?

Ela olhou para a própria fantasia.

– O máximo que consigo, o que não é muito fácil no meu ramo. Você ainda é um garoto sentimental a respeito do Natal?

Ele fez que sim com a cabeça, sem qualquer vergonha.

– Totalmente. – Mesmo que nos últimos cinco Natais tenha passado muito mais tempo se perguntando sobre Demi… Para onde ela teria ido, se tinha ficado na Europa, se havia se transformado em uma fotógrafa famosa… do que passara se preocupando com os presentes que compraria para a irmã, para a sobrinha ou sobrinho.

Como se tivessem ficado sem assunto por um instante, eles voltaram a se olhar. Joe não podia negar, os anos tinham feito bem a ela; Demi estava linda. Nenhum chapeuzinho bobo de elfo, com penachos e tudo, seria capaz de tirar a beleza dela. Nem o vestido curto e as meias listradas… Ai, Deus, aquelas meias, sempre traziam lembranças… nem os sapatos pontudos.

Ela deveria parecer bonitinha e adorável. Em vez disso, estava linda e sexy, trazendo lembranças intensas e selvagens à mente dele, da última vez que ele a vira usando aquela mesma roupa.

De repente ele foi lembrado, forçosamente, sobre quanto tempo estava sem fazer sexo.

Sexo bom? Mais tempo ainda.

Sexo fantástico, inesquecível, único?

Seis anos. Sem sombra de dúvida.

Ele engoliu em seco quando as lembranças o inundaram, tendo de se remexer um pouco no lugar. Demi sempre o afetara fisicamente. Dane-se se ele não queria que alguém percebesse isso agora. O diretor-executivo não deveria fazer pose de durão na festa de Natal.

– Estou impressionado por você ainda caber nessa roupa – admitiu ele indo contra o próprio bom senso. – Mas não surpreso demais. Você não mudou nada.

Ela corou.

– Talvez não fisicamente. Mas não sou a mesma garota doce de olhos arregalados mais.

Ele vociferou uma risada.

– Garota doce? Você não é a mesma pessoa que estava planejando desmembrar o ex-namorado quando nos conhecemos?

– Eu não fiz aquilo de fato.

Não, não fizera. Conforme se recordava, Joe usufruíra do prazer de socar o ex dela. E tinha sido muito bom.

– Que bom… Eu odiaria pensar que você passou os últimos seis anos na cadeia.

– Talvez se você não tivesse parado de me telefonar, saberia onde passei os últimos seis anos – respondeu ela, sempre doce.

Soco direto. Ele franziu a testa.

– Veja bem, Demi…

Ela abanou uma das mãos, obviamente brava consigo por ter dito alguma coisa.

– Esqueça. Tudo passa.

– Você sabe bem o que eu estava passando… por que fui embora de Nova York. – É claro que ela sabia, estava lá quando ele recebeu o telefonema que o fez voltar para casa.

– Eu sei – disse ela. – Eu compreendi… compreendo.

Talvez. Mas a coisa de não ter mantido contato obviamente ainda doía.

Ele provavelmente havia se perguntado dezenas de vezes ao longo dos anos por que não havia ao menos tentado retomar o contato com ela assim que sua vida voltou a pelo menos se assemelhar a algo normal. Talvez centenas de vezes. Mas sempre voltava à mesma coisa: ele estava preso. A vida dele era ali. A dela era… em qualquer lugar que ela quisesse estar. E Demi quisera que fosse em outro país, em uma realidade completamente diferente da dele, a qual era repleta de contratos e problemas com funcionários e o custo da madeira.

Ela estivera fora a fim de capturar o mundo, uma foto por vez. Ele estivera encapsulado, acorrentado ao passado, devendo muito às pessoas para simplesmente ir embora e viver sua vida do jeito que desejava.

Não que isso tivesse se mostrado como algo ruim. Na verdade, ele adorava administrar o negócio e tinha feito um trabalho excelente. Estava feliz por morar em Chicago. Gostava da vibração da cidade, as pessoas e da cultura. Então, não, ele não se arrependia por ter voltado. Tinha apenas um arrependimento. Ela.

– E agora você está aqui – murmurou ele, embora não tivesse tido a intenção de verbalizar em voz alta.

– Não faça um estardalhaço com isso – insistiu ela. – Eu não fazia ideia de que você trabalhava aqui.

– E se você soubesse? Teria aceitado o trabalho hoje, arriscado a dar de cara comigo?

Ela não respondeu. O que já foi resposta suficiente.

Demi realmente estava furiosa com ele. Bem, então eram dois furiosos; ele estava furioso consigo. Havia bastante espaço para arrependimentos, com seis anos de “e se” na mente dele. Mas naquela época parecera a coisa certa a se fazer, a melhor coisa, para os dois.

É claro, ele se questionara a respeito todos os dias desde então.

– Com licença, Joe?

Ele desviou o olhar de Demi, vendo Stella, sua assistente administrativa, a quem ele havia herdado de seu pai. Que por sua vez havia herdado do pai dele.

Mais velha do que o planeta não era suficiente para descrevê-la. Ela emanava terra batida… você teria de retornar à Idade de Pedra para ver as rochas sob a terra batida para poder descrevê-la.

Porém, não saberia disso só de olhar para ela. Da tintura preta nos cabelos ao vestido com estampa floral, ela poderia muito bem se passar por uma cinquentona. Mas Joe sabia que ela já havia passado desse marco há pelo menos duas décadas. Ele temia pelo dia em que ela não estaria mais ali para ajudá-lo a se organizar.

Ou para ajudá-lo como cupido? Ele teria de ter uma conversinha com Stella a respeito disso. Sabia que sua assistente o considerava estressado e solitário, e que achava que ele passava tempo demais no escritório. Além disso, Stella sabia a respeito de Demi… era uma das poucas pessoas que sabia, tendo obrigado Joe a revelar a história depois de um dia longo e estressante. Mas será que ela teria tido todo esse trabalho… rastreado Demi e a levado até ali? Parecia loucura.

Se fosse verdade, ele teria de decidir depois se a repreenderia severamente por se intrometer em seus assuntos pessoais… ou se lhe agradeceria.

O jeito como Demi não fazia questão de esconder seu aborrecimento o fazia conjeturar a primeira opção.

A ideia de que talvez pudesse ser capaz de fazê-la mudar de ideia? Definitivamente a segunda opção.

Ele não negava que ainda estava interessado. Ainda estava atraído. A julgar pela ausência de aliança na mão esquerda dela, ele suspeitava que ela estivesse disponível… pelo menos tecnicamente. Então talvez fosse hora de arriscar. Ver se ele conseguiria recuperar seis anos perdidos. Ver se havia algum jeito de ela perdoá-lo por ir embora… não, por fugir… antes que eles realmente tivessem uma chance de começar alguma coisa.

– Joe? – chamou Stella outra vez. – O sr. Whitaker já está indo embora, e ele gostaria de vê-lo antes de sair.

Whitaker… Um cliente que lhe rendera muitos trabalhos ao longo dos anos. Não era alguém que Joe podia ignorar.

– Tudo bem – disse ele antes de voltar sua atenção para Demi. – Espere por mim. – Não foi um pedido.

– Não, eu realmente preciso ir. Foi bom ver você.

Ela falou aquilo com a mesma entonação que diria ter sido bom ver um valentão de escola que ela tivesse odiado por décadas. Ele havia estragado tudo completamente. Há seis anos, e hoje.

– Demi, por favor…

– Hum, srta. Lovato? Se você vier ao escritório, posso providenciar seu pagamento imediatamente – interveio Stella. – Tenho certeza de que você não vai preferir esperar até depois do feriado.

Mordendo o lábio exuberante, Demi pareceu dividida. Joe olhou para Stella, se perguntando se ela estava usando de manobras dilatórias intencionalmente a fim de manter Demi por ali. Então, mais uma vez, se ela estava tentando armar para os dois, provavelmente não teria interrompido para informar sobre Whitaker, não importando o quão influente o cliente fosse. Então talvez a coisa toda tivesse a ver apenas com sorte. Uma sorte incrivelmente boa.

E talvez significasse que ele iria ter mais uma chance com a mulher que tão estupidamente deixara escapar.
 

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