27.9.15

Escolha - Capitulo 10 MARATONA (4/5)


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A ESTILISTA, Sveta Brevda, era alta, maníaca e magrela como um cachorro galgo, e ela brandia suas opiniões com punho de ferro. A primeira parada, na Dior!, ensinou Demi a se despir rapidamente, deixar a postura ereta e manter a boca fechada.

Ela perdeu o constrangimento de ficar nua lá pela sétima loja. Não importava quem estivesse no provador. Vendedores.

Amigos de vendedores, homens, mulheres.

Provavelmente até o cara da entrega de pizza estava parado na saída, balançando a cabeça enquanto a observava deslizar em um vestido colado ao corpo e usando absolutamente nada por baixo, como se ele estivesse escolhendo cortinas. Mas as roupas eram…

Demi não tinha adjetivos para classificar. Isso deixava claro o quanto as roupas eram fantásticas. E os acessórios? Meu Deus, ela tinha morrido e ido para o céu. Mesmo que os sapatos torturassem seus pés, que não conseguisse respirar nos dois vestidos que eram um número menor do que o seu, ou estivesse sendo virada, inclinou-se, estimulada a desfilar como um pônei de exposição, pois a tortura valia totalmente a pena, porque ela poderia ficar com tudo.

Mesmo considerando a parte em que a assistente grisalha da Prada enfiou a mão no corpete e levantou os seios nus de Demi, agora eis aí um belo relato para o blog.

Tudo isso feito com a velocidade de uma montagem de cenário: táxis eram chamados segundos antes de elas saírem, as seleções de roupas eram feitas de forma sobrenatural e perfeita, e ela finalmente entendeu o valor de um bom estilista.

A única coisa que faltava era Joe. Demi continuava a querer lhe contar as coisas, para ver a reação dele, sentir a mão dele em seu cóccix, mas ele estava trabalhando, e ela também. Só que aquele trabalho a fazia sentir-se como uma rainha de baile e como uma verdadeira modelo, mesmo com todas as roupas necessitando de bainha. Mas, principalmente, como alguém que havia cometido um erro que seria corrigido momentaneamente.

Joe não era do tipo que cometia erros desta magnitude. No entanto, teria sido melhor se eles tivessem conversado. Demi mandou um torpedo para ele enquanto estava em um táxi, o único momento em que conseguiu parar para fazê-lo, mas Joe estava em reunião, de modo que a resposta teria de esperar.

JOE PRECISAVA trabalhar para manter sua expressão suave, falar como se a visita de seus pais não tivesse sido algo indesejado e uma enorme coincidência, considerando a conversa que ele tivera com Rebecca na noite anterior. Joe sempre gostara tanto de Rebecca. Ela era uma aliada, alguém para lhe dar cobertura, sua amiga. A traição realmente foi um golpe duro. Droga.

– Nós não estamos aqui para tomar muito do seu tempo, Joe – disse o pai dele, com o olhar examinando a sala de estar. Ele e seus pais estavam ocupados catalogando todas as mudanças, as novas luminárias, a chapa que substituíra os tijolos ao redor da lareira. Eles só tinham ido à casa de Joe algumas vezes ao longo dos anos. Ele sempre preferia recebê-los em território neutro, embora tivesse ido às reuniões familiares, normalmente uma vez por ano, onde quer que estivessem sendo realizadas. Joe não havia ignorado seus pais completamente.

– Você sem dúvida deve ter notado que Andrew está começando sua campanha e levando isto bem a sério – disse o pai com a voz modulada e suave. Essa tinha sido uma das primeiras lições dos Winslow. Fale suavemente. Faça-os escutar. – Estamos muito satisfeitos com os endossos que ele tem recebido, mas o comitê está fazendo o orçamento da publicidade, e naturalmente o nome do seu grupo de blogs surgiu.

Então aquilo não tinha sido coisa de Rebecca. Joe não conseguia distinguir o tom de seu pai. Mais uma lição aprendida quando ele era garoto. Nunca entregar nada, nem na expressão, nem no tom, nem na postura.

Os Winslow eram a imagem da elegância por excelência. Os pais de Joe não usavam nada pomposo, porém tudo era meticulosamente escolhido para evocar o status deles. Os relógios mais caros, sapatos artesanais italianos, alfaiataria das melhores mãos de vários países.

Os pais dele impunham respeito, e faziam todo mundo de fora da família sentir-se pequeno e insignificante. Educados ao extremo, eles irradiavam poder e privilégio.

Cristo, o que eles tentaram fazer com ele. Joe tinha certeza de que não iriam mencionar que esta na verdade deveria ser a campanha dele caso ele não tivesse sido tão rebelde.

– Gostaríamos muito de utilizar a relação familiar nos dois blogs mais adequados para este tema, o Dollars e o NYPolitic.

– Não – disse Joe. – Não vou promover a pauta da família em meus blogs. É impróprio, considerando que acho Andrew uma escolha monumentalmente ruim para o senado.

O celular de Joe vibrou novamente, e ele o tirou do bolso e encontrou mais uma mensagem de Demi. Não podia lê-la agora.

– Nós não estamos pedindo mudanças editoriais ou seu apoio pessoal – disse a mãe dele. – Só queremos espaço em destaque para propaganda. Isso significaria uma receita expressiva para você.

Joe olhou para sua mãe, sabendo que estava irritada por ele não ter lhes oferecido bebidas. Seria apenas sinal de educação, a coisa certa a se fazer, mesmo para hóspedes indesejados. Na casa dela, nada disso teria acontecido. Ele sorriu quando olhou ao redor. Aquele era o lar dele.

DEMI E seu pelotão pararam novamente na Madison Avenue, desta vez para ver os sapatos. Ou talvez uma bolsa, ela não tinha certeza. E aquele sotaque bielo russo de Sveta não ajudava, era quase ininteligível. Demi passava a maior parte do tempo fazendo sim com a cabeça e tentando acompanhar e não se deixar humilhar nos templos da moda: Versace, Chanel, Anna Sui. Eram aqueles tipos de lojas que só tinham alguns itens expostos artisticamente num esnobismo minimalista. Onde recepcionistas deslumbrantes serviam um champanhe excelente e conheciam todos os detalhes do design e da fabricação das roupas em exposição. A música era sempre… interessante. Nada que você ouviria dentre as dez mais do rádio, porque isso poderia ser conseguido nos shoppings de New Jersey.

As etiquetas de preço eram de fazer hiperventilar. E mesmo que as seleções para Demi não fossem o top dos tops de linha, elas ainda eram extravagantemente bizarras. Na verdade, Demi estava em outro mundo, na vida de outra pessoa. O mundo de Joe. Como ela posou para mais uma fotografia usando um par de saltos que, provavelmente, a deixariam aleijada depois de cinco passos, ela lembrou a si que era uma mera visitante. Uma turista. Nada mais.

O PAI de Joe se levantou e nem mesmo foi capaz de controlar a forma como a pressão arterial subiu, avermelhando seu rosto.

– Andrew é da família, Joseph. Ele é um Winslow. Temos permitido que você defina o seu próprio curso, se divirta, mas você está interferindo em nosso legado. Não vou aceitar isso.

Joe se aproximou da porta, foi até o armário onde pendurara os casacos dos pais.

– Hum. É bom saber que algumas coisas não mudam. Vocês continuam presos à crença absurda de que têm alguma influência sobre mim ou minha vida. É bom manter nossas tradições.

– Joe – disse a mãe, tão ofendida quanto o pai de Joe, porém menos corada. – Já chega. Nós somos seus pais.

Ele se aproximou e estendeu o casaco à mãe.

– Obrigado pela visita. Espero que tenham tido boas férias em St. Barts.

Ela olhou para o marido, que pegou os dois casacos das mãos de Joe. Não chegou a rasgá-los no tranco. Mas foi por pouco.

– Nós nos lembraremos disso, Joseph – alertou o pai.

– Espero que sim. – Joe os conduziu até a porta. Quando foi fechada atrás deles, ele ainda estava tremendo de raiva. Precisava esfriar, relaxar a respeito daquela visita, a respeito das mensagens. Queria que Demi estivesse ali.

Ele nunca havia mencionado seus pais a Demi, nem perguntara sobre os dela. Eles não eram amigos. Sim, Joe ficava à vontade com ela. Tudo bem, isso não acontecia mais com a mesma frequência. Mas não. Ele não ia falar com Demi sobre seus problemas paternos. Jesus.

Pegou o telefone celular e clicou no primeiro dos torpedos dela. Quando chegou ao seu escritório, Joe estava sorrindo.

FINALMENTE, ELES tinham roupas mais do que suficientes para Demi enfrentar pelo menos uma semana de festas. A mais extravagante era o vestido Marchesa para a estreia do filme Cortesã. O vestido de noite, preso com alfinetes por um bando de costureiras para caber no corpo dela, estava tão fora de sua alçada que chegava a doer.

Eram quase oito da noite quando o táxi chegou na casa de Joe. Sveta não precisa se anunciar. O pessoal da recepção assentiu respeitosamente quando os porteiros a ajudaram a trazer sacolas e mais sacolas, caixas e mais caixas. Demi se apoiou na parede espelhada do elevador, em seguida inspirou profundamente algumas vezes antes de elas entrarem na casa de Joe. O olhar dela foi imediatamente atraído para o corredor que levava ao quarto dele, e a realidade do novo acordo entre eles a deixou aflita. Em seguida, Joe entrou no átrio, e tudo o mais ficou vago aos sentidos dela.

Ele sorriu abertamente quando os olhares de ambos se encontraram. Demi estremeceu quando ele se aproximou, sabendo que ele iria tocá-la, e que ela estava autorizada a retribuir o toque, mesmo diante de Sveta e dos porteiros. Que bênção confusa. Ela podia tocá-lo, mas não tê-lo para si.

Demi não se arrependia de sua decisão de manter o relacionamento fora do quarto. Era a decisão acertada, o jeito maduro de prosseguir. E também era uma porcaria.

– Isso é coisa demais – disse ela, enquanto encarava os olhos escuros de Joe. Ele acariciou os braços dela, e as palmas pairaram pela pele até os pulsos, depois subindo novamente. Ele a beijou, na boca, sim, mas no momento em que houve um indício de calor, ele recuou. Demi se perguntou para quem estava sendo a exibição daquele beijo. Sveta? O restante da equipe? Tinha que ser.

– Não é – disse ele. – Faz parte do show.

– Joe, eu vi as etiquetas de preço.

Ele sorriu.

– Quase tudo foi de graça.

– Nada é grátis. Eu sei que há uma permuta, mas nem mesmo sou famosa.

– Você vai ser.

– Em uma semana? Duvido.

Ele a conduziu mais para dentro de seu apartamento enquanto Sveta levava os porteiros por um corredor, os saltos estalavam tão rapidamente que Demi se perguntava se seria rude sugerir a ela passar a beber café descafeinado.

– Você não vai estar na capa da People – disse Joe –, mas vai ser conhecida na cidade, onde importa.

Ele fez uma pausa, com a palma da mão quente na pele de Demi. Quando voltou a falar, a voz soou meio apertada, tal qual os dedos dele.

– Você está com um Winslow agora, e os Winslow são o centro do poder nesta cidade, você não sabia?

Demi parou. Não tinha certeza do que estava acontecendo, mas sentia-se desconfortável. O que tinha acontecido durante aquela reunião? Joe dispensou as dúvidas e inseguranças dela, disse-lhe que estava tudo bem, mas obviamente aquele não era o caso.

– Todas as peças de roupa vão ter um monte de milhagem nos blogs – explicou ele, soltando Demi. A voz tinha mudado de volta para algo menos estridente, algo mais Joe. – Além de suas barras laterais, tenho alguns colaboradores de moda que vão linkar você nas próximas semanas. Garanto que vai haver um monte de versões das peças na Macy’s em abril.

Demi forçou um sorriso, mesmo sabendo que ele estava chateado, que aquele último discurso era um modo de ele conseguir se reorientar. No entanto, Demi não tinha o direito de pedir a ele para se abrir com ela, para lhe dizer qualquer coisa coisa sobre sua vida privada.

– Já trabalhei num primeiro rascunho do material que será montado por uma equipe de designers de primeiro escalão.

– Mal posso esperar para ver.

O estalo dos saltos de Sveta anunciava sua entrada na sala de estar.

– Venha se vestir agora.

Demi verificou com Joe.

– É uma sala de imprensa. Usada para esse tipo de coisa.

– Você arruma todas as suas mulheres?

Ele abriu a boca, mas Demi correu para acompanhar Sveta, não querendo ouvir a resposta.

A sala em si se entregava, no entanto. Havia espelhos, estações de cabelo e maquiagem, racks de roupas. Muitas prateleiras continham roupas masculinas, mas havia peças femininas também, todas deslumbrantes. Em concordância chocante às boas maneiras, havia um biombo num canto. E também havia gente. Cinco pessoas: um delas era um fotógrafo que Demi vira na festa da Mercedes. Seu assistente estava acertando a iluminação. Ao lado, havia painéis gigantes em rolos para mudanças de cenário, peças de tecido, prontos para serem posicionados para qualquer tipo de fotografia.

Havia até mesmo uma máquina de costura num canto, a qual Demi desejava examinar. Provavelmente era a Ferrari das máquinas de costura e ela ficou com tanta inveja de chorar por uma semana.

– Troque de roupa – disse Sveta, segurando o vestido roxo com decote em V adquirido da coleção Victoria Beckham.

Demi obedeceu, até parece que teria a ousadia de fazer qualquer outra coisa. Em segundos ela tirou sua roupa de trabalho velha e entrou no vestido magnífico, até porque a única roupa de baixo era uma calcinha fio dental barata. Bege, de propósito.

No momento em que Demi saiu de trás do biombo, foi coberta por um avental, sentou-se em uma cadeira e foi atacada por um monte de mãos tocando seu cabelo, seu rosto, suas unhas. As luzes deixavam tudo mais intenso, mais quente, mais assustador, e quando alguém disse “Está aberta”, ela abriu a boca, e daí alguém puxou seu cabelo para que ela ficasse na posição certa.

Sua intimidade nunca tinha sido tão invadida. O cheiro de muitos hálitos e colônias passou de enjoativo para desagradavelmente pegajoso, e se aquilo não acabasse logo, ela ia ter que tomar providências, impedi-los de alguma forma.

– Ei.

A voz de Joe cortou o ambiente e em dois ou três segundos tudo que a tocava, escovas, dedos, lixa de unha, curvex, se afastou. Demi suspirou de alívio, e notou que estava segurando os braços da cadeira de maquiagem tão firmemente que os nós dos dedos estavam brancos.

Ela observava Joe no reflexo do espelho, sentia a mão dele em seu ombro. – Eu nem sequer perguntei – disse ele. – Você já comeu alguma coisa hoje?

– Eu almocei.

– Mas isso foi o quê, oito, nove horas atrás?

– Por aí.

Os olhos de Joe semicerraram-se no espelho e ele se virou para Sveta.

– Quanto tempo até ela ficar pronta?

– Cinco minutos. Unhas da mão esquerda. Rímel. Batom.

– Não passe o batom ainda. Termine o restante. Imagino que você também não tenha comido. Não, não olhe para mim desse jeito, você precisa comer alguma coisa. Tem comida na cozinha. O suficiente para todo mundo.

Antes de se voltar para Demi, Joe lhe apertou o ombro e sorriu.

– Não vai ter nada pegajoso ou que escorra, mas sugiro manter o avental. Só para garantir. Podemos conversar sobre a festa de hoje à noite enquanto comemos.

Ela assentiu com a cabeça. Calmamente. Tocada pela consideração dele. Ela não havia percebido que seu pânico era a fome. Principalmente fome.

Incapaz de se virar, Demi ainda conseguia enxergá-lo do espelho quando Joe foi até a prateleira de ternos, pegou um e saiu. Da porta, ele se virou e piscou para ela.

Antes que ela pudesse ao menos sorrir, sua mão foi agarrada e a câmera começou a clicar sem parar.

A MELHOR parte depois do evento foi Demi, mas mesmo ela não fora distração suficiente para impedir Joe de pensar em seus pais. Tinha ligado para Rebecca, mas ela não retornara, e os seus pensamentos ficaram revolvendo naquela tarde. Como eles ousavam achar que ele seria tão sem moral e passaria dos limites promovendo a campanha dos Winslow em seus blogs? Deus do céu, aquilo o irritou.

Ele olhou para cima quando o garçom do Pyramid Clube chegou com vodca. Ele tinha deixado sua atenção dispersa de novo, embora nesse momento não houvesse muito mais a ser visto. Demi estava de pé contra a parede de tijolos pretos, linda com seu vestido roxo e saltos impossíveis, cercada por jornalistas experientes e aspirantes à fama.

Joe tinha avisado que isso iria acontecer. O texto do blog desta manhã assegurara a Demi o posto de celebridade de segundo escalão, o que significava “famosa por associação”. No entanto, ele tinha a sensação de que não ia levar muito tempo para ela fazer sucesso por conta própria.

A maioria das celebridades de verdade estavam amontoadas do lado de fora, no fumódromo, congelando seus traseiros enquanto falavam mal de todos lá dentro, e Joe deveria se juntar a elas, ele seria capaz de tolerar a fumaça durante alguns minutos. Mas Demi era muito mais atraente.

Ela ergueu o copo de suco de abacaxi, mas foi seu sorriso radiante que informou a Joe que ele tinha feito a escolha certa.

– Está se divertindo? – perguntou ele depois de se esquivar de bebidas e bêbados para chegar até ela.

– Estou meio atordoada – disse ela. Ou melhor, berrou. O nível de ruído nesse tipo de evento ia acabar deixando Joe surdo antes de chegar aos 40 anos.

– É tarde. Não vamos demorar a ir embora.

– Quando você quiser.

Na verdade, não estava tão tarde. Tinha acabado de passar da meia-noite. Mas Demi tinha trabalho a fazer na parte da manhã, precisava escrever o texto a ser linkado na barra lateral. E Joe queria algum tempo a sós com ela, no qual não precisassem ficar falando sobre quem deveria ser procurado, quem deveria ser evitado. Ele estendeu a mão.

Os flashes pipocavam enquanto eles seguiam para a saída. Não foi uma surpresa terem sido interrompidos várias vezes, entretanto a limusine não demorou muito a chegar.

Uma vez lá dentro, Joe entrou e esperou que Demi sentasse ao lado dele. Em vez disso, ela se encolheu contra a outra porta.

– Você está bem?

– Tudo bem.

– Você parece… fria.

– Não – disse ela, puxando a saia, evitando o olhar dele. – Estou bem. Talvez você pudesse ligar para a portaria do seu prédio e perguntar a eles a chegada estimada de um táxi por lá…?

– Nós vamos levar você para casa.

– Minhas roupas estão na sua casa.

– Você está usando suas roupas.

Ela olhou para ele.

– Verdade. Eu tinha me esquecido.

Joe se aproximou dela, preocupado.

– O que está acontecendo, Demi?

Ela cruzou as mãos no colo, com força.

– Eu ia te perguntar a mesma coisa.

– O quê?

– Você esteve nervoso durante a noite toda. Está certo que não te vi em muitos eventos, mas nas vezes em que vi você pareceu ser a pessoa mais relaxada do lugar. Hoje não. Na verdade, senti que tinha alguma coisa errada com você.

Joe se afastou dela, nem um pouco confortável por saber que havia mais uma pessoa capaz de decifrá-lo. Não eram muitas que conseguiam isso. Naomi. Rebecca. Seu colega de quarto da faculdade. Joe gostava que fosse assim. Foi necessário muito tempo para cultivar a imagem ideal para seu trabalho, e Demi, de Algum Lugar em Ohio, já havia perfurado seu exterior cuidadosamente elaborado de mais formas do que Joe gostava de pensar. Ele cogitou mudar de assunto durante o restante do trajeto, deixando claro para Demi que ela havia ultrapassado um limite. Em vez disso, ele encontrou o olhar dela.

– Meus pais vieram aqui hoje.

Ela certamente pareceu assustada diante da confissão dele. Mas não foi a única. Mal conhecia aquela mulher. E no entanto… – Eles queriam que eu fosse para a política – contou ele. – Desde que eu estava no colégio.

– Sério?

– Os Winslow têm grande influência política ao longo das gerações. Era hora de preparar um novo senador para Nova York. Minha família é formada por planejadores de longo prazo.

– Obviamente você não estava entusiasmado com a perspectiva…?

– Não. Não estava. Mas para eles isso não importava. Desde cedo fui ensinado que tinha a obrigação de trabalhar num cargo público. Que a nossa vida privilegiada significava que devíamos nos dedicar a uma causa maior, que o que desejávamos era imaterial. Isso soa muito bem na teoria, nobre e filantrópica. Mas tinha mais a ver com manter a família na camada superior da sociedade do que com filantropia. Meu destino deveria incluir a faculdade de Direito, um perfil no periódico Harvard Law Review, uma empresa de prestígio, um escritório municipal, um cadeira no Congresso, e então o Senado. Levando o estandarte da herança Winslow.

– Uau, não consigo enxergar você como advogado. Político então, nem pensar.

Ele deu um sorriso irônico.

– E você me conhece há o que, uma semana? O que isso lhe diz sobre minha família? – Joe olhou pela janela por um segundo. Esse negócio de confissão era tão esquisito quanto usar as roupas de outra pessoa. – Não é que eu não acredito em cargos públicos, eu acredito. Eu levo isso a sério. – Ele encarou Demi novamente. – Só que eu não queria era viver uma mentira.

– Então você resolveu se tornar um magnata da internet?

– Mais ou menos – disse ele, consciente de que seu meio-sorriso automático dizia mais do que a maioria de suas conversas com as mulheres com quem dormira. – Eu não imaginei que os blogs fossem se tornar tão grandiosos. Não estou reclamando. Eu estava no lugar certo e na hora certa. Eu queria ser independente.

– Funcionou. Você é. E muito bem-sucedido.

– Sim. Funcionou. E vai continuar a funcionar. – Ele estudou as próprias mãos. Joe era o único que deveria desconcertar suas companhias. Era muito bom nisso, mas Demi não estava nem perto disso, então fosse o que fosse, aquilo não era um jogo de poder. Não, ele havia aberto mais uma porta para ela. Demi era diferente, a exceção da regra. Deixava-o tenso.

Permitir que seus pais mexessem com ele era francamente constrangedor. Na maior parte do tempo, eles não conseguiam isso. Joe tinha acabado de ser pego de surpresa, só isso. Mas admitir isso a Demi? Jesus.

– Então a visita deles foi desagradável?

Joe estendeu a mão e segurou a de Demi. Ela estava fria, caramba.

– Foi breve – respondeu ele. – Deixei minha opinião bem clara. Eu já disse o quanto você está bonita hoje à noite?

Ela olhou para ele, para as mãos entrelaçadas de ambos, e então de volta para ele.

– Sim, várias vezes. Obrigada.

– Estou deixando você desconfortável?

Demi suspirou quando puxou sua mão livre. – Não é que eu não queira…

Joe assentiu, se recostou no banco. Incrivelmente cansado de repente. Talvez ele estivesse ficando doente.

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Último.
Comentem.
xoxo

26.9.15

Escolha - Capitulo 9 MARATONA (3/5)


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– PROVE ISSO e me diga se você acha que precisa de mais sal. – Rebecca se afastou de modo que Lilly pudesse experimentar a sopa.

Ela obedeceu e fingiu uma tosse.

– Engraçadinha. – Depois de acotovelá-la na cintura de leve, Rebecca viu seu primo em pé à porta da cozinha do porão da Igreja de St. Mark. Ele não estava olhando para ela, ou, ela imaginou, procurando por ela. O olhar dele estava em Demi.

Ainda havia muitas risadas misturadas ao vapor que pairava acima do fogão industrial. Rebecca estava fazendo uma panela gigantesca de sopa de ervilha, Lilly estava cozinhando chilli, e mesmo com aquele monte de panelas e o forno bem quente, o porão continuava frio. Aquilo não duraria muito tempo, no entanto, não se acontecesse o que Demi achava que iria acontecer.

Era difícil desviar o olhar de Joe. Ele estava com a guarda tão baixa como ela jamais tinha visto. Como um adulto, pelo menos. Havia uma consciência aguda nos olhos dele, uma concentração que falava de uma fome que nada tinha a ver com a sopa de ervilha.

Uma de suas mãos estava apoiada no batente da porta, a outra segurava papéis. Ele estava elegante em seu casaco sob medida: azul-marinho, no comprimento das panturrilhas, perfeitamente moldado. Tal qual o próprio Joe.

O sujeito sabia o que ficava bem nele, sabia que aquele tipo de visual o fazia se safar, e o que faria as pessoas ao redor erguerem as sobrancelhas. Nada era despropositado. Nem on-line, nem pessoalmente, nem em uma caminhada até a mercearia da esquina. Vê-lo desejando Demi tão descaradamente era como vê-lo nu. Não que ela tivesse qualquer experiência pessoal com isso, mas estivera com Joe em situações familiares, momentos particulares de pesar, de apuros, de fracasso, de sucesso, e isso era novidade.

Rebecca sorriu para o próprio brilhantismo. Ela era incrível. Sabia que ele ia gostar de Demi. E que Demi iria gostar dele, mas mesmo Rebecca, no auge de sua convicção, não tinha adivinhado que eles iriam tão longe tão depressa.

Ela teria feito um “toca aqui” consigo mesma se pudesse, por ser tão esperta. Ninguém na família acreditou que Joe fosse se apaixonar. Ele sempre estivera com muitas mulheres, nunca com apenas uma mulher. Não Joe. Seu carrossel não tinha parado de girar desde a puberdade, e ficava entediado rapidamente. Nada poderia ter sido mais perfeitamente adequado ao seu primo nesta era de gratificação instantânea. Joe nasceu para isso, respirava isso, trabalhava com isso. Tudo muito rápido, e o restante era para os fracos e sem brilho.

Demi não era maçante, para dizer o mínimo.

Rebecca se virou para a amiga. Tinham tentado se falar por telefone durante o dia todo, e Lilly apareceu logo depois que elas chegaram à cozinha, então tudo que Rebecca sabia era que Demi tinha ido com Joe a uma festa super chique na noite anterior, um belo segundo encontro, e havia escrito um relato em primeira mão sobre a tal festa no blog esta manhã.

Se isso não fosse um testemunho da genialidade de Rebecca, então ela não sabia mais o que poderia ser.

As coisas ficaram realmente interessantes quando Demi se virou e avistou o homem de pé à porta.

Se ao menos a porta ficasse mais perto da área de preparação da comida. Era difícil saber para onde olhar. Demi agora era uma demonstração da mulher moderna sob completa luxúria. Ela aprumou as costas, prendeu a respiração, exibindo o peito à luz mais positiva possível. O suéter barato de cashmere que usava abarcava os seios perfeitamente, e Rebecca sabia que Joe estava tendo um pequeno ataque cardíaco diante deles.

Em seguida, as bochechas de Demi foram tomadas por um rubor. Meu Deus, nem Renoir poderia ter pintado algo tão habilmente. Ela arregalou os olhos, entreabriu os lábios e seus feromônios certamente começaram a gotejar.

Os únicos sons eram o borbulhar lento vindo do fogão, o silvo do aquecedor. Mesmo Lilly, que tinha vindo hoje à noite para beber alguns drinques e ter a companhia das meninas depois de cozinhar, captou que alguma coisa estava acontecendo.

Rebecca se voltou para Joe novamente, e ele deixou a mão cair, dando um único passo para dentro da cozinha. Ele parecia estar lutando para não sorrir. A curva começou a se formar nos cantos dos lábios, que logo ficaram sérios de novo, mas, um segundo depois, o sorriso reiniciaria.

De volta a Demi, e era como a partida de tênis mais lenta de todos os tempos, a bola invisível bem dentro dos limites da quadra, os arremessos para frente e para trás lânguidos e elétricos ao mesmo tempo. A sopa de Rebecca iria queimar em um minuto caso ela não mexesse a panela. – Joe – disse ela. – E aí?

Rebecca quase riu pelo modo como ele se sobressaltou com a voz dela. E quando ela olhou para Demi, o rubor se espalhou pelo rosto e pelo pescoço, e ela começou a piscar sem parar.

– Vim para mostrar a Demi o blog dela. – Ele ergueu os papéis, como se a prova fosse necessária.

– Vai ser meio difícil ela enxergar de lá do outro lado da cozinha.

O sorriso de Joe finalmente se libertou, assim como suas pernas. Ele entrou, cruzando o cômodo até Demi.

– Aquele é o Joe Winslow – sussurrou Lilly, e Rebecca não a ouvira se aproximando. Felizmente ninguém viu o sobressalto de Rebecca porque os olhares estavam no centro do palco. Até mesmo o de Lilly.

– Sim, é ele.

– Por que Joe Winslow está na nossa cozinha? Com Demi?

– Porque ela está saindo com ele.

– O quê?

O questionamento veio em voz alta. Muito alta. Alto o suficiente para suspender toda a ação. Lilly sorriu e acenou de forma constrangida.

– Lilly Denton. Oi.

– Joe Winslow – cumprimentou Joe. – Oi.

O momento passou. Rebecca arrastou Lilly para o fogão, e Joe voltou a circundar Demi.

– Ela está saindo com ele? – perguntou Lilly, sua voz era um sussurro outra vez. – Desde quando?

– Há pouco tempo.

– Como você sabe disso?

– Obviamente você não lê o blog dele.

– Eu leio, mas estive muito ocupada nos últimos dias. – Lilly lançou mais uma olhadinha furtiva. – Isso vai me ensinar a colocar o trabalho em primeiro lugar.

– Tudo bem, não é por causa do blog dele, eu sei porque Joe é meu primo, e seu chilli está queimando.

Ambas pegaram colheres de tamanho industrial e começaram a mexer as panelas como as bruxas em Macbeth. – Sério, que diabos? – disse Lilly.

– Eu armei o encontro deles.

Lilly, que era um mistério para Rebecca, uma amizade em construção, mas cautelosa, tão cautelosa, abriu a boca, daí deve ter repensado. No entanto, ela se aproximou um passo de Rebecca.

– Explique. Em detalhes, por favor. E lembre-se, estou segurando uma colher imensa e juro por Deus que vou usá-la se você continuar sendo enigmática.

– Eu não costumo armar encontros – respondeu Rebecca. – Especialmente para Joe porque tem um monte de malucas correndo atrás dele, mas ele e Demi… eles combinam.

– Antes da troca de cartões? Durante? Porque se Joe Winslow era um cartão de troca, então quero meu dinheiro de volta.

– Você não pagou por nada.

– Rebecca.

– Certo. Ele não era um cartão. Tecnicamente.

– Saí com dois caras dos cartõezinhos. O primeiro foi um cara maravilhoso, desde que você estivesse disposta a tolerar o amor fervoroso dele pela mãe. O segundo disse que queria um relacionamento, mas suas atitudes foram completamente de um sujeito que queria um casinho de uma noite só.

– Eu sei. Meus encontros também não foram avassaladores, embora eu tenha ficado sabendo que Paulie conheceu alguém fantástico, e que o encontro de uma noite apenas de Tess se transformou em três.

– O que ainda não explica Joe Winslow – disse Lilly, franzindo a testa.

– É complicado, e vamos nos aprofundar mais no assunto quando sairmos para beber, mas se ficar falando com você, não vou escutar o que eles dizem, então vamos continuar mexendo as panelas e calar a boca.

JOE ENGOLIU em seco, se perguntando pela 50ª vez o que estava fazendo na cozinha do porão de uma igreja se movimentando de forma desastrada como um adolescente em seu primeiro encontro. Demi estava lendo as páginas do blog que ele tinha impresso, e ela teve a gentileza de não mencionar que ele não precisava vir vê-la ou imprimir as páginas, já que o blog estaria no ar na manhã seguinte bem cedo.

Já havia pedido a ela para escrever um texto biográfico curtinho e no dia seguinte já iria ao ar. Demi já tinha dado um gostinho de seu trabalho, seu primeiro link na barra lateral sobre a festa no Chelsea Piers, e a coisa poderia ter acabado ali mesmo. Mas os acessos ao blog aumentaram, e Demi recebera mais de 700 comentários em sua coluna. Muito alentador.

Então Joe prosseguiu. Na manhã seguinte, haveria mais fotos de Demi, algumas da época da faculdade, uma de Nova York usando roupas casuais. Joe tinha esperanças de que aquilo desse início a um diálogo.

O olhar dele se dirigiu a Rebecca, que foi flagrada dando um meio-sorriso, e ele tocou no braço de Demi, interrompendo sua leitura.

– Já volto.

Demi assentiu e Joe foi até Rebecca. Ele sorriu para Lilly, então se virou para a prima.

– Tem um minuto? Lá fora?

Rebecca semicerrou os olhos, mas largou a colher e o acompanhou até a porta. Uma vez do lado de fora, ela estremeceu com o frio, mas não voltou para pegar o casaco.

– Você pode me agradecer agora – disse ela. – E mais tarde. Aceito presentes também. Quanto mais caro, melhor.

– Nós não estamos namorando.

– Eu leio o NNY, bobão – disse ela.

– Você lê o que escrevo no NNY. E evidentemente você não tem falado com sua amiga desde ontem antes do almoço.

– Verdade. Vamos sair assim que guardarmos a comida no freezer.

Quando Joe enfiou as mãos nos bolsos, Rebecca fez uma careta. O desgraçado deveria ter lhe oferecido seu casaco. – Por que armou um encontro com ela? – questionou Joe.

– Por que você me trouxe aqui para morrer congelada?

Ele revirou os olhos dramaticamente e tirou o casaco com um suspiro que teria deixado uma diva da Broadway orgulhosa. Ela se enrolou no casaco pesado de lã, o forro tão luxuoso quanto a alfaiataria.

– Porque ela faz o seu tipo.

– Não, não faz. Ela não faz meu tipo nem vagamente. Você ao menos me conhece?

– Sim. Conheço. E esses esqueletos com quem você sai todas as noites são uma piada. Imagino que você possa contar em uma das mãos só as mulheres das quais gosta de fato.

– Não faz diferença se gosto delas.

– Por acaso você é um dos poucos parentes que consigo tolerar – disse ela –, mas Joe, é hora de você seguir a vida. Você está com o quê, 32 anos?

– Trinta e um.

– Já passou dos 30. Você passou sua vida mandando seus pais e nossa família para o quinto dos infernos. Já deu. Você precisa começar a viver para você, e parar de dar poder a eles.

Ele a encarou com seus olhos imensos, boquiaberto, como se o frio não fosse capaz de penetrar seu choque.

– Do que diabos você está falando, Rebecca?

– Do Naked New York. Seu blog. Não dos outros, não dos blogs legítimos. Do seu. Daquele que aborda todos os aspectos da sua vida. Se é que se pode chamar de vida.

– Estou ganhando milhões.

– Você já tinha milhões. Olha, tenho que voltar para a cozinha. Faça o que quiser, mas pense nisso, tá? Como seria se suas noites fossem repletas de coisas que você realmente gostaria de fazer? Se você saísse com as pessoas de quem realmente gostasse?

– Você é maluca. A fundação Winslow tem deixado você muito frustrada.

– Sim, bem, talvez. Ah, e lembre-se. Não estrague as coisas com a Demi, Joe. Ela pode querer fazer parte do alto escalão da moda, mas é uma pessoa muito decente. Ela não está acostumada a pessoas como nós. Pise com cuidado.

– Já falei. Nós não estamos namorando.

– Do jeito que vocês dois se olham? Dou três dias. Quatro, no máximo.

– Está muito frio aqui e eu não estou te ouvindo mais. – Ele passou por ela e Rebecca o seguiu, se perguntando como um homem tão inteligente poderia ser tão idiota.

DEMI DESVIOU o olhar da página do blog quando Joe apareceu. Ele parecia com frio, e ela notou por que Rebecca o seguiu. Ele dera seu casaco à prima. Outra coisa legal, mas não no mesmo patamar do que ela estava lendo. – Você mexeu pouco no texto – disse Demi quando ele estava na frente dela.

– Não precisei. Você escreveu um belo texto.

– Uau. – Ela folheou as páginas, parou em sua foto em Nova York. – Por que você não disse nada sobre meu cabelo?

– O quê?

– É completamente… errado.

– Você está linda – disse ele. – Foi difícil escolher qual foto usar. Todas eram ótimas.

Está bem, aquilo foi legal, legal demais.

A desconfiança de Demi deve ter ficado óbvia porque Joe lhe tocou no braço, fazendo-a encará-lo.

– Eu estou dizendo a verdade.

Ela ficou calada durante um tempinho. Não que tivesse muito a dizer, mas pareceu meio inconsistente em sua cabeça, impróprio para o que eram agora. Havia dúvidas, também, sobre o porquê de ele ter aparecido ali, o que aquilo significava, e por que diabos ela continuava a imaginar estar vendo desejo no olhar dele quando o desejo não era algo possível?

– Minha comida está no forno – disse ela.

– Claro – falou ele, olhando para ela, esperando por…?

– Depois de embalarmos tudo e guardarmos no freezer, nós vamos sair para beber.

– Nós?

– Rebecca, Lilly e eu. Quer?

– Quanta gente. Talvez pudéssemos reduzir um pouco?

Era tentador; é claro que Demi queria ficar a sós com ele, mas o fato de ele mesmo ter sugerido isso confundiu ainda mais a cabeça dela.

– A gente não tem se visto muito, por causa das festas, compromissos e tudo o mais. Entendo se você preferir não se juntar a nós.

– Não. Eu gostaria de ir, sim.

Bem, droga. Por que ele iria querer sair para beber com elas? Rebecca! Essa podia ser o motivo.

– Ótimo. Você pode nos ajudar a guardar a comida. Assim vai mais rápido.

– Formidável – disse ele, e Demi sorriu diante do tom impostado dele. – Agora que você sabe que eu preparo um chá maravilhoso, você vai me querer na cozinha para sempre.

A risada de Demi falhou, e um rubor atingiu o rosto de Joe. Ela acelerou, tanto que precisou olhar por cima do ombro para dizer:

– Não vou matar você. Prometo.

Ele parou completamente.

– Vou acreditar na sua palavra – disse ele, assumindo um tom bem-humorado, mas falhando. Demi se obrigou a se concentrar no preparo da comida, e não na confusão em sua cabeça.

O BAR não era muito vistoso. A maioria usava roupas de trabalho como Demi e suas amigas. Ela estava disposta a apostar que todos estavam se perguntando o que diabos Joe Winslow estava fazendo em um bar abaixo de chique em uma noite de quarta-feira.

E se Demi interpretara Joe corretamente, ele não parecia se importar. Chamou o táxi, insistiu em pagar pela viagem curta e, em seguida, as guiou bar adentro como se aquela fosse a próxima parada no passeio pela Semana de Moda.

As mulheres no lugar o devoravam com uma fome indisfarçável, o tipo de olhar que fariam até uma estátua corar, e Demi só conseguia pensar: era eu quem estava com ele na outra noite. Nua. Ela precisava parar com isso agora.

Eles pegaram uma baia nos fundos, e Joe sentou ao lado dela, grudadinho nela do joelho ao ombro. Teria sido mais fácil se ele não tivesse tirado o casaco, mas não, agora era só ele em sua camisa branca apertada, calças pretas retas e o corpo delicioso, contraindo os músculos nas coxas e bíceps…

– Demi?

– Hum?

– Bebida?

– Ah. Sim. Tequila Sunrise, por favor. Bastante Grenadine.

– Entendi. – Joe se levantou e ela imediatamente sentiu-se mais relaxada. Caramba, será que o sujeito não conhecia o conceito de espaço pessoal?

Lilly se inclinou sobre a mesa no momento em que Joe se afastou. A música não era ensurdecedora, mas mesmo assim ela precisou gritar.

– Ai, meu Deus, Demi, por que você não me contou que estava namorando Joe Winslow?

– Não estou. Não de fato.

Lilly lançou um olhar penetrante a Rebecca antes de se voltar para Demi.

– Não entendi.

– A coisa toda é um truque do blog para angariar leitores. Não é grande coisa.

– Tá bom – disse Lilly lentamente. – Diga isso a alguém que não tenha visto o jeito como ele olha para você.

– Sério, Lilly? Pare com isso. Será que um cara como ele sinceramente iria querer namorar uma garota como eu?

– Sim!

– Por que não?

Demi piscou para suas amigas. Claro que diriam isso. Qual era a alternativa? “Sim, você está certa, ele poderia conseguir algo muito melhor”?

– De qualquer forma – disse Demi, ignorando a ambas. – Está sendo ótimo. Eu tenho que ir a festas da Semana de Moda, e ele está publicando alguns textos meus, o que vai chamar a atenção dos meus chefes. É um passo enorme na escada para o sucesso. Todo mundo sai ganhando, principalmente eu.

Rebecca pigarreou, e Demi, relutantemente, encontrou o olhar da outra. Ela não parecia satisfeita.

– Por que Joe está aqui esta noite? – Ela quis saber.

– Coisas do blog.

– Como os textos são mandados via internet, não teria sido mais fácil para ele, sei lá, enviar esse material para você por e-mail?

Demi abriu a boca, mas não tinha resposta.

EXCETO POR todo aquele discurso estilo psicologia para leigos de Rebecca em frente à igreja, Joe teve uma noite ótima. Ele poderia ter passado sem a parte de guardar comida na cozinha, se bem que não, isso também tinha sido muito legal. Rebecca estava certa sobre uma coisa: ele quase nunca fazia coisas normais. Nada de compras na mercearia, nada de compras em geral, não quando era fácil ter tudo entregue em casa ou organizado por sua faxineira.

Joe ia a exibições ou estreias, e não ao cinema. Ele recebia antecipadamente cópias de livros e filmes, convites para festas de Nova York a Milão, Paris, Londres, Dubai, Los Angeles. Ele não ficava fazendo vias sacras em bares, e esta noite era a primeira vez em muito tempo que bebia com pessoas reais em um bar normal em vez de estar com celebridades atrás de uma corda de veludo.

Ele gostou de tudo, desde a música na juke-box até as gargalhadas da multidão na happy hour depois do trabalho. Joe fora lembrado dos velhos tempos, quando ele estava apenas começando seu primeiro blog. A única parte chata da noite foi seu final. Colocando Demi em um táxi. Sozinha. E, em seguida, chamando um táxi para si.

Joe se consolou com o fato de que o dia seguinte seria repleto de ocupações para sua mais nova colaboradora no blog. Depois de oito horas no emprego, ela ficaria na correria com a estilista, daí haveria a festa de uma exposição de arte, a qual não começaria antes das dez. Demi teria sorte se conseguisse garantir umas quatro horas de sono, e como ele era um desgraçado egoísta, manteve-a acordada até tarde esta noite.

Não queria que a noite acabasse. Mas acabar mesmo assim, tal como todas as coisas, e em uma semana, mais ou menos, seu período com Demi seria mera lembrança. Se tudo desse certo, ele a usaria na nova coluna, e eles se esbarrariam em festas e lançamentos. Mas Joe superaria. Era isso que fazia. Era melhor assim.

Pensou novamente nas palavras de Rebecca. O fato de seus familiares sentirem-se atingidos pelo que ele fazia para viver era problema deles, não de Joe. Ele avisara a eles durante todos os anos do colegial que não ia seguir o protocolo. A ideia de ele entrar para a política era ridícula. Eles já deveriam saber disso, sem precisar dele para lhes esfregar isso na cara. Mas só viam o que queriam ver.

A resposta dele poderia parecer radical para qualquer um fora da família. Ser preso em um escândalo público em seu último ano na faculdade foi, ele admitia, um passo dramático. Mas Rebecca, dentre todas as pessoas, deveria ter compreendido. Ele fizera o necessário. Seu sucesso fora uma questão de habilidade, planejamento, e sim, sorte. Por que ele iria querer continuar a prosperar? Teria sido bom estar com Demi. Não dava para negar a atração. Mas ela não se encaixava. A não ser como um chamariz temporário, uma barra lateral, uma emenda no blog.

E na cama dele. Meu bom Cristo, ela se encaixava muito bem lá.

Joe olhou pela janela quando o táxi parou diante de seu prédio. A vida era feita de escolhas. Algumas mais difíceis do que outras. Diabo, ela era só uma garota. Ele tinha aprendido há muito tempo a não romantizar o sexo.

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xoxo

Escolha - Capitulo 8 MARATONA (2/5)

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– EU GOSTARIA de torná-la parte de uma série de posts – disse Joe, como se estivesse pedindo a Demi uma batata frita. – Alguns dos quais apresentariam a Semana de Moda, mas não todos. Hoje à noite há uma festa no Chelsea Piers. Eu gostaria que você fosse comigo.

Demi não engasgou, mas tossiu. Principalmente para esconder seu espanto e poder se controlar.

– O que você quer dizer com série?

– A quarta-feira está livre, mas na quinta-feira haverá mais uma festa da Semana de Moda. Na sexta-feira, há uma estreia de um filme. Você já ouviu falar sobre o filme Cortesã?

Se ela tinha ouvido falar sobre o Cortesã? Era um filme famosíssimo de um grande estúdio estrelado por atores top de linha, e ela queria assisti-lo desde que vira a primeira propaganda a respeito. Por dentro, ela saltitava a alguns metros do chão. Para Joe, ela balançou a cabeça e bebeu um gole de chá. – Sim, já ouvi.

– Já tenho um compromisso no sábado à noite, mas não sei muito bem qual é. Ou uma festa de um perfume ou um lançamento de livro. De qualquer forma, precisarei de você, provisoriamente, no sábado à noite. Talvez mais, talvez menos. Vai depender da quantidade de acessos, da atividade nos comentários. Está bom assim para você?

Era inútil para Demi fingir que ia pensar no assunto. Joe perceberia que ela estava blefando.

– Tempo não seria um problema. Eu daria um jeito de fazer isso funcionar, mesmo que Rebecca precise preparar meus pratos congelados.

– Essa coisa dos pratos congelados é o que Rebecca faz na Igreja de St. Mark, certo?

– Foi assim que a gente se conheceu.

– Ela vai adorar isso. – Agora, ele nem sequer tentava esconder o sorriso. Era o outro Joe, o primo encantador da amiga, o homem bobo que a tinha beijado.

Demi pigarreou antes de encontrar o olhar dele.

– O que você quer dizer?

– Ela vai pensar que essa coisa das séries foi ideia dela. Vai ficar insuportável.

– Ah. – Demi pegou mais uma batatinha enquanto lutava contra outra pontada. Aquilo era ainda mais tolo. Pensou por um segundo que Rebecca iria adorar o fato de ela e Joe continuarem se encontrando. Ridículo.

Mas, ora bolas, isso era melhor do que namorar. Sexo, para alguém como Joe, durava uma noite. Ele não conseguia nem mesmo fingir interesse na manhã seguinte. No longo prazo, ele estava oferecendo mais do que os sonhos insignificantes de Demi tinham delineado. Havia acabado de encurtar o plano de cinco anos dela pela metade.

– Ainda quero poder escrever lá.

– O blog é meu, Demi. As pessoas o leem para saber minha opinião.

– Não quero ficar parecendo uma boboca.

– É assim que você enxerga os textos de lá?

– Não.

– Podemos inventar alguma coisa, algo com o qual ambos concordemos. Se a série funcionar, será porque as pessoas gostam do jeito como relato meu mundo através dos seus olhos. É do meu interesse fazer de você alguém identificável e simpática.

– Tudo bem. Mas acho que haveria ainda mais identificação se eu escrevesse alguns textos.

Ele fez uma careta.

– Não sei. Meu nome é um chamariz. Desculpe.

– Com certeza. Mas isso não significa que não pode haver uma barra lateral. Você já fez isso.

Joe usou o guardanapo, limpando a maionese do queixo por acaso. Depois de uma longa pausa, ele assentiu.

– Tá, mas sem garantias. Vou ler o que você escreve, ver como funciona. E meu advogado vai elaborar alguma coisa para nos resguardar pelo restante da semana, mas eu gostaria de postar no blog o que escrevi hoje. O que você me diz?

Ela sabia que estava assumindo um risco, sem assinar na linha pontilhada, mas que diabos. Rebecca teria algo a dizer caso Joe puxasse o tapete dela, mas mais do que isso, os instintos de Demi lhe diziam para aceitar. Ela estendeu a mão.

O arrepio que percorreu o corpo dela quando eles apertaram as mãos foi estritamente em reação à oportunidade. Nada mais.

JOE CAMINHOU com Demi até o escritório dela, um gigante entre gigantes, que bloqueava a maior parte do céu. Estava ventando bastante na rua e ele colocou o braço em volta dos ombros de Demi, puxando-a para si. Ele gostava de mantê-la aquecida, gostava da maneira como o cabelo dela fazia cócegas em seu queixo.

– Joe? – Ela teve que levantar a voz enquanto caminhavam, então ele inclinou a cabeça um pouco.

– Sim?

– Presumindo que não teremos problema com a papelada e que terminaremos fazendo as… coisas. Nós seremos o quê um do outro nas festas?

– Hum, ah. Vai ser como ontem à noite. Juntos, mas não um casal. Se alguém perguntar, direi que somos amigos. Todos vão presumir que é algo mais, mas isso não é uma coisa ruim. As pessoas gostam de tentar decifrar as coisas, fazer conexões, mesmo sendo falsas. E fofoca paga as contas.

Ela não respondeu, mas desacelerou o passo.

– Demi?

Ela parou. Joe virou-se para encará-la, insatisfeito com o olhar confuso que ela exibia.

– Qual é o problema?

– Nada. Está tudo bem. Quero ter certeza de que nos entendemos. Se fizermos isso, será um acordo profissional.

– Isso. – O jeito que ela o encarava não fazia sentido. Estava lhe entregando um presente ali. Claro, ele ia ganhar dinheiro com aquele acordo, mas ela também ganharia. Ele devia ter perguntado o que ela queria. Pelo seu amor pela moda e seu trabalho na agência de publicidade, não era difícil descobrir sua área de interesse, mas foi negligente da parte dele não ser específico.

– Minha vida profissional e pessoal são separadas – disse ela.

Joe demorou um segundo além do necessário para entender. Não porque ela estava sendo irracional. Pelo contrário, estava sendo inteligente. No entanto, ele não estava acostumado a isso. As mulheres que Joe levava para casa não pensavam no sexo como algo extraprofissional. Nem ele, não desde que começara o blog, pelo amor de Deus. Demi não era desse mundo.

Esse era o ponto.

Na verdade, ele era romântico. Não apenas com o sexo, mas também com estilistas, Nova York, glamour, beleza, tudo isso.

Pena que esse romantismo não iria durar.

Estranhamente, Joe não se apressou em concordar com ela. Já havia presumido que eles voltariam a dormir juntos. Ele queria. Se a série de textos desse resultado positivo demorasse uma semana, talvez duas, seria um bom tempo sem sexo com Demi. Principalmente considerando que ela estaria com ele quase todas as noites. No carro, na casa dele.

– Joe?

– Verdade. Não, você está certa. Estritamente profissional. Bem pensado.

O sorriso de Demi não foi muito vitorioso. Na verdade, Joe ficou tentado a segui-la quando se afastou, só para vê-la melhor.

– Estou muito atrasada – disse ela, quase berrando contra o vento agora. – Envie-me o contrato e eu vou dar uma olhada nele. E os detalhes sobre esta noite. E obrigada – disse ela, mas a palavra foi levada ao vento quando Demi foi engolida por dezenas de pessoas entrando pela mesma portaria.

Ele a perdeu antes mesmo de ela entrar. Sabia que a BBDA ocupava quatro andares do arranha-céu, podia imaginar onde os redatores ficavam. Mas ele não iria atrás dela. Joe a veria hoje. Pegou o celular enquanto seguia para a esquina para chamar um táxi. Precisava atualizar o blog, ligar para seu advogado, fazer acordos com estilistas.

Depois de informar o endereço ao taxista, ele olhou para o prédio de Demi. Sem mais noites como a última. Bem, droga.

ENTRE OS fotógrafos que a cegavam e os envios constantes de mensagens nas redes sociais Demi mal teve tempo de aproveitar a festa. Teria sido irresistível, apesar de tudo. O evento era muito menor. Talvez 500 pessoas?

Organizado por uma dos estilistas mais procuradas pelas celebridades, estava sendo realizado no The Lighthouse no Chelsea Piers. O enorme salão tinha sido decorado com temática asiática esplendorosa, com lanternas flutuantes, jardins zen artisticamente posicionados entre mesas e dragões de papel tão grandes e belamente ornamentados que eram verdadeiras obras de arte. Até mesmo a vista do Rio Hudson dos janelões estava de tirar o fôlego, e isso antes de Demi conhecer uma infinidade alucinante de ídolos da moda e de celebridades de primeiro, segundo e terceiro escalão.

A boa e a má notícia era que Joe tinha sido ainda mais extraordinário, coisa que Demi não tinha pensado possível. Ele não saíra do lado dela, o que foi maravilhoso, mas o que a deixou ainda mais encantada foi o modo como ele a apresentou às pessoas do meio dele. E Deus, elas realmente eram do meio dele. Ele fazia soar como se Demi fosse o a melhor novidade do momento a entrar em cena desde Lady Gaga. Era totalmente exagerado, mas, e isto entrava diretamente na categoria das notícias ruins, era exclusivamente para divulgar a série de textos do blog. Ela não era importante; a imagem era importante, a mística, a coisa de ser hipster por associação juntamente com a “inocência” dela para torná-la uma mini celebridade.

O plano estava funcionando, porque, depois do jantar, que foi de matar de tão gostoso, e Deus, como ela queria poder levar uma marmitinha para casa, Demi fora abordada sem parar.

Não que ela não tivesse percebido antes que as celebridades nunca eram o que pareciam. Podiam até aparentar ser amigas de longa data, tal como em sua série de TV favorita ou em tantos filmes que ela conhecia. Mas quem elas eram de fato não tinha qualquer relação com a pessoa que Demi tinha criado em sua cabeça.

Ela sabia disso, e tudo bem. As pessoas sempre tiveram ícones. Isso as fazia se sentirem conectadas a algo. Redes sociais, sites de fofoca, incluindo o Naked New York, programas de TV e revistas sobre celebridades. Eram como os bebedouros das empresas, o centro das cidades invisíveis onde os vizinhos se reuniam.

Sendo uma das pessoas escolhidas, conhecendo todos que ela já havia conhecido, fossem famosos ou aspirantes à fama, já criava uma história sobre quem ela era, sobre o que Joe via nela, sobre o que iria acontecer, de um jeito tão bizarro que Demi nunca poderia ter previsto. Não houve preparo para aquele tipo de exposição, e a peculiaridade da situação estava mexendo com a noção de tempo dela. Num minuto, Demi estava se recuperando dos muitos olhares centrados em si, e no outro estava de pé ao lado de uma janela, olhando para a água, sem ter ideia de como havia chegado lá.

Joe tinha ajudado bastante. Sua mão no braço dela era uma força estabilizadora, sua presença, suas apresentações deixavam tudo mais fácil. Mas ele estava acostumado, e ela ainda estava sem ar.

Não ajudava o fato de, todas as vezes, o toque dele lhe causar um arrepio de excitação que a deixava sem fôlego novamente. Era ridículo. Demi já deveria ter superado isso. Saber que aquilo era um acordo profissional e nada mais não ajudava em nada. A desconexão entre seu cérebro e seu desejo a preocupava. Era como se ela tivesse recebido choques elétricos durante a noite inteira, com cada um deles sendo sucedido por uma pontada de arrependimento.

– Você está pronta? – perguntou Joe, a boca tão perto da orelha dela que dava para Demi sentir seu calor. Deve ter sido um grito, porque a música estava altíssima ao redor, mas pareceu mais uma carícia.

Ela assentiu e ele passou o braço em volta dos ombros dela enquanto saíam do interior cheio de vapor rumo ao ar livre gelado. Mais uma vez, havia limusines o suficiente para preencher um campo de futebol, mas também havia dezenas de manobristas correndo para encontrar os motoristas no que parecia ser um hospício subterrâneo.

– O que achou? – quis saber Joe. – Melhor? Pior?

– Você me diz – respondeu ela. – Era você quem estava me observando como um falcão.

Joe estudou a expressão dela, e Demi se deu conta novamente do quanto gostava do rosto dele. Foi realmente um absurdo como os olhos dele eram descomunais. Mas não eram grandes como nos mangás, ou mesmo perturbadoramente fora de proporção. No entanto, certamente eram a primeira coisa que as pessoas notavam nele.

Ele ergueu uma sobrancelha dramática.

– Você gostou mais desta festa, apesar de ter que trabalhar. Em parte, acho que foi porque você sabia o que esperar, e também porque você precisa conversar com alguns de seus estilistas favoritos.

Demi sorriu, embora a conclusão dele não tivesse sido muito precisa.

– Você está certíssimo. Isso é um problema?

– O que você quer dizer?

– Estou perdendo a inocência gradativamente. Na sexta-feira à noite, serei uma cínica calculista.

Joe riu, e lá estavam as ruguinhas no rosto dele, que tornaram impossível para Demi não tocar o casaco dele, não tocar nele. Por que as ruguinhas? Não era como se fossem sulcos profundos ou qualquer coisa perto disso. Ele estava na casa dos 30 e poucos anos, e as linhazinhas de expressão não o faziam parecer mais velho. Talvez fosse porque rugas de qualquer espécie, mesmo as linhas de expressão, fossem praticamente proibidas naquela cultura glamorosa obcecada pela juventude. Ela odiaria se Joe matasse suas ruguinhas com botox. Elas o faziam parecer genuíno, o faziam parecer atingível. Parecer era a palavra-chave.

– Acredite – disse ele. – Ao mesmo tempo que você está muito mais experiente e não deve ser subestimada, você não está nem perto de se saturar. Essa coisa de conhecer pessoas famosas não vai ser mais tão incrível dentro de uma ou duas semanas, mas a emoção ainda vai estar lá.

– Ótimo. – Demi queria que a emoção continuasse, pelo menos no que dizia respeito às celebridades. Só queria menos emoções quando se tratava de Joe. – Desculpe por estar fazendo você ir embora tão cedo. Imagino que gosta de ser o último a sair desse tipo de festa.

– De jeito nenhum. Eu só fico até ter material suficiente, então vou para casa. Preciso me levantar cedo para atualizar o blog a tempo.

– Então os fotógrafos enviam suas fotos antes de caírem na noite?

– Isso. Eu junto tudo na parte da manhã. Também pego os textos dos freelancers e as fofoquinhas. Junto o material, envio para minha assistente Naomi e ela edita até estar no ar por volta das 9h. Se você tiver alguma coisa sobre esta noite para eu linkar na barra lateral, vou precisar do material por volta das 9h.

Ela fez que sim com a cabeça, sem desejar que Joe notasse que sua menção a este aspecto do trabalho a apavorava. Seria um texto original dela. Não uma ilusão, não um chamariz. Afundaria ou nadaria com base no talento. Deus, ela precisava sentar-se.

– Você está bem?

– Tem uma coisa que eu queria perguntar. A estilista? O que estamos buscando aqui? – Demi olhou para o próprio vestido, costurado na época da faculdade. Era um verde lindo, um tom mais claro do que os olhos dela, sem mangas e com um bolerinho roxo e verde. Teria sido perfeito para uma noite na cidade com Rebecca e suas amigas, mas aqui ela era superada em quilômetros de distância. Imaginava que o ponto era esse: fazê-la aparentar ser a caipira que era.

– Ah. Você vai gostar desta parte. O máximo de glamour. De sapatos a vestidos. A coisa toda, com maquiagem, cabelo, corpos pintados, tudo.

– Não entendi – disse ela, sem saber se Joe estava brincando com ela ou não.

– As barras laterais? Devem ser sobre a experiência toda. Sobre a sensação de se tornar uma princesa, de ir ao baile. De ser arrancada da obscuridade e mirar nas estrelas.

Demi piscou para ele enquanto as pessoas se empurravam para chegar a seus carros. Viu um sorriso desabrochar no rosto dele. Desejou como nunca poder se jogar nos braços dele e apertá-lo por causa de mais uma surpresa incrível. – E você vai poder ficar com tudo que usar.

Ela o empurrou. Tarefa meio difícil.

– Não brinque comigo, Winslow. Se você está mentindo, vou acabar com você.

– Não estou mentindo. É tudo seu.

Os flashes ficaram pipocando durante a noite inteira, mas de repente eles estavam em cima de Demi, cegando-a. Mas só por uns instantes, porém, pois em seguida eles se foram, como uma nuvem de gafanhotos com câmeras. Eles tinham cumprido sua função, impedindo-a de pular nos braços de Joe.

Era a tortura mais diabólica. Dar a ela todos os seus sonhos com uma das mãos e lhe roubar o desejo com a outra. Enxague. Repita.

– Então estamos conversados que você vai se encontrar com Sveta na quinta-feira, certo? Que você vai estar de folga amanhã…?

– Sim – confirmou ela, se acalmando.

– Você devia dormir. Vai precisar.

– Amanhã é a noite de preparo dos pratos congelados. Rebecca vai estar lá.

– Se eu bem a conheço, ela vai manter você acordada até mais tarde do que eu. A mulher é uma escrava dos detalhes.

Antes de ir dormir, Demi iria rever as fotos que havia tirado. Aquelas nas quais ela precisava se concentrar, não em Joe.

Não no perfume dele, e não na vibração da voz dele, não no desejo de estar perto dele.

Assim que a série de textos estivesse finalizada, Demi já teria superado sua paixão tola. Ah, com certeza, já teria.

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Dei uma atrasadinha, mas aqui estou eu.
Continuem comentando.
xoxo