13.8.15

Dois Pequenos Milagres - Capitulo 6

— É melhor eu fazer algumas ligações — disse ele, quan­do eles se sentaram para tomar café, na manhã seguinte. — Avisar Andréa.

— E quanto à sua mãe? Ele fez uma careta.

— Ah, sim. Ela também.

— Vou pegar o seu telefone — disse ela, e correu para o andar de cima para apanhar o celular na segurança de seu quarto. Ela voltou para baixo e o entregou a ele. — Você parece ter algumas chamadas perdidas que escapa­ram ao radar de Andréa — disse ela.

— Preciso lidar com algumas dessas chamadas.

— Não duvido. Você tem uma hora — disse ela. E, pe­gando os bebês no colo, levou-os para cima, deu-lhes ba­nho e os vestiu.

— Vocês vão conhecer a sua avó hoje — ela lhes con­tou com um sorriso. — Ela vai adorar vocês. — Mas Linda poderia não ser muito simpática com a nora, Demi perce­beu com tristeza, e seu sorriso desapareceu. Um ano in­teiro, mais de um ano na verdade, sem contato com Joe enquanto ele procurava por ela não poderia ter causado uma boa impressão em sua sogra, e Demi lamentava por isso. Mas como ela poderia ter mantido contato sem infor­mar Joe de seu paradeiro? Não poderia, e aquilo a fez sentir outra pontada de culpa. Joe podia não ser o mais razoável dos maridos, mas nunca escondera nada dela, e Demi estava começando a perceber o quanto agira errado ao não contar a ele que estava grávida.

— Oh, Ava, não! — gritou ela, estendendo o braço e segurando a menininha antes que ela caísse para trás. — Quando foi que você aprendeu a ficar de pé? Você vai ser uma pestinha, não é? — Ava sorriu e deu uma gargalhada, e, segurando a beirada do cobertor nas mãozinhas gordas, levantou-se novamente. — Você é uma encrenqueira — disse Demi, e percebeu que Libby estava engatinhando pela porta e indo em direção ao topo das escadas. — Libby! — chamou ela, e correu atrás da filha, encontrando Joe sentado no primeiro degrau com a menina nos braços, es­fregando o nariz no dela e rindo.

— Acho que você precisa de um portãozinho — ele disse, e ela assentiu.

— Preciso, sim. Eu comprei um, mas não encaixa. Não é largo o suficiente. Eu estava mesmo pensando em pro­curar outro.

— Vou me encarregar disso — disse ele, e, levantando-se, ergueu Libby no ar, jogando um beijo para a filha.

Céus, Joe jogando beijos? Talvez houvesse esperança, afinal de contas...

Andréa era incrível. Rápida, eficiente, velha demais para Joe, caso Demi estivesse preocupada, e quase tão temida quanto um peixe carnívoro; mas ela só precisou olhar uma vez para os dois, naquela manhã, e sorriu.

— Ótimo — disse ela para Joe. — Você finalmente está parecendo um ser humano. Você precisava mesmo de umas férias.

— Estou ficando louco — disse Joe com sinceridade, mas Andréa simplesmente sorriu para ele, e voltou sua atenção para Demi.

— E então, ele está se comportando? Demi revirou os olhos.

— Mais ou menos. Ele continua a tentar roubar o celu­lar de mim.

— Bem, era de se esperar. Ele joga duro, e você deveria saber disso.

— Mas não se trata de um jogo.

— Não, e eu acho que ele sabe disso. Se não soubes­se, não estaria aqui com você. Agora, se eu puder to­má-lo emprestado por algum tempo, há várias coisas urgentes que ele precisa resolver, e então você poderá tê-lo de volta.

— Você pode vir — ele disse a Demi. — Ver com seus próprios olhos o que estamos fazendo.

— Ficaremos bem — disse ela, decidindo confiar nele, e acomodou-se em uma cadeira em seu antigo escritório, com os bebês a seus pés, olhando ao redor.

Era estranho como tudo lhe parecia distante, e ao mes­mo tempo familiar. Nada mudara realmente, apenas ela; e ela mudara a ponto de não ser mais reconhecida, aparen­temente, se o olhar sem expressão do homem que colocou a cabeça para dentro da porta significava alguma coisa.

— Oh, desculpe-me. Eu estava procurando por Andréa — disse ele.

Ela sorriu para o rosto familiar.

— Olá, Stephen — disse Demi, e ele olhou com mais atenção para ela.

— Demi?

— Eu mesma — disse ela com leveza, imaginando se deveria se sentir lisonjeada ou não, e Stephen deu uma risada alta.

— Ora, como você está? Eu pensei... — ele se inter­rompeu, claramente incerto do que dizer, e pela primeira vez ela se perguntou sobre o impacto público que seu de­saparecimento tivera na vida de Joe.

— Andei ocupada — disse ela secamente, e ele olhou para as meninas, e deu outra risada.

— Estou vendo. É incrível. Eu não fazia ideia.

Joe também não, mas ela não iria discutir sua vida pessoal com um dos funcionários dele, mesmo que ele ti­vesse sido seu amigo um dia, e fosse um dos braços direi­tos de Joe que ele mais confiava.

mais confiável.

— Então, como está Yashimoto?

— Espantado. Você sabia que Joe está vendendo a empresa de volta para ele?

Foi a vez dela olhar para Stephen com atenção.

— Está?

— Sim, aparentemente. Eu não pude acreditar. Ele lu­tou tanto para virar o jogo, e agora parece estar se entre­gando. Ainda assim, a empresa está em situação muito melhor agora, e Yashimoto fará um trabalho bem melhor com os conselhos de Joe. E ele está feliz. Mas é Joe que eu não consigo entender. Pensei que você estivesse sabendo de tudo, já que estava tão envolvida com o acor­do inicial.

Ela sacudiu a cabeça.

— Joe e eu não conversamos mais sobre negócios.

— Não. E uma boa ideia, não levar o trabalho para casa. Isso não se parece com Joe, mas filhos mudam as pessoas. Você sabia que tivemos um menininho?

Ela sorriu.

— Não, não sabia. Parabéns, e certifique-se de passar bastante tempo com ele.

— Farei isso. Por enquanto, é melhor eu ir para a reunião.

— Eu acho que eles estão no escritório de Joe.

— Obrigado. Foi ótimo vê-la de novo.

Ele fechou a porta e a deixou lá, pensando na bomba que ele jogara em seu colo. Quando Joe decidira vender a empresa de Yashimoto de volta para ele? No dia ante­rior? Hoje? Ou muito antes, e ela não soubera simples­mente porque eles não discutiam negócios, como dissera a Stephen?

Ela não fazia ideia, mas estava confusa da mesma forma. Aquilo significaria que ele a estava levando a sério e diminuindo seus compromissos de trabalho? Ou era algo que ele já estava planejando? Ela precisava saber, porque a diferença era crucial. Não queria começar a pensar que ele estava fazendo mudanças importantes em sua vida, quando ele poderia estar apenas seguindo um de seus in­críveis palpites.

Oh, bem. Ela descobriria mais tarde. Enquanto isso, ti­nha coisas mais importantes com que se preocupar, por­que dentro de pouco tempo estaria reencontrando sua sogra, e estava se sentindo curiosamente apreensiva.

Ela não precisava ter se preocupado.

Linda Gallagher olhou apenas uma vez para ela e as meninas, levou a mão à boca e irrompeu em lágrimas.

— Oh, Demi, minha menina querida... minha querida, minha querida! — E, sem dar mais uma palavra, tomou-a nos braços e abraçou-a com força.

Demi tentou controlar as próprias lágrimas e a abraçou de volta, e, quando as duas se separaram, Linda começou a soltar exclamações de surpresa para os bebês, e choran­do nos braços de Joe, apertando-o contra si até que Demi pensou que as costelas dele fossem se partir.

— Entrem, entrem, todos vocês. Richard? Olhe, é o Joe, e ele trouxe a Demi, e...

E ela começou a chorar de novo.

— Demi?

Richard, o novo companheiro de Linda, a observou por um momento, deu um sorriso tímido e beijou-lhe o rosto.

— É bom vê-la de novo. E você tem estado ocupada.

— Um pouco — disse ela. — Sinto muito por jogar uma bomba dessas no colo de vocês. Parece ser um dia cheio delas.

Porque Joe decidira vender a empresa para Yashimoto naquela manhã, pelo que ela descobrira. Então, ele estava mesmo levando Demi a sério, e tomando medidas extre­mas para mudar as coisas.

Joe estava tomando conta dos bebês, carregando um sob cada braço e entrando em casa ao lado da mãe, que paparicava as meninas, dava gritinhos de alegria e enxu­gava as lágrimas; e Richard a ajudou a tirar as cadeirinhas do carro e levá-las para dentro, para que as crianças pu­dessem se sentar e almoçar.

— Estou tão feliz por você estar aqui — disse Richard baixinho, ao fechar a porta. — Linda sentiu muitas sauda­des suas, e Joe tem sido... bem, difícil nem sequer come­ça a descrever.

Ela sacudiu a cabeça.

— Eu lamento muito.

— Não, não se preocupe comigo. Mas Linda provavel­mente merece uma explicação, quando você estiver pron­ta para lhe dar uma, e... bem, isso é entre você e Joe, re­almente. Mas é ótimo ver você de novo, e ver Joe feliz. E um pai. Isso não é algo que pensássemos ver um dia.

— Não, nenhum de nós imaginava isso.

Bem, não enquanto ele estivesse casado com ela, pelo menos, com os problemas médicos dela. Mas, aparente­mente, milagres aconteciam, e ela tivera dois. Três, se o fato de Joe estar mudando sua vida fosse algo em que confiar. Ela ainda não tinha certeza, mas só o tempo pode­ria dizer.

Enquanto isso, Demi seguiu Richard até a sala de estar e encontrou Linda no chão, encostada no sofá, e Libby su­bindo no colo da avó, enquanto Ava ia direto para a mesa de canto, sobre a qual havia um vaso de plantas.

— Não, acho que não — disse ela, desvencilhando os dedinhos da filha das pernas de cerejeira da mesa. — Você precisa ser amarrada, mocinha. Venha dizer "oi" para a sua avó. — E, virando Ava para o outro lado, ela a conduziu pela sala segurando-lhe os dedinhos, enquanto a menina tentava valentemente se manter em pé sobre as perninhas.

— Ela vai andar logo — disse Linda, sacudindo a cabeça. — Como Joe. Ele era um pesadelo. E esta aqui não vai ficar muito atrás — disse ela, segurando Libby, que estava tentando subir em seus ombros e chegar ao sofá. — Como você consegue dar conta das duas?

Demi deu uma risada cansada.

— Oh, eu não tenho ideia. Está ficando pior a cada dia. Eu pensei, quando estávamos na UTI depois da minha ce­sariana, que não poderia ficar pior...

— Você fez uma cesariana?

A expressão no rosto de Joe era de choque, e Demi percebeu que não lhe contara nada a respeito do nasci­mento das gêmeas.

— Sim — disse ela suavemente. — Eu precisei. As aderências estavam muito sérias e eles não me deixaram nem pensar em ter um parto normal, especialmente com 33 semanas.

O rosto dele estava cinzento. Ela não imaginava por que a ideia de uma cesariana o chocara tanto, mas ele obvia­mente estava perturbado, e ela percebeu que fizera mais uma coisa errada. Oh, Joe.

— Ei, está tudo bem, estamos todas bem — ela garan­tiu a ele, mas Joe continuava pálido.

— Você deveria ter me telefonado — disse Linda, gen­tilmente. — Eu teria ido ajudá-la.

— E contado a Joe?

O rosto de Linda se contorceu, e ela engoliu em seco, mordendo os lábios.

— Desculpe-me. Não é da minha conta.

— Não é você — disse Demi rapidamente. — Nós está­vamos tendo problemas...

— Você estava tendo problemas. Eu estava focado de­mais na minha própria vida para perceber — disse ele, sua sinceridade e honestidade surpreendendo-a mais uma vez.

— Demi comentou comigo ontem que eu sou apenas 11 anos mais novo do que papai, quando ele morreu. E eu não quero ter o mesmo destino.

— Ótimo — disse Linda, seus olhos se enchendo de lágrimas. — Ele era um homem bom, o seu pai, mas não sabia quando parar, e eu andava tão preocupada com você. Talvez isso tenha sido exatamente o que você precisava para cair em si.

— Bem, esperemos que sim — disse Demi baixinho.

— Linda, eu gostaria de aquecer um pouco de comida para elas. Elas vão começar a gritar daqui a pouco; tive­ram uma manhã bem longa.

— Claro que sim. Venha até a cozinha; os homens po­dem cuidar das crianças por um minuto.

E, Demi pensou realisticamente, aquilo daria a Linda a chance de ralhar com ela pelo que fizera. Mas ela não o fez, pelo menos não logo; Linda simplesmente colocou a chaleira no fogo, a comida dos bebês no micro-ondas, e então se virou e deu um abraço em Demi.

— Oh, eu senti sua falta — disse ela, soltando-a. — Eu compreendo que você não podia entrar em contato comigo, se achava que não devia falar com Joe, mas eu senti saudades.

— Eu senti sua falta também — disse ela com um nó na garganta. — Teria sido bom ter uma mãe, quando elas es­tavam no hospital. Eu tinha Jane, mas ela acabara de ter seu próprio bebê, e era difícil para ela.

O rosto de Linda tinha uma expressão perturbada e, de­pois de um momento, ela disse:

— Você se importa se eu lhe perguntar algo? Por que você não disse a ele que estava grávida? Foi por causa de Debbie?

— Debbie? — perguntou Demi, uma sensação ruim de presságio invadindo-a. — Quem é Debbie?

O rosto de Linda era uma mistura de emoções confli­tantes.

— Ele não lhe contou? — disse ela por fim, e Demi sa­cudiu a cabeça.

— Eu não sei nada a respeito de alguém chamada Debbie. Quem é ela? Não me diga que ele está tendo um caso...

— Não! Pelo amor de Deus, não, nada desse tipo. Oh, meu Deus... — Ela cobriu a boca com a mão e olhou para Demi, e então sacudiu a cabeça e agitou as mãos como se estivesse procurando uma saída. — Humm... eu sinto muito, eu não devia ter dito nada. Não sou eu quem deve lhe contar essa história. Você vai ter que perguntar ao Joe. Oh, meu bom Deus, eu não posso acreditar que ele não lhe contou.

— Isso tem algo a ver com o fato de Joe não querer filhos? — perguntou Demi, observando Linda cuidadosa­mente, mas ela obviamente achava que já tinha dito o bas­tante, e sacudiu a cabeça, erguendo a mão.

— Não, eu sinto muito, querida. Não posso lhe contar nada. Você vai ter que conversar com Joe, mas... vá com cuidado. Naquela época... não, você vai ter que perguntar a ele, não posso lhe dizer mais nada. — Ela se endireitou, com os potes de comida dos bebês nas mãos, e deu um sorriso. — Venha, vamos alimentar as meninas. Eu nunca pensei que seria avó, e não pretendo perder nem mais um minuto.

Eles tiveram uma tarde maravilhosa. Depois do almo­ço, que Linda preparara depois de uma visita rápida ao supermercado mais cedo, quando Joe telefonara para di­zer que lhe fariam uma visita, eles levaram os bebês para um passeio em Hampstead Heath.

— Deveríamos ter trazido Murphy — disse ele, mas Demi apenas riu.

— Eu acho que não. Ele está melhor em casa. Ele seria um pesadelo com toda essa lama, e a casa da sua mãe não é exatamente projetada para cachorros, com todo aquele carpete branco.

— Tudo bem — disse Joe com um sorrisinho. — Tal­vez você esteja certa.

— Claro que eu estou certa. Eu estou... — Ela se inter­rompeu, e ele a observou, pensativo.

— Sempre certa? — arriscou ele, e Demi sacudiu a ca­beça, e as lágrimas que ela evitara derramar antes daquela semana encheram seus olhos pela centésima vez.

— Eu sinto muito.

— Ei, pare com isso. Estamos tendo um dia feliz. — Ele estendeu a mão e, depois de um instante, ela entrela­çou os dedos com os dele e os apertou, mas havia uma parte dela que se perguntava se ele estava fazendo um tea­tro, por causa de sua mãe. Mas ele não continuou seguran­do a mão dela por muito tempo, porque o carrinho ficou preso e ele teve que ir ajudar Richard a erguê-lo para subir os degraus; então, sua mãe lhe tomou o braço e começou a conversar com ele, e Júlia ficou sozinha com Richard e os bebês.

— Ele está com uma aparência melhor.

— Tinha que estar. Joe estava acabado, quando che­gou na segunda-feira. Eu fiquei chocada. Eu já havia con­vencido a mim mesma de que ele não se importava...

— Não se importava? — Richard deu uma risada abafa­da. — Oh, não. Ele se importava. Eu nunca vi um homem tão torturado. Ele ficou arrasado quando não conseguiu encontrá-la. Eu realmente acho que ele imaginou que você estivesse morta.

Oh, Deus. Ela fechou os olhos por um segundo e trope­çou, mas Richard segurou-lhe o braço, apertando-o afetuo­samente.

— Vocês vão resolver tudo juntos — ele disse, confortando-a. — Dê tempo ao tempo.

Ela estabelecera um prazo de duas semanas, e quase um terço daquele prazo já se passara. Era quinta-feira agora, e ele aparecera na segunda. Então, restavam mais dez dias. Aquilo seria suficiente para convencê-la de que ele muda­ra? Ou para ele saber na que estava se envolvendo?

Ela não sabia. Mas Yashimoto estaria fora da jogada muito em breve, e aquilo significava que não haveria mais viagens a Tóquio. Se Joe pudesse fazer o mesmo com as operações de Nova York, e só tivesse seus negócios no Reino Unido para administrar, talvez tudo ficasse bem.

Enquanto isso, contudo, ela precisava encontrar um meio de perguntar a ele sobre Debbie. E, até que Demi sou­besse exatamente quem ela era e o que significava para ele, não fazia idéia do que o futuro lhes reservava. Ela só sabia que, se Linda estivesse certa, Debbie era extrema­mente importante.

Se ao menos ela soubesse o que exatamente estava per­guntando a ele...

— Pobrezinho do Murphs. Nós o abandonamos, não é, amigo?

Joe cocou as orelhas do cachorro e lhe acariciou o flanco, e Murphy se aconchegou a ele, batendo a cauda no chão entusiasticamente.

— Acho que isso quer dizer "estou com fome" — disse Demi, ironicamente, e ele riu e apanhou a tigela do animal.

— Você está com fome? — perguntou ele, e Murphy bateu a cauda com mais força. — Devemos alimentá-lo?

— Humm, sim. Mas, se você puder levá-lo para uma caminhada primeiro, seria ótimo. Eu vou dar banho nas meninas.

— Tem certeza de que não precisa de ajuda?

— Estou bem. Vá, vá logo.

Joe levou o cão para uma caminhada pelo rio, apenas por alguns minutos, porque estava escurecendo rápido, e, quando eles chegaram em casa, as luzes já estavam acesas e Demi estava na cozinha, preparando o jantar das meninas.

— Chá? — ofereceu ele, sabendo agora que ela gostava de tomar chá quando alimentava as gêmeas, e Demi sorriu em agradecimento, sentando-se no sofá com os bebês. Ele colocou o chá, misturado com água fria, ao alcance dela e se sentou com sua xícara do outro lado da mesa, observando-a alimentar as filhas enquanto Murphy perseguia sua tigela pelo chão de cerâmica.

— Eu deveria comprar uma tigela com fundo de borra­cha — disse ela tristemente, e Joe riu, bebericando o chá, olhando para a mulher e as filhas e pensando que sua vida jamais fora mais complexa e desafiadora... ou mais plena. Famílias felizes, ele pensou, e imaginou o quanto aquilo iria durar. Ele fizera o seu melhor; Yashimoto fizera o acordo do século. Mas Joe não se importava, e aquilo na verdade o fazia se sentir bem, porque o homem trabalhara muito duro para reerguer sua velha empresa e, com um pouco de ajuda, ele ficaria bem agora. Só que aquela era apenas a ponta do iceberg, obviamente. Havia uma infini­dade de outros investimentos que ainda precisavam de sua intervenção, e, com a atenção desviada, quem poderia di­zer o que aconteceria com eles? Ele precisara agir rápido naquela manhã, porque não estivera presente em uma determinada negociação, e Stephen estava ocupado em Tóquio, e por algum motivo Andréa não o chamara. Oh, bem, tudo estava solucionado agora, mas ele não tinha certeza de poder fingir por muito mais tempo que seu im­pério era capaz de manter-se sozinho.

— Você está com fome? — perguntou ele a Demi, observando enquanto ela tirava Libby do peito e colo­cava a menina no sofá.

— Morrendo de fome. Por quê? O que você tem em mente?

Ele riu.

— Nada com alho. Eu estava pensando que poderia ir até o pub buscar algo para comermos.

— Oh, isso seria ótimo. Eles fazem um prato maravi­lhoso com muçarela e manjericão, um tipo de torta. E fa­buloso. E pudim de caramelo açucarado.

— Isso parece horrível — disse ele com uma gargalhada.

— Não, é maravilhoso. Você precisa experimentar.

— Posso experimentar um pouco do seu.

— Se sobrar alguma coisa.

— Oh, vai sobrar — disse ele, tomando Ava dos braços dela e fazendo uma careta ao ouvir o arroto ensurdecedor. — Eu a convencerei.

— Você pode tentar — disse ela, mas seus olhos brilha­vam, e ele sentiu uma súbita pontada de desejo. Droga. Depois da conversa da noite anterior, não havia a menor possibilidade de Joe se aproximar dela, e era melhor não pensar no assunto.

— Vamos, sua pestinha. Vamos levar você lá para cima e trocar suas fraldas e colocá-la na cama, para que sua mãe e seu pai possam ter uma conversa civilizada.

— É melhor deixá-las aqui, então — disse Demi, às suas costas, e ele se virou e viu o sorriso provocante dela, sentindo o desejo percorrer seu corpo novamente, como uma lança em brasa. Aquela seria uma longa, longa noite.

Ela acendeu o fogo enquanto ele ia ao pub buscar o jan­tar deles, e, quando Joe chegou em casa, a lenha já estava ardendo alegremente por detrás da grade, e a mesa esta­va posta.

— Estou sentindo cheiro de lenha queimada? — per­guntou ele, entrando na cozinha, e ela assentiu.

— Eu acendi a lareira. Pensei que poderíamos jogar outra partida de xadrez, ou assistir a alguns DVDs dos bebês.

Ela viu o sorriso dele desaparecer.

— Tudo bem. Seria ótimo — disse ele, fazendo uma tentativa corajosa de sorrir de novo, mas ela não se deixou enganar. Da primeira vez em que assistiram a um DVD dos bebês, ele se aborrecera. Mas por quê?

— Joe?

— Você gostaria de uma pequena taça de vinho? Ainda há um pouco do branco, e eu comprei uma garrafa de vi­nho rose.

— Oh. Rose seria ótimo. Obrigada — disse ela, deixan­do o assunto morrer por enquanto.

*****

Ela o estava observando.

Ele a ignorou, entregando-lhe os pratos com as tampas, e abrindo o vinho com habilidade. Enquanto ele servia duas taças e se sentava de frente para ela, Demi se ocupou com a comida. E, ao sentir o cheiro do pudim de caramelo que vinha de cima do fogão, Joe imaginou que tivesse escapado. Por enquanto. Mas aqueles DVDs eram um campo minado, que o faziam sentir-se incomodado, e ele não tinha certeza de conseguir assistir a um vídeo filmado na UTI, e ver o quão perto elas chegaram de...

— Uau, isso estava delicioso. Obrigada, Joe.

Ele afastou os pensamentos sombrios e sorriu para ela. Demi estava adorável naquela noite, os cabelos soltos sobre os ombros e uma expressão quente e gentil nos olhos. Se ao menos...

Não, ainda não. Ela lhe pedira um tempo. Mas, se Joe conseguisse se aproximar dela, talvez pudesse conven­cê-la a voltar para ele.

— Foi um prazer — disse ele. — Agora, que tal você me deixar arrasá-la no xadrez de novo?

— Tudo bem. Se você não se importar em ser derrota­do. Eu me lembrei de como a sua mente funciona.

— Mais rápido do que a sua — comentou Joe, e ela estirou a língua para ele, levantando-se.

— Vamos ver, não é?

— Vamos. Melhor de três?

— Você acha que será preciso?

— Não. Duas vezes serão mais que suficientes para que você saia correndo e chorando com o rabinho entre as pernas — retrucou ele, seguindo-a, com o cachorro em seus calcanhares.

Aquilo foi um erro, porque ele estava quase vencendo pela segunda vez quando Murphy se levantou e contornou a mesa; aproveitando sua chance, Demi chamou por ele alegremente, e a cauda de Murphy bateu no tabuleiro, der­rubando todas as peças.

— Oh, mas que pena, vamos ter que começar de novo — disse ela com um sorriso malicioso, mas ele não estava convencido.

— Eu me lembro da posição de cada uma das peças — disse ele, começando a recolocar as peças no tabuleiro.

— O seu cavaleiro não estava ali.

— Estava, sim.

— Não. Estava aqui. O seu bispo estava ali.

— Besteira. Como o meu bispo teria chegado ali?

— Vamos enfrentar os fatos, Demi. Eu acabei com você — disse ele, recostando-se no sofá e apoiando um torno­zelo no outro joelho. — Admita.

— Nunca.

— Eu nunca imaginei que você fosse uma trapaceira — disse ele suavemente, e ela parou e olhou para ele.

— Eu não estava trapaceando! Eu só estava brincando, Joe. Tentando deixar a atmosfera mais leve.

Ele engoliu em seco.

— O que há de errado com a atmosfera?

— Eu não sei, mas, desde que mencionei os DVDs, você está agindo de forma estranha. Por que você não quer vê-los?

— Eu quero.

— Tudo bem, vamos lá! — disse ela baixinho. — Este aqui é o próximo; os bebês no hospital. Nós estáva­mos começando a vê-lo na outra noite, quando você se afastou.

— Coloque o DVD, Demi — disse ele com a voz rouca, a mão esquerda segurando com força a base da taça de vinho. E, antes que ele soubesse o que ela iria fazer, Demi já colocara o DVD no aparelho e tomara a mão esquerda de Joe nas suas, aconchegando-se contra seu ombro.

— Tudo bem, aquela é Ava. Ela era mais forte. Ela nas­ceu primeiro e, embora fosse menor, era mais desenvolvi­da, e agora está mais pesada que Libby. E ali está Libby. Ela precisou de mais ajuda para respirar, e houve alguns dias em que... em que pensamos que iríamos perdê-la — disse ela, um pouco trêmula, e Joe percebeu que ela es­tava lutando tanto quanto ele. Seus dedos apertaram os dele, e ele apertou os dela de volta; tanto para confortá-la quanto para acalmar a si mesmo.

— Elas parecem tão pequenas.

— Elas eram mesmo. Gêmeos são sempre menores. E elas não tiveram muito espaço. E, levando isso em consi­deração, elas se desenvolveram bem, mas, quando elas nasceram, o meu útero estava no limite e corria o risco de uma ruptura. Eu precisei de duas operações para melhorar as aderências, mas finalmente não havia mais nenhum espaço e os médicos tiveram que fazer o parto. Mas eu aguentei o máximo que pude.

— Parece horrível — disse ele, franzindo a testa ao pensar em tudo aquilo. Deveria ter sido tão doloroso. Por que diabos ela não lhe avisara? Embora só Deus soubesse como ele poderia tê-la ajudado, assombrado por seus pró­prios fantasmas.

— E foi. Eu estava tão assustada. Eu quase telefonei para você. Se você tivesse telefonado antes, eu o teria fei­to, mas meu celular foi roubado e tudo o que eu podia fa­zer era aguentar, minuto a minuto, até a crise passar.

— Eu teria vindo — disse ele com a voz rouca.

— Teria?

Ela se virou e olhou para ele, e ele olhou nos olhos gen­tis e curiosos dela por um breve instante, antes de se virar.

— Sim — disse Joe com convicção. — Teria. — Ainda que aquilo o matasse.

— Joe, eu posso lhe perguntar uma coisa?

Ele olhou novamente para ela, e seu coração começou a martelar.

— Claro.

— Quem é Debbie?

O vinho derramou por sobre a beirada da taça, molhan­do a mão de Joe e escorrendo pelo braço do sofá. Ele se levantou de um pulo e apanhou um pano, tentando dimi­nuir o estrago, até que ela o retirou de suas mãos e o pu­xou gentilmente de volta para o sofá, a seu lado.

— Joe, esqueça isso. Fale comigo. Quem é ela? Por que a sua mãe ficou tão surpresa com o fato de eu nunca ter ouvido falar dela? E o que ela fez a você, que o tornou tão fechado?

Ele olhou para ela, com a respiração entrecortada; fe­chou a boca e engoliu em seco. Ele conseguiria fazer aquilo. Ele devia aquilo a Demi, e deveria ter contado a ela anos antes.

— Ela era minha namorada — disse ele, sua voz soando estranha a seus próprios ouvidos. Tensa e incerta. Como seus sentimentos. — Ela estava grávida, mas teve pré-eclâmpsia. Eles fizeram uma cesariana de emergência, mas ela teve uma parada cardíaca ao entrar na sala de ci­rurgia, e morreu. O bebê também. Meu filho. Ele viveu por quinze horas e sete minutos. Ela estava com 26 semanas de gravidez. Foi por isso que o DVD... — Joe cerrou os den­tes, reprimindo as lágrimas, tentando se controlar. Durante um longo tempo, ela não disse uma palavra, mas então respirou fundo e perguntou:

— Ele tinha um nome? O seu bebê?

— Si... — Ele engoliu em seco e tentou novamente. — Sim. Eu o chamei de Michael. Era o nome do meu pai.

— Oh, Joe. — As lágrimas encheram os olhos dela e lhe escorreram pelas faces, e ela cobriu a boca com a mão, tentando abafar o soluço. Ele não conseguia olhar para ela. Não podia vê-la chorando por Debbie e seu filhinho, ou por ele, tão cheio de dor que não era capaz de assistir a um vídeo de suas próprias filhas sem reviver as curtas, desesperadas horas de vida de seu bebê. Ele não conse­guia olhar para o vídeo, ou para Demi, porque, se o fizesse, se deixasse que as emoções voltassem à superfície, elas o dilacerariam como antes, e ele não aguentaria.

— Oh, Joe — murmurou ela novamente, e ele sentiu os dedos dela enxugando as lágrimas que lhe escorriam silenciosamente pelas faces. — Está tudo bem, Joe, eu estou aqui — disse ela gentilmente, e ele percebeu que, longe de se sentir dilacerado, ele estava aliviado por desa­bafar, porque Demi estava a seu lado, e ele não estava mais sozinho. E, por fim, com um suspiro baixo, ele se acon­chegou nos braços dela, e, pela primeira vez em 15 anos, deixou as lágrimas correrem livremente.

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Mil desculpas pela demora, acabei ficando sem internet e atolada nos trabalhos do colégio. Mas agora já estou de volta :D
Boa leitura.
xoxo

6.8.15

Dois Pequenos Milagres - Capitulo 5

Ele já estava na autoestrada M25 quando recuperou o bom-senso; tomou o primeiro retorno, parou em um esta­cionamento, desligou o motor e esmurrou o volante.

Que diabos ele estava fazendo? Ela só o estava provocando! Era só isso. Nada drástico. Ela sempre o provocara, mas ele se esquecera disso. Joe se esquece­ra de muitas coisas. De como era a sensação de abraçá-la, de tocá-la, de se perder nela... Ele engoliu em seco. Não, não podia se permitir pensar naquilo. Era cedo de­mais; ele não tinha a menor chance de chegar tão perto dela. Mas ele a queria; queria tocá-la, abraçá-la, sentir seu calor.

Deus, ele se sentia sozinho. Sozinho demais, sem ela. E não podia fazer aquilo, não podia jogar a toalha, desistir de suas lindas filhinhas e fugir, só porque ela o provocara por causa do maldito alho!

Com um suspiro trêmulo, ele ligou o motor, saiu do estacionamento, tomou o retorno e a rodovia A12, e vol­tou para a mulher.

*****

Ele não iria voltar.

Ela se sentara perto da janela, encolhida contra o vidro, com um cobertor sobre os ombros, e esperou até o pub fechar, mas ainda não havia sinal dele.

E se o carro tivesse quebrado? E se ele tivesse saído da estrada, numa crise de fúria? Ele parecia tão zangado ulti­mamente, mais zangado do que ela jamais o vira. Seria culpa de Demi? Deveria ser. O que mais poderia ser?

E, agora, ele estava Deus sabia onde, talvez deitado de bruços em uma vala cheia de água.

As luzes iluminaram o jardim, cegando-a com o brilho dos faróis, enquanto ele parava o carro e desligava o mo­tor. A luz de segurança se acendeu quando ele saiu do carro, e então ela ouviu a porta bater e o barulho dos pés dele sobre o cascalho, enquanto ele se aproximava da porta da frente.

Ele parou e olhou para ela através da janela, com uma expressão sombria; e, em seguida, sacudindo a cabeça le­vemente, caminhou até a entrada, e ela o ouviu abrir e fechar a porta. E então, ele estava ali, enchendo a soleira da porta com sua presença dominadora e silenciosa.

— Eu sinto muito — disse ele.

— Não, eu é que sinto muito — respondeu ela, levantando-se e indo até ele, sentindo os pés um pouco dolori­dos depois de ter se sentado sobre eles durante tanto tempo, esperando por Joe. — Eu não devia ter sido tão cruel com você.

— Está tudo bem. Não é sua culpa. Eu exagerei.

— Não, não exagerou. Você estava fazendo o melhor que podia. Sei que você não sabe cozinhar, e deveria ter ajudado mais, e não simplesmente atirado você às feras e esperado que você se virasse, só porque me criticou.

— Eu não a critiquei. Ou, pelo menos, não tive a inten­ção. Eu só estava perguntando. Desculpe se fiz parecer uma crítica.

Tantos pedidos de desculpas. De Joe? Ela sacudiu a cabeça lentamente, e foi até o fogão.

— Esqueça. Você já comeu?

— Não, eu estava indo para casa. Cheguei à M25 antes de recuperar o bom-senso.

Ela franziu a testa.

— São mais de 80 quilômetros!

— Eu sei. Eu estava... bem, vamos apenas dizer que levei algum tempo para me acalmar. O que é ridículo. En­tão, respondendo a sua pergunta, não, não comi nada, e sim, por favor, se a comida não estiver arruinada. Não que eu ache que você poderia arruiná-la. Eu já cuidei disso.

— A comida está boa — disse ela, determinada a comer tudo mesmo que se engasgasse. — Bem, eu acredito que ia lhe servir uma taça de vinho?

Ele deu uma risada abafada.

— Parece bom.

— Tinto ou branco? Ele sorriu.

— Vou terminar o tinto. Vai neutralizar o alho — disse ele com ironia, e ela sorriu de volta, entregando-lhe a gar­rafa e uma taça.

Demi voltou-se para a paella, tirando a tampa da panela e piscando com o cheiro forte, mas serviu os pratos sem dar uma palavra, e eles se sentaram à mesa e comeram em meio a um silêncio civilizado e levemente tenso, até que Joe finalmente afastou o prato e olhou nos olhos dela.

— O tempero está um pouco forte para o meu gosto — disse ele, e ela abaixou o garfo e sorriu para ele.

— Eu não estou com muita fome — mentiu Demi. — Devo fazer um pouco de chá?

— Não precisa. Estou satisfeito com o vinho, mas po­deria comer algumas torradas, ou algo assim.

— Queijo e biscoitos? Ou talvez eu possa pegar uma torta de maçã na geladeira e colocá-la no forno?

— Parece ótimo. Podemos comer mais tarde, depois do queijo e dos biscoitos.

Ela riu e tirou a mesa, colocando o queijo e os biscoitos à frente de Joe e a torta de maçã no forno, e então apa­nhou uma taça e se serviu de um pouco de vinho.

— Desculpe-me, eu não imaginei que você quisesse um pouco.

— Está tudo bem. Eu não bebo vinho normalmente, porque ainda estou amamentando as meninas, mas hoje... bem, pensei que poderia beber um pouco com você.

— Fique à vontade.

Demi girou o líquido na taça e olhou-o nos olhos por sobre ela.

— Então... por que você ficou tão zangado? — perguntou ela, hesitante. — Não foi só por causa do alho.

— Eu não sei, é... Bem, é este lugar, na verdade.

— O chalé? Mas ele é adorável!

— Oh, tenho certeza de que é, mas simplesmente odeio a ideia dele. Você é minha mulher, Demi. Eu não quero ver você morando na casa de outro homem.

Ela se recostou na cadeira, olhando para ele por sobre a mesa e se perguntando se havia sido rápida demais ao perdoar.

— Não é uma sorte, então, que isso não tenha nada a ver com você? Porque nós somos felizes aqui.

— E você não poderia ser feliz na sua própria casa?

— Você quer dizer a sua própria casa? Ele suspirou.

— Não, a sua. Eu poderia comprar uma para você no seu nome. Deus sabe que eu lhe devo isso. Pelo menos, se você não voltar para mim. Estamos falando sobre onde as minhas filhas vão morar, pelo amor de Deus.

— Eu posso dar um lar para as suas filhas.

— Sim, na casa de outro homem, vivendo da generosi­dade dele! Eu não gosto disso, Demi. Não gosto nada dis­so. Não gosto de ficar aqui, não gosto da ideia de ele po­der voltar a qualquer momento e de ter o direito de ficar aqui. Quero ter privacidade enquanto resolvemos tudo, e me sinto o tempo todo como se estivesse esperando pelo golpe final.

— Bem, talvez seja bom que você queira comprar uma casa para mim, porque ele vai voltar dentro de um mês e eu estarei sem teto.

— Você poderia voltar para mim.

— O quê? Para o apartamento? Eu acho que não.

— Poderíamos comprar uma casa em Londres. Em Hampstead, ou algo assim. Barnes, ou Richmond...

— Ou eu poderia ficar aqui em Suffolk, perto dos meus amigos.

— Você tem amigos aqui?

Ele parecia tão chocado e surpreso que ela quase riu.

— Ora, é claro que tenho. Jane e Peter, para começar, e também conheci algumas pessoas no hospital, e atra­vés do grupo de apoio das gêmeas, e da rede "Fralda de Verdade"...

— O quê?

— A rede "Fralda de Verdade". E há um grupo de en­contro para jovens mães que eu frequento no vilarejo. Nós nos reunimos para tomar café.

— Então... você quer ficar aqui?

— Sim. Pelo menos até sabermos o que vai acontecer conosco. Não tenho nenhuma infraestrutura em Londres, Joe. Eu ficaria muito sozinha lá, e sei que, se formos para Londres, você vai estar longe o tempo todo, indo para o escritório por um minuto ou algo assim, e antes que eu me dê conta você estará em Nova York, ou Tóquio, ou Sydney.

— Tudo bem. Então, você quer uma casa aqui. Há alguma à venda?

— Eu não faço ideia, Joe. Não andei procurando.

— E o que você planejava fazer?

— Não tenho certeza. — Voltar para ele? Não. Deveria contar a ele? Telefonar para ele? Estava quase certa de que sim, porque não fazê-lo seria muito injusto.

— Como está a torta?

— Oh. Eu não sei.

Ela abriu o forno e retirou a torta; estava crocante e dourada, e a fragrância das maçãs enchia a cozinha.

— Está pronta.

— Então vamos comer, e nos preocuparemos com a casa mais tarde.

Inferno. Ela queria ficar ali, no meio de Suffolk? Com seus amigos, amigos que ele não conhecia, amigos de quem mal ouvira falar porque ela os via tão raramente; ele não conseguira encontrá-la através deles porque não tinha ideia de como entrar em contato com eles. Ela se encontrara com Jane na cidade algumas vezes, e passara um fim de semana ou dois com ela, quando eles moravam em Berkshire. Ele se lembrava vagamente de ouvi-la dizer que eles estavam se mudando, mas não para onde; só que era para mais longe. E, como ele não tinha a menor idéia de qual era o sobreno­me de Jane, aquilo não o ajudara muito.

E eles eram mais importantes para Demi do que ele?

Não. Pare. Ela não tinha dito aquilo. Ela só dissera que, até que soubessem o que aconteceria a eles, precisava fi­car perto de sua infraestrutura.

Bem, ele podia entender aquilo. Ele se sentia totalmen­te perdido sem a sua, também.

— Está boa?

Ele franziu a testa. O quê?

— A torta. Está boa?

A torta. Ele olhou para seu prato, quase vazio, e perce­beu que mal sentira o gosto da torta. Joe piscou, surpreso.

— Sim, está boa. Está ótima. Obrigado.

— Você estava a quilômetros de distância.

— Na verdade, não. Eu estava bem aqui, pensando no que vai acontecer agora — confessou ele.

— Agora?

— A respeito da casa, quero dizer.

— Oh. Humm... certo. Bem, acho que eu preciso come­çar a procurar.

Do que diabos ela achava que ele estava falando? A menos que...

Não. Ela não estava interessada, e deixara aquilo bem claro. Ela estava enviando sinais de "mantenha distância" praticamente desde que ele chegara. Além daquele beijo roubado que ela interrompera, Demi mal o tocara, exceto por acidente.

Então, por que ela estava corando?

— Poderíamos procurar na Internet — disse ela, e ele sentiu seu radar voltar à vida.

— Internet?

— Sim, temos acesso aqui em casa, no escritório. O computador pertence a John, mas ele não se importa que eu o use. Ele me envia e-mails frequentemente, e eu res­pondo, contando como as coisas estão indo e enviando-lhe fotos de Murphy e dos bebês.

Os bebês? Ela enviava a John fotos das filhas dele?

E, então, Joe parou de pensar em John Blake e come­çou a pensar no que importava.

Havia um computador na casa. Um computador com acesso à Internet. O que significava que ele poderia che­car sua caixa de e-mails; manter contato com seus colegas e funcionários, e ficar de olho no que estava acontecendo nos mercados financeiros.

— Boa idéia — disse ele. — Vamos colocar a louça na máquina e depois daremos uma olhada.

— Claro.

Ela foi até a pia e jogou os restos da refeição deles no triturador; em seguida, virou-se para apanhar o resto das coisas, bem no momento em que ele se aproximava dela, segurando outro prato e uma panela.

— Opa! — disse ele com um sorrisinho, tirando a pa­nela do caminho antes que Demi esbarrasse nela; e, em vez disso, ela colidiu com Joe, seus seios macios e cheios apertados contra ele, e seus olhos se ergueram para encon­trar os dele, arregalados e espantados.

— Cuidado — murmurou ele, colocando a panela na pia e o prato de volta na mesa. E, subitamente relutante em perder aquele contato suave, ele passou os braços ao redor dela e a puxou contra si.

— Joe? — sussurrou ela, num fiapo de voz. Mas foi o suficiente; aquela palavra suave lhe dissera tudo o que ele precisava saber sobre o quanto ela o queria, e, sem esperar convite, ele abaixou a cabeça, fechou os olhos e colou os lábios nos dela.

Ela não podia deixá-lo fazer aquilo. Não podia... Ela deveria estar cheirando a alho. Como ele poderia perceber, depois da paella, Demi não sabia, mas pensou novamente na briga dos dois, no comentário dela sobre aquilo não importar porque ninguém iria beijá-la.

Mas Joe a estava beijando como se sua vida dependesse disso; e, de repente, ela não se importou mais com o alho, e simplesmente retribuiu o beijo, sentindo a força dos bra­ços dele ao seu redor, as coxas poderosas que esmagavam as dela, o som pesado da respiração dele contra seu rosto enquanto ele lhe explorava a boca, os lábios e a língua famintos, o corpo rígido contra o dela, encurralando-a contra a pia para que ela não tivesse dúvidas sobre sua reação.

Uma de suas mãos deslizou por sob o suéter dela e lhe acariciou um dos seios, e ela gemeu baixinho. O som se perdeu na boca de Joe, que emitiu um som parecido, pro­fundo e primitivo, que parecia arrancado de seu corpo.

— Demi, eu preciso de você — sussurrou ele, sua boca contornando o maxilar dela, seus dentes mordiscando-a, não o suficiente para machucar, mas o suficiente para dei­xá-la ainda mais excitada. E, então, ele correu a língua sobre a pequena marca, suavemente, sentindo-lhe o gosto, e seus lábios deslizaram pela pele de Demi, deixando um rastro de fogo.

Ele a estava deixando louca, e sabia disso, mas ela não podia impedi-lo. Não havia como impedi-lo, porque ela precisava daquilo tanto quanto ele. Ou foi o que Demi pensou, até que a pequenina voz que gritava do fundo de seu subconsciente conseguiu chegar à superfície, e ela percebeu que um dos bebês estava chorando. De repen­te, Joe foi chutado do topo de sua lista, e ela sentiu a paixão se desvanecer, substituída pelo fato fundamental da maternidade.

— Joe — disse ela, virando a cabeça, e ele grunhiu e deitou a cabeça no ombro dela.

— Não, Demi. Não me peça para parar, pelo amor de Deus, por favor.

— As crianças — disse ela, e ele ficou parado por um segundo, e então suspirou pesadamente e se afastou, o rosto vermelho, os olhos escuros com a excitação, en­quanto olhava para ela. Seu peito arfava e, depois de um longo momento, ele fechou os olhos e se virou.

— Vá cuidar delas — disse ele. — Eu espero por você. Mas Demi sabia que aquilo seria a coisa mais estúpida que poderia fazer.

— Não, Joe. Não acho que seja uma boa ideia. Eu vou dormir.

— Não!

— Sim, sinto muito. Não é... Nós não estamos prontos ainda.

Joe deu uma risada rude e, sem esperar que ele disses­se alguma coisa, ela correu para as escadas.

— Ela não está pronta, Murphy. O que você acha disso? Murphy bateu com a cauda no chão e olhou para Joe com adoração, e ele suspirou, coçando as orelhas do ca­chorro gentilmente.

— Pois é, eu concordo. Que droga, não é? O que eu ou fazer se ela nunca estiver pronta, Murphs? Isso está me deixando louco. Toda esta maldita situação está me deixando louco. — Ele se serviu de uma última taça de vinho com o que restava na garrafa e olhou para o líquido, melancólico. Se ao menos ele tivesse alguma coisa para fazer! Algo melhor do que levar sua mulher para a cama e fazer amor com ela até que ela estivesse tão desesperada que não conseguisse falar, respirar, nem fazer nada a não ser gritar e soluçar de desejo.

Ele soltou um palavrão, curto e direto, e, apanhando o controle remoto da TV, ligou o aparelho e começou a pu­lar de canal em canal. Não havia nada para ver. Até mes­mo o noticiário era entediante, e nada o interessava; ele já estava a ponto de atirar o controle pela janela, quando Demi apareceu na soleira da porta, vestindo seu pijama de gatinhos e aquele roupão fofinho, os pés descalços aparecen­do sob a barra, parecendo vulnerável e irresistível. Ele queria beijar cada um daqueles dedos, tomá-los na boca e chupá-los lentamente.

— Posso entrar? É seguro? Ele suspirou roucamente.

— Sim, é seguro. Desculpe-me. É que já faz muito tempo.

Ela assentiu e entrou, sentando-se na beirada da cadeira na frente dele, olhando para ele com um ar cansado.

— Eu não estou sendo muito justa com você, estou? Você não está acostumado com tudo isso, e deve estar morrendo de tédio.

— E estou. Não há nada para eu fazer, a não ser pensar em você e imaginar o que eu posso ter feito de tão errado.

— Nada. Você não fez nada. E esse foi o problema, Joe. Você continuou a agir como sempre, e me levou jun­to. E não era o suficiente.

— Era o suficiente para mim. Eu adorava trabalhar com você, e observar sua incrível habilidade em organizar e resolver as coisas. As coisas simplesmente funcionavam quando você estava por perto, e era impressionante. Eu não percebi o que tinha, até que perdi você.

Ela suspirou suavemente, e se enrolou mais ainda em seu roupão.

— Joe, se quisermos fazer isso funcionar, você vai ter que diminuir as horas no escritório; você sabe disso, não sabe? E diminuir o tempo que passa viajando, principal­mente. Isso não combina com a vida em família.

— A minha família conseguiu se virar. Meu pai traba­lhava tanto quanto eu.

— E ele morreu de um ataque cardíaco aos 49 anos! Só onze anos mais velho do que você é agora, Joe. Suas fi­lhas ainda estariam na escola, e eu seria viúva aos 44 anos. Isso não é algo para esperar da vida.

Deus. Onze anos? Só isso? Não era de admirar que sua mãe tivesse encontrado outro homem para compartilhar a vida. Ela só tinha 62 anos agora, e estava em plena forma, era ativa e cheia de vida. E seu marido morrera jovem demais; Joe conseguia ver aquilo, agora. Seria aquilo que o esperava? Ele iria ao trabalho um dia, e encontraria não sua assistente esperando por ele, mas a Morte e seu cajado, como acontecera com seu pai?

— Estou fazendo tudo isso por nós — disse ele, mas suas palavras soavam vazias, e ela sacudiu a cabeça.

— Não. Você está fazendo tudo isso por você mesmo, porque pode, porque é movido pela necessidade do suces­so, mas há outras formas de sucesso, Joe; outras coisas que você pode fazer.

— Como?

Ela deu de ombros.

— Como ser um bom pai para as suas filhas. Aprovei­tar a vida. Ter um hobby, praticar algum esporte. Não ape­nas correr. Isso é só um exercício solitário que você faz para parar de pensar.

Inferno. Havia alguma coisa que aquela mulher não percebesse?

— Que tal uma partida de xadrez? — perguntou Demi, aparentemente do nada, e ele olhou para ela, rindo baixinho.

— Sim, por que não? Embora eu provavelmente vá des­truir você.

— Duvido. Andei praticando. Eu sempre jogo com John, quando ele está aqui.

John, de novo.

— Ele ganha de você?

— Nem sempre.

Bem, ali estava um desafio. Joe relaxou e sorriu.

— Traga o tabuleiro — disse ele, suavemente.

Oh, céus. Ela reconhecia aquele olhar. Bem, pelo me­nos não seria entediante. Ela foi buscar as peças de xadrez e abriu a mesinha de centro, revelando um tabuleiro; em seguida, apanhou um peão preto e um branco, misturando-os atrás das costas, e mostrou os punhos fechados para Joe.

— O da direita — disse ele, e ela abriu a mão direita, suspirando ao ver o sorrisinho satisfeito no rosto dele.

— Tudo bem, você começa — disse ela, entregando-lhe as peças brancas. A coisa foi ladeira abaixo dali por diante, na verdade, porque ela estava com enormes dificuldades de concentração.

— Xeque.

Ela olhou para o tabuleiro, incrédula. Que diabos acon­tecera? Ela perdera completamente o foco. Demi moveu a rainha; ele deu um muxoxo, tomou-lhe o bispo, e disse:

— Xeque.

— Você tem certeza de que quer fazer isso?

Ela olhou para o tabuleiro, resmungou algo por entre os dentes e mudou de idéia, recostando-se na poltrona.

— Tudo bem.

— Oh, céus. — Ele moveu a última peça, deu um sor­riso malicioso e murmurou: —Acho que você vai concor­dar que é xeque-mate.

O quê?

— Oh, droga — disse ela, jogando-se de volta na pol­trona. — Eu tinha me esquecido de como você é bom nisso.

— Vou considerar isso um elogio — disse ele com um sorriso, arrumando as peças novamente.

— Oh, não — respondeu ela, rindo e erguendo as mãos, rendida. — Não esta noite. Estou cansada e não consigo e concentrar. Jogaremos outra partida amanhã. — Naquela altura, ela já teria recuperado o autocontrole e con­seguiria pensar direito novamente.

— Certo, acho que está realmente na hora de ir dormir disse ela, olhando nos olhos dele. — Joe, por que você não vai deitar cedo hoje?

— E ficar deitado a poucos metros de distância de você, pensando em você? Acho que não. Já faz mais de um ano, Demi. Isso é muito tempo.

E então ocorreu a ela que, naquele ano, poderia ter ha­vido outra mulher. Várias, na verdade. Ela queria saber? Sim.

— Você... você teve — Ela se interrompeu, incapaz de dizer as palavras, mas ele compreendeu e respirou fundo, expirando com incredulidade.

— Você realmente pensa isso de mim? Demi, nós so­mos casados. Eu posso não ter sido o melhor marido do mundo, mas meus votos foram sinceros. Eu não olhei para outra mulher, nem toquei em outra mulher, e nem sequer pensei em outra mulher desde que a conheci. E, desde que você me deixou, não penso em outra coisa. Então, perdoe-me se eu não quero ir lá para cima e ficar deitado educadamente, a pouca distância de você, e ir dormir!

Ela sentiu o rubor lhe colorir as faces, levantou-se rapi­damente e foi para a porta.

— Eu sinto muito. Eu não tive a intenção de ser tão insensível. Só para você saber, senti sua falta também.

— Demi! Demi, espere!

Ela parou, com a mão na maçaneta, e ele se aproxi­mou dela por trás, virando-a gentilmente para tomá-la nos braços.

— Eu sinto muito. Estou irritado, porque preciso de você. Estou me sentindo como um leão enjaulado neste momento, e estou descontando em quem estiver por perto. E acontece de ser você, todas as vezes. E isso é uma droga, porque tudo o que eu quero fazer é abraçá-la... — E, sem dar mais uma palavra, ele a apertou cuidadosamente con­tra o peito e encostou a cabeça na dela. Ela podia sentir o coração dele batendo, a tensão que irradiava de seu corpo, mas sabia que as coisas não iriam além daquilo; que ele não a beijaria, nem a tocaria, nem faria qualquer coisa que ela não provocasse diretamente, porque, apesar de todos os seus defeitos, ele a amava.

— Oh, Joe — suspirou ela, e, passando os braços ao redor dele, abraçou-o com força. — Sinto muito por tudo ser tão difícil.

— Não precisa ser. Você pode voltar para mim.

— Já conversamos sobre isso — ela lembrou a ele, desvencilhando-se de seus braços. — Não vou voltar, não antes de ter provas concretas de que você está mudando para melhor. E, até agora, não vi prova nenhuma disso.

Ele olhou para ela seriamente, e assentiu.

— Tudo bem. Então, amanhã, vamos para Londres. Iremos ao escritório, farei algumas ligações e verei o que posso fazer. E eu gostaria de ir ver a minha mãe.

A mãe dele! Claro! Demi sentira falta dela. Linda Gallagher era o mais próximo que ela possuía de uma mãe agora, e Demi sabia que a mulher lhe daria todo o apoio para tentar fazer Joe trabalhar menos. Afinal de contas, ela perdera o próprio marido cedo demais, e não iria querer que o mesmo acontecesse com seu filho. E ela adoraria as crianças.

— Você já contou a ela? Joe sacudiu a cabeça.

— Não. Como eu poderia? Não tenho um telefone — disse ele com ironia, e ela suspirou.

— Você poderia ter usado o telefone da casa para ligar.

— Só que eu não tenho o número dela.

— Você deveria saber o número do telefone da sua mãe — ralhou ela, e ele deu de ombros.

— Por quê? Está gravado no meu celular. Só que eu não tenho mais o meu celular, porque, ao que parece, ele foi confiscado.

— Eu lhe daria o celular de volta, se achasse que pode­ria confiar em você — disse ela francamente, e ele torceu os lábios.

— É melhor ficar com ele, então — disse ele suave­mente. E, abaixando a cabeça, encostou os lábios nos dela. — Vá dormir, Demi. Eu a verei pela manhã, e então decidiremos o que fazer e resolveremos tudo.

Se ao menos ela pudesse acreditar naquilo.

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Capitulo novo! Comentem amores
xoxo

2.8.15

Dois Pequenos Milagres - Capitulo 4

Os bebês eram lindos.

Doces, bagunceiros, temperamentais, lindos. E entediantes.

Não quando estavam acordados, mas quando estavam dormindo, e Demi tirava uma soneca, e a casa ficava tão silenciosa que Joe sentia vontade de gritar.

E, de repente, ocorreu-lhe que ele era o único que se esforçava para se ajustar. Aquilo era justo? Não era justo, de jeito nenhum, pensou ele, irritado; e, além disso, não fora ideia dele ser cortado das vidas delas. Até aquele mo­mento, depois de trinta e poucas horas, ele aprendera a preparar um banho na temperatura certa, a lidar com a má­quina de lavar, a acertar uma colherada de mingau na boca do bebê.

Mas agora, às 11h da noite, quando ele normalmente trabalharia por mais duas ou três horas, Demi já fora para a cama, as meninas dormiriam até o dia seguinte, e não havia nada a fazer. Nada na televisão, nenhum modo de entrar em contato com Yashimoto e nenhum modo de en­trar em contato com o pessoal em Nova York, que ainda estaria trabalhando. Tudo estava tão quieto! Exceto pelos gritos que Joe podia ouvir ao longe. Ele os ouvira um minuto antes, e agora que estava perto das portas francesas podia ouvi-los claramente, um barulho de gelar o sangue que lhe causou um arrepio até os ossos. Murphy levantara as orelhas e estava rosnando baixinho, e Joe o chamou de volta para dentro de casa, fechando a porta. Em seguida, ele foi até o andar de cima e bateu na porta do quarto de Demi. Ela a abriu um segundo depois, vestindo um pijama com estampa de gatinhos e com o rosto amassado de sono, e ele precisou se forçar a ir direto ao ponto.

— Eu ouvi um barulho — disse ele sem mais preâmbu­los, sem se permitir olhar para os pequenos gatinhos que corriam pelo corpo dela. — Gritos. Acho que alguém está sendo atacado. Ela inclinou a cabeça para o lado, ouviu e então sorriu.

— Deve ser um texugo — disse ela. — Ou uma raposa. Ambos gritam à noite. Não sei bem qual é qual, mas, nes­ta época do ano, acho que provavelmente é um texugo. As raposas fazem mais barulho na primavera. O ruído o acor­dou? Você precisa dormir. Está exausto.

— Não estou exausto. Nunca durmo a esta hora da noite.

— Bem, você deveria. Chá?

Ele não queria chá. A última coisa que ele queria era chá, mas beberia ácido puro só para ter a companhia dela.

— Chá parece uma ótima ideia — disse ele, resmun­gando, e a seguiu até o andar de baixo.

Não podia ser fácil para ele, estar preso naquele fim de mundo, e ainda por cima com gêmeas. Joe nunca fora do tipo que precisava de muitas horas de sono, e, sem ter nada para fazer durante a noite a não ser pensar, ele deve­ria estar analisando aquela situação repetidamente. O que era bom, Demi disse a si mesma.

— Há alguma lenha no fogo? — perguntou ela, e ele deu de ombros.

— Não sei. Havia. Coloquei a grade para cima. A larei­ra fica acesa a noite inteira?

— Não costumo acendê-la — confessou ela. — As me­ninas e eu passamos a maior parte do tempo na cozinha.

— Então, por que você perguntou?

— Porque pensei... tenho alguns DVDs das meninas, desde que elas nasceram. Na verdade, desde antes. Eu te­nho um DVD em 4-D do ultrassom. É fascinante.

— 4-D?

— Humm. 3-D, em tempo real. Eles chamam de 4-D. Você pode vê-las se movendo, e é incrivelmente real. E eu tenho muita coisa delas quando elas estavam na terapia in­tensiva, e registros de tudo o que eles fazem com os bebês, como impressões das mãozinhas e dos pezinhos, e as pulseirinhas com os nomes, as tabelas de peso, coisas assim. Pensei que se estivesse quente na sala, poderíamos assistir, mas você provavelmente vai achar tudo muito chato...

— Não! Não, não vou. Eu gostaria de ver.

— Ótimo — disse ela, suavemente. — Vá ver se você pode reavivar o fogo, e eu vou preparar um chá.

E biscoitos de chocolate maravilhosos, que eram mais chocolate que biscoito, e queijo com bolachas, porque ela sabia que ele estaria com fome, e ele francamente precisava engordar um pouco.

Ele estava agachado perto da lareira quando ela voltou, soprando as brasas e tentando devolver alguma vida ao que sobrara do fogo. E, quando ela colocou a bandeja na mesinha, as chamas finalmente se acenderam e um adorá­vel brilho laranja tomou conta da lareira.

— Oh, isso é ótimo. Muito bem. Tome, coma um pouco de queijo com biscoitos — instruiu ela, remexendo no armá­rio ao lado da televisão em busca dos DVDs. — Ultrassom primeiro? — sugeriu Demi.

Joe assentiu, e ela colocou o DVD no aparelho, sen­tando-se encostada ao sofá ao lado das pernas dele, e se­gurando a xícara de chá nas mãos enquanto as imagens dos bebês ainda não nascidos passavam diante deles.

— Com quantos meses de gravidez você estava quando estas imagens foram feitas?

— Vinte e seis semanas.

Uma sombra percorreu o rosto dele, e Joe apertou os lábios, olhando para a tela como se sua vida dependesse disso. Demi se virou novamente para a televisão e assistiu ao DVD com ele, mas estava profundamente consciente de uma tensão nele que jamais sentira antes. Quando o DVD terminou e ela o retirou do aparelho, Demi sentiu que a tensão o abandonava, e, enquanto ele se recostava nó sofá para beber seu chá, suas mãos tremiam um pouco.

Estranho. As mãos de Joe nunca tremiam. Sob nenhu­ma circunstância. E, mesmo assim, ele sempre fora tão irredutível ao dizer que não queria filhos, que as vidas deles estavam completas sem crianças. E por que as ima­gens de suas filhas antes de nascerem eram tão comoven­tes para ele?

O fogo estava crepitando com força agora, e Murphy se levantou de sua posição na frente da lareira e se aproxi­mou deles, deitando-se contra as pernas de Joe. Ele se inclinou e coçou o pescoço do cão, puxando-lhe as ore­lhas, com uma expressão ausente no rosto; e Murphy ergueu a cabeça, olhando com adoração para Joe como se tivesse encontrado sua alma gêmea.

— Acho que você encontrou um novo amigo.

— Aparentemente. Acho que ele sente falta de John.

— E eu acho que ele quer os biscoitos do seu prato — brincou ela, e Joe riu.

— E agora? — perguntou ele, e ela colocou no apare­lho de DVD o primeiro filme das meninas depois de nascidas.

— Aqui estão elas, com dois dias de idade. Elas nasce­ram com apenas 33 semanas, porque o meu útero tinha dificuldades de se expandir, por causa das cicatrizes; e elas pararam de crescer. Jane e Peter vieram, e filmaram as duas para mim. Eles foram maravilhosos, e me deram muito apoio.

— Eu teria lhe dado apoio.

— Eu não sabia disso, Joe. Você sempre foi tão con­trário à ideia de ter filhos. Se eu sequer mencionasse uma inseminação artificial, você saía correndo. Como eu po­deria saber que você queria se envolver?

— Você poderia ter me perguntado. Você poderia ter me dado a escolha.

Ela poderia. Poderia, mas não havia, e era tarde demais agora para mudar aquilo. Mas ela podia pedir desculpas, Demi percebeu, e virou-se para ele, tomando sua mão.

— Eu sinto muito — disse ela, forçando-se a olhar nos olhos dele e se preparando para enfrentar a raiva que ela sabia que veria neles. Mas, em vez da raiva, havia dor. — Joe? — sussurrou ela, e ele afastou a mão, levantando-se.

— Talvez possamos fazer isso outra hora — disse ele, e, sem uma palavra, foi para a porta. Ela o ouviu subindo as escadas, e a porta do banheiro se fechando, e a água cor­rendo. Com um suspiro, ela desligou o aparelho de DVD e a televisão.

Ela ouviu o chuveiro ser desligado, enquanto ia para seu próprio quarto e fechava a porta; e, alguns minutos depois, ouviu Joe sair do banheiro e atravessar o corredor até o quarto de hóspedes, fechando a porta suavemente.

Na manhã seguinte, Joe correu pela estrada, sempre acompanhado por Murphy. Eles saíram do vilarejo para tomar outra trilha pequenina e sinuosa, cortaram caminho por um campo e atravessaram o rio por uma ponte de ferro. Em seguida, tomaram um atalho que levava novamente ao vilarejo, quase em frente à entrada "Chalé das Rosas". A corrida levara 20 minutos, e Joe calculava que tivesse percorrido uns cinco quilômetros. Não longe o suficiente para entorpecê-lo, mas o exercício diminuíra sua tensão e lhe distraíra da confusão sem fim em sua mente.

As luzes estavam acesas na cozinha quando ele chegou em casa, e Demi o estava observando, seu rosto indecifrá­vel a distância, sob as lâmpadas antigas. Ele reprimiu um grunhido e subiu os poucos degraus até a porta dos fun­dos, com Murphy molhado e enlameado a seu lado.

— Cama! — ordenou ela, e o cão se virou, indo direto para sua cama que ficava no vão sob as escadas.

— Essa ordem foi só para ele, ou eu tenho que ir para a cama, também? — perguntou Joe, e ela sorriu, um pouco incerta, observando o rosto dele com olhos perturbados.

— Você está bem?

— Estou. Demos uma boa corrida...

— Você está bem mesmo?

— Estou bem — disse ele, com um pouco mais de since­ridade, porque realmente estava. Fora somente aquele DVD que o perturbara, fazendo-o sentir-se triste e emocionado de novo, e ele odiava aquilo. Ele odiava perder o controle de seus sentimentos; odiava seus sentimentos, ponto final.

— Eu fiz um chá — disse ela.

— Obrigado. Os bebês já acordaram? Ela sacudiu a cabeça.

— Não, mas vão acordar em breve. Por quê?

— Oh, eu só estava perguntando. Preciso de um banho, mas não quero incomodá-las. Vou tomar o meu chá e es­perar um pouco, se você não se importa de eu estar suado e enlameado.

Os olhos dela o percorreram, e ela deu uma risadinha, mas, quando Demi se virou, ele notou um leve rubor em suas faces. Mesmo? Ele ainda podia fazer aquilo com ela?

— Tenho certeza de que posso suportar enquanto você toma o seu chá — disse ela.

Ele pensou no beijo que eles haviam trocado, só um toque suave dos lábios dela nos dele, e uma onda de calor o invadiu. Porque ele queria fazer aquilo de novo; queria puxá-la contra si, enterrar os dedos nos cabelos embaraça­dos dela e explorar-lhe a boca com a sua até que ela esti­vesse gemendo de desejo e pedindo mais...

— Pensando bem, talvez seja melhor eu ir dar uma olhada nas minhas roupas e procurar algo para vestir de­pois do banho — disse ele, correndo para a porta antes que envergonhasse a si mesmo.

— O que há de errado com as roupas novas de ontem? — perguntou ela, e ele hesitou na soleira, com um pé no primeiro degrau das escadas, olhando para ela por sobre o ombro.

— Nada, eu só não tenho certeza de que elas são apro­priadas para o que vamos fazer hoje.

— E o que vamos fazer hoje?

— Vamos levar as meninas para a praia — respondeu ele, pensando rápido. — Está um dia lindo, e a previsão do tempo é de sol e temperatura amena.

— Nesse caso, o seu jeans e suéter serão perfeitos. Volte aqui, sente-se e tome o seu chá. Se você começar a fazer barulho no quarto ao lado do delas, elas vão acordar e, fran­camente, os momentos de paz já são muito poucos.

Joe engoliu em seco, tentando reprimir o desejo que ameaçava dominá-lo. Mas ele não precisava ter se preocupa­do, porque ela apanhou a roupa suja e a levou para a lavan­deria, enquanto ele levava seu chá para o sofá junto à grande janela. Quando ela voltou, eleja recuperara o controle.

Ou quase.

*****

Ele estava certo, estava um dia lindo.

Eles levaram as meninas a Felixstowe, estacionaram o carro no final do píer e caminharam até a outra extremidade.

— Você sabia — comentou ela —, que, exceto pelas viagens de trabalho, quando fomos ao exterior, esta é a primeira vez que vamos à praia, em seis anos?

— Acho que você está certa. Isso não é algo que eu pen­sasse em fazer; não na Inglaterra, pelo menos. E eu nunca fui do tipo que gosta de feriados na praia.

— Não estou falando de feriados na praia — disse ela. — Estou falando de caminhar junto ao mar, com uma bri­sa forte nos cabelos e o gosto de sal na pele. É lindo, sau­dável, e... oh, maravilhoso!

Ele não tinha o direito de fazer aquilo com ela; trazer de volta tantas lembranças com apenas um sorriso pregui­çoso. Eles poderiam não ter caminhado na praia, mas haviam feito amor muitas, muitas vezes no terraço de casa, com vista para o Tâmisa, com o cheiro do rio e o ar salga­do os envolvendo. E ela soube, apenas com um olhar, que ele também estava lembrando.

— Eu só vou ver se as meninas estão bem — disse ela rapidamente, e contornando o carrinho até o outro lado, cobriu os bebês novamente e o seguiu. Agora ele era um pai de verdade, com uma mulher e duas lindas filhas, e não um homem sob pressão que fora forçado a se subme­ter a passar algum tempo com suas recém descobertas crianças.

— Demi?

Ela percebeu que parará, e ele parará também, e se vi­rará para olhar para ela, seus olhos perturbados. Ele soltou o cercadinho e aproximou-se dela.

— O que há de errado?

Ela deu de ombros, incapaz de falar. E, com um pequeno suspiro, ele a tomou nos braços e apertou-a contra o peito.

— Ei, vai ficar tudo bem — murmurou ele, mas ela não tinha tanta certeza. Menos de dois dias haviam se passa­do, e ele já quebrara as regras, roubando o celular dela e tentando encontrar o dele. Deus sabia o que mais ele faria, quando ela virasse as costas. Ele ficara acordado metade da noite; teria usado o telefone?

Ela se importava? Desde que ele estivesse lá durante o dia, tentando, importava se ele trapaceasse?

Sim!

Ou não, não realmente, desde que ele aprendesse a li­ção sobre equilibrar a vida e o trabalho.

— Venha, vamos tomar um café. Há uma pequena cafeteria perto de onde estacionamos o carro. Trouxe bebi­das para as meninas, e talvez eles possam esquentar as mamadeiras lá.

— Aquela gororoba? — disse ele, parecendo descon­fiado, e ela pensou no suéter novo dele, e sorriu.

— Tudo bem, eu as alimentarei, se você quiser — pro­meteu ela. — Mas vou deixar você pagar.

— Será um prazer — disse ele com um suspiro de alívio.

*****

As meninas estavam prontas para a cama cedo naquela noite.

— Deve ter sido o ar marinho — disse Demi, enquanto esquentava o jantar delas; potinhos de comida feita em casa desta vez, ele notou, perguntando-se se aquilo era o melhor para elas.

— Isto tem todos os nutrientes certos? — perguntou ele.

— Isto é comida, e não uma fórmula química. Frango assado, brócolis, cenouras, batatas, molho... claro que tem todos os nutrientes corretos.

— E foi você quem cozinhou?

— Ora, claro que fui eu quem cozinhou! — disse ela com um suspiro exasperado. — Quem mais?

Ele deu de ombros.

— Desculpe-me. É só que... eu raramente a via cozi­nhar, e não me lembro de tê-la visto fazer um assado.

— Não, claro que não. Nós nunca tínhamos tempo de fazer algo tão sem importância

— Demi, pare com isso! Eu só estava...

— O quê? Criticando a maneira como cuido das mi­nhas filhas?

— Elas são minhas filhas, também!

— Então aprenda a cozinhar para elas — disse ela rispidamente, e atirou um livro de culinária para ele. — Aqui está. Há peito de frango, filés de salmão, frutos do mar e costelas de porco no congelador. Escolha o que quiser. Você pode preparar o jantar para nós, enquanto eu coloco as meninas na cama.

E, saindo da cozinha com um bebê em cada braço, ela o deixou lá, olhando para o livro com uma expressão perplexa.

Jesus. Ele sabia fazer café e torradas, e ovos mexidos, mas isso se fosse obrigado. E sabia desembrulhar comida pronta e colocá-la no micro-ondas, ou pegar o telefone e pedir o jantar. Mas... cozinhar? Ingredientes de verdade? Que inferno, ele não fazia aquilo havia anos. Quinze anos? Talvez...

Droga!

Era simples. Ele pediria o jantar. Nem mesmo Demi po­deria reclamar se ele usasse o telefone da casa para pedir comida. O problema era que ele deveria cozinhar, e recuar frente a um desafio não era algo que ele fazia normalmen­te. Então... paella. Não podia ser tão difícil assim.

*****

— Oh! Risoto? — disse ela, hesitante, abrindo a panela e cheirando a comida.

— Paella — ele corrigiu.

— Quanto alho você usou?

— Não sei. A receita dizia dois dentes. Parecia muito, então usei apenas um.

— Dente, ou bulbo?

Ele franziu a testa, confuso.

— Qual é a diferença?

— Humm, o bulbo é o alho inteiro, uma coisa esbranquiçada, com textura de papel, com um talo no meio. Os dentes são as partes que formam o bulbo.

— Bem, você deveria estar aqui, se vai reclamar.

— Ei, eu não reclamei.

— Você ainda nem provou.

— Tudo bem, pode ter alho demais, mas e daí? Eu não vou beijar ninguém, vou?

— Isso pode ser providenciado — murmurou ele, os olhos percorrendo-a lentamente, como se estivesse ten­tando remover as roupas dela.

— Nos seus sonhos — resmungou ela, e apanhou dois pratos. — Aqui está, sirva-se. Vou pegar uma bebida. Você quer um pouco daquele vinho?

— Acho que o branco seria melhor. O tinto talvez seja um pouco pesado.

— Oh, eu não sei — disse ela, perfidamente. — Pode contrabalançar o alho.

Garota estúpida. Ele atirou a colher de volta na panela e foi para o corredor, desaparecendo pela porta da frente e batendo-a com força, vestindo o casaco ao sair.

Opa. Ela fora cruel ao provocá-lo. Ela sabia que ele não sabia cozinhar, e ele fizera o melhor que podia. E, com exceção do alho e do fato que a comida parecia um pouco cozida demais, estava até bom.

O carro de Joe, aquele carro esporte, tolo, veloz e perigoso, saiu pela estrada em meio a uma chuva de cas­calho, e ela suspirou, cobrindo a panela, afastando-a para o lado e sentando-se para esperar. Ou ele voltaria, ela pensou, e nesse caso ela se desculparia, ou não volta­ria; e, nesse caso o quê? As meninas perderiam seu pai, e ela perderia o único homem que já amara, porque não conseguia manter sua boca atrevida fechada.

Oh, que droga. E ela nem podia telefonar para ele para pedir desculpas.

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Capítulo novo na área. Desculpem pela demora, eu fiz uma viajem e fiquei sem internet. 
Comentem.
xoxo