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13.9.15

Faça Meu Jogo - Capitulo 11 - Último


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Dia dos Namorados – 14 de fevereiro

JOE DESEJAVA que o único dia do ano reservado para os amantes ocorresse em março. Teria ajudado muito se pudesse falar com São Valentim e trocá-lo de lugar no calendário com São Patrício, no dia 17 de março, só desta vez. Talvez os fabricantes de cartões de felicitações não fossem gostar, nem as indústrias de flores ou chocolates, mas ele realmente ia gostar de um mês extra antes da chegada do grande dia do romance e do amor: todas as coisas que ele possuía há alguns dias, antes de Demi ir embora de sua casa.

Todas as coisas que ele pretendia ter novamente. Com ela.

Tinha sido infernal vê-la partir. Mas no instante em que Joe entrou na cozinha e a viu triste, com uma expressão resignada, ele soube que ela estava caindo fora. Não podia fazer nada senão permitir que ela fosse, não por causa daquela besteirada do “se você ama muito alguma coisa, deixe-a ir. Se voltar, é porque era sua. Se não voltar, é porque nunca foi sua”, mas porque ele a conhecia bem o suficiente para saber que não adiantava tentar convencê-la a não ir embora.

Quando Joe foi para o segundo andar, ele teve breves esperanças de que ao vê-lo encarar a situação calmamente, embora por dentro ele fosse uma massa revolta de raiva, frustração e desejo, ela fosse perceber que estava cometendo um erro e mudar de ideia. Ouviu-a subindo para recolher suas coisas, e aguardou no banheiro, não debaixo do chuveiro, mas de pé do outro lado da porta fechada. Meio que se perguntando se ela ia bater.

Quase certo de que ela não o faria.

Ela não bateu.

Por mais forte que fosse, Demi não era do tipo que tomava decisões importantes no calor do momento. Ela era do tipo que se recolhia-pensava-avaliava-daí-avançava-cautelosamente.

Joe só queria ser capaz de dar mais tempo a ela para sentar-se em Chicago, pensar, avaliar, antes de voltar para ele. É por isso que teria sido melhor se o Dia dos Namorados fosse dali a um mês.

Com um mês para pensar sobre isso, Joe sabia, sem sombra de dúvida, que Demi telefonaria, mandaria e-mails ou apareceria à porta dele.

Talvez não por razões emocionais.

Não para compromisso e casamento e uma vida inteira juntos. Mas só porque ela o desejava, e então lhe enviaria um convite para ir a Washington para fazer o joguinho de senador e assessora ousada. Sexo. Não amor. Ela era tão sexualmente viciada nele como ele era nela, e no prazo de 30 dias ela estaria morrendo de vontade do tipo de intimidade quente, selvagem que os dois tinham dividido desde o primeiro dia.

Então, sim. Ela telefonaria, ou mandaria um torpedo.

E ele iria.

Tudo bem. Ela podia usá-lo para satisfazer suas necessidades mais profundas, porque Joe sabia que ele ia ser preenchido com a mesma fome por ela. E o jogo iria recomeçar.

Entretanto ele iria, principalmente, porque no fundo sabia que qualquer dia desses Demi descobriria finalmente que o amava também.

Ela o amava, e disso Joe não tinha nenhuma dúvida. Demi simplesmente não havia reconhecido ainda. Ou então ela viera com um milhão de razões para justificar porque a coisa toda não iria funcionar e optara por não se permitir amá-lo.

Tudo bem também. Ele não precisava que ela dissesse as palavras. O sexo era o suficiente para entrelaçar suas vidas até que ela estivesse preparada, e em um mês, ela estaria morrendo por isso.

– Maldito seja você por ter nascido em fevereiro, São Valentim – murmurou Joe.

Porque ao passo que 30 dias teriam sido suficientes para reverter o jogo, cinco podiam não ser suficientes. No curto espaço de tempo desde que fora embora, Demi pode ter ficado um pouco nervosa, mas ela era teimosa. Provavelmente iria segurar a situação por mais tempo que isso, não importando o quão incrível tivesse sido o sexo entre eles durante as noites em que ela dormira na cama dele.

Joe não tinha escolha, no entanto.

Era 14 de fevereiro, e o romântico dentro dele simplesmente não podia deixar o dia passar sem ao menos dar sua melhor cartada de sedução. Pela primeira vez ele estava apaixonado pela mulher certa no Dia dos Namorados. Precisava fazer alguma coisa a respeito.

E era por isso que ele estava sentado em um avião que agora aterrissava no aeroporto O’Hare, em Chicago. Tinha reservado o melhor quarto que poderia conseguir de última hora em um hotel exclusivo da cidade. Hoje à noite, ele queria estar lá com ela, lembrando-a de que Demi tinha feito a escolha certa ao aparecer.

Ou ele terminaria sentado sozinho no quarto, jogando uma caixa de chocolates no lixo, observando as pétalas de rosas murchas espalhadas pela cama e desejando que não ter desperdiçado uma caixa de champanhe devidamente derramada na banheira. Sem mencionar as ostras que já tinha encomendado ao serviço de quarto.

Ele foi definitivamente esperando pela primeira opção.

Felizmente, ele tinha um cúmplice em seu plano para atrair Demi para uma noite de romance sexy. Por mais que odiasse fazê-lo, Joe entrara em contato com tia Jean e pedira a ela para ligar para a Clear-Blue Air, afinal ela era a pessoa mais indicada para pedir informações sobre a agenda de Demi. A tal mulher de quem ela falava muito bem, Ginny, fora extremamente útil, seja porque gostasse de sua tia-avó ou porque amasse seu empregador. Talvez uma combinação de ambos.

Pelo que a mulher dissera, Joe tinha algumas horas antes de Demi voltar para Chicago, vindo de Cincinnati. Algumas horas para chegar ao quarto, montar o cenário, então telefonar para ela e perguntar se Demi tinha coragem de vê-lo novamente tão cedo.

Entretanto pedir diretamente talvez não fosse adiantar. Desafiá-la, provavelmente sim.

Todas essas coisas se agitavam na mente de Joe enquanto ele seguia o longo fluxo de passageiros desembarcando até o terminal. Mais um pensamento lhe ocorreu também: se isso não funcionasse, ele simplesmente teria de voltar no mês seguinte para participar das festividades de São Patrício e visitar alguns pubs de Chicago. Demi ficaria muito linda usando um chapéu de duende. Ou sexy demais se só usasse o chapéu e mais nada.

Sorrindo diante de tal ideia, Joe não seguiu para o ponto de táxi, mas, sim, para os escritórios da Clear-Blue Air. Ele dissera a Ginny que daria uma passadinha quando chegasse, só para marcar território e certificar-se de que a agenda de Demi não tinha mudado. Ele provavelmente poderia ter telefonado para pegar essa informação, mas desconfiava que a mulher quereria falar com ele pessoalmente.

Falando em ligar… telefone.

Enquanto caminhava, ele pegou o celular no bolso e discou. Uma olhadela nas barras na telinha e Joe confirmou que estava sem sinal. Então talvez Ginny não fosse uma romântica incurável secretamente, apenas estivesse acostumada ao serviço telefônico instável dentro do aeroporto. Porém, ela podia ser ambos.

Ao passar pela segurança, que tinha o nome de Joe na lista de visitantes autorizados para a ala de escritórios, ele seguiu as instruções que Ginny lhe dera. O aeroporto era imenso, ele sempre soubera disso. Mas nunca tinha imaginado a quantidade de espaço que o público nunca via. O corredor parecia continuar por blocos e mais blocos.

Claro que o escritório da Clear-Blue Air era no final do referido corredor.

Ele acelerou os passos quando percebeu que horas eram. Tinha imaginado que aquela missão iria demorar alguns minutos… Ele já havia descido do avião há meia hora.

Quando finalmente estava a poucos metros da porta, notou ela sendo aberta por dentro. Ele deu um passo para sair do caminho, a fim de deixar a pessoa passar, não prestando muita atenção. Pelo menos, não até que uma mulher emergiu. A mulher que ele não queria ver, pelo menos não até esta noite.

– Ah, que inferno – murmurou ele quando todos os seus planos viraram fumaça.

Demi o fitou, os olhos arregalados, boquiaberta, muda. Ela provavelmente temia que ele tivesse se transformado num perseguidor psicopata.

– Ei – disse ele baixinho, perguntando se ela se enfiaria de volta no escritório para evitá-lo por completo.

Em vez disso, ela fez algo muito mais chocante. Algo que o tirou do eixo.

Sem uma única palavra, Demi largou a bolsinha de viagem que carregava durante a noite, deu um passo em direção a Joe, jogou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou como se não o visse há pelo menos… um mês.

ELE ESTAVA ali. Ela não conseguia acreditar que ele estava realmente ali, que ele tinha vindo até Chicago para vê-la no Dia dos Namorados.

Ao beijar Joe, sentir o calor do corpo dele, inalar seu aroma e reviver todos os prazeres de sua boca, ela flagrou lágrimas lhe inundando os olhos. Ela o amava, sentia saudade dele. E tinha finalmente encontrado o homem que poderia lhe oferecer a liberdade para voar quando ela precisasse, mas que estaria sempre esperando quando ela retornasse. Ou então ele simplesmente iria atrás dela.

Finalmente, o beijo terminou, e Demi sorriu para ele.

– Você veio.

– Claro que vim. – Balançando a cabeça e semicerrando os olhos em confusão, ele disse – Você deveria estar em Cincinnati.

Uma punhalada rápida de preocupação a fez perguntar:

– Ai, Deus. Você não esperava que eu estivesse aqui? Você não veio aqui para me ver?

Ele jogou a cabeça para trás e riu, apertando os braços ao redor da cintura dela.

– Sua doida, é claro que vim aqui para te ver. Mas eu tinha um plano grandioso de sedução tramado, e você não me deu mais do que uma hora para chegar no hotel e definir tudo.

– Há um sofá no meu escritório – disse ela, o tom seco. – Para você e para mim, não precisaria de mais nada.

– É verdade. – Ele se inclinou e lhe beijou a testa, murmurando: – Mas quero te dar mais que isso.

Ela suspirou, virando-se para que o rosto macio roçasse no rosto com a barba por fazer dele.

– Acho que está tudo bem então. A mesa de Ginny fica bem em frente à minha porta.

– Então vamos ao hotel.

Soou ideal para Demi. Ansiosa para ir, para ficar a sós com Joe em algum lugar para que pudesse contar a ele todos os pensamentos selvagens que passavam por sua cabeça, e os sentimentos mais ousados prestes a fazê-la explodir emocionalmente, ela escorregou dos braços dele e se abaixou para pegar sua bolsa. Ele tomou a bolsa dela, colocando-a sobre o ombro, junto à dele.

Ela não discutiu; a bolsa não era exatamente um fardo porque não estava muito cheia. Havia uma camisola de seda vermelha, um par de meias sete oitavos. Apenas as necessidades básicas. Não o que ela normalmente embalava para viagens de trabalho, porque ela definitivamente não ia para Cincinnati depois de dar de cara com Joe. Ah! Não era de se admirar que Ginny tenha ficado olhando para o relógio e a atrasando com perguntas idiotas. Ela estava preocupada em não deixar Demi voar para Pittsburgh já que Joe estava voando para Chicago.

– Então por que você não está em algum lugar acima de Ohio? – Ele quis saber enquanto caminhavam em direção ao terminal, o braço de Joe em volta da cintura dela, os quadris e coxas roçando a cada passo.

– Outra pessoa pegou meu voo – disse ela a ele. – Está muito frio em Ohio.

Mesmo rindo daquilo, considerando que estava um frio de lascar ali em Chicago, Joe sacudiu a bolsinha dela. – Então para onde você estava indo?

Houve uma pitada de divertimento na voz dele, como se já soubesse a resposta. Bem, é claro que ele sabia. Ele sabia que ela estava indo vê-lo. Ele não tinha percebido isso até chegar ali, obviamente, mas assim que a vira, assim que Demi jogara os braços ao redor dele e o beijara com todo amor que sentia, como Joe poderia não perceber que ela gostaria de estar com ele exatamente neste dentre todos os feriados?

– Para onde você acha, bonitão?

– Daytona? Com certeza é um lugar mais quente.

– Não é tão quente quanto Pittsburgh.

Ele parou quando ela confirmou, tomando-a nos braços para beijá-la outra vez. Desta vez não foi doce e suave, mas profundo e ávido, como se estivesse pensando nela desde o minuto em que Demi saíra da casa dele, desejando-a por todo esse tempo.

Ou talvez ela estivesse projetando os próprios pensamentos e sentimentos. Tanto faz. Tudo que Demi sabia era que a boca doce de Joe estava cobrindo todos os milímetros da sua, e que ela não queria que acabasse.

Finalmente, porém, porque a porta do escritório se abriu e vozes nas proximidades se intrometeram, o beijo acabou.

– Vamos sair daqui – sussurrou ela, entrelaçando o braço no dele e guiando-o de volta ao terminal. – Acho que precisamos conversar.

Entretanto ainda não. Demi não queria ter qualquer conversa profunda e importante enquanto eles caminhavam pela área pública do aeroporto. Estava repleta de viajantes frenéticos para chegar a seus destinos, resmungando diante das longas filas na parte da segurança.

Já que fizer “Desculpe, fui uma idiota e eu te amo” estava fora de cogitação, Demi preencheu o tempo com algo um pouco menos pessoal.

– Você não vai acreditar no telefonema que recebi esta manhã. – Ela pretendia contar quando o encontrasse na casa dele esta noite. Pelo menos, se ele a deixasse entrar.

Não que isso fosse capaz de impedi-la. Já sabia que uma das janelas dele não travava direito: felizmente o visitante de Las Vegas não tinha percebido isso.

– De quem?

– Do policial Parker. Acho que ele ficou muito curioso para descobrir por que um bandido de meia-tigela nos seguiria até Chicago e depois até a Pensilvânia, caso ele não tivesse realmente derrubado a joia que tinha roubado.

Joe a fitou com interesse.

– Será que ele tem alguma teoria sobre o que aconteceu?

– Sim. Acontece que o dono da loja aparentemente era tão desprezível quanto o bandido. Nosso amigo Teddy realmente derrubou sua sacolinha naquela noite, bem à porta da loja. O proprietário encontrou e a escondeu, e em seguida entrou em contato com a seguradora. Parker conseguiu fazê-lo confessar a coisa toda.

Joe assentiu, aparentando tanto alívio quanto sentia por causa daquela notícia.

– Então não temos de nos preocupar mais com o Sr. Lebowski.

– Correto. – Sorrindo, ela acrescentou: – O que significa que você não tem de trocar seu gnomo de jardim por uma Magnum .357.

Ele riu, e um silêncio camarada caiu novamente entre eles. E permaneceu quando chegaram ao carro dela e entraram, sem dizer muita coisa, uma vez que Joe já tinha dito a Demi o nome do hotel onde ficariam hospedados. Era como se ele já soubesse que ela queria dizer muita coisa a ele, e não quisesse que a conversa começasse até que estivessem completamente a sós. Ela não queria distrações causadas por espectadores curiosos, ou pela necessidade de manter as mãos no volante.

Além disso, um pouco de silêncio era bom. Ela precisava de tempo para colocar tudo em palavras.

Demi havia achado que teria algumas horas antes de chegar à porta de Joe, em Pittsburgh, armada com um copo de café em uma das mãos e um saquinho de chá na outra. “Café ou chá?” Parecia uma boa fala de abertura. Arrancar um sorriso dele poderia garantir que ele não iria bater a porta na cara dela por ser uma bruxa tão covarde, que fugira dele na outra manhã sem lhe dar a polidez de uma explicação.

Finalmente eles chegaram ao hotel.

Ela assobiou enquanto caminhavam pelo saguão, devidamente impressionada. O sujeito fez um belo esforço para montar aquele pequeno refúgio de feriado.

– Não fique muito empolgada – murmurou ele enquanto se aproximavam da recepção. – Eu só fiz a reserva ontem. Eles provavelmente estão desesperados para tirar proveito de cada otário que conseguirem no feriado, de modo que pode acabar dormindo em uma caminha dentro do armário do zelador.

Demi riu, mas sinceramente, ela não se importava. Contanto que eles pudessem ficar a sós e houvesse uma cama por perto, tudo bem para ela.

Poucos minutos mais tarde, quando eles chegaram ao seu quarto, ela percebeu que Joe não precisava se preocupar. Nenhum deles estava rindo enquanto caminhavam para dentro e olhavam em volta. Apesar da reserva de última hora, o quarto era lindo, com uma enorme cama macia, mobília elegante e grandes janelas que davam para baixo na movimentada Avenida Michigan. Ela não tinha dúvidas de que ele pagara várias vezes a taxa do que teria sido em qualquer outra noite do ano.

– Nada mau – admitiu ele.

– É incrível – sussurrou ela, não se referindo exatamente ao quarto, mas a um fator nele.

Joe obviamente tinha sido específico com seus pedidos, porque havia centenas de pétalas de rosas vermelhas espalhadas em cima da cama luxuosa.

– Qual jogo vamos fazer aqui? – Ela quis saber, de repente um pouco cautelosa e desconfiada.

Aquilo parecia coisa de lua de mel. E ao mesmo tempo em que reconhecia mentalmente que não podia deixar Joe ir embora sem dar mais uma chance aos sentimentos que tinham um pelo outro, Demi não estava nada preparada para alianças e véus brancos.

Mentirosa.

Tudo, talvez aquele pensamento tivesse cruzado sua mente. Mas só no esquema “um dia, possivelmente”.

Definitivamente nada para breve.

Joe leu a expressão dela com precisão.

– Não se preocupe, se eu quisesse brincar de lua de mel, eu teria levado você a um daqueles lugares em Poconos, com camas em formato de coração e banheiras em formato de taça de champanhe.

Ela lhe deu um soquinho no braço, respondendo instintivamente:

– Nós não vamos passar nossa lua de mel na Pensilvânia!

Só depois que as palavras saíram é que Demi percebeu o que tinha dito. E reconheceu as implicações.

Vendo o calor nos olhos de Joe, ergueu a mão.

– Espere. Não foi isso que eu quis dizer. Eu não estou dizendo…

– Quer ficar de boca fechada? – pediu ele com doçura, com ternura. Daí ergueu a mão para acariciar o rosto dela, roçar o polegar na bochecha. – Apenas pare de pensar nisso, pare de falar sobre isso e me ame.

Foi simples assim.

Ela assentiu, ficando na ponta dos pés para pressionar os lábios contra os dele. Com a mesma doçura, o mesmo carinho. Quando o beijo terminou, ela manteve os braços ao redor do pescoço dele, olhando para o rosto bonito.

– Eu te amo.

– Eu sei.

Ela o beijou novamente.

– Eu não deveria ter ido embora no outro dia sem confessar isso.

– Eu entendo por que você o fez.

Franzindo a testa, ela baixou os braços e, lentamente, sentou-se na beirada da cama, tomando cuidado para não atrapalhar as pétalas.

– Você sabe?

Ele puxou uma cadeira e sentou-se mais perto dela, apoiando os cotovelos nos joelhos, as mãos balançando entre as pernas entreabertas. A expressão era séria quando como ele disse:

– Todas as dificuldades que você certamente acha que enfrentaremos podem ser contornada. Minha família, sua família, nossos empregos, nossas casas. Toda essa coisa de geografia que não ensinam mais nas escolas.

Joe não precisava prosseguir. Demi já tinha percebido que nenhum daqueles problemas realmente importava. Podiam ser contornados. Na verdade, ela já tinha falado com seu tio sobre modificar seu horário de trabalho, para que pudesse, conforme Jazz sugerira, decolar de fora de Pittsburgh.

Tio Frank havia sido incrivelmente favorável depois de descobrir o motivo.

Incentivando-a a não deixar que seu mau exemplo a levasse a uma vida tão solitária quanto a dele, ofereceu-se para fazer o que fosse necessário para acomodá-la.

– Joe, eu…

– Deixe-me terminar, por favor. – Ele deu um sorrisinho como se desnudando completamente seu coração para ela.

– Eu te amo. E depois que conversamos na outra noite no carro, percebi que a vida é muito frágil para não ser passada com a pessoa que se ama.

Ela compreendia. Tinha pensado a mesma coisa na manhã em que fora embora… só que ela escolhera o caminho covarde de fugir para não ter de lidar com qualquer dor, perda e sofrimento. Ela acabou tudo e fugiu. Joe era muito mais ousado, mais disposto a arriscar o futuro em prol das coisas boas que ele poderia ter hoje.

Esse tipo de coragem emocional no mínimo dava a ele o direito de saber toda a verdade.

– Eu não fui embora porque estava com medo por mim, mas porque estava com medo por você.

– O quê?

– Não quero magoar você, Joe. Eu te amo muito. Acabei acostumada à ideia de que estou destinada a machucar os homens porque não sirvo para relacionamentos.

Ele balançou a cabeça.

– Isso é loucura, você não…

– Eu sei disso agora. Sentada em casa nas últimas noites, fazendo uma retrospectiva mental, percebi que todos os relacionamentos fracassados para os quais eu não era feita tinham uma coisa em comum.

– O quê?

– Eles não foram com você.

Ele a tomou nos braços, colocando-a em seu colo. Demi o abraçou, absorvendo o calor e a essência dele, então disse:

– Como um relacionamento amoroso pode funcionar quando apenas uma pessoa está realmente apaixonada?

– Não pode.

– Exatamente. E uma vez que percebi isso, uma vez que reconheci que eu nunca fui apaixonada por ninguém até agora, eu finalmente relaxei. Livrei-me da culpa, do remorso, da vergonha.

Ele a apertou.

– Você não tem nada do que se envergonhar.

– Diga isso às redes sociais – murmurou ela. Mas Demi rapidamente afastou tal pensamento. Não havia espaço para a escuridão agora, só havia luz e felicidade, paixão e possibilidades. Amor.

– Não há nada de errado comigo – admitiu ela, para ambos. – Eu apenas não me apaixono com facilidade.

– Nem eu.

– O que significa que nenhum de nós vai cair fora facilmente, certo?

Ele a beijou no topo da cabeça, prometendo:

– Nenhum de nós vai cair fora, de jeito nenhum.

Ele não tinha como saber disso.

Ninguém sabe de uma coisa dessas. Mas Demi acreditava nele. Com todo seu coração, com todos os instintos que possuía, ela acreditava nele.

– Não posso prometer que não serei insensível e egoísta às vezes – alertou ela. – Não posso dizer que eu nunca vou fazer algo egoísta e que nunca vou magoá-lo.

– Bem – respondeu ele, depois de pensar um pouco: – Não posso dizer que sempre vou me lembrar de baixar o assento do vaso sanitário ou de não espremer o tubo de pasta de dente pelo meio.

Ela riu baixinho.

Ele pensou um pouco mais.

– Eu não posso prometer que vou deixar você me algemar da próxima vez que brincarmos de polícia e ladrão… mas posso concordar com alguns lenços de seda.

Ela riu mais, como se soubesse o que aquilo significava para ele. Então Joe ficou mais sério.

– Não posso dizer que nunca vou trabalhar até tarde. Ou que algumas vezes não vou querer ficar sozinho com meus pensamentos. Em alguns dias do ano meu humor vai ficar sombrio e eu não vou querer falar sobre isso.

Percebendo a mesma pitada de tristeza que ouvira na voz dele na outra noite, Demi compreendeu.

Totalmente.

– Tudo bem. Mas não posso prometer que não vou tentar sequestrar você do trabalho de vez em quando para que eu possamos voar para Aspen e esquiar um pouco.

Ele sorriu.

– Isso soa bem. Especialmente porque não posso prometer que não teremos de lidar com uma das minhas irmãs de TPM, surtando e telefonando no meio da madrugada porque teve uma briga com o namorado e precisa de uma carona.

A família de Joe fazia parte da vida dele. Demi sabia disso. E a maneira como ele se importava com eles era uma coisa de que ela mais gostava dele. Ainda assim, a lembrança do primeiro encontro com os familiares dele se intrometeu. Mordiscando o lábio, ela perguntou:

– Será que todos eles me odeiam?

– Não! Nem um pouco. Na verdade, duas de minhas irmãs apareceram na minha casa ontem à noite me perguntando por que eu ainda não tinha vindo até aqui para reconquistar você.

Ela deu um suspiro de alívio. Embora não quisesse admitir, a ideia de um casamento tinha, de fato, rondado sua mente uma ou duas vezes. Ela imediatamente deu uma de Demi e começou a se preocupar sobre como seria ter damas de honra que a odiavam em sua festa de casamento.

Além disso, tinha Jazz. E sua irmã, Abby. Ai, Deus…

Não pense nisto isso agora.

– Também devo informar que minha mãe ligou para pedir desculpas e me pediu para lhe dizer que, apesar de seu comportamento naquela primeira noite, ela não seria uma sogra perversa. O que é verdade… Ela tem andando triste ultimamente, mas nunca foi agressiva ou tentou interferir na minha vida. Eu é que sempre fiquei cuidando da vida deles.

– Isso é porque você é um homem muito bom – sussurrou ela.

Um homem realmente bom, sexy e divertido.

Um homem que ela merecia.

Pela primeira vez, Demi se permitiu acreditar que era possível. Que poderia fazer o homem certo feliz. Ela o merecia, sim.

Joe era aquele homem certo.

Embora as pétalas de rosa acenassem, e ela estivesse louca para se livrar de suas roupas e tirar a roupa de Joe, assim ele poderiam expressar seu amor da forma mais básica e sensual possível, teve de acrescentar mais uma coisa. Mais uma promessa de que pretendia manter:

– Eu nunca vou fugir de você, Joe.

– Claro que vai. – Ele sorriu com ternura. – Mas eu sempre irei atrás de você.

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Acabou... Mas amanhã tem história nova.
Comentem o que acharam dessa fic.
Bjinhos xoxo

10.9.15

Faça Meu Jogo - Capitulo 10


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DEPOIS QUE eles saíram do escritório, Joe insistiu em levar Demi para jantar mais tarde. Já havia passado de 20h, ambos estavam exaustos e um bife era o mínimo que ele poderia oferecer a ela, considerando que Demi tinha acabado de ficar cara a cara com a pessoa que estava manipulando as cordas há meses, embora Demi não soubesse.

Eles foram para um dos lugares favoritos de Joe, não muito longe de casa. Era discreto, com boa comida e serviço excelente. Não havia encenação, nem mesmo um sopro de sugestão para ser outra coisa senão quem eles eram de verdade. Joe não mencionou isso, não querendo que Demi pensasse nem por um minuto que o decepcionara.

Pelo contrário, ele não poderia estar mais satisfeito por ela ter continuado a derrubar suas barreiras, a baixar a guarda e simplesmente ser ela mesma… a mulher por quem ele havia se apaixonado.

Joe sabia que ela não queria ouvir, e que ela o alertara em relação a isso, mas não havia como esconder a verdade, principalmente de si mesmo. Ele estava seriamente apaixonado pela mulher. Enlouquecido com o tipo de amor que ele tinha visto nos outros, como seus pais, mas não tivera tempo de pensar que poderia encontrar por si só.

No final da refeição, eles estavam rindo enquanto tentavam superar um ao outro com planos exagerados de vingança contra tia Jean. Ele também havia prometido a Demi dezenas de vezes que se e quando se encontrassem com os familiares dele novamente, iam ter de pedir desculpas para compensar as presunções e frieza para com ela.

Isso aconteceria mesmo se tivesse de pedir, chantagear e intimidar todos em sua família para assegurar isso.

Uma vez que acabaram de comer, eles caminharam até o carro. A noite já tinha avançado, e Demi estremeceu no ar gelado.

– Você está bem? – perguntou ele, colocando um braço no ombro dela e a puxando para mais perto.

Ela assentiu, segurando o casaco apertado em torno do corpo.

– Como pode ser mais frio aqui do que em Chicago?

– Não é.

– Com certeza parece ser.

– Eu vou aquecer você – ofereceu ele.

Ela olhou para ele de soslaio.

– Estou contando com isso.

Uma vez dentro do carro, Joe observou enquanto Demi afivelava o cinto de segurança, em seguida, colocou a chave na ignição. Mas ele não ligou o carro imediatamente. Em vez disso, olhou para sua companheira, se perguntando o que ela realmente estava pensando, imaginando se seu bom humor encobria qualquer vestígio de ressentimento persistente sobre a confissão de sua tia.

Por fim, ele apenas perguntou:

– Você tem certeza de que está bem?

– A-hã. Estou tão bem quanto alguém que está sendo perseguida por um mafioso louco de Las Vegas e que foi confundida com uma prostituta pode estar. – Sacudindo a cabeça tristemente, ela acrescentou: – Realmente não é justo que eu possa ser acusada de ser uma prostituta e não tenha a experiência sórdida para apresentar. E tenha sido chamada de ladra sem estar com as joias.

Qualquer eventual resto de tensão evaporou, e Joe teve de admirar a maneira como ela havia encarado bem todos os acontecimentos dos últimos dias. Do mesmo jeito que ela fazia com tudo.

Algumas mulheres teriam ido embora naquela primeira noite, depois de ter sido tratada tão duramente por seus familiares insistentes. Outras poderiam ter ficado ressentidas por serem movimentadas como um peão em um tabuleiro de xadrez por uma velhinha rica e intrometida que gostava de fazer as coisas do seu jeito.

Entretanto Demi simplesmente aceitou as adversidades, riu e nunca se queixou sobre o que não podia mudar. Joe achava aquilo incrivelmente atraente.

Joe também gostou do jeito como ela brincou com ele sobre isso enquanto se dirigiam de volta à casa dele, perguntando o que a sua doce e velha tia pensaria se soubesse das coisas selvagens que ele tinha feito com ela na noite anterior. Como se para lembrá-lo, Demi colocou a mão na coxa dele.

Então começou a deslizá-la, centímetro por centímetro.

De repente, porém, quando já estava lá no alto, sussurrando algo sobre como tornar a volta para casa ainda mais agradável, Joe pôs a mão sobre a dela e a apertou, balançando a cabeça em silêncio.

Ele não precisou dizer nada. Ela compreendeu imediatamente. Inspirando de forma constrangida, ela se afastou.

– Ah, Joe, desculpe.

– Está tudo bem – murmurou ele, sabendo que ela entendia por que ele era um motorista tão cuidadoso.

Havia alguns jogos que ele nunca jogaria, alguns riscos que nunca iria correr. Independentemente de qualquer coisa. Ele aprendera essa lição muito bem.

– Sou uma idiota. – Ela suspirou pesadamente. – Uma idiota insensível. – Ela dobrou uma perna, envolvendo os braços em torno dela e apoiando o queixo no joelho erguido, olhando pensativamente para o tráfego pelo para-brisa. Com uma pitada de melancolia na voz, ela acrescentou: – Ele deve ter sido um homem maravilhoso, já que você acabou se tornando um sujeito sensacional.

– Sim, ele era.

Joe ficou em silêncio, no início evitando se prolongar. Falar sobre seu pai provavelmente era tão difícil para ele quanto era para Demi falar da própria família. Não pelas mesmas razões, é claro. As feridas dela eram antigas e cicatrizadas, e ela não sentia mais a dor. As dele eram recentes e cruas, e ele simplesmente não tinha vontade de cutucá-las e iniciar o sangramento todo outra vez.

Entretanto ele podia dizer pelo silêncio contínuo que Demi se sentia um lixo por ter sugerido brincar enquanto ele estava atrás do volante. A última coisa que Joe queria era piorar a situação. Então ele começou a falar:

– O nome dele era Patrick, e ele morreu muito jovem.

Ela virou a cabeça para olhar para ele, os olhos arregalados e hesitantes.

– Você não precisa…

– Está tudo bem. Na verdade, é bom poder dizer o nome dele sem que alguém comece a irromper em lágrimas.

Demi não estava chorando, mas Joe podia dizer, mesmo sob a pouca iluminação do carro, que ela estava com os olhos úmidos.

– Ele ficou trabalhando até tarde como de costume. E estava dirigindo muito rápido, para chegar a um dos jogos de basquete de Jack. Ele havia perdido os últimos por causa do trabalho e eles tiveram uma briga imensa por causa disso no dia anterior. Ele prometeu que iria ao próximo. Só que… ele nunca chegou

– Ai, meu Deus, pobre Jack – sussurrou ela, captando a situação imediatamente. – É muito peso para uma criança suportar.

– Nem me diga. Ele foi o único com quem me preocupei de fato. Ele está zangado com o mundo, às vezes se comporta de forma mesquinha e rebelde, às vezes é só um garoto perdido se perguntando o que aconteceu.

Demi estendeu a mão, desta vez entrelaçando os dedos aos dele num toque que era só doçura e conforto. E porque ela não fez nenhuma pergunta, não se intrometeu de maneira alguma, apenas deixando-o dizer o que queria, Joe sentiu-se bem em continuar falando.

Ele contou a ela sobre a referida noite. Sobre as noites que se seguiram.

Sobre o quão duro tinha sido escolher um caixão e uma lápide, e manter a mãe de pé e cuidar para que as irmãs não chorassem, e manter o funcionamento da empresa e evitar que seu irmão não estragasse a própria vida por causa da culpa, e ainda manter a própria sanidade em meio ao próprio luto profundo e doloroso.

Era como se alguém tivesse puxado um tampão e todas as palavras que não foram ditas durante dois anos tivessem vazado. E só quando as derramou foi que Joe percebeu o quanto estava precisando dizê-las. Ao assumir o papel do forte, do estoico, do sujeito estável, ele também se tornara o único que não pudera liberar a raiva e a mágoa que estavam trancadas dentro dele.

No momento em que terminou, eles estavam sentados no carro, dentro da garagem, há vários minutos. Então ficaram em silêncio, nenhum deles sequer olhando um para o outro, ou fazendo menção de sair do carro. Mas, finalmente, uma vez que Joe respirou fundo e percebeu que o mundo não tinha acabado só porque ele admitira a alguém que às vezes se ressentia de sua vida e de sua família, e até mesmo seu pai, ele olhou para ela e enxergou o tipo de calor e bondade que Demi Bauer provavelmente nem mesmo sabia possuir.

– Está tudo bem – sussurrou ela. – Tudo que você está sentindo é completamente compreensível. – Ela levou a mão dele à boca, dando um beijo suave, gentil nas costas dos dedos. – Lamento por você e sua família terem tido de passar por isso, Joe. Então me desculpe.

– Obrigado – disse ele, esfregando os dedos na bochecha macia de Demi. Ele abriu a boca para continuar, para agradecê-la e dizer que não precisava sentir pena dele. E também notou um pedido de desculpas nascendo em seus lábios, sentindo-se mal por ter despejado tudo em cima dela assim. Mas antes que pudesse falar qualquer coisa, algo lhe chamou a atenção.

Uma sombra se esgueirava nos cantos de sua casa.

Ele enrijeceu, inclinando-se para olhar além de Demi, pela janela, mas não viu nada. Pensando no que tinha visto, Joe sabia que não tinha sido Ralph. Ele nunca deixava o cachorro do lado de fora quando saía. E a forma nem se parecia com qualquer outro tipo de animal.

Era do tamanho de um homem.

– Fique no carro e tranque as portas – pediu ele, tentando alcançar a maçaneta da porta.

– Hein?! – Demi virou a cabeça para ver o que ele estava olhando. E se deu conta quase que imediatamente. – É ele? Espere! Não se atreva…

Entretanto Joe já tinha saído para a noite fria, fechando a porta delicadamente detrás de si. Talvez o desgraçado do Lebowski não soubesse que tinha sido visto.

Joe fez uma pausa por um segundo para olhar para Demi, que assistia a tudo de dentro do carro com olhos arregalados. Fazendo um movimento de discagem com a mão, ele murmurou “Ligue para a polícia”, então rastejou pelo gramado do próprio jardim.

Embora Parker tivesse dito que o ladrão não era considerado perigoso, Joe não queria correr nenhum risco.

Quando passou pelo canteiro da frente, inclinou-se e agarrou um gnomo de cerâmica horroroso que uma de suas irmãs tinha lhe dado de presente no open house. A coisa era pesada, era sólida na palma da mão. E se batesse contra o crânio de alguém, Joe desconfiava de que ia doer muito.

O gnomo serviria.

A noite estava fria e sem luar, o vento chicoteando as poucas folhas mortas restantes ainda caídas no quintal. Joe se movimentava em silêncio, aproximando-se do canto da casa, olhando cuidadosamente ao redor antes de prosseguir.

Viu Lebowski imediatamente. O ladrão estava tentando usar um cartão de crédito para arrombar a fechadura da porta lateral que dava para a área de serviço. Murmurando xingamentos, o ladrão parecia desajeitado e não muito calmo, como se ele tivesse ficado assustado quando ouviu o carro encostando na garagem e agora estivesse à beira do pânico.

Joe desconfiava de que o sujeito estivesse ali há um tempinho. O fato de o gatuno não ter fugido quando ele e Demi retornaram dizia muito sobre o quão desesperado Lebowski estava para conseguir o que pensava estar em poder de Joe e Demi.

O cara podia ser espertalhão, mas não tinha as manhas de um criminoso. Ele nem mesmo percebeu Joe chegando por trás dele, dando um sobressalto em choque quando Joe pressionou a ponta aguda do chapéu do gnomo contra o cóccix do homem.

– Um movimento e você está morto.

– Ahhhh, que droga, cara – lamentou-se o sujeito. – Não, não atire, por favor, não atire. Eu não ia machucar ninguém. Eu só queria pegar o que é meu e sair daqui antes de você voltar!

– Sim, então por que você sentiu a necessidade de ameaçar minha namorada? – perguntou Joe, cravando o chapéu um pouco mais nas costas do desgraçado.

– Você está brincando comigo? Eu não a ameacei. Aquela vadia é louca, ela não tem medo de nada. Ela me assusta! – O homem arriscou uma espiada sobre o ombro, empalidecendo um pouco mais quando notou a fúria óbvia no rosto de Joe. – Desculpe.

– Eu certamente não sou louca – disse uma voz, irrompendo na noite fria tão nítida e enérgica como um chicote.

Joe ia matá-la.

– Eu pedi para ficar no carro. – Ele teve de forçar as palavras a saírem entre os dentes cerrados.

– E eu fiquei. Liguei para a polícia, eles vão chegar a qualquer momento. Quando vi que as coisas estavam sob controle, pensei em voltar e ver se você gostaria de usar isto. – Ela estendeu a mão, oferecendo o cinto longo do sobretudo.

Ideia inteligente. Joe tinha imobilizado Lebowski, contudo não pensara em como mantê-lo assim até a polícia chegar. Se o bandidinho descobrisse que estava sendo rendido por uma cabeça de cerâmica de um gnomo, ele poderia sair do clima para aguardar ali e esperar para ser preso.

– Tudo bem. Pode amarrá-lo.

Ela se aproximou com cuidado.

– Ponha as mãos atrás das costas.

– Eu juro, eu só queria minhas joias. Eu devo dinheiro para alguns colegas e, se eu não aparecer com elas, vão me matar.

– Bem, espero que eles não sejam capazes de rastrear você até uma cela – disse Demi, parecendo distintamente amarga e um pouco satisfeita diante daquela ideia. Não que o sujeito não merecesse isso.

Enquanto amarrava as mãos de Teddy Lebowski atrás das costas, puxando o tecido tão apertado que o sujeito fez uma careta, ela também disse mais uma coisa:

– E você pode me chamar de a maior vadia do universo. Mas eu não sou louca.

JOE NUNCA havia tocado Demi com mais ternura, com mais carinho do que fez naquela noite, depois que eles assistiram a Teddy Lebowski sendo levado pela polícia local. Eles seguiram para o andar cima com os braços ao redor da cintura um do outro, a cabeça de Demi apoiada no ombro dele num cansaço absoluto.

Contudo, uma vez que tiraram as roupas e se encontraram no meio da cama de Joe, o sono passou longe da mente de Demi. E da de Joe.

Ele passou horas acariciando-a, saboreando cada centímetro de sua pele, provocando-a com beijos suaves e lentos, com carícias deliberadas. Cada roçar de lábios incluíra um sussurro doce, cada abraço, um suspiro de prazer.

Mesmo quando ele despertou todos os sentidos dela, levando cada terminação nervosa ao seu pico, ele a fez sentir-se… querida.

Adorada.

Não houve absolutamente nenhum frenesi. Eles trocaram beijos longos e lentos que não estimulavam qualquer urgência, não os faziam querer ir mais rápido ou apressar o que quer que viesse em seguida. Eles ficaram encantados apenas com o quão bem se sentiam, o quão era íntimo, pessoal e certo.

Beijar era um ato extremamente íntimo, Demi percebia agora. Ela sempre considerara o beijo mais um prelúdio para outras coisas, mas nos braços de Joe, sob a atenção extasiada dele na qual todos os toques traziam ondas de sensação, ela adquirira uma avaliação totalmente nova para um simples beijo.

Ela nunca havia experimentado nada parecido. Nunca tinha sonhado que lágrimas de emoção iriam lhe encher os olhos quando um homem deslizasse lentamente para dentro de seu corpo. Ela nunca imaginara cada deslizar funcionando como uma declaração, e cada impulso suave, uma promessa.

Nem tinha imaginado que, quando estivesse quase no fim, quando estivesse rendida a clímax após clímax, e soubesse que ele também estava chegando lá, que ela realmente sentiria o coração dividido com o som das palavras que Joe sussurrara com delicadeza ao seu ouvido: Eu te amo.

Pronto, ele tinha falado o impensável. A coisa que ela avisara para ele não fazer. Ele havia se apaixonado por ela. E dissera isso a ela.

Parte dela se perguntava por que ainda não tinha ido embora, saindo no minuto em que ele adormecera. A velha Demi teria fugido para as montanhas ou para as planícies, ou para outro continente, onde ela não teria de lidar com os sentimentos de outra pessoa aos quais ela simplesmente não correspondia.

Ela não precisava pensar muito. A resposta era simples, na verdade. Ela correspondia àqueles sentimentos, sim.

E aquilo partia o coração dela ainda mais.

Deitada nos braços de Joe depois que ele havia caído no sono, Demi não conseguia parar de pensar naquele momento em que estava sentada no carro, quando vira Joe desaparecer ao virar na quina da casa. Ela já tinha ouvido a expressão “coração saindo pela boca” para descrever um medo muito grande. Mas nunca experimentara isso… até então.

Não importava o que Parker dissera, ou que ele estava certo ao presumir Lebowski como um punk covarde que não tinha coragem de cometer violência real. Não havia jeito de ter certeza disso. À medida que os segundos se passavam, quando seus ouvidos ainda estavam ressoando os sussurros pesarosos e angustiados sobre o pai de Joe, a quem ele amara e perdera, Demi só conseguia pensar no pior.

Perder Joe, se algo acontecesse a ele… ela não seria capaz de suportar. E embora não tivesse desenvolvido apreço pela família dele ainda, dado o comportamento dele na noite anterior e o fato de a mãe ter olhado para ela como se Demi fosse algo saído de um vaso sanitário, de repente ela sentia toneladas de compaixão por eles.

A dor de perder alguém que você amava profundamente devia ser inimaginável. E talvez fosse uma das razões para ela ter desejado experimentar tal emoção.

Tarde demais. Ela, a bruxa fria e destruidora de corações, tinha se apaixonado. Completa, total e irrevogavelmente apaixonada. O gelo havia derretido, seu coração começara a bater com propósito e energia renovada. E o homem por quem ela se apaixonara era incrivelmente sexy, inteligente, engraçado, leal… e sensacional.

No entanto, em vez de tal percepção enchê-la de alegria, Demi só conseguia ficar deitada ali no escuro se perguntando quanto tempo levaria até ela estragar tudo.

Qual seria a primeira coisa insensível que ela diria para começar a lancinar os sentimentos de Joe por ela? Que viagem ela faria, de qual aniversário ela se esqueceria, que necessidade ela iria ignorar, que promessa não iria cumprir? Quanto tempo até ela se sentir confinada, contida, simplesmente querendo ir embora?

Porque tais coisas eram inevitáveis.

Esse era seu modus operandi. Não, ela nunca tinha ido tão longe a ponto de se apaixonar, mas isso não importava, não é? Ela sempre decepcionava os homens, sempre os magoava, sempre os dispensava.

Ela era exatamente como tio Frank. Irresponsável, imprudente, adorável, porém indigna de confiança tal como tio Frank. Era o que todos diziam.

De repente, ela queria chorar. Porque o quão ruim era finalmente se apaixonar, realmente se apaixonar, e perceber que você gostava da pessoa demais para fazê-la sofrer?

Joe era muito bom, bom demais para ela. Demi não queria machucá-lo.

Não só isso, ele tinha um milhão de coisas em suas costas, obviamente estava em uma situação complicada por causa das exigências de todos ao seu redor. Sendo assim, como ela poderia acrescentar algo a isto, tornar-se mais uma coisa com a qual ele iria se preocupar, mais um peso em seus ombros?

Engraçado, quando ele percebesse que ela havia ido embora, provavelmente iria achar que tinha algo a ver com sua família, com suas responsabilidades, com seus laços que o prendiam com tanta força àquele lugar e àquelas pessoas. Todas as coisas que ele contara a ela durante a carona para casa essa noite.

Na verdade, nada daquilo realmente importava. Demi tinha dito a si que nunca ficaria no mesmo lugar, vivendo o mesmo tipo de vida que seus pais. Mas não era preciso ser um gênio para ver que ela não precisava fazer aquilo. Estava na casa de Joe há quase uma semana, e o mundo não tinha acabado. Ela continuava a dormir todas as noites e a acordar todos os dias. Continuava inspirando, expirando. Continuava trabalhando, continuava voando, continuava vivendo.

Eles poderiam fazer funcionar.

Se ela não estivesse tão certa de que não iria durar.

Foi essa certeza que a levou a sair da cama logo após o amanhecer. Por um momento, lhe ocorreu a ideia de simplesmente sair, ir para o aeroporto. Esse tinha sido seu procedimento operacional padrão no passado.

No entanto Joe não merecia esse tipo de tratamento. Além disso, ela não era mais aquela pessoa. A covardia e a imaturidade a levaram a tomar tais decisões no passado. Agora ela não estava com medo, e enxergava a situação por meio de olhos tranquilos de um adulto.

Não ia dar certo. Não em longo prazo.

Assim, ele ficaria melhor caso terminassem no curto prazo.

Sentado à mesa da cozinha, com Ralph a seus pés, o cachorro fofo de quem ela iria sentir saudades, Demi bebericava uma xícara de café e aguardava até o frio da manhã abandonar seus ossos.

Entretanto isso não aconteceu. Nem um pouco. Ela simplesmente ficou sentada ali, triste e sentindo frio, aguardando Joe descer.

Finalmente, ele o fez. Quando entrou na cozinha, Demi só conseguiu encará-lo. Ele usava calça de moletom, estava sem camisa, e ela olhou para os braços fortes que a envolveram durante a noite, para as mãos másculas que lhe deram tanto prazer. Para o peito largo onde ela havia se recostado para dormir.

Deus, como era difícil. O amor era difícil.

Ele percebeu antes de Demi dizer qualquer palavra que ela estava partindo.

– Você precisa de uma carona para o aeroporto? – perguntou ele, sem encará-la.

– Joe…

Ele dispensou a explicação.

– Eu sei. Fim de jogo. Capturaram o bandido. Não é nem mesmo feriado, por isso não há razão para você ficar.

Havia um milhão de razões para ela ficar, mas uma realmente boa para ela ir. Todos os homens do grupo Chutados por Demi Bauer podiam atestar isso. Ela simplesmente não era feita para relacionamentos sérios, carinhosos.

– Eu fiz o impensável – acrescentou ele, soando tão cansado e parecendo tão resignado, que o coração de Demi se contorceu no peito. – Eu me apaixonei por você quando lhe disse que não o faria.

Ele finalmente encontrou o olhar dela, observando-a com atenção. Parecia estar procurando alguma coisa, um sinal, uma hesitação, um indício de que ela estava feliz por ele a amar.

Foram necessários todos os gramas de força de vontade dela para não entregar aquele indício.

Finalmente, com um aceno curto que dizia que ele tinha captado a mensagem, Joe quebrou o contato visual.

– Então… você precisa de uma carona?

– Posso pegar um táxi – murmurou ela.

– Tudo bem. Adeus, Demi.

Ele não disse mais nada, apenas se virou e saiu da cozinha. Seus passos eram duros quando subiu as escadas, e lá de cima Demi ouviu a porta bater com força quando ele entrou no banheiro.

O chuveiro foi aberto. Seria, sem dúvida, um banho longo. Ele precisava que ela já não estivesse lá mais quando ele saísse do banheiro. Aquilo era fato consumado.

Ela subiu, rapidamente jogou as roupas novas nas sacolas de compras nas quais elas tinham vindo. Sem pensar, atravessou a sala, caminhando até a porta do banheiro. Ela ergueu o punho, meio tentada a bater. Mas a mão se abriu e espalmou a porta. Ela a pressionou contra a madeira, os dedos abertos, quase capazes de sentir o ar repleto de vapor do outro lado. Fechando os olhos, Demi encostou a testa contra a porta, imaginando-o no chuveiro, já magoado com ela, quando esta era a última coisa que ela queria fazer.

Melhor agora que depois.

Ela abriu os olhos. Baixou a mão. Pegou a sacola. Então Demi Bauer saiu do quarto de Joe Campbell e da vida dele pela última vez.

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Reta final!!!
xoxo

8.9.15

Faça Meu Jogo - Capitulo 9


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DEZ HORAS depois e Demi ainda não havia absorvido o choque da noite anterior. Ela se sentia atordoada sempre que pensava no assunto.

– Simplesmente não consigo acreditar que você fez isso. Sua família deve me odiar – disse ela enquanto entrava no banheiro de Joe na manhã seguinte. Havia passado a noite na casa dele, é claro, pois não tinha para onde ir e não havia trazido uma única peça de roupa.

Ela agora usava uma das camisetas dele, que mal lhe roçava as coxas. Não que ela tenha precisado de alguma coisa para usar na noite anterior. Ah, não, ele a mantivera bem aquecida ao fazer amor com ela até poucas horas atrás, quando eles finalmente caíram num sono exausto.

Demi gostava de sentir a camisa, gostava do cheiro de Joe agarrado a ela, e sentia-se perfeitamente confortável invadindo o banheiro e dando um pulinho para se sentar no balcão da pia.

Era estranho eles já estarem tão confortáveis um com o outro, como amantes de longa data. Estranho, porém agradável.

– Não se preocupe com isso – disse Joe, olhando para ela pelo reflexo do espelho. Ele estava perto da pia, fazendo a barba, a diversão em guerra com a satisfação sexual preguiçosa em seus olhos. – Vou contar a verdade, e todos vão morrer de vergonha e pedir desculpas.

A verdade? Que ela era a amante de feriados que fizera joguinhos sensuais com ele por todo o país desde o Dia das Bruxas? Ah, que lindo.

– Mas você disse que eu era sua esposa.

– Não, eles me disseram que você era minha esposa e esfregaram a “evidência” na minha cara para provar isso.

Aquele maldito vídeo. Demi ainda não conseguia acreditar. Alguém havia filmado os dois naquela noite, provavelmente com um celular, e eles nem perceberam. Que Deus a ajudasse se algum de seus clientes corporativos desse de cara com o tal vídeo.

Pelo menos ela não estava tão facilmente reconhecível. Ao contrário de Joe, completamente desprovido de uma fantasia.

– Mas você confirmou. Meu Deus, Joe, o que estava pensando?

– Bem, eu estava pensando que minha família é composta por um bando de intrometidos e curiosos que mereciam uma vingancinha. – Sorrindo, ele passou a navalha ao longo de mais uma faixa negra no queixo fino. – Se minha tia Jean não tivesse escapado pela porta dos fundos antes de você chegar, eu teria cogitado seriamente jogar a bomba da gravidez, também.

– Opa, garotão – disse ela, sabendo que tinha soado horrorizada. Ela saltou do balcão e saiu do banheiro, as mãos erguidas num sinal de “pare” visível. – Isso nem mesmo é engraçado.

Ele não olhou para ela, aquele sorrisinho ainda brincando na boca enquanto ele raspava ao redor dela. Ignorando o espanto de Demi, ele disse:

– Você não conheceu minha tia Jean.

Não, não conhecera. Tampouco achava que queria conhecer. Demi havia conhecido o suficiente do clã na noite anterior e não fazia questão de expandir ou de repetir a experiência. Ela balançou a cabeça lentamente.

– Eu devia ter negado suas palavras.

– Fico feliz que você não o fez.

Ele podia rir. Não era ele quem estava sendo assassinado mentalmente por um grupo de mulheres que achava que ela havia encurralado ou drogado seu irmão e filho.

É. A negação teria sido o caminho correto. Mas Demi ficou tão surpresa com a afirmação de Joe que só conseguiu ficar observando em silêncio enquanto a família chocada dele calmamente se levantava e se dirigia até a porta. Ela não disse nada enquanto elas ficaram murmurando pedidos de desculpas para Joe pela invasão e foram embora, oferecendo a Demi olhares que variaram de aversão a pena. Elas foram embora cinco minutos após sua chegada.

Outra coisa que ela poderia ter feito: poderia tê-las seguido. Teria sido ainda melhor ter ficado em casa em Chicago tentando telefonar para Joe durante a noite inteira, em vez de voar para bancar a super-heroína e protegê-lo do bandido.

Super-heroína é o escambau. Ela viera pessoalmente porque queria vê-lo. Só isso. A história do bandido de Las Vegas era só um maldito pretexto.

E ela permaneceu lá pelo mesmo motivo. Permaneceu, apesar da mentira louca, apesar da desgraça absoluta que foi ficar cara a cara com as mulheres da família dele, de ser apresentada como namorada, não, esposa, como se ele de fato tivesse algum direito de fazer isso.

Demi permaneceu depois de enfrentar as mulheres que pensavam que ela fazia sexo por dinheiro.

Ela estava com vontade de vomitar.

Retornando ao quarto, ela só parou quando suas pernas bateram na borda da cama imensa de Joe, e então Demi sentou-se lentamente. Em quê diabos ela havia se metido? E não estava nem mesmo se referindo ao fato de que um assaltante furioso a seguira por metade do país e até mesmo poderia estar estacionado em frente à porta de Joe agora, só esperando para arrombar o local.

Não que Joe parecesse se importar.

Na verdade, quando Demi lhe contara o motivo de ela ter viajado até ali, ele passou cerca de cinco minutos totalmente enfurecido e os trinta seguintes murmurando todas as maneiras como pretendia punir o sujeito caso ele realmente tivesse coragem de aparecer.

Ela só queria chamar a polícia. E era exatamente o que eles iriam fazer dali a algumas horas, uma vez que o fuso horário estivesse adequado para entrar em contato com Las Vegas, e eles tivessem a grande chance de pegar o policial Parker no trabalho.

Nesse meio-tempo, Demi não sabia bem o que fazer. Ela já tinha telefonado para Ginny e solicitado a reorganização de sua agenda. Felizmente, a semana parecia bem tranquila e tio Frank ia poder realizar a viagem de hoje. E um piloto que eles costumavam contratar para épocas de muito movimento estaria de plantão no dia seguinte.

Não que ela tivesse a intenção de passar mais uma noite ali. Não, não. Ela não tinha roupa, e já estava se coçando para retornar à sua vida real e desinteressante, longe da casa notoriamente bela de Joe.

Ela não estava pronta para desempenhar o papel de deusa doméstica, ou mesmo de namorada que morava junto. Não importava o quão bom tinha sido acordar na cama dele e assistir a ele dormir, para variar.

Hora de cair fora, amiga.

No entanto ela não podia ir embora ainda. Não até eles falarem com o policial Parker e descobrirem o que deveriam fazer a respeito do bandido indesejável. Talvez precisassem entrar em contato com a polícia local. Ou Demi teria de voltar imediatamente e reportar o caso à polícia de Chicago. Ela simplesmente não sabia.

– Esqueça isso – disse Joe, observando-a da porta do banheiro. Estava com uma toalha branca enrolada nos quadris estreitos e parecia tão absolutamente delicioso que Demi desejava ter dito sim quando ele lhe ofereceu para dividirem o chuveiro.

– Esquecer o quê?

– Você não vai para casa, não até darmos um jeito nesse cara.

– E depois o quê? Vou me mudar para cá?

Ele deu de ombros, sem resposta, mas a contração de seus lábios diziam que ele não se importava com a ideia.

Ela afastou o lampejo de prazer que aquilo causou, sabendo que não poderia se deixar distrair pela percepção de que Joe realmente queria que ela ficasse.

– Eu não tenho nenhuma roupa.

– Não é nenhuma grife, mas temos lojas aqui na Pensilvânia.

Ela passou a mão pelo cabelo, o qual nem tinha escovado ainda esta manhã.

– Tenho um emprego.

– Seu avião está pousado no aeroporto, não é? Quem disse que você não pode decolar daqui para ir buscar seus passageiros?

Bom argumento, e era, de fato, exatamente o que Demi teria feito se não tivesse conseguido cobertura para hoje e amanhã. Mas ela não estava pronta para desistir.

– Eu realmente não devia.

– Sim. Devia.

O sorriso sexy e persuasivo se alargou, e Joe caminhou até ela. Demi engoliu em seco quando aquele corpo rijo e musculoso parou diante dela, e não conseguiu resistir a passar a ponta do dedo ao longo dos músculos ondulados da barriga dele.

– Além do mais, você realmente quer ficar – sussurrou ele, acariciando-lhe o cabelo e, em seguida, o rosto.

Demi se inclinou para mais perto, desejando provar a pele quente. Ela pôs a boca na cavidade logo abaixo do quadril dele, que estava descoberta pela toalha posicionada mais abaixo.

– Como vou passar meu tempo aqui? – perguntou ela, roçando os lábios no corpo dele, em direção à trilha longa de penugem escura que ia da barriga lisa até debaixo da toalha branca.

O tecido começou a inflar em sua direção quando ele ficou excitado bem diante de seus olhos.

– Hummm.

Ele levantou a outra mão e entrelaçou os dedos no cabelo de Demi, mas não a puxou para si, não a obrigou a fazer nenhum movimento que ela não quisesse.

Ela era capaz de decidir tudo por conta própria.

Um movimento rápido dos dedos dela, e a toalha caiu no chão. A ereção se projetava para ela, e Demi a soprou levemente, ouvindo-o sibilar em resposta.

Ela sabia do que ele gostava, sabia como agradá-lo. Mas também sabia como prolongar o prazer. Então, em vez de abrir a boca e sugá-lo, ela continuou a dar beijos bem suaves na virilha, roçando a bochecha no membro, sabendo que cada carícia suave fazia a tensão, o desejo, disparar.

– Dem… – murmurou ele, já soando no limite do controle.

Ela deslizou a mão pela coxa forte, com um objetivo em vista. Quando tomou os testículos delicados na palma, manuseando-os com cuidado, Joe se aproximou dela num sobressalto. Só então Demi abriu a boca e lambeu ao largo da ponta da ereção.

– Mais? – perguntou ela.

Joe enredou a mão um pouco mais no cabelo dela, no entanto ainda não estava recebendo o que queria, simplesmente aceitando o que ela escolhera dar a ele.

E ela escolhera colocar toda aquela masculinidade latejante em sua boca. Ela envolveu tudo que conseguiu, então inclinou a cabeça para ir um pouco mais além. Usando a língua e sugando delicadamente, e mais as carícias cuidadosas da mão entre as pernas dele, Demi logo conseguiu fazer Joe gemer de puro prazer sexual.

Ela estava pronta para ir até o fim, amando o gosto dele e o poder de saber o quanto ele adorava o que ela estava fazendo. Mas de repente ele se afastou, empurrando-a gentilmente. Então ele firmou Demi sob as axilas, a ergueu e a jogou de costas na cama, deitando sem cima dela, em seguida.

Ele não disse uma única palavra, não a beijou, não a acariciou, parecendo além da capacidade de fazer qualquer coisa, exceto possuí-la.

Não importava. Porque quando ele investiu nela, estava macia, úmida, completamente pronta para ele.

Demi arqueou o corpo, recebendo tudo, encontrando-o a cada investida, nem mesmo se importando por ele ter começado a atingir o clímax muito antes de ela estar pronta para ele.

Principalmente quando ele murmurou:

– Desculpe. Eu juro, eu vou fazê-la gozar tantas vezes esta noite que você não vai lembrar mais como é não ter um orgasmo.

Aquilo soou como um negócio muito bom para ela.

Daí ele não conseguia dizer mais nada, só podia gemer quando explodiu em uma torrente quente dentro dela. Tomando pílula há muito tempo, de modo que eles não precisavam usar preservativos, ela saboreou cada sensação, adorando por não haver nada separando a pele da pele. Sentir aquele homem desembocando em seu corpo a fazia sentir-se ligada a ele de uma forma que Demi nunca experimentara com ninguém.

Ou talvez fosse mais que isso. Talvez fosse a noção de que, pela primeira vez, ela não havia aberto apenas as pernas para um homem.

Ela estava começando a desconfiar que também havia aberto seu coração empoeirado para ele.

A FAMÍLIA dele manteve distância nos dias conseguintes. Joe não recebeu um único telefonema, nem um e-mail, e não precisou tolerar qualquer visita de averiguação disfarçada de uma passadinha casual na cervejaria.

Aquilo era bom, na verdade. Muito bom. Não, ele ainda não estava furioso com eles por terem se intrometido na outra noite, com eles achando que tinham o direito ou não. Mas simplesmente não queria lidar com essa parte de sua vida no momento.

Não quando o restante dela estava indo tão bem.

Demi podia não ser sua esposa, podia nem mesmo estar pronta para admitir que o amava, mas ela estava dormindo na cama dele à noite. Estava sentada em frente a ele na mesa para o café da manhã, e encolhida no sofá para assistir a um filme com ele durante a noite. Ela usava o creme dental dele e dormia usando seus calções, pois o passeio de compras no primeiro dia não incluíra uma parada para comprar uma camisola.

Ela até fizera conforme ele tinha sugerido e feito seu trabalho a partir dali, decolando e pousando em Pittsburgh. Seu ponto de origem realmente não importava, considerando que ela buscava as pessoas em todo país e as transportava para onde quisessem ir. Então não foi um ajuste difícil; Joe a levava para o aeroporto de manhã e a buscava à noite.

Eles estavam brincando de um jogo totalmente novo: casal normal. E aquilo o agradava mais que tudo.

A única imperfeição na coisa toda era que eles estavam fazendo esse joguinho porque um criminoso desprezível de Las Vegas poderia estar atrás de Demi. Não tinha havido muito progresso no caso, ainda que eles estivessem mantendo contato com o policial Parker, com um detetive de Chicago e com um policial local, os quais estavam monitorando a situação.

Parker ficara furioso ao saber que o ladrão tinha sido capaz de acessar os registros da polícia para rastrear as testemunhas que estavam contra ele. E a primeira conversa com ele fora rapidamente seguida por outra com alguém no escritório de Assuntos Internos.

No entanto havia uma boa notícia: pelo menos eles identificaram o rapaz. Parker tinha algumas pistas que levava aos suspeitos, e quando ele descobriu sobre a visita do bandido a Chicago, conseguiu reduzir a lista ainda mais, concentrando-se em todos que tinham saído de Las Vegas. Uma foto dos fichados enviada por fax depois e eles identificaram o sujeito como sendo Teddy Lebowski, 36 anos, gatuno de meia-tigela e bandido praticante de vários crimes pequenos.

Saber que o criminoso estava vagamente ligado a uma das famílias do crime de Las Vegas não fora uma grande notícia. Mas o fato de ele nunca ter sido acusado de um crime violento e de Parker considerá-lo pouco mais que um fanfarrão sem coragem de machucar alguém de fato, trouxera uma pitada de alívio.

Mais cedo ou mais tarde, o desgraçado seria pego. Joe meio que esperava que ele fosse estúpido o suficiente para aparecer em Pittsburgh.

Ele sinceramente apreciava a oportunidade de socar o sujeito pelo que ele tinha feito a Demi, tanto em Las Vegas quanto em Chicago, no prédio dela.

– Ei, você – disse ela, interrompendo os pensamentos de Joe enquanto ele terminava de trancar sua mesa no fim do expediente. Ela não precisava voar hoje e tinha concordado em vir para a cervejaria durante algumas horas à tarde, para conhecer o local onde ele trabalhava.

A tarde se esticara até se transformar em noite, quando surgiu uma crise com um dos distribuidores. Mas Demi não parecera entediada, insistindo que tinha gostado de visitar o lugar, inspecionando as enormes cubas e assistindo aos trabalhadores da fábrica operando os equipamentos e a linha de engarrafamento.

Ela havia feito uma degustação, declarando a lager amber a melhor de todas, então se sentou em silêncio em um canto enquanto Joe resolvia as coisas.

Agora que o último telefonema tinha sido dado, ele se levantou e, cansado, esfregou as têmporas.

– Parece que você precisa de uma massagem – disse ela, levantando-se do sofá que ficava encostado em uma parede do escritório.

– Hum. Que brincar de massagista agora?

– Acho que isso poderia ser incluído em meu repertório – disse ela de maneira provocante.

De braços dados, eles saíram. Alguns funcionários do turno ficaram lá, mas Joe fez uma pausa para trancar tudo.

Então, tomando o braço dela novamente, eles se dirigiram para o carro dele.

Ainda não tinham descido os degraus da parte externa quando viram um veículo conhecido parado no estacionamento.

– Ai, que inferno.

Ao lado dele, Demi ficou tensa, entrando em alerta.

– O que é?

– Acho que está mais para quem é. – O Cadillac parou diretamente na frente deles. – Você está prestes a conhecer minha tia-avó Jean.

– Ah, que ótimo. Mal posso esperar por isso – disse ela, seu tom dizendo exatamente o oposto.

Joe tinha muito a dizer para a tia-avó, tanto por ela ter incitado a visita até sua casa na outra noite… ele não tinha nenhuma dúvida de que ela havia sido a autora do motim… como pela forma como ela se esgueirara pela porta dos fundos depois de agitar todo mundo.

A porta se abriu e a senhora se levantou do banco do motorista até as sombras do estacionamento. Então contornou o carro de luxo, aproximando-se deles sem uma pitada de cautela, suas botas de caubói de couro vermelho esquisitas estalando alegremente no asfalto.

Joe estava prestes a abrir a boca para alertá-la a não falar qualquer coisa fora dos limites quando Demi arfou baixinho, confusa.

– Sra. Rush?

– Olá, Demi, minha querida – disse a senhora quando chegou aos degraus e caminhou até dois. Ela se inclinou para dar um beijo na bochecha de Demi. – Não tenho como expressar o quanto estou feliz por vê-la aqui. – Ela meneou as sobrancelhas desenhadas para Joe. – E em circunstâncias tão deliciosas.

Joe não conseguia se mexer, não conseguia falar, não conseguia organizar um pensamento. Ele só conseguia olhar, imaginando como, em nome de Deus, sua tia-avó conhecia sua amante.

– Eu não entendo – disse Demi, soando um pouco atordoada.

Mas Joe entendia. Ou estava começando a entender.

– Mas que droga. Sua velhinha manipuladora…

A tia desprezou a raiva dele como se esta fosse um odor muito desagradável, em seguida ergueu o rosto para receber um beijo.

Ele não deu o beijo nela.

– Você armou isso. Essa coisa toda.

– Oh, não, claro que não.

– Espere – disse Demi, finalmente compreendendo. – Você é realmente a tia-avó Jean de Joe?

– Culpada – reconheceu a mulher.

– Filha da mãe – murmurou Demi, tirando as palavras da boca dele.

– Ah, vocês dois, por favor, parem de agir como se eu tivesse alguma coisa a ver com essa confusão na qual vocês se meteram. – Ela fez um “tsc” e balançou a cabeça, embora seus lábios estivessem contraídos de alegria. – Eu simplesmente joguei um nos braços do outro. Providenciei o primeiro encontro de vocês e plantei algumas sugestões na mente de Joe… – Ela se virou para Demi – … e garanti que vocês estivessem adequadamente vestidos e relaxados para a ocasião, pensando que iam participar da minha festa à fantasia em pleno voo.

A roupa de Dia das Bruxas. O voo de última hora. Tudo armado.

Uma luz se acendeu.

– Você telefonou para o Sr. Braddock e o mandou me ligar para eu ter de ir a Chicago naquele dia.

Suas pulseiras tilintaram quando ela bateu palmas, como se satisfeita por ter juntado os dois tão rapidamente.

– Sim! – Então ela fez um movimento de cruz sobre coração, como um juramento, e disse: – Mas foi só isso. Todo o restante é coisa da cabeça de vocês. – Ela quase sorriu para eles, tão envolta em aprovação e autossatisfação que mal conseguia se conter. – Ai, nossa, fazendo esses joguinhos safadinhos em Las Vegas. – Ela bateu a ponta do dedo no peito de Joe. – Você é um danadinho, Joe Campbell.

Ele cruzou os braços, quase a perdoando, considerando que de fato tinha feito a ele um dos maiores favores de sua vida. Mas ele não havia chegado nessa parte ainda.

– Você tem alguma coisa a ver com aquele vídeo na internet?

Ela balançou a cabeça resolutamente.

– Absolutamente não. – Então, desviando o olhar, confessou: – Embora, devo admitir, foi um de meus amigos, cuja filha viu você nele e me mandou um link. Lamento que o vídeo tenha se transformado em, como eles chamam mesmo, viral? Você foi direto para seus 15 minutos de fama.

Que sorte a dele. E Joe nem imaginava. Mais uma razão para ele não ser tão louco pela era da internet.

– Deixe-me adivinhar. Você teve de mostrar para o restante da família depois que fui embora da sua casa na outra noite.

– Sim. Gostaria de dizer que lamento muito, mas você sabe que não lamento.

É claro que ela não lamentava. A mulher nunca se lamentava de fato pelas coisas que fazia. Diabos, seu tio-avô deve ter se esforçado para fisgá-la.

– Então tudo está bem quando acaba bem!

– Não, não está – protestou ele. – Caso você tenha se esquecido, minha família está convencida de que sou casado com uma prostituta.

Ela acenou com indiferença.

– Não, não está. Eu já resolvi tudo.

Quase não muito certo se queria mesmo saber, ele perguntou:

– Como?

– Falei para eles que estava muito zangado e envergonhado por você e Demi terem sido filmados em uma festa à fantasia da véspera de Ano-Novo em Las Vegas. Que era tudo uma brincadeira e você os estava punindo por presumir o pior ao seu respeito.

Não era uma história ruim, pensando bem.

Tia Jean estendeu a mão e apertou a bochecha de Demi, aparentemente sem perceber que ela havia ficado quase completamente em silêncio.

– Eu sabia que você ia ser perfeita para ele… e que ele seria perfeito para você. Perdoe a intromissão de uma mulher velha. É que quando vejo duas pessoas feridas que tão obviamente formariam o par perfeito, não consigo ficar sem fazer algo a respeito.

Sem esperar por uma resposta, ela se virou e desceu a escada aos pulinhos, como uma mulher com um terço de sua idade. E então acenou de forma alegre antes de voltar para seu carro e ir embora, deixando-os olhando para ela, em silêncio.

Joe não se mexeu por um longo momento, simplesmente ficou ali absorvendo o fato de que tinha sido completamente manipulado por um membro da família. Quanto pior devia ser para Demi? Deus, ela mal sabia que a tia-avó dele, que, aparentemente, pelo que haviam falado, era uma de suas clientes regulares.

Ele já devia saber, devia ter desconfiado quando sua tia simplesmente insistira para ele tomar seu lugar no voo particular para Chicago no Dia das Bruxas.

– Demi – murmurou ele finalmente. – Você está bem?

Ela hesitou por um instante, e então, inclinando a cabeça para o lado, com a testa franzida, respondeu:

– Sua família é maluca, você sabe disso, né?

Surpreso, aliviado, ele só conseguiu assentir e sorrir.

– Sim.

– Quero dizer, isso é atestado.

– Repito… sim.

Ela fez outra pausa, sacudindo a cabeça, ainda olhando pela estrada onde o carro da senhorinha havia desaparecido. Quando voltou a falar, sua confusão tinha ido embora. Bem como qualquer indício de raiva.

– Sabe, eu gosto dessa velhinha maluca.

– Eu também, quando não quero esganá-la.

– Nós realmente precisamos planejar nossa vingança.

Com o coração ficando mais leve a cada minuto, Joe meneou a cabeça em concordância. Uma conspiração em conjunto fazia soar como se ela planejasse ficar por perto durante um tempo.

O que soava perfeito para ele.

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Esses dois são muito fofos *-*
xoxo

7.9.15

Faça Meu Jogo - Capitulo 8


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Dia da Marmota – 2 de fevereiro

– QUERIDA, POR que você simplesmente não voa para Pittsburgh e vai vê-lo?

Demi desviou o olhar, ignorando mais um sermão de Ginny, a assistente administrativa, que olhou para ela do outro lado de sua mesa de cheia de papéis. Há alguns meses ela descobrira que Demi estava envolvida com alguém. E finalmente se aproximara para falar sobre Joe após as festas de fim de ano. Provavelmente porque Demi vinha andando por aí com uma carranca permanente desde que voltara para casa.

Quando ela voou de volta para Chicago no dia 2 de janeiro, ela se perguntou se era hora de acabar com o caso. A conversa íntima que tivera com Joe, e a maneira como fizeram amor de forma tão terna e doce depois a convenceram de que ela precisava pelo menos pedir um tempo, se não abandonar completamente o jogo.

Sujeitinho desgraçado que conseguira burlar suas defesas, rompendo suas muralhas exteriores. De alguma forma ele conseguira encontrar um caminho para o coração já irritadiço dela. Só isso explicava por que ela havia se aberto para ele do jeito que nunca tinha feito com ninguém.

Ela contou coisas tão sombrias e feias sobre si, que foi uma surpresa ele não ter saído correndo e gritando noite afora.

Não que ela ligasse tanto assim a ponto de se importar com Joe. O problema era que cuidar dele significava querer ficar com ele, manter aquela coisa que tinha desabrochado entre eles. E isso, Demi temia, não seria bom em longo prazo… para Joe.

Ter sentimentos por ele significava que ela não queria vê-lo magoado. E, principalmente, ela não queria ser a pessoa a machucá-lo.

Entretanto era inevitável, não era? Ou só uma conclusão precipitada? Quando as coisas ficavam difíceis, Demi ganhava os céus.

– Será que você pode colocar algum bom senso na cabecinha dela? – disse outra voz.

Jazz tinha entrado no escritório, vestindo seu macacão de mecânico. Uma mancha de graxa na bochecha e o suor na testa deixavam óbvio que ela estava trabalhando duro, mas não diminuíam nem um pouco sua beleza mundana.

– Juro por Deus, Dem, se você não telefonar para o cara, vou deixar uma chave-inglesa no seu motor de popa para seu avião cair e a gente não ter de aguentar mais essa sua tristeza.

Demi revirou os olhos, sentindo-se um tanto acuada.

– Eu o vi no dia no feriado de Martin Luther King, e eu falo com ele todos os dias.

O feriado tinha sido movimentado, e era em dia da semana. Demi não conseguira uma folguinha para uma escapadela fora da cidade. Mas conseguira providenciar uma escala de três horas no aeroporto da Filadélfia. Joe fora dirigindo até lá… e passou aquelas três horas fazendo coisas incríveis com ela na cabine de seu avião.

Ela afastou a sensação de calor e sentimentalismo inspirada por aquelas lembranças.

– Não é como se eu tivesse terminado com ele.

– A-hã. Mas você está planejando isso – disse o Jazz com conhecimento de causa. Gina concordou com a cabeça.

– Com certeza.

Demi olhou para ambas.

– Essa relação nunca nasceu para ser séria. Meu Deus, nós moramos em estados diferentes.

– E você é piloto profissional de aviões – retrucou Jazz. – Uma viagem aérea de Pittsburgh para Chicago provavelmente demora menos que ir de trem para o subúrbio todos os dias.

Aquele papo era loucura. Jazz quase fazia parecer que era possível Demi realmente se mudar para Pittsburgh e ir morar com Joe. Transformar uma aventura de férias em algo permanente.

Não seria legal? Ela, Demi Bauer, a destruidora de corações de Chicago morando a poucos quarteirões de distância da família típica e perfeitinha de Joe, cheia de irmãos que o adoravam e iriam odiá-la totalmente.

Acho que não.

Ela se levantou abruptamente, informando de forma silenciosa que a conversa tinha acabado. Jazz e Gina trocaram um olhar frustrado, mas não disseram mais nada, conhecendo Demi bem o suficiente para saber que ela já estava mentalmente a meio caminho da porta.

Olhando para o relógio, ela disse:

– Está tarde. Acho que já podemos encerrar o expediente, né? – Forçando uma risada, ela acrescentou: – Espero que o inverno não se prolongue este ano.

Não sei se poderia suportar mais algumas semanas de frio.

Jazz murmurou algo em voz baixa.

Aparentemente chamou Demi de rainha do gelo ou algo assim, mas Demi ignorou.

Ginny, um pouco menos áspera, se aproximou e colocou a mão no ombro de Demi, apertando levemente.

– Nós amamos você, querida. Nós só queremos que seja feliz.

Amor. Feliz. Duas palavras que não fizeram parte de seu vocabulário durante os primeiros 18 anos de sua vida. Uma delas não fazia até hoje.

Não é verdade. Não totalmente, de qualquer maneira. Ela amava. Amava Jazz, Ginny e seu tio Frank. Ela amava sua irmã, mesmo que de forma um tanto compassiva. E tecnicamente amava até seus pais, porque apesar de toda indiferença e frieza, eles ainda eram sua mãe e seu pai afinal.

O quão louco era imaginar que ela poderia ampliar esse círculo e de fato se permitir amar um homem? Um homem?

Talvez valesse pensar no assunto.

– Eu sei – respondeu ela finalmente, dando um breve abraço em Ginny. Normalmente pouco adepta a demonstrações de afeto, Demi sabia que o ato impulsivo provavelmente pegara a mulher de surpresa. Os olhos arregalados de Jazz diziam que ela sentira a mesma coisa.

– Vejo vocês amanhã.

Pegando as chaves e sua bolsa, Demi as deixou e caminhou pela ala silenciosa de escritórios do aeroporto onde a Clear-Blue Air se alojava. Como sempre, ela levou algum tempo para chegar ao carro, e ainda mais tempo para dirigir para a cidade e estacionar na garagem de seu prédio. Durante todo o trajeto, ficou tentando organizar seus pensamentos, se concentrar e compreender tudo que estava acontecendo e seus sentimentos em relação àquilo.

Sentimentos e todas essas coisas não eram sua praia. Ela simplesmente não sabia o que fazer com eles.

– Inferno – murmurou ela enquanto saía do carro, entrando na noite fria de Chicago. Estava muito escuro lá fora, e até mesmo dentro da garagem, o vento açoitava descontroladamente no lago ali perto. As rajadas faziam assobios misteriosos através das aberturas da estrutura, congelando Demi por um segundo antes de trancar o carro e seguir para o elevador.

Quando ela apertou o botão e aguardou, uma sensação inquietante se iniciou em sua nuca. Ela olhou para os lados, em seguida, virou-se para olhar para trás. Não havia ninguém por perto, nem um único movimento dos carros. Ela havia chegado em casa depois da maioria das pessoas, mas antes de a multidão frequentadora das boates começar a lotar o centro da cidade.

– Tudo bem, acalme-se – disse ela a si, sabendo que estava imaginando coisas. Ainda assim, ela não jogou seu chaveiro na bolsa, mantendo as chaves longas, afiadas e salientes entre os dedos. Só por precaução.

O elevador chegou e ela rapidamente o examinou para se certificar de que estava vazio, antes de entrar. Ficou perto do painel de controle, pronta para apertar o botão “abrir” caso alguém de aparência suspeita aparecesse do nada de repente e se juntasse a ela. Mas nada aconteceu, nem um som, nem uma viva alma.

Ela deu um suspiro de alívio, rindo da própria tolice, quando as portas começaram a se fechar.

Foi quando ela viu. Havia um homem a poucos metros de distância, não muito longe do carro dela. Totalmente visível sob uma luz acima, ele deve ter se deslocado deliberadamente para aquele local, porque não estava ali há alguns segundos.

Ela deu uma boa olhada no rosto dele antes de a porta bloquear a visão. E a olhadinha foi suficiente para capturar algumas impressões rápidas. Corpo pequeno, atarracado e vestido de preto. Cabelo louro longo e seboso. O brilho de olhos escuros.

E, de repente, Demi se lembrou dele.

– Não pode ser – murmurou ela, apertando as chaves entre os dedos.

Contudo ela sabia que era verdade. Tinha acabado de ver o ladrão, o cara que a havia empurrado em Las Vegas.

– Seu nojento desgraçado – acrescentou ela, desejando que a porta não tivesse se fechado antes de ela o identificar. Porque o seu primeiro impulso foi ir atrás dele e socá-lo até deixá-lo apagado por tê-la empurrado para a rua.

Então, é claro, a mesma ordem sábia que impedira Joe de fazer essa mesma coisa em Vegas lançou um pouco de sabedoria em seu cérebro. Ele poderia estar armado, e já tinha se provado perigoso.

Em poucos segundos, a porta reabriu no andar da garagem no nível da rua. Ele não tinha como ter chegado até ali ao mesmo tempo em que ela, a não ser que tivesse desenvolvido asas e voado. Ele estava longe das escadas e o outro elevador, no lado oposto da plataforma, estava vazio. Então ela já não se sentia tão tensa quando saiu. Mas simplesmente muito curiosa. E preocupada.

– O que você está fazendo aqui? – sussurrou ela.

Não tinha como ser só uma coincidência. O sujeito a havia seguido até Chicago por algum motivo. Mas em vez de confrontá-la, ele estava fazendo um joguinho sorrateiro de esconde-esconde, tentando assustá-la.

No entanto por quê?

Em frente à garagem, as pessoas passavam na rua, um bar das proximidades já ficando apinhado de fregueses. Ela guardou as chaves, no entanto continuou muito concentrada, sempre olhando ao redor enquanto caminhava os poucos metros até seu prédio. O porteiro ofereceu um aceno de cabeça agradável, e uma vez lá dentro, Demi soltou um pequeno suspiro de alívio.

Não que ela estivesse verdadeiramente apavorada. Assustada era uma forma muito melhor de colocar as coisas.

– Obrigada, Bud – disse ela ao porteiro enquanto se dirigia para o elevador. Antes de alcançá-lo, no entanto, ela ouviu um toque distinto. Seu telefone celular. Pegando-o na bolsa, ela respondeu, distraída:

– Alô?

– É Demi Bauer?

A voz era estranha e gutural, como se a pessoa estivesse tentando disfarçá-la.

– Sim, quem é?

– Quanto tempo. Você fica um pouco diferente sem a peruca.

Era ele. O sujeito de Las Vegas… o sujeito da garagem. Tensa, ela se enfiou em um canto para se distrair com as vozes das pessoas que estavam vindo logo atrás dela.

– O que você quer?

– Quero o que é meu. Naquela noite, quando trombei com você deixei meu pacote cair. O relatório da polícia diz que eles não recuperaram minhas coisas, o que significa que você está com elas.

– Poupe-me – disse ela com um suspiro.

Ele hesitou, como se surpreso por ela não estar tremendo de medo. O que só servira para convencê-la ainda mais de que não devia temê-lo. Se ele tivesse qualquer tipo de arma e a coragem para usá-la, ele a teria agarrado na plataforma do estacionamento e a forçado a levá-lo até sua dita pilhagem.

– Vou chamar a polícia.

Ela quase pôde ouvir o sorriso de escárnio dele.

– O que vai dizer a eles? Que o cara de quem você roubou a joia está atrás de você?

– Ah, eu roubei sua mercadoria, não é?

– Sim, você roubou. E eu a quero. Mais importante, as pessoas para quem trabalho a querem.

As pessoas para quem ele trabalhava?

Será que havia algum círculo de ladrões em Las Vegas liderado por um Fagin e um Artful Dodger modernos? Ridículo.

– Olha, você está louco. Não estou com joia nenhuma, e você simplesmente desperdiçou uma viagem para Chicago – disse ela, mais irritada que com medo. – Talvez você devesse voltar e verificar todos os bueiros ou algo assim. O pacote provavelmente caiu quando você tentou me matar.

– Rainha do drama.

– Psicopata babaca.

Ele hesitou, como se finalmente percebendo que não a estava assustando nem um pouco.

– Então está com seu namorado.

Demi enrijeceu, cautelosa de repente. Se ele a estava monitorando, poderia ter feito a mesma coisa com Joe.

– Não, não está com ele.

Seu tom deve ter traído sua tensão, pois a voz do Sr. Ladrão ficou um pouco mais confiante.

– Ah, está com ele, tudo bem. Acho que vou ter de fazer uma viagem para Pittsburgh agora.

Droga.

– Como descobriu quem somos?

– Você é famosa, dona, não sabia disso?

Ela não fazia ideia do que ele estava falando.

– Além disso, as pessoas para quem trabalho têm alguns amigos na Polícia de Las Vegas. Seus nomes e informações de contato estavam bem no relatório da polícia.

Aquilo não inspirava confiança exatamente no Departamento de Polícia de Las Vegas. De repente, Demi sentiu vontade de telefonar para Parker e dizer para ele parar de se preocupar com calçados para a esposa e começar a investigar policiais corruptos.

– Acho que vou rever você – murmurou ele com uma risada.

– Espere, não está com ele, eu juro…

Mas ela estava falando com o ar. O sujeito esquisito tinha desligado na cara dela.

Demi conferiu o identificador de chamadas rapidamente, nem um pouco surpresa pela última ligação recebida ter vindo de um número não identificado.

Emergência? Policial Parker? Para quem ela deveria telefonar primeiro?

Claro, a resposta era: nenhum dos dois. Sem hesitar, ela buscou na agenda, selecionando as informações de contato de Joe na telinha.

Ela começou pelo celular dele.

– Vamos lá – dizia enquanto tocava sem parar. Quando caiu na caixa postal, Demi não se deu o trabalho de deixar recado, apenas seguiu para o próximo dado da lista, a casa dele. Mais uma vez, o mesmo resultado.

– Droga, onde você está?

O elevador veio e foi embora algumas vezes, e retornou outra vez soando a campainha. Um casal que morava no mesmo andar que ela saltou. Ela sorriu de forma impessoal, grudando o telefone ao ouvido para evitar qualquer conversa de corredor.

A porta do elevador permaneceu aberta, e Demi olhou para ele. Estava no saguão do próprio prédio, alguns andares abaixo de seu apartamento. Mas de repente ela se viu incapaz de caminhar pela porta aberta e fazer o pequeno passeio até o andar de cima.

Passar a noite inteira tentando rastrear Joe para avisá-lo sobre o bandido louco de Las Vegas parecia uma ideia insustentável. E a afirmação de Jazz sobre a facilidade que era voar de Chicago a Pittsburgh ficava se repetindo na cabeça dela.

Demi pensou no assunto por cerca de dez segundos. Depois se virou e caminhou em direção à saída.

– Bud, pode chamar um táxi para mim? – perguntou ela, sabendo que não poderia voltar para o próprio carro. El Loco ainda podia estar à espreita e Demi não queria que ele soubesse que ela estava indo para o aeroporto, indo avisar Joe.

– Claro, Srta. Bauer – disse o porteiro.

Alguns minutos depois, quando entrou no táxi, Demi teve de sorrir. Porque, como de costume, em momentos de crise, ela estava decolando, ganhando os céus. Desta vez, porém, em vez de fugir, ela pretendia voar para a pessoa que estava enchendo sua cabeça de confusão e seu coração de turbulências.

O problema podia estar a caminho de Joe. Mas Demi pretendia chegar primeiro.

QUANDO ALGUÉM bateu à porta às 22h, Joe imediatamente ficou tenso. A reação foi instintiva. Mesmo agora, dois anos depois, o toque de um telefone despertando-o de um sono profundo ou um golpe inesperado à porta tão tarde da noite o trazia de volta ao momento em que todo seu mundo mudara.

Foi ele quem atendeu a porta quando o policial uniformizado chegou para informar sobre o acidente de seu pai.

Ele afastou os pensamentos sombrios. Sua família estava muito bem. Estava com eles até meia hora atrás, comendo bolo de aniversário alegremente na mansão de tia Jean, que estava comemorando seu aniversário de 70 e alguma coisa. Ninguém sabia ao certo quantos anos tia Jean tinha já que ela mentia há muitos anos sobre isso.

A única pessoa com quem Joe realmente se importava era Demi, e ninguém sequer sabia que eles tinham alguma relação. Então não era como se alguém estivesse indo avisar que havia acontecido alguma coisa com ela.

Além disso, ele não tinha dúvida de que ela estava bem. A essa hora, ela provavelmente devia estar em seu quarto, vestindo algo simples porém incrivelmente sexy, olhando para o telefone. Talvez ela estivesse passando por um debate mental entre a possibilidade de ligar e estimulá-lo a fazer um belo sexo por telefone ou tentando ser forte e resistir, demonstrando que realmente não precisava dele… pelo menos até ela simplesmente não conseguir evitar.

Deus, a mulher o deixava louco. No bom sentido, bem como no mau. E, ah, como ele a adorava por isso.

A campainha tocou e depois tocou de novo, como se o visitante estivesse ficando impaciente. Joe se obrigou a relaxar e seguiu para atender, lembrando a si para não se preocupar. Ainda assim, ele não conseguiu evitar a pulsação acelerada quando girou a maçaneta e abriu a porta.

Vendo que estava lá, sobressaltou-se de surpresa.

– O que houve?

Suas quatro irmãs, seu irmão, sua mãe, seus sobrinhos e sua tia-avó… todos abriam caminho casa adentro, balbuciando a mil por hora, falando ao mesmo tempo.

Joe congelou, tentando fazer seu cérebro processar o que estava acontecendo.

Um bando de loucos tinha acabado de transformar seu refúgio tranquilo em um hospício. Ralph, como o cão inteligente que era, deu o fora, correndo para a área de serviço, provavelmente para se aconchegar entre a secadora de roupas e a parede, seu esconderijo favorito quando fazia travessura.

– Meu Deus, Joe, como você pode ser tão irresponsável? Como vou criar meus filhos para fazer boas escolhas quando o tio deles faz algo tão incrivelmente descerebrado?

– Joe, você está bem? Lamento se achou que não podia dividir isso com a gente.

– Ai, eu falhei com você. O que seu pai diria? Como você pôde fazer uma coisa dessas? Onde foi que eu errei?

– Quando ia nos contar, seu danadinho? Mal posso esperar para você me apresentar a ela.

– Cara, espere só até eu contar para os meus amigos. Eles vão ficar malucos.

– Como você pôde! Nunca mais vou ter coragem de aparecer na escola de novo!

– Quando eu disse para ter uma aventura, meu caro, eu não sabia que você ia levar isso tão longe.

Todas as vozes cresceram, um coro de vozes, no entanto um comentário, o de sua irmã Debra, se destacou em meio à nuvem de confusão.

– Espere. Apresentar a ela quem? – Ele quis saber, olhando para a irmã que era a segunda mais nova dentre as quatro.

– Joe, você está me ouvindo? – perguntou sua mãe, abanando, como se para afastar uma chama. Ela estava corada e parecia um pouco tonta, embora pudesse ser efeito do conhaque que tia Jean lhe empurrara goela abaixo pouco antes de Joe ir embora.

– Vá sentar-se antes que você desmaie – alertou tia Jean, empurrando a mãe de Joe para o sofá de couro. – Molly, leve os pequenos para a cozinha e faça um lanche para eles. Não ficaram nada satisfeitos por não terem podido terminar de comer o bolo.

A irmã de 16 anos lançou um olhar furioso a todos, então agarrou os sobrinhos de Joe e todos marcharam em direção à cozinha.

– Jack, por que você não vai procurar Ralph? Tenho certeza de que ele está apavorado por causa de toda essa balbúrdia – disse tia Jean.

Jack franziu a testa sombriamente.

– Não sou criança.

– Não, você não é, e por isso é maduro o suficiente para reconhecer que um pobre animal está se escondendo e com medo em outro cômodo, portanto você deve ir ajudá-lo – disse tia Jean.

Jack sempre fora um coração mole com animais, e ele realmente adorava Ralph. Às vezes vinha só para brincar com o cão, jogando um pedaço de pau para ele, trazendo um brinquedo. Sendo assim, o pedido silencioso funcionou melhor que qualquer outra coisa.

Finalmente, quando estavam apenas as mulheres mais velhas da família, e Joe, o homem solitário… Deus, falando em tortura dolorosa: envenenamento por estrogênio… ele repetiu a pergunta:

– Quem é ela a quem você está se referindo? Que diabos está acontecendo aqui?

– Não se faça de inocente. A verdade veio à tona. E apareceu de um jeito bem espalhafatoso – disse Tess, a mais velha dentre os irmãos. Ela era a mãe das duas crianças agora provavelmente estavam choramingando por ter de se contentar com biscoitos secos porque tio Joe não tinha cookies ou coisas gostosas em sua despensa.

Vendo o laptop de Joe aberto na mesinha de centro, já que ele tinha vindo a verificar seus e-mails antes de dormir na esperança de encontrar algum de Demi, Tess o agarrou e começou a digitar com veemência.

– Falando em irresponsabilidade. E em estupidez! – rebateu ela, como sempre, expressando sua opinião sem dar a mínima para o jeito como qualquer outra pessoa sentia-se a respeito.

– Será que alguém pode me explicar, por favor?

Sua mãe fungou, então acenou para a tela do computador. Joe voltou a atenção à tela, perguntando-se por que, em nome de Deus, todo mundo estava tão empolgado com um vídeo na internet.

Então o vídeo começou.

– Ei, doçura, vai trabalhar até que horas hoje à noite? – disse uma voz masculina de fora do enquadramento da câmera.

A voz era desconhecida, mas as palavras fizeram soar um alarme, embora Joe não tivesse se recordado da situação de imediato. E nem dava para fazer isso, a imagem estava escura, granulada.

Em seguida, o foco se acertou, a imagem se iluminou e limpou. E outra voz disse:

– Tem um cartão de visita?

– Desculpem, rapazes, ela está aposentada.

Aquela voz ele reconheceu.

– Ah, que inferno – murmurou, incapaz de acreditar, mas sabendo ao que estava assistindo. Principalmente agora que a imagem estava nítida e clara e a tela preenchida por um casal facilmente identificável.

Ele. E “Dem”, a prostituta. Em toda a sua glória perversa.

Joe desviou o olhar, lutando para se lembrar de tudo que eles tinham dito e feito, perguntando se o cinegrafista astuto havia flagrado o beijo sexy. Ou pior: a frase sobre…

– … me amarrei a este homem hoje à noite naquela capela ali. Caramba, o que uma garota precisa fazer para desfrutar de sua noite de núpcias, hein!?

Ele se recostou na poltrona, deixando a cabeça cair no encosto e olhando para o teto.

Aquilo não podia estar acontecendo.

Simplesmente não podia.

– Você está casado? – choramingou a mãe dele. – Como pôde se casar e não nos contar?

– Pior ainda, como pôde se casar com uma pobre prostituta de vida dura? Você sabe alguma coisa a respeito dela? Onde ela está? Você a abandonou? – perguntou Bonnie, sua irmã de 24 anos que dividia o título de filha do meio com Debra, mas era extremamente compreensiva e nunca tinha visto uma árvore que não quis abraçar.

– Olha – disse ele, não muito certo do que ia dizer. – Não é o que vocês estão pensando.

– Então o que é? – perguntou Tess. – Você ficou doido temporariamente, ou drogado, e se casou com uma vadia barata de Las Vegas?

Aquilo o fez sentar-se ereto e rebater:

– Cuidado com a boca. – E lançou um olhar tão severo que Tess de fato se afastou um pouco. Ela fechou a boca, os lábios comprimindo firmemente.

Ao lado dela, observando como o gato notório que engoliu o canário, estava tia Jean. Boca bem fechada também, mas não porque ela estivesse tentando controlar sua raiva. Em vez disso, a velhinha astuta tentava desesperadamente não rir. Era uma surpresa ela não hiperventilar por falta de oxigênio enquanto prendia a respiração, tentando conter seu divertimento.

Ela estava amando cada minuto daquilo. Provavelmente levando todo o crédito por ter colocado Joe à beira do precipício.

– Eu estou simplesmente emocionado por vocês estarem tão felizes – disse ele, a voz exalando sarcasmo.

Ela sugou o lábio inferior e, finalmente, soltou uma lufada de ar.

Correndo em direção à cozinha, disse:

– Acho que vou ver Molly e as crianças.

Bem, aquela iria para o livro dos recordes, um momento memorável. A mulher mais corajosa que ele conhecia estava fugindo. Acrescente a isto toda aquela algazarra restante e esta poderia ser intitulada simplesmente a noite mais estranha da década.

– Então nos conte, querido irmão, qual é a história verdadeira? – perguntou Debra enquanto se recostava na poltrona e erguia os pés sobre a mesinha de centro. Ela parecia estar gostando daquilo, quase tanto quanto tia Jean, mas não correra para a cozinha num esforço para esconder sua satisfação.

– Quando vamos conhecer nossa nova cunhada?

Ele não respondeu. Em vez disso, olhou novamente para a tela do computador. O vídeo tinha terminado, mas Joe não estava focado nisso, de qualquer forma. Não, o que atraiu sua atenção foi o pequeno contador que indicava quantas pessoas tinham visto aquilo.

Milhares. Muitas das quais tinham dado cinco estrelas de voto e deixado comentários picantes.

Ele só conseguia balançar a cabeça em descrença.

– E então? – incitou sua mãe. – Você não tem nada a dizer em sua defesa?

Nem uma única explicação?

Hum. O que seria pior? Deixar sua família acreditar que ele havia se casado com uma prostituta durante uma noite selvagem de festas em Las Vegas? Ou admitir que durante meses estivera viajando por todo o país para fazer joguinhos sensuais com uma mulher por quem ele estava louco?

Joe não tinha certeza do que ia dizer. Verdade ou consequência? De qualquer maneira, ele sairia parecendo um idiota total.

Antes que pudesse resolver a situação, ele foi, literalmente, salvo pelo gongo. O dim-dom da campainha foi o efeito de som perfeito para a situação insana na qual ele se encontrava.

– Deus do céu, quem pode ser? – perguntou a mãe dele.

– Não faço ideia – respondeu Joe ao ouvir uma nota quase alegre na própria voz.

– Quem diabos simplesmente apareceria aqui sem avisar a esta hora da noite? – acrescentou ela.

– Nem imagino. Grosseiro, não é? – murmurou ele, certo de que ela iria perceber o sarcasmo.

Joe não sabia quem estava à sua porta neste momento. Só sabia que estava grato ao desgraçado que lhe dera um pretexto para se levantar e fugir da inquisição.

Talvez ele tivesse sorte e fosse um bombeiro dizendo que todo o bairro deveria ser evacuado por causa de um vazamento de gás. Talvez tivesse mais sorte ainda e simplesmente explodiria com ele. Qualquer coisa para escapar de ser obrigado a dividir uma história falsa constrangedora ou até a verdade, mais constrangedora ainda, com sua família intrometida e incrivelmente desagradável.

O que quer que Joe houvesse imaginado, no entanto, não chegava nem perto da realidade. Ele achava que tinha sido surpreendido ao encontrar sua família se intrometendo 20 minutos atrás? Diabos, isso não era nada comparado ao choque que ele sofreu quando abriu a porta.

De todas as vezes que ele tinha imaginado Demi Bauer chegando à sua casa, fazendo parte de seu mundo real, com certeza não fora em circunstâncias como essas. No entanto, lá estava ela, fitando-o com incerteza nos olhos e um pedido de desculpas nos lindos lábios.

– Joe, lamento simplesmente aparecer assim, mas preciso vê-lo e não é só para pular em cima de você, apesar de isso ser exatamente o que eu gostaria de… – As palavras de Demi sumiram quando ela olhou para dentro da casa, obviamente vendo um monte de mulheres com olhos arregalados e boquiabertas ouvindo cada palavra. A gagueira tensa se transformou em um silêncio momentâneo horrorizado.

Caramba. A noite estava ficando cada vez melhor.

– Ai, cara, por favor me diga que você está dando uma festinha e que não é toda sua família sentada ali – disse ela em um sussurro trêmulo.

– Temo não poder fazer isso. – Ele forçou um sorriso sem graça, deu um passo para trás e estendeu um braço para convidá-la a entrar. Bem-vinda ao hospício.

Para lhe dar crédito, Demi não fugiu. Há alguns meses, ela provavelmente o teria feito. Mas hoje à noite, ela deu um passo hesitante para dentro, e depois outro, o olhar curioso indo e vindo entre ele e as mulheres que assistiam de olhos arregalados a alguns metros de distância.

O silêncio se prolongou, ficando quase ensurdecedor e, finalmente, a noção sobre o enorme ridículo de toda a situação tomou conta de Joe. Aquilo tudo parecia saído de um filme de uma comédia romântica no qual o herói infeliz passava de uma situação humilhante para outra pior, parecendo sempre um idiota na frente da heroína espirituosa e inteligente.

Felizmente, essa heroína espirituosa e inteligente tinha algumas habilidades que poderiam ser realmente úteis agora. Para começar, ela não era do tipo que fazia juízo das pessoas. Em segundo lugar, era muito boa em se adaptar a novas situações, conforme fora evidenciado pela perspicácia dela durante os joguinhos eróticos. E, finalmente, ela era dona de um senso de humor daqueles. Assim, com um risinho preso no fundo da garganta, Joe apertou a mão de Demi e a conduziu até seus familiares.

Ele abriu a boca para fazer uma apresentação simples, confiando que Demi parecia bem diferente da mulher no vídeo a ponto de ficar irreconhecível.

Contudo eles já deviam saber. Tess levantou da poltrona com seus olhos de águia, sibilando:

– A mulher é ela… é ela!

Demi se encolheu, obviamente sem fazer ideia do que a outra mulher estava falando. Joe manteve um braço forte e reconfortante no ombro dela. E então, embora ele realmente não tivesse planejado dizer as palavras até estas saírem de sua boca, ele apresentou Demi às mulheres um tanto julgadoras, observando as expressões que iam desde pura curiosidade até pavor.

– Demi, esta é minha família. – Ele passou o braço ao redor do ombro dela e a puxou para si. – Família Campbell, esta é minha mulher.

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O que será que vai acontecer? 
xoxo