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16.7.14

Blackout - Epílogo

 
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Um ano depois…

– NERVOSA? – PERGUNTOU Joe, segurando a mão dela.

Demi olhou de seu ponto vantajoso no escritório de Wilmer para os convidados zanzando pela galeria. Tudo estava no lugar. Música. Bufê.

Convidados.

– Um pouco. Nunca planejei um casamento. Mesmo um extraoficial. Por quê? Você está nervoso?

Joe enfiou o dedo na gola da camisa do smoking.

– Não sou muito fã desta maldita roupa, e preferiria não ter que ficar parado diante de uma multidão, mas em geral estou bem.

Demi o olhou de cima a baixo, flertando com ele.

– Você fica muito bem arrumado desse jeito.

E aquela era uma distorção grosseira. Ele ficava de dar água na boca, delicioso de smoking.

– Posso querer que você use smoking com mais frequência.

O olhar dele era como água em superfície quente na pele dela, colocando seus hormônios em um frenesi. É claro, no caso de Joe não era necessário muito mais para estimulá-la.

– Eu preferiria que você se concentrasse em tirar meu smoking.

– Isso pode ser providenciado mais tarde. Acha que seus pais virão?

Joe deu de ombros com uma indiferença estudada.

– Espero que sim.

Ele ainda ficava tenso, ainda existia uma rigidez em Joe sempre que Denise ou Paul eram mencionados.

Mas os três haviam progredido, embora devagar, no último ano.

– Acho que eles se arrependem sinceramente pelo desastre que foi sua infância. Pelo menos estão tentando.

– Também estou. Acha mesmo que as pessoas podem mudar?

– Você conhece a resposta para isso. A única coisa que nos limita é o medo. Além, claro, dos obstáculos que estabelecemos para nós mesmos.

– Nosso relacionamento me ajudou a compreendê-los melhor. – Joe passou a mão no queixo. – Acho que mamãe e papai têm uma relação similar à nossa. Mesmo depois de 30 anos, ele ainda é loucamente apaixonado por ela.

Enfim, depois de um ano, Joe começava a acreditar, de verdade, no coração e na alma, que Demi o amava. Que ela não iria acordar e concluir que não existia conteúdo suficiente nele, ou que esse conteúdo era intragável.

Ele de fato fora para Savannah com ela alguns meses atrás para conhecer a família de Demi, depois que a poeira por seu noivado rompido baixou.

Foi um fim de semana interessante. Enquanto Wilmer, com sua personalidade extrovertida, os encantara, eles gostaram mais de Joe… Sobretudo depois de descobrirem a opção de sexual de Wilmer.

O pai de Demi declarara que Joe era um homem profundo. A irmã Dallas simplesmente o considerara estranho; porém, todos que não jogavam golfe ou não faziam parte do clube de jardinagem eram estranhos para ela, que vivia em um mundo microcósmico.

E Demi teve certeza de que Joe começava a ficar confortável com o relacionamento deles quando ele a convidou para ir à Inglaterra no outono para conhecer seus avós. Quem sabe? Em uma década ou algo assim, seu amor com fobia a relacionamentos poderia resolver fazer algo louco e impensado, como se casar.

– Falando em loucamente apaixonado… onde está o casal feliz em seu dia especial? – perguntou ela.

Joe sorriu.

– Richard estava nervoso, então Wilmer achou melhor ficarem a sós por uns minutinhos antes da cerimônia. – Ele ajeitou a gravata. – Uma cerimônia de casamento gay em uma galeria de arte… não é exatamente convencional. Achei que fossem escolher algo um pouco mais vanguardista do que smoking.

– Você quer uma guarnição para acompanhar esse chororô? De qualquer modo, Richard quis smokings, e Wilmer queria ter certeza de que tudo seria como Richard desejava. Acho doce da parte dele. Richard tem sido bom para Wilmer.

– Sem dúvida. Ele está mais atencioso do que nunca.

– E acho que é muito legal eles terem escolhido o aniversário do blackout para se casar.

– Muito sentimental. Muito comovente.

Demi deu um empurrãozinho no ombro dele.

– Não banque o idiota. – Ela sabia melhor que ninguém como, no fundo, Joe era um romântico sentimental.

– Mas eu sou tão bom nisso… – Ele sorriu, fazendo o coração dela vibrar e um calor florescer em seu baixo-ventre.

– Você é bom em muitas coisas – disse ela, e retribuiu o sorriso.

– Pare com isso. Não é adequado armar minha barraca com insinuações safadinhas antes da cerimônia.

– Você sabe como estragar a diversão de uma garota.

– Eu a compensarei depois, amor.

E compensaria… e um pouco mais.

– Sabe que dia é hoje, não sabe, Demi? Estamos juntos há um ano e temos negócios pendentes que precisamos resolver.

– Negócios?

Do que ele estava falando? E o timing dele deixava muito a desejar.

– Entreguei suas fotografias, mas você ainda precisa planejar minha festa.

– Você devia ter me cobrado – disse ela, a mente vagando por uma lista mental.

Será que o bufê pedira o champanhe extra que Wilmer requisitara? Droga! Ela achava que eles tinham respondido ao seu e-mail, mas não se lembrava de ter as garrafas extras.

– Não é hora de ficar discutindo, amor. Eu preciso que um evento seja planejado.

Os homens escolhiam os momentos mais estranhos para fazer as coisas.

Demi voltou a atenção para Joe.

– Que tipo de evento?

Joe não era do tipo festeiro. Ele poderia muito bem receber o título de “Menos Provável de Comparecer a uma Festa” no anuário do colégio.

– Algo muito similar a isto. Só que talvez um pouco mais refinado. Talvez em uma igreja, e depois uma festa para dançar.

Ele estava mesmo dizendo o que ela achava que ele estava dizendo? O coração de Demi pareceu falhar. Talvez o timing dele fosse impecável, afinal.

– Está falando de um casamento e de uma recepção?

Ele estalou os dedos.

– É isso.

– Tem certeza? Dá muito trabalho, caso você pense em mudar de ideia depois.

– Nunca estive tão certo de algo em toda minha vida.

– Presumo que tenha alguém em mente.

– Para falar a verdade, há uma criatura encantadora que tem me fascinado completamente…

– E você já pediu a mão dela?

– Estou providenciando. – Joe segurou a mão dela e se abaixou sobre um joelho. – Demetria Devonne Lovato, quer se casar comigo?

Ela sempre achara meio pateta quando os homens se ajoelhavam, nos filmes. Mas não. Era doce e terno; e se Joe a fizesse chorar e seu rímel borrasse, ela o mataria.

– Eu adoraria, Joseph Adam Jonas.

Ele enfiou a mão no bolso e pegou uma caixinha de veludo.

– Eu ficaria honrado se você usasse meu anel.

Ai, meu Deus. Ele estava fazendo certinho. Joe abriu a caixa e pegou uma joia com diamante em forma de gota.

– Gostou? – perguntou ele.

– Não. Eu amei.

Ele deslizou o anel no dedo dela.

– É lindo. – Demi ficou mexendo a mão, captando a luz nas inúmeras facetas da pedra.

Podem me chamar de cafona, tola, superficial e/ou materialista, mas eu sempre quis um anel imenso, e meu amor me deu um.

– É um diamante.

– É maior que o diamante da sua irmã?

Ela sorriu para ele.

– Sim. Isto vai cegá-la.

– E é maior que o de Wilmer?

Demi presumia que eles ainda estivessem falando do diamante.

– Muito maior que o de Wilmer. Deve ter custado uma fortuna.

Joe a abraçou e lhe deu um beijo doce na têmpora.

– Você merece, amor. E, de qualquer forma, foi um dinheiro fácil. Vendi algumas daquelas fotos suas no banheiro para um site pornográfico.

Demi sorriu para o senso de humor perverso e distorcido dele e passou o abraço por seu pescoço.

O clique inconfundível de uma câmera soou. Demi e Joe olharam em direção ao som no instante em que Richard tirou outra foto.

– Agora que já captei o final feliz, acham que podemos ir logo com este casamento? – perguntou Richard com um sorriso tenso.

Demi achou graça e não o corrigiu. Aquele não era um final feliz… era apenas o começo.
 
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OIIIIII EU ESTOU TÃO FELIZ QUE EU TENHO QUE FALAR EM CAPS LOCK!!!! HOJE FIZ MINHA PROVA FINAL E TIPO, EU PRECISAVA TIRAR 7 E CONSEGUI TIRAR 8 :D :D :D
DEPOIS EU POSTO A SINOPSE DA NOVA MINI-FIC!!!!
BEIJOOOS <3

Blackout - Capitulo 30 - Ultimo

 
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– SÓ UM minuto! – berrou Joe.

Será que um homem não podia ter um momento de paz em seu apartamento? Primeiro, Paul ligou para o celular depois de deixá-lo em casa; daí, foi a vez de Wilmer ligar falando algo sem sentido sobre ficar em casa; agora tinha alguém à porta.

Joe desceu ruidosamente as escadas de seu loft. Pelo menos a energia elétrica voltara, e ele não precisava se preocupar com o que iria acontecer a Demi depois que escurecesse.

Se a energia não estivesse restabelecida ao anoitecer, Joe planejara aparecer no apartamento dela, assim Demi não precisaria suportar a escuridão sozinha. Teria sido esquisito, mas ele não a queria só e assustada no escuro. Agora isso não seria mais necessário.

Apesar do retorno da luz, e portanto do ar-condicionado, o calor não diminuíra nada. Joe tomara banho, sem fazer a barba, e vestira short de corrida e camiseta. Estava limpo, porém mal arrumado; o que combinava com seu humor.

Ele abriu a porta e então desejou não tê-lo feito. Demi estava do outro lado. Usava um vestido de verão agarrado às suas curvas. O cabelo estava preso no alto. Óculos de sol escondiam seus olhos. Trazia uma mochila no ombro.

– O que você está fazendo aqui? – perguntou ele. Ser rude e abrupto costumava afastar as pessoas.

– Você pode ter tido pais desligados, mas eu tenho certeza de que eles lhe ensinaram maneiras melhores que essa. Não vai me convidar para entrar?

Claro, rude e abrupto não parecia funcionar tão bem com Demi.

– Entre. – Joe passou a mão pelo cabelo, porém deu um passinho para o lado. Não se sentia particularmente disposto a ser cortês, o que já não era seu ponto forte em um dia bom. E aquele não era um dia bom. – O que faz aqui?

Joe deixou a porta entreaberta, como uma dica não tão sutil.

Demi fechou a porta e colocou os óculos no alto da cabeça. Os olhos cintilavam. Ela parecia radiante, e ele estava aturdido.

– Vim cobrar uma promessa.

Ela se aproximou, e a mistura única de perfume e Demi desencadeou todas aquelas coisas sensoriais que tornavam quase impossível raciocinar direito em vez de pensar em mergulhar o rosto no pescoço dela e o “pequeno Joe” na… Ela não precisava mesmo se aproximar mais.

– Eu não fiz nenhuma promessa.

– Não foi bem uma promessa. Estava mais para uma promessa de intenção. – Demi tirou a bolsa do ombro e a segurou com uma das mãos. Fitou-o da cabeça aos pés, o calor sexual irradiando-se dela, queimando-o.

Joe mudou o peso do corpo de um pé para o outro, totalmente perdido. Fugira dela de manhã, e agora ela estava parada observando-o como se ele fosse um picolé em um dia de verão. E, Deus do céu, Joe sabia o que Demi fazia com picolés.

– Você andou bebendo?

O sorriso lento dela ferveu dentro dele, aquecendo-o.

– Só um frappuccino.

Concentre-se, Joe. Não no sorriso dela ou em picolés, ou no jeito como o vestido de Demi se achava agarrado a todas as curvas. Concentre-se nesta conversa e faça-a sair deste apartamento antes de você fazer algo muito estúpido, como beijá-la e implorar que ela fique.

– O que é essa promessa de intenção?

– Você disse que se estivesse com sua amada saberia o que fazer com ela.

Mais um passo de Demi a colocou no espaço pessoal dele. Apenas alguns centímetros de ar muito quente os separava. Ela colocou a mão na barriga dele, bem no cós elástico do short, e o coração de Joe disparou feito louco.

– Bem, estou aqui, esperando para… como era mesmo?… transar loucamente durante uma semana.

E como aquilo não iria captar a atenção do “pequeno Joe”? Ele precisava fazê-la ir embora agora.

Quando ela falava daquele jeito… Joe tentava manter a cabeça fria.

As duas.

– O que a faz pensar que é ela?

Demi não tinha como saber. Ele nunca dissera uma palavra a ninguém.

– Diga que não sou eu. – Demi tirou uma foto da bolsa e a estendeu.

Joe, flagrado em um momento de fraqueza e tristeza absoluta, olhava para ela.

– Convença-me de que isto é uma mentira, Joe.

Ele, dentre todas as pessoas, conhecia o poder de uma fotografia. Que ironia. Durante todos aqueles anos escondera-se atrás da câmera, só para ser desnudado da forma mais crua em uma foto. Adoro ironias.

Joe jamais convenceria Demi de que não a amava. Mas sabia que ela não o amava de verdade. Não poderia.

Ele segurou os ombros dela e a afastou.

– Demi, você está se recuperando emocionalmente depois de um trauma. É cedo demais. E não me conhece de verdade.

– Certo, acho que você expôs todos os argumentos possíveis. Agora vou desmascarar esses mitos que você criou nessa cabecinha sexy. Primeiro, vamos esclarecer. Wilmer feriu meu orgulho. – Demi o apunhalou com o dedo. – Você partiu meu coração. Segundo, é cedo demais para o quê? O amor não vem em uma linha do tempo, não é um treinamento profissional que você precisa frequentar durante determinadas horas para obter o certificado. E, por fim, não diga que não o conheço.

Demi tomou a mão dele e a levou aos lábios.

– Eu o conheci no segundo em que você subiu naquele beiral para resgatar meu gato. Eu o conheci quando você segurou minha mão no escuro. Eu o conheci quando você deu cobertura a Wilmer. Eu o conheci quando você correu até seus pais, literalmente, porque eles precisavam de você, independentemente de seu histórico com eles. Eu o conheci quando você me secou e me carregou para a cama quando eu estava cansada demais para me mexer. Há muitas facetas suas que não conheço ainda, mas não diga que não conheço você.

Era uma das coisas mais difíceis que ele já tinha feito, porque queria muito, muito acreditar nela. Mas Joe sabia de coisas que Demi ignorava. Se ela de fato o conhecesse, descobrisse aquele núcleo oco dentro dele, nunca poderia amá-lo.

Joe esticou os braços e criou uma boa distância entre os dois.

– Você não compreende? – Joe lutava para fazê-la entender. – Eu sou como o deus Hades. O Senhor da Escuridão. Você é Perséfone. Luz e beleza. Você não foi feita para mim.

Demi ficou boquiaberta por uns bons cinco segundos.

– Por favor, diga-me que não acredita em nada dessa baboseira que acabou de sair da sua boca.

Bem quando ele achara que tinha ouvido todos os eufemismos sulistas dela.

– Você acabou de dizer “baboseira”?

– Não ouse rir de mim e não pense que pode me distrair. Que tal isto: você acredita mesmo nesse monte de besteira que acabou de jogar para cima de mim? Isso é simplesmente um erro. E por que eu quereria ser aquela Perséfone covarde? Se você vai fazer alguma analogia mítica maluca, pelo menos me transforme em uma deusa durona, tipo Atena ou Artemis. Não em alguma pateta que precisou ser resgatada pela mamãe. – Ela jogou a mochila no sofá. – Sabe, eu ia telefonar para marcar um terapeuta para mim na segunda-feira. Você devia agendar uma consulta no meu lugar.

– Não preciso de um terapeuta. E se sou tão maravilhoso, por que já está tentando me mudar?

– Não estou fazendo isso. – Ela jogou as mãos para o alto. – O que quero é enfiar um pouco de autoconsciência positiva nessa sua cabecinha dura. E você definitivamente irá precisar de um terapeuta se continuar jorrando esse tipo de porcaria maluca.

– Acha que é uma porcaria maluca e isso então invalida totalmente meu ponto de vista?

– Ouça, idiota, você foi o único que disse que eu precisava arrumar minhas coisas e voltar para casa se eu fosse deixar a opinião dos meus pais guiar minha vida. Aceite seu próprio conselho e pare de permitir que pais ruins arruínem sua habilidade de ter um relacionamento.

Aquilo foi notavelmente familiar.

– Por que você precisa de um terapeuta?

Ela meneou a cabeça.

– Eu sei que você está mudando de assunto de propósito. Tem o hábito de fazer isso quando a conversa não vai para o rumo que você quer. – Demi deu de ombros. – Mas eu ia precisar de um terapeuta porque você estava me enlouquecendo.

Joe cruzou os braços. Em seguida ela estaria comentando sobre a linguagem corporal dele. E Demi ainda tinha a coragem de dizer que ele a enlouquecia. Ela o deixava doido.

– De que modo eu a estava enlouquecendo?

– Bem, não você pessoalmente, mas o você daqueles sonhos. Eu não conseguia entender como podia amar Wilmer e ter aquele tipo de sonho com você todas as noites. Mas agora ficou fácil o suficiente de entender sem a ajuda de um terapeuta. – Demi colocou as mãos nos ombros dele. – Eu não amo Wilmer. Bem, exceto como algo que seja um cruzamento de irmão com amigo. Não do jeito como amo você.

Ela fazia soar assustadoramente lógico.

– Oh…

– É isso? “Oh”? Depois de tudo aquilo, a única coisa que você tem a me dizer é “Oh”?

– O que queria que eu dissesse? – Joe descruzou os braços e deixou as mãos caírem nas laterais.

Demi fechou os olhos, como se sua paciência estivesse se esgotando, e bateu a cabeça com delicadeza no peito dele.

– Joe, eu acredito que temos um futuro longo e feliz adiante. Sei do fundo do meu coração que você me ama. Mas seria legal ouvir isso sem que eu precisasse arrancar de você. – Ela tomou o queixo dele na mão. – Eu te amo, Joe Jonas. Agora, é mesmo tão complicado colocar isso… – Olhou para a foto – …em palavras?

A fotografia berrava essa verdade, mas Joe disse o que ela precisava tanto ouvir:

– Eu te amo. – A beleza gritante naquela frase simples e a vulnerabilidade que a acompanhava estremeceram dentro de Joe.

– Obrigada. – Demi ficou tão feliz que ele quase desabou.

E se ele não correspondesse às expectativas dela? E se simplesmente não detivesse em si a capacidade de ser o homem que Demi pensava que era?

– Mas isso não muda nada.

– O diabo que não muda! Você nunca irá se livrar de mim, porque eu te amo e sei que você me ama. Vá em frente, recolha-se atrás dessa sua muralha. Se eu tiver que ir tijolo por tijolo e levar uma eternidade, vou derrubá-la. Rastejarei até o inferno e voltarei, se necessário. Toda vez que fui implacável e corri atrás do que eu queria foi só o aquecimento. Este é o grande evento para o qual vim treinando. Portanto, esteja avisado: isto é guerra.

– Você vai se cansar. Irá descobrir, mais cedo do que tarde, que não sou essa versão romantizada que pintou em sua cabeça.

– Está tão errado… Por favor, nunca diga que sou irracional. Não estou dando guarida a ilusões. Você é arrogante, teimoso e sarcástico, e também meio mandão.

– Acabou de me chamar de mandão?

– É por isso que somos tão perfeitos juntos. Você não me intimida porque eu jogo a bola de volta para você. – Demi sentou-se no sofá e o puxou para sentar-se ao seu lado. – Você me disse que ficou apavorado quando subiu naquele beiral. Não é problema nenhum sentir medo. Bravura e coragem envolvem exatamente isso. Não é necessário ter coragem para encarar quando você não tem medo. Não é problema nenhum sentir medo; mas é um problema fugir dele.

Wilmer não dissera a ele, mais cedo no hospital, que Joe tinha medo de ser feliz? Talvez ele tivesse acertado em alguma coisa.

– Você não parece temer nada, com exceção do escuro. – Mesmo tendo dito isso, Joe percebeu que, embora ela temesse a escuridão, Demi descera aqueles sete andares da escadaria escura feito breu; por ele.

– Isso não é verdade. Morro de medo de não chegar até você. Sinto tanto medo de perdê-lo que estou tremendo por dentro. – Demi esticou a mão, e Joe pôde constatar que estava, de fato, pouco firme.

– E você acha mesmo que isso seria ruim?

– Infinitamente mais do que ficar presa sozinha no escuro. Onde mais vou conseguir encontrar alguém para adorar e louvar este traseiro? – Demi lhe deu um grande sorriso e depois ficou séria. Estendeu a mão, a palma para cima. – Estou aqui, emocionalmente nua, Joe. Suba nesse beiral comigo.

Demi o estava vencendo pelo cansaço, fazendo-o acreditar. Realmente havia algo semelhante à magia nela, porque Joe se flagrou acreditando. À beira de ser convencido de que só ela poderia amá-lo, com defeitos e tudo.

Ela adentrara a escuridão com ele, precisando apenas que Joe lhe segurasse a mão. E agora ela oferecia o mesmo em retribuição. Joe temia o vazio escuro dentro de si, que sempre parecera pairar na periferia de sua alma, escapar-lhe.

Ele colocou a mão sobre a dela e levou as mãos entrelaçadas aos lábios, dando um beijo na dela.

– Você me ama mesmo, não é? – Joe não tentou disfarçar o espanto.

Ela sorriu como se ele tivesse lhe entregado a lua, e Joe era humilde em relação à própria capacidade de fazê-lo.

– Era isso o que eu estava lhe dizendo. Sabe, você tem um problema sério de déficit de atenção.

Joe se acomodou no sofá e a puxou para o colo, colocando os braços dela ao redor de seu pescoço. Joe tomou a cabeça de Demi nas mãos.

– Eu te amo. – E ele a beijou, uma promessa carinhosa. – Eu te amo – repetiu. Aquilo tinha um ótimo som, e não soava nem perto de ser tão assustador quanto ele previra. Joe tornou a beijá-la, gostando do padrão que se criava. Só que dessa vez beijou mais demoradamente, com mais intensidade, profundidade, unindo a língua à dela.

Eles pararam para tomar fôlego, e Demi roçou o bumbum delicioso na ereção dele. Demi o deixava excitado e duro apenas com um beijo. E, antes que ele se entregasse totalmente ao prazer, Joe queria uma resposta para algo que parecera desimportante mais cedo.

– Amor, tenho uma pergunta.

– Só para que fique registrado: eu gosto dessa coisa de amor. Excita tanto… Agora pergunte.

– Onde você conseguiu a fotografia?

– Wilmer me deu. – Ela se aninhou no pescoço dele. – Você devia ver minha calcinha. Acho que vai considerá-la… interessante.

Joe deslizou a mão debaixo do vestido – Wilmer tirou aquela foto? –, passou pelas coxas, prevendo um fio dental ou uma renda sexy. Em vez disso, os dedos encontraram a carne quente e escorregadia cercada por renda. Ele foi tomado pelo calor.

– Ah, amor, é muito interessante. – Joe trilhou o contorno dos lábios úmidos dela, desnudo pela abertura da renda, usando um dedo.

– Com abertura frontal. Vim armada para uma batalha pesada. – Demi sorriu e o provocou passando a pontinha da língua no lábio inferior dele. – A foto foi tirada por Richard.

Joe arrancou o vestido dela por baixo, expondo a calcinha com fenda frontal e as dobras úmidas.

– Então Wilmer me entregou.

Ela riu e abriu as pernas.

– Sim. Foi Wilmer.

Joe deslizou um dedo para dentro do canal sedoso, e Demi gemeu, excitando-o ainda mais.

– Eu amo quando você geme assim. Isso me deixa duro.

– E eu amo quando você fala assim e me toca desse jeito. Isso me deixa molhada. Mas você sabe disso em primeira mão.

Sim. Ele sabia daquilo intimamente, provocativamente.

– Lembre-me de agradecer a Wilmer mais tarde. Bem mais tarde. Na semana que vem talvez. Agora tenho uma promessa a cumprir.

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É meninas, infelizmente esse é o ultimo, mais tarde eu posto o epilogo e depois eu começo a postar uma nova fic ok??? Beijooos <3

Blackout - Capitulo 29

 
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O CELULAR de Demi tocou. Por um segundo digno de parar o coração ela pensou que pudesse ser Joe. Tinha esperanças de que ele concluísse que a noite anterior fora especial, e que o que quer que houvesse entre eles também era. Não. O número de Wilmer brilhava no visor.

– Oi, Wilmer.

– Demi, Joe ainda está por aí?

– Não. Tente o celular dele.

Por que Wilmer simplesmente não telefonou para Joe, para começar? Ela não tinha tempo para ficar bancando a telefonista. Estava ocupada demais sendo infeliz.

– Não preciso falar com ele. Eu só estava me perguntando se Joe estava por aí. Preciso dar uma passadinha na sua casa. – A empolgação tingia a voz dele.

Demi, porém, não pretendia ter de encarar nenhum drama de Wilmer.

– Não acho que seja uma boa, Wilmer. É uma hora ruim. Não estou nem um pouco a fim.

– Tenho uma coisa que você precisa ver. – Ele soava trêmulo.

Demi se sentia letárgica e aborrecida demais para discutir. Wilmer, o egoísta, decerto queria mostrar a ela um anel de compromisso que havia concebido para Richard ou algo igualmente fútil.

– Tanto faz. Venha.

– Posso levar Richard?

Pelo menos ele pedira permissão.

– Vocês dois estão unidos pelo quadril agora?

Wilmer riu.

– Safadinha, safadinha, Demi… Péssima escolha de palavras.

– Esqueça o que eu disse. Venha quando quiser.

Demi se manteve ocupada limpando o apartamento e se arrumando até Wilmer chegar, com Richard a tiracolo. Ela podia estar rejeitada e abatida, mas não precisava parecer uma bruxa ou viver feito uma porca relaxada.

Wilmer e Richard chegaram trazendo frappuccinos gelados e meia dúzia de pãezinhos com cream cheese e um salmão defumado do Abrusco’s. Cafeína era bom. Comida era melhor ainda.

Demi pegou a comida oferecida e a apoiou no baú entre o sofá e a cadeira.

– O salmão do Abrusco’s foi ideia de Richard – disse Wilmer.

Obviamente ele queria que ela gostasse de Richard. Demi não tinha certeza se um dia iria gostar dele, mas almejava a civilidade.

– Obrigada.

– Tem um pão de passas com canela com seu nome aí. – Richard deu de ombros.

– Meu favorito. Obrigada de novo. – Demi caçou o pãozinho e o lambuzou com cream cheese gorduroso; a melhor cobertura. Ela mordeu. Mesmo sendo do dia anterior e estando frio, era delicioso.

– Não quer saber o que Richard e eu temos para mostrar? – perguntou Wilmer, pegando um pãozinho de cebola.

– Wilmer, é melhor que isso seja bom, porque não estou no melhor dos humores. – Com pãozinho ou sem.

– Deixe-me adivinhar. – Wilmer untou o pãozinho de cebola com salmão… agora Richard iria aguentar hálito de cebola com salmão. – Você falou para Joe como se sentia, ele racionalizou tudo por você e então foi embora.

– Como sabe? Você falou com ele?

Demi preferiria ter aquela conversa sem Richard, mas na verdade não tinha importância. E ele se mantinha calado. Nem perto de estar tão ofensivo essa manhã quanto estivera de madrugada. É claro, ela ainda não o havia cutucado também.

– Não precisei falar com ele. Somos amigos há muito tempo. – Wilmer gesticulou para Demi com uma faca de plástico. – Eu lhe disse que teria que lutar por ele.

Ela se sentiu vazia.

– Não posso obrigá-lo a me amar se ele não quiser.

– Se ele a amasse, você lutaria por Joe?

Ela fez uma careta. Sabia que Wilmer era quase sempre imprudente, mas nunca cruel.

– Se eu achasse que ele me amava, você sabe que eu lutaria.

Wilmer sorriu como o gato que acabara de engolir o canário.

– Descobri esta manhã que Joe escondia um enorme segredo de mim.

– Sim?

– Eu sabia que ele estava apaixonado por alguém, só não sabia quem. E Joe não é o tipo de cara que você consegue pressionar para obter detalhes. E… bem, talvez eu seja um pouco autocentrado, então não insisti muito.

Por acaso aquilo era um lampejo de autoconsciência da parte dele?

– Sabe, Wilmer, há esperanças de você não ser um completo narcisista.

Richard riu, mas Wilmer ignorou o comentário dela.

– Descobri esta manhã quem é a mulher misteriosa de Joe.

O coração dela se despedaçou. Saber que Joe amava outra pessoa era uma coisa. Mas realmente conhecer…

– Achei que você não tivesse falado com ele – disse ela.

– Não falei, querida. Mas uma imagem vale mais que mil palavras. Lembra-se de nossa festa de noivado na galeria?

– É claro que me lembro. Foi só há dois meses, e quem planejou fui eu.

Por que Wilmer precisava dar voltas para fazer qualquer coisa?

– Será que tudo com você precisa ser dramático? Não pode simplesmente ir direto ao ponto? Quem é ela?

– Tudo a seu tempo, Demi. Delicie-me por um momento. Richard tirou fotos naquela noite, na nossa festa de noivado. Estávamos revendo as fotos esta manhã.

Richard tirou uma fotografia de um envelope acolchoado que Demi não notara, e a entregou a Wilmer, que passou a Demi.

– O que você acha?

Joe, obviamente sem saber que estava sendo fotografado, olhava para alguém fora da câmera. O desejo brilhava no rosto dele. A ternura e a dor nos olhos foram como uma facada no coração dela. A expressão dele, em seu olhar, era tão particular, tão pessoal que Demi sentiu-se uma intrusa só de fitá-lo. Richard havia capturado a beleza e a tristeza do amor. Ela baixou a cabeça.

– Eu diria que esse é o rosto de um homem amando apaixonadamente. – Demi teve de enfrentar o bolo que se formou em sua garganta.

Ela sentiu enjoo. Se aquilo foi na festa de noivado dela, havia chances de conhecer a mulher que ele amava tanto.

Ou talvez não. A maioria dos convidados eram conhecidos profissionais de Wilmer. Tinha sido uma boa oportunidade para ele levar visibilidade à galeria.

Como Wilmer podia parecer tão satisfeito quando ela sentia vontade de vomitar?

– Concordo, querida. Essa foi tirada com zoom. Richard tirou esta outra aqui com lente comum. – Wilmer lhe entregou outra foto. – Dê uma olhada no amor da vida dele.

Demi se preparou para olhar para baixo. A fotografia flutuou até a mesa, caindo de seus dedos inertes.

Atordoada, ela ficou encarando a foto de si mesma sentada sozinha a uma mesa. Todos haviam se levantado para dançar, e ela precisara de alguns minutos sozinha. Joe estava a uma mesa de distância.

Aquele desejo, aquela paixão eram direcionados a ela.

– Mas esta sou eu – sussurrou.

– Sim. Como eu disse, uma imagem vale mais que mil palavras. Ele ama você. – Wilmer esboçou um sorriso triunfante.

O choque a anestesiou.

– Mas não faz sentido. Esta manhã eu disse a Joe como me sentia, eu declarei o meu amor, e ele simplesmente foi embora.

Wilmer assentiu.

– E iria mesmo.

– Mas por quê? Eu disse que o amava. Joe me fez pensar estar apaixonado por outra pessoa e essencialmente me disse para ser feliz na vida.

– Desde que o conheço, ele foi emocionalmente negligenciado. Denise e Paul não são maus, nem cruéis, e acho que eles finalmente descobriram o que fizeram e querem compensar. Os dois sempre tiveram um ao outro, e Joe foi largado sozinho. Agradeça aos avós dele. Se não tivesse sido por eles… Mas Joe está totalmente convencido de que é indigno de ser amado.

Demi havia tirado conclusões semelhantes a partir do mínimo que ele lhe contara sobre sua infância. Mas como Joe podia se achar indigno de ser amado?

– Ele já lhe disse isso, Wilmer?

– Nem precisa. Vou voltar aos clichês desta manhã, mas se uma imagem vale mais que mil palavras, ações falam mais ainda. Joe mantém todo mundo distante. Eu tenho pensado muito em Joe desde que estivemos no hospital, de madrugada. Não acho que ele sempre foi desse jeito, muito embora já fosse quando o conheci. Creio que, quando ele era criança, os pais o excluíam de tudo, e Joe acabou concluindo que doeria menos se fosse ele a pessoa a fechar as portas. E foi o que fez com os pais dele. Com Jillian, uma garota da Inglaterra. Com você. Até mesmo comigo, algumas vezes.

Meio que começava a fazer uma triste espécie de sentido.

– Jillian se casou com o primo de Joe.

Wilmer arqueou as sobrancelhas. – Você sabe sobre Jillian?

– Ele mencionou, ontem à noite.

– Estou surpreso.

– Então… Como Jillian terminou casada com o primo dele?

– Ela disse que, assim que o conheceu melhor, percebeu que Joe não fazia seu tipo – disse Wilmer.

E tão de repente como tinham se apagado, sem alarde, as luzes piscaram de volta.

– Bem, acho que isso acaba de lançar uma luz sobre tudo – brincou Wilmer.

Foi piegas, e Demi revirou os olhos, mas riu mesmo assim.

– As coisas estão ficando mais claras a cada minuto.

– Ai! Essa foi péssima. Acho que vou pedir licença e ir ao seu banheiro bem iluminado depois dessa. – Wilmer ficou de pé e saiu da sala.

Joe a amava. Não algum paradigma magricela sem rosto e sem nome, mas sim Demetria Devonne Lovato e seu traseiro grande. Ele a amava! Se Demi não entendesse a lógica distorcida de Joe, poderia ficar tentada a lhe arrancar a cabeça por fugir dela de manhã.

O apartamento dela já parecia dez graus mais frio, o que Demi sabia ser impossível. Talvez fosse porque seu coração parecia muito mais leve.

Richard pigarreou, e Demi deu um pulo. Esquecera-se dele.

– Eu lhe devo desculpas. Foi errado… Eu estava errado… – Ele suspirou. – Isso não está saindo direito. Não estou dizendo que ser gay é errado. Não consigo acreditar que amar alguém seja errado. Mas pelo jeito como aconteceu… enquanto você ainda era noiva… Desculpe-me por isso. Desculpe por qualquer dor que eu tenha lhe causado. Não espero que seja minha amiga, Demi, mas, pelo bem de Wilmer, não quero ser seu inimigo.

Demi estava ocupada perambulando pela sala para apagar as velas. Ela se aprumou após apagar a última e olhou para Richard. Não havia animosidade nos olhos azuis dele, apenas cautela.

– Não acredito que os fins justifiquem os meios, Richard, mas foi melhor Wilmer ter descoberto isso agora do que depois que estivéssemos casados. – Ela fez uma pausa e alisou o short. – Não tenho certeza se consigo ser sua amiga, mas não sou sua inimiga. – Encarou-o. – A menos que você magoe Wilmer… Aí será o fim de qualquer trégua.

Richard piscou, sem dúvida surpreso.

Ele sorriu e assentiu.

– É justo.

Wilmer retornou do banheiro e olhou de um para o outro.

– Sinto como se estivesse interrompendo algo.

– Só estou colocando Richard a par de todos os seus defeitos, mas quase não tive tempo suficiente para listá-los – disse Demi.

Wilmer fingiu espanto.

– Eu não estava ciente de que tinha algum.

Demi sorriu de maneira angelical.

– Eu poderia atualizá-lo rapidamente se você tivesse uma hora ou coisa assim.

– Você é um doce por oferecer isso, mas desconfio que tenha coisas melhores a fazer com seu tempo. – Wilmer pegou a foto de Joe e Demi, e a avaliou. – É o seguinte, Demi. Acho que ele está com medo de acreditar que alguém poderia realmente amá-lo. Isso não é só um erro. Joe sabe tudo sobre amar. Ele só não sabe como ser amado.

Ela cruzou os braços e sorriu.

– Bem, está prestes a aprender.

Wilmer lhe entregou a fotografia e sorriu também.

– Sentir isso por você deve deixá-lo morto de medo. E depois de você dizer que o amava… Posso jurar que Joe está apavorado. – Wilmer balançou a cabeça. – Se eu não soubesse que você é a melhor coisa que poderia acontecer a Joe, ficaria com pena do pobre sujeito… Quase.

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Blackout - Capitulo 28

 
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JOE OBSERVAVA Demi dormir, o sol batendo em suas nádegas e pernas, o braço jogado no rosto, o cabelo uma meada castanho avermelhada sobre o travesseiro.

Ele rolou para fora da cama e caminhou até o banheiro. Vestiu a cueca e o jeans. Ficar passeando nu na noite anterior era uma coisa, mas outra bem diferente era fazê-lo pela manhã. A magia da noite evaporara ao amanhecer.

Pegou sua câmera e a ajustou para a luz intensa que fluía no quarto. Nenhum deles pensara em baixar as persianas quando caíram na cama, quatro horas atrás.

Ela estava deitada parte na sombra, parte na luz. Ele tirou várias fotos, captou a brincadeira do sol na pele dela, recuando mais uma vez para a segurança detrás de sua máquina fotográfica.

Demi abriu os olhos, piscando, e sorriu, sonolenta, para ele. A pulsação de Joe acelerou. Ela espiou a câmera.

– Por favor, diga-me que não está tirando fotos de mim na cama com esta cara amassada e sem maquiagem.

Ela era uma mulher quixotesca: inabalável com sua nudez, mas preocupada com sua ausência de maquiagem.

– Você está linda – disse ele sem pensar.

E estava mesmo, com o cabelo emaranhado sobre os ombros e os olhos suaves e pesados de sono.

– Ahã… – Demi estendeu a mão diante da câmera. – Chega de fotos de manhã cedo. Por favor.

– Tudo bem.

Ela estava mesmo linda, mas ficaria tímida agora. Joe foi até a janela e olhou para a cidade, oferecendo a Demi um instante de privacidade sem de fato sair do quarto.

O colchão estalou, anunciando que ela estava se levantando. Ele ouviu os passos pelo quarto e o rangido em protesto da porta do banheiro.

Mais uma vez as pessoas se amontoavam lá embaixo, na rua, mas poucos carros circulavam. Ele tirou algumas fotos desinteressadas. Seu coração não estava no ato de fotografar a cena diante de si.

Ele ouviu a porta rangendo outra vez e Demi retornou ao quarto.

– Obrigado por ter ido ao hospital comigo ontem à noite – disse ele sem se virar.

Ambos haviam ficado cansados demais para conversar sobre qualquer coisa antes.

Ela abriu e fechou a gaveta da penteadeira.

– Estou feliz por ter conhecido seus pais. Que alívio sua mãe estar bem.

– Sim. É. – Joe fez uma careta por dentro.

Aquele era um péssimo caso de síndrome aguda da manhã seguinte. Ambos soavam como personagens em uma peça mal escrita.

– Gostei mais deles do que pensei que gostaria – disse ela, a voz abafada de dentro do closet.

– Eles estavam… diferentes.

E isso era um eufemismo. Era tão típico que as decisões dos pais de participar da vida de Joe girassem em torno das próprias necessidades. Eles não o procuravam porque se orgulhavam dele, ou porque tinham se dado conta de que haviam deixado de conhecer um ótimo ser humano. Não. Eles estavam sentindo a própria mortalidade, a própria vulnerabilidade, então Joe era seu apoio.

Joe ainda não era prioridade na pauta deles. E não acreditava em nada daquilo. Agora que sua mãe estava bem, ele esperava que eles retornassem ao seu mundinho insular de dois.

– Meus pais gostaram de você.

– Tentei não ser muito soltinha com eles. – Demi olhou para Joe e para a rua abaixo.

O cabelo de Demi roçou no braço de Joe, o perfume dela o cercou, e a urgência de tomá-la nos braços era quase insuportável; porém, a loucura noturna havia acabado.

– Você os encantou – disse ele, se afastando da janela, e de Demi.

– Há! Teriam ficado empolgados com qualquer um que tivesse salvado você de ser… como foi mesmo?… um frutinha.

Apesar do peso em seu coração e do constrangimento generalizado entre eles, Joe riu.

– Certo. Aquilo foi de uma preciosidade, não é? Se eu nunca levei uma mulher para conhecê-los, óbvio que devo ser gay. Encare, Demi, você encanta todo mundo.

– Sei! Não se esqueça da sra. Hinky. E posso lhe garantir que não deixei Richard encantado.

– Você e Richard tiveram um começo abaixo de estelar. – Eufemismo enorme. – Conseguiu se acertar com Wilmer?

Joe precisava ter certeza antes de ir embora.

– Estamos bem. Encerramos a história, assim eu posso abrir mão do antidepressivo. – Demi sorriu. – E vocês, trocaram beijinhos e fizeram as pazes?

Joe deu de ombros.

– Pulamos a parte dos beijinhos. Eu não queria Richard arrancando meus olhos por ciúme… mas estamos bem. – Ele estava fazendo piadas estúpidas, estranhas… definitivamente era hora de ir embora.

Joe começou a seguir em direção à porta, e Demi se colocou diante dele, impedindo-o.

Ela pôs as mãos no peito nu, e a pele dele parecia estar pegando fogo. Demi umedeceu os lábios com a pontinha da língua.

– Joe, quero que você saiba que a noite de ontem foi a melhor da minha vida.

Ele deu um passo atrás, fugindo do toque dela.

– Essa é uma reação bem incomum para um noivado rompido.

Demi deixou as mãos caírem ao lado do corpo e repreendeu-o com o olhar.

– Não é isso o que quero dizer, e você entendeu. Você foi a melhor parte da noite passada.

– Estou lisonjeado. – E estava, mas um deles precisava ser sensato.

Joe saiu do quarto. O estojo da câmera continuava perto da porta de entrada. Não estava escuro feito breu como na noite anterior, mas uma melancolia sombria acortinava a sala depois da luz cintilante do sol no quarto.

Implacável, Demi o seguiu.

– Não estou tentando bajulá-lo. Estou sendo honesta. Lembra-se de ontem à noite, quando seu pai disse à sua mãe que era “assim mesmo” entre nós dois?

Joe pegou o estojo da câmera sem fitá-la.

– Sim. E lamento que isso tenha acontecido. Eu não queria chatear minha mãe depois de ela ter sofrido um infarto.

– Eu não lamento. Quando ele disse aquilo, bem… eu percebi que seu pai tinha certa razão.

Joe ergueu a cabeça bruscamente. Será que Demi adivinhara que ele estava loucamente apaixonado por ela?

– O que quer dizer?

– Percebi que é assim mesmo para mim – disse ela, a voz baixinha no cômodo na penumbra.

Joe reprimiu a dor dentro de si. Demi estava frágil e vulnerável na noite anterior. Muito provavelmente sentiria o mesmo por qualquer outro sujeito que entrasse ali e a tratasse com a mínima dose de decência.

– Não. Demi, a noite passada foi um atenuante das circunstâncias. Você se encontrava emocionalmente exausta. Não confunda as circunstâncias da noite comigo.

– Está insinuando que não sei como me sinto? – Desta vez o tom suave anunciou uma tempestade iminente.

Mas o que ele tinha a dizer precisava ser dito.

Joe já se aproveitara dela de algum modo, na véspera. Ele seria um total idiota se a deixasse prosseguir com isso agora. E se contasse a ela como se sentia? No dia seguinte, na semana seguinte ou talvez no mês seguinte, Demi iria perceber quão imperfeito ele era, enxergaria a obscuridade nele, e Joe veria a aversão nos olhos dela.

Era bem melhor assim.

– A noite de ontem foi uma montanha-russa emocional para você. Dê a si mesma alguns dias, e esta vai ser apenas a noite na qual todas as luzes da cidade se apagaram.

– Não ouse me tratar com condescendência.

– Só estou sendo racional. Um de nós precisa ser. – No instante em que a frase saiu de sua boca, Joe soube que aquela era a coisa errada a se dizer.

– Diga-me que não ouvi você dizer isso, Joe Jonas.

Joe simplesmente queria que ela enxergasse o que era dolorosamente óbvio para ele. A noite anterior havia sido um espaço fora do compasso. Se Demi simplesmente fosse racional, veria que o dia de hoje estava de volta à normalidade. Contudo, talvez, mais uma vez, Demi não conseguisse sê-lo agora. Talvez fosse aquele período do mês em que os hormônios femininos enlouqueciam.

– Acho que você está se preparando para começar.

– Para começar o quê?

– Você sabe… com sua TPM? – perguntou ele.

O gato miou do outro cômodo.

– Sorte sua que não estou. Se estivesse, você estaria morto agora. – Demi irrompeu até a cozinha.

Joe a ouviu colocando ração na vasilha do gato ao passar por ali. Pegou sua camisa, as meias e as botas. Vestiu a camisa. Sentou-se na beira do sofá para calçar as meias e as botas.

Demi retornou da cozinha e acendeu algumas velas sem dizer palavra.

– Ouça, não é de admirar que você não esteja pensando com clareza, com Wilmer tendo saído do armário, o apagão, e depois de ter sido arrastada para o hospital no meio da madrugada. Está mais quente que no inferno, e você não dormiu muito. – Joe deu um laço no cadarço da bota.

– Isso tudo pode ser verdade, mas tenho bom senso suficiente para saber como me sinto.

– Você irá enxergar tudo de maneira diferente assim que a energia elétrica voltar. Um quarto fresco, um chuveiro quente, uma refeição decente e uma boa noite de descanso farão uma diferença enorme.

Demi plantou as mãos nos quadris, o calor e seu humor obviamente exigindo o máximo autocontrole.

– Toda a eletricidade do mundo não vai mudar o fato de que eu te amo, seu arrogante… – Demi se calou, fechando bem a boca.

– Não. – Joe cerrou as pálpebras por apenas um segundo. – Nós dois sabemos que não tem como você me amar. Uma mulher não vai de noiva de um sujeito a apaixonada por outro em menos de 24 horas.

E certamente nem ele, não o verdadeiro Joe à luz do dia em vez de alguma versão romantizada que ela criara baseada na véspera.

Demi ergueu o queixo, desafiadora.

– Coisas estranhas aconteceram. Para algumas pessoas, isso é amor à primeira vista.

– Eu sei. – Bastou uma simples olhadinha para ela para Joe saber.

Mas Demi não dera uma olhadinha para ele e se apaixonara. Joe servira apenas para amortecer o impacto da traição de Wilmer.

Um pouco da ira dela se evaporou.

– Ai, Deus! Eu fiquei tão envolvida… Desculpe por ter me jogado em cima de você. Esqueci que já tem alguém.

Joe balançou a cabeça.

– Existe alguém, mas… Alguns de nós fomos feitos para ficar sozinhos.

– Não. Eu não acredito nisso. Você é maravilhoso, carinhoso e… Recuso-me a acreditar que foi feito para ficar sozinho. Se a ama de verdade, vá atrás dela, Joe. Não espere até que seja tarde demais.

Circunstância perfeita, levando em conta que ela ainda estava exausta e emocionalmente instável.

– Decida-se, Demi. Se você me ama como diz, por que está me jogando nos braços de outra pessoa?

Ela acariciou o rosto dele, os olhos sombreados por uma tristeza que o perfurou.

– Porque não posso obrigá-lo a me amar se você não me ama. E orgulho é só uma coisa. Não tenho vergonha de ter me apaixonado por você. Recebi exatamente o que desejei. Este é o tipo de amor salto alto. – Ela recuou a mão e ofereceu um sorriso fraco. – Isto é difícil, Joe. A tenacidade sempre me levou para o caminho errado. Consegui quase tudo o que quis persuadindo ou chateando. Sei muito bem disso. Mas não posso agir como um buldogue para fazê-lo me amar. No entanto, é por isso que estamos aqui. É parte de nosso propósito na vida: amar e ser amado. Desse modo, se você está apaixonado por essa mulher, precisa dizer a ela. Não sou uma psicopata que quer que você fique infeliz e sozinho só porque não me quer. Quero que seja feliz.

Demi só pensava que o amava.

Joe sabia que não era possível.

– Demi, você é muito especial…

Ela balançou a cabeça e ergueu a mão para detê-lo.

– Não acho que posso escutar você me colocando a par de meus atributos. E, antes de chegar a esse ponto, deixe-me dizer que não consigo sentir o que sinto por você e ser só sua amiga.

Ele balançou a cabeça.

– Não. Não acho que possamos ser amigos. Foi uma noite ótima, e você é uma pessoa maravilhosa, mas estava certa ontem quando disse que era improvável que nossos caminhos se cruzassem outra vez. Você vai fazer algum sortudo muito feliz um dia…

Demi virou o rosto, abraçando o próprio corpo como se estivesse com frio, apesar do calor sufocante.

– Creio que é hora de você ir embora.

Joe pendurou o estojo da câmera no ombro.

– Mande-me a cobrança junto com as fotos.

– Não. Nós já discutimos isso. Nada de cobrar.

– Se você não me cobrar, então eu lhe deverei uma festa. Seria mais tranquilo e correto se você simplesmente me enviasse uma fatura. – Demi empinou um pouco o queixo, desafiando-o a discutir com ela.

– Espero que você encontre o homem dos seus sonhos, Demi.

Ela o encarou.

– Eu encontrei.

Joe saiu e fechou a porta detrás de si. Ela estava errada. E um dia Demi lhe agradeceria por isso.

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Oiiii girls!!!! estou passando aqui correndo, hoje tem minha única prova final, então é a minha ultima atividade na faculdade esse semestre, o que significa que eu terei tempo para escrever a fic a sexóloga qual eu já estou super atrasada e super triste de estar atrasada, mas eu espero consertar e poder postar vários capítulos nessa minha miniférias... Beijoooos <3
 

15.7.14

Blackout - Capitulo 26 e 27

 
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– ACHEI QUE encontraria você aqui. Ela está dormindo.

Surpreso, Joe ergueu os olhos do café que adoçava. Foi um lapso de tempo em sua pior forma: seu pai envelhecera dez anos no intervalo de uma noite. Conversar com o pai era sempre mais esquisito que conversar com um estranho.

– Posso lhe pagar um café? – ofereceu Joe.

– Alguma chance de conseguir uma xícara de chá?

– Pegue uma mesa para nós e verei o que posso fazer.

Em tempo recorde, Joe retornou com uma xícara fumegante de água fervente, um saquinho de chá, creme e açúcar.

– Foi o melhor que consegui.

A mesa tremeu quando ele se sentou.

– Obrigado. Parece que peguei uma mesa manca.

– Tudo bem. – Joe não achava que eles ficariam ali por muito tempo, de qualquer forma.

Paul colocou o saquinho de chá em infusão, e um silêncio estranho se instalou entre os dois, a mesma rigidez generalizada que Joe sentira durante toda a vida ao lado dos pais.

Joe pigarreou.

– Como mamãe está bem e descansando, eu e Demi não vamos subir de novo. Explique a ela, sim? Diga que eu não quis acordá-la. – Paul meneou a cabeça grisalha.

– Avisarei a ela. Obrigado por vir.

Será que ele duvidara que Joe viria?

– Disponha. Estou feliz por você ter me ligado.

O silêncio se prolongou entre eles como um arame fino esticado. O pai, com seus movimentos precisos e contidos, preparava seu chá. Uma colher de açúcar. Uma bola de creme. Sem limão. Misturou duas vezes. Quando criança, o ritual de preparação de chá do pai fascinara Joe em sua mesmice inabalável.

Paul ergueu o olhar da xícara, pegando Joe distraído.

– Ela queria que você viesse… e eu também.

– Tudo o que você precisava fazer era telefonar. – Talvez fosse a exaustão. Ou a coragem de dizer coisas nas primeiras horas da manhã. Mas Joe disse: – Tudo o que eu sempre quis foi que vocês me amassem.

Os movimentos sempre aprumados de Paul vacilaram. Parecia um velho cansado. Ele balançou a cabeça.

– Temo que tenhamos sido péssimos pais. Sempre amei tanto sua mãe que não abri espaço para mais ninguém. Foi um erro, um erro terrível. Quando achei que pudesse perdê-la esta noite, percebi o quanto ela é não apenas para mim, mas você também. Para nós dois. Creio que Demi tinha razão; temos um filho maravilhoso e precisamos conhecê-lo melhor.

O calafrio que Joe sentiu nada teve a ver com o ar-condicionado.

– Não quero ser a massa que preenche a lacuna só porque você acha que pode perder mamãe.

– Não. Não é isso, nunca. Sua mãe e eu temos sentido saudade de você nos últimos anos. Porém, as coisas deram uma tremenda guinada. Não sei se era sua intenção, mas você nos cortou da sua vida.

Não havia nada a dizer, então Joe permaneceu em silêncio.

Charles assentiu em reconhecimento.

– Não era nada além do que merecíamos. Não podemos mudar o passado. Só temos o futuro. Sua mãe e eu gostaríamos de fazer parte da sua vida.

Joe esperara uma eternidade por isto. Devia estar em êxtase. Mas construíra um muro em torno de suas emoções. Cada dor, cada hora solitária colocara mais um tijolo no lugar. Uma oferta bem intencionada não seria capaz de derrubar algo tão firmemente sedimentado. Joe esfregou o pescoço, tenso.

– Não sei.

– É justo. – Paul bebericou o chá.

Joe terminou seu café. O pai pigarreou.

– Bem, e Demi? Ela é a noiva de Wilmer?

Joe preferia infinitamente se concentrar em Demi e em Wilmer em vez de focar em seu relacionamento, ou na falta dele, com seus pais.

– Até ontem à noite, ela era noiva de Wilmer. Não sou gay e nunca serei. Wilmer, no entanto, acabou de sair do armário.

Paul piscou. Duas vezes.

– Isso é bem semelhante a alguma série dramática picante da TV.

Joe sorriu. Seu pai nunca pretendia ser engraçado, mas às vezes… bem, ele simplesmente era. Joe balançou a cabeça.

– É bem complicado, mas a questão é que Demi e eu não somos um casal. Fiquei preso no apartamento dela ontem à noite… esta noite… e quando mamãe achou que… bem, simplesmente deixamos que ela pensasse isso.

– Ah, são só detalhes, e eu não preciso ficar sabendo disso tudo. Só o que importa é a expressão que vi no seu rosto quando ela entrou no quarto.

Paul envolveu a xícara com as mãos, e Joe notou as veias azuis proeminentes por causa do envelhecimento.

– Você e ela compartilham a mesma coisa que eu e sua mãe sempre compartilhamos. Uma ligação profunda, uma conexão que poucas pessoas têm.

Joe explicara que eles não possuíam um relacionamento, mas não tinha intenção alguma de discutir seus sentimentos com o pai, que nunca antes mostrara o menor interesse em nada que lhe dissesse respeito.

– Não acha que é um pouco tarde para resolver que você está interessado na minha vida, pai?

– Isso é você quem sabe; mas não, eu não acho. Não posso mudar o passado, mas posso mudar o futuro.

Joe não sabia o que dizer. Não iria prometer nada que não pudesse cumprir, e não fazia a menor ideia se era ou não tarde demais.

Paul pareceu decepcionado.

– Tudo bem. Você vai voltar amanhã, ou hoje mais tarde, para ver sua mãe?

– Amanhã. – Era o máximo que ele podia prometer.
 
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– O DESTINO deve estar recompensando você pelo seu bom comportamento. Quais são as chances de se conseguir uma vaga em uma rua de Manhattan? – disse Demi assim que Joe estacionou o velho Jaguar de Paul em uma vaga a meia quadra do prédio dela.

– Deve ser por causa de todos os pobres coitados presos no trabalho. – Ele esboçou um sorrisinho.

Paul Jonas oferecera o carro, já que não iria a lugar algum e Joe retornaria na manhã do dia seguinte… bem, nesse dia, mais tarde.

Demi se sentia mais do que satisfeita por voltar para casa sob o ar-condicionado, em vez de ter que ir correndo. Eles voltaram no automóvel pelas ruas escuras em um silêncio sociável, já que cada um estava envolto nos próprios pensamentos.

– Papai disse que há uma lanterna no porta-malas. Dê-me um minuto que vou pegá-la. – Joe abriu sua porta e saiu.

Por ela, tudo bem. Os assentos gastos de couro eram macios como luvas. Não era esforço nenhum ficar sentada ali mais um pouco.

O porta-malas foi fechado, e Joe reapareceu à porta, lanterna em mãos, o facho de luz deixando a escuridão ao redor ainda mais densa. Ele abriu a porta para ela.

– Pelo menos não vamos precisar enfrentar as escadas no escuro desta vez.

– Serei eternamente grata ao seu pai. – Demi desceu do carro, a mão de Simon lhe firmando o cotovelo.

Ele era um homem completamente moderno com um senso de cavalheirismo adoravelmente antiquado.

A rua estava silenciosa, deserta.

Demi e Joe pareciam ser as únicas duas pessoas acordadas na cidade. Até mesmo as poucas vozes que eles tinham ouvido ao sair, mais cedo, agora cessaram.

Caminharam até a frente do prédio.

– Foi bom vir dirigindo. – Os dentes dele reluziram a brancura em um sorriso cansado: – Muito melhor do que voltar andando.

Uma vez à porta da frente, Joe segurou a mão de Demi enquanto eles seguiam a faixa de luz, cruzando o saguão que levava à escadaria.

– Não tenho certeza se papai teria oferecido o Jaguar se eu estivesse sozinho. Aposto que nunca conheceu ninguém que não gostasse de você – disse Joe enquanto eles subiam as escadas.

Demi tinha certeza de que Joe tagarelava daquele jeito para distraí-la do breu. Mesmo com a lanterna, aquele pretume era o palco de seus maiores medos. Ela se concentrava na conversa e tentava não pensar sobre ser engolida pelas trevas.

– Isso não é verdade. Mas na maior parte do tempo, me dou bem com todo mundo. Gosto de pessoas. Acho que é por isso que fiquei tão incomodada quando você pareceu não gostar de mim quando nos conhecemos.

– Nunca desgostei de você.

Ela emitiu um som de escárnio, mas não discutiu.

– E a sra. Hinky não gosta de mim.

– Sra. Hinky?

– Minha vizinha de porta. No entanto, ela não gosta de ninguém. Pessoalmente, acho que é um pouco maluca, meio paranoica. Ela está convencida de que todos a espionam.

Joe arfou.

– Por acaso ela mora à sua direita, para quem está de frente para o prédio?

– Sim.

Como Joe conhecia a sra. Hinky?

Joe relatou seu improviso no beiral da janela. Demi gargalhou até ficar sem ar.

– Ai, meus Deus! Isso teria feito qualquer um surtar, que dirá a sra. Hinky! – Ela riu mais ainda.

– Pobre mulher. Tenho certeza de que fui o pior pesadelo dela ganhando vida.

– Eu já o vi nu, e garanto que não é pesadelo nenhum. Mas é melhor eu ir até lá e explicar a ela amanhã… bem, hoje mais tarde… assim a sra. Hinky não vai ficar completamente surtada.

– Não é má ideia. – Ele puxou a mão de Demi para fazê-la parar. – Chegamos.

Até que foi bem rápido.

– Tem certeza?

– Sim. – Ele jogou o feixe de luz sobre o número estampado na porta. – Sétimo andar.

Seguiram em silêncio pelo corredor. Chegando ao apartamento, Demi destrancou a porta e eles entraram. Lá dentro estava tão quente quanto na hora em que saíram.

– Espere um segundo, vou acender isso – disse Joe. Uma pequenina vela votiva bruxuleou para a vida. Ele desligou a lanterna. – Não quero desperdiçar as pilhas.

Com um miado, Joe, ex-Peaches, a saudou. Surpresa, Demi o pegou no colo.

– Ei… Sentiu saudade de nós? – Demi olhou para Joe, o homem, que agora havia acendido duas velas de sete dias. – Uau! Ele nunca me cumprimentou antes.

O gato bateu no queixo dela com a patinha com garras aparadas. Ela riu e voltou a colocá-lo no chão.

– Certo. Já chega, não é?

– É a mudança de nome – afirmou Joe, o espectro de um sorriso pairando em seus lábios.

– Pode ser. Ou foi minha fé de que meu gatinho mudaria de ideia um dia. Nossas percepções se tornam nossa realidade.

Nossa, de onde viera aquilo? Ela devia estar cansada para expelir pílulas filosóficas.

A exaustão a tomou de assalto. Fisicamente, emocionalmente, mentalmente sentia-se esgotada. Demi se espreguiçou e captou o cheirinho sob a axila. Eca!

– Eu poderia dormir por uma semana, mas preciso tomar um banho antes. Quer vir comigo? Só para tomar banho mesmo – completou ela, assegurando que Joe soubesse que não estava oferecendo sexo.

– Claro. – Joe riu. – Não sou capaz de mais nada agora. Não acho que conseguiria nem levantar o meu amiguinho. Nem mesmo para você.

Demi sorriu. Aquela era uma das coisas que adorava em Joe. Ele era tão genuíno… Quantos homens admitiriam isso? Ela contornou o sofá.

– Ótimo. Eu não conseguiria fazer nada além de deitar aqui e provavelmente apagar, mesmo que você conseguisse levantá-lo.

Joe passou o braço em torno da cintura dela, e Demi acolheu o apoio.

– Tudo bem então. Só banho.

Com a velinha em uma das mãos e o outro braço ao redor dela, Joe a conduziu pelo corredor e para o banheiro. Colocou a vela na pia, o espelho refletindo a luz.

Demi tirou os tênis e removeu o short, a calcinha e as meias. A camiseta e o sutiã se juntaram à pilha de roupas sujas no chão.

Ela observava Joe terminando de se despir… foi um pouco mais demorado para tirar as botas e a calça jeans. Absolutamente adorável. Esguio e musculoso. Ele olhou para cima e flagrou Demi a apreciá-lo.

– O que foi?

– Estou cansada, Joe, não inconsciente. Só estou tirando um tempinho para aproveitar a vista.

Joe sorriu para Demi e seguiu para ligar o chuveiro. Aqueles ombros, a cintura estreita, o traseiro firme, as coxas musculosas. Ela sentiu a excitação esvoaçar no baixo-ventre. E a onda instantânea de desejo sendo traduzida em um calor úmido, quente e escorregadio entre as coxas.

– Se eu não estivesse tão cansada, tentaria seduzi-lo para um sexo suado, sujo e enlouquecedor no chão.

Joe arqueou uma sobrancelha para ela, olhando por sobre o ombro, e Demi riu baixinho. A expressão dele era metade esperança, metade uma descrença cansada. Demi balançou a cabeça.

– É uma pena desperdiçar o momento quando você está completamente nu e… – ela olhou para a coxa dele, as nádegas expostas – bem, nu. Mas de fato estou cansada demais.

Ele deu risada e saltou sobre as roupas empilhadas para segurar a mão dela.

– Acho que vou ter de queimar essas peças quando chegar em casa. – Joe a guiou para o chuveiro.

Demi não queria pensar em Joe indo para casa. Não queria que a magia da noite terminasse.

– Não sei sobre queimá-las… talvez só uma fumigação.

Ela se posicionou sob o jato gelado do chuveiro. A água fria era deliciosa contra a pele suada, pegajosa. Um silêncio fácil os envolveu, e ela e Joe alternaram a vez sob a água.

Após Demi e Joe já terem passado xampu e esfregado cada centímetro do corpo, ela desligou a água.

Demi vacilou. Agora, limpa e fresca, se rendia à fadiga que pesava em seus membros e entorpecia sua mente.

– Espere. – Joe pegou a toalha dela no gancho e começou a secá-la com delicadeza.

– Eu mesma posso fazer isto – protestou Demi, mas não se mexeu para tomar a toalha dele.

– É claro que pode. – Joe a contornou e lhe secou a água das costas.

Ela cedeu à tentação e apoiou a cabeça no ombro forte.

– Aguente só mais um pouquinho. – Joe se levantou e passou a toalha nos braços, no peito e na barriga dela.

Demi ficou olhando, fascinada pela água pingando dos cílios escuros dele com as gotas presas no queixo com barba por fazer.

– Hum… – Era bom ser mimada. – Acredite ou não, preciso de mais do que uma hora de sono.

Joe riu quando se ajoelhou para secar as pernas dela. A luz fraca da vela dançava ao longo da ondulação dos músculos dos ombros dele, refletindo o brilho e a umidade ao longo do contorno esbelto das costas. Ele se aprumou, passou a toalha molhada no cabelo dela e começou a fazer uma massagem maravilhosa em sua cabeça. Demi gemeu.

– Se você não parar com isso, vou dormir em pé.

Joe colocou a toalha em volta dos ombros dela e sorriu.

– Isso não seria bom. – Pegou outra toalha e secou-se rapidamente, enquanto Demi permanecia ali e o observava como uma garota-zumbi na terra da inconsciência.

Joe saiu da banheira. Antes que ela se desse conta do que ele estava fazendo, Joe pôs um braço atrás dos ombros dela, o outro sob seus joelhos e a pegou no colo. A pele nua dele estava fria e limpa de encontro à dela.

Demi deveria protestar. Dizer que era pesada demais. Que não era necessário. Mas a exaustão a emudeceu. Em vez disso, passou os braços ao redor do pescoço dele e apoiou a face no peito largo, inalando o aroma de sabonete de Joe. O ritmo constante do coração dele tocava como uma canção de ninar sob o rosto dela. Apoiada pelos braços fortes, a pele dele contra a sua, cercada pelo perfume dele, Demi se entregou ao sono…
 
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