21.10.15

Minha Dupla Vida - Capitulo 4


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– POSSO AJUDAR? – perguntou a ruiva atrás do balcão da recepção na Sphere Management, uma xícara de chá antiquada fumegante ao lado dela.

Quase tão fumegante quanto Joe agora.

Ele não tinha certeza se estava mais frustrado por ter tomado um bolo na noite anterior ou pelo vazamento a respeito de sua pequena empresa, o que tornava seus planos profissionais de conhecimento público. – Demi Masterson. – Pelo menos ele sabia onde encontrá-la.

Natalie Night teria que esperar.

– Certamente. – A recepcionista pegou o telefone. – Qual é o seu nome?

– Joe Fraser. – Não era a primeira vez que ele desejava ter um nome não tão conhecido na cidade.

A foto dele não tinha aparecido nos blogs de fofoca pela manhã, mas ainda era cedo. O rosto de Eric já estava por toda a internet muito antes do amanhecer. Seria um pequeno milagre se nenhum dos fotógrafos tivesse flagrado Joe.

– Obrigado. – A expressão da mulher permaneceu uma máscara educada, mas ele via que os lábios dela estavam contraídos de forma quase imperceptível.

Enquanto ela fazia a ligação, Joe planejava sua abordagem. Ele seria profissional. Direto ao ponto. Mas não ia embora sem respostas.

– Sinto muito, Sr. Fraser. – A recepcionista se levantou de trás do balcão maciço. – A srta. Masterson não está atendendo o telefone. Você marcou com ela para hoje de manhã?

– Deixei claro para Selena Barrows ontem que queria encontrar a pesquisadora de vocês o mais breve possível. Achei que ela fosse transmitir isto à Srta. Masterson. – Ele franziu a testa, irritado. – A Srta. Barrows está no escritório?

– Vou verificar. – A mulher apertou um botão e falou com alguém. Instantes depois, Selena apareceu.

– Que bom ver você, Joe. – Ela usava um terno cinza e tinha uma pasta de arquivos enfiada debaixo de um braço. Ela apertou a mão dele e pareceu menos paqueradora do que no dia anterior. – Ouvi dizer que está procurando por Demi.

Ele assentiu. Aguardou.

– Eu a vi no início da manhã. Ela deve estar longe da mesa. – Gesticulando para que ele fosse até a porta de onde ela veio, Selena deixou sua pasta sobre o balcão da recepção. – Por que você não entra e verei se consigo localizá-la?

Seguindo-a pelos corredores privados da Sphere Asset Management, Joe passou pelos mesmos lugares do dia anterior.

– Li na revista Variety de hoje que seu pai adquiriu os direitos de um novo livro. – Selena espiou o mesmo escritório de onde Demi se ausentara no dia anterior.

Joe olhou para a mesa da pesquisadora através da porta entreaberta. Havia um casaco azul-marinho dobrado sobre a cadeira de couro de espaldar alto. Um bom sinal de que ela estava por perto?

– Não sei por que ele quer transformar aquele livro em filme. – Joe não queria falar sobre o pai. Mas, inevitavelmente, as pessoas perguntavam sobre ele.

– Pois é, não é mesmo? – Selena deu meia-volta e cruzou os braços, como se estivesse pronta para iniciar uma conversa ao bebedouro. – Ele geralmente faz filmes comerciais. Ação. Atores rentáveis. Fiquei realmente surpresa por ele ter escolhido um livro tão introspectivo, pouco badalado.

Joe soube o motivo no momento em que viu o acordo. Thomas tinha uma necessidade insaciável de competição, para provar que era o melhor. Sendo assim, faria um filme para competir pau a pau com o que Joe tinha planejado enquanto ainda estava no comando de sua subdivisão na empresa do pai. Joe tinha jurado fazer o filme um dia. Agora seu pai estava criando um projeto com estilo e público semelhantes, assim ele poderia fazer melhor.

Será que a relação deles tinha como ser mais confusa?

– Vai entender. – Joe deu de ombros e então se aprumou quando viu uma mulher aparecer, saindo de uma sala nas proximidades.

Uma morena com a cabeça baixa, imersa em pensamentos enquanto estudava uma página de um livro grosso. – Srta. Masterson? – Joe captou a atenção dela segundos antes de ela quase colidir contra ele.

Demi levantou a cabeça.

– Oh! – Ela ficou tão assustada que perdeu o controle sobre o livro. Os olhos cinzentos arregalados encontraram o olhar de Joe. – Desculpe!

O livro atingiu o dedão do pé de Joe antes de cair no chão. Em um segundo, Demi estava ajoelhada aos pés dele para recolher a publicação, o corpo tão perto que Joe jurava ter sentido a respiração quente em sua coxa.

Ou foi uma ilusão?

Ele cerrou os dentes e lembrou a si mesmo por que queria encontrar aquela mulher, para começar. Talvez sua oportunidade perdida com Natalie o estivesse fazendo enxergar cenários sexuais para onde quer que olhasse.

– Não tem problema. – Ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar, segurando seu cotovelo.

Ela parecia diferente em relação ao dia anterior. Sem paletó, parecia menos amarrotada e mais… curvilínea. Uma blusa de seda branca simples realçava os seios, embora o decote alto não revelasse nada. O cabelo castanho estava torcido em um nó confuso, e mechas saltavam da frente e de trás, algumas emoldurando o rosto e outras contornando o pescoço.

Ainda assim, foram os olhos cinzentos que o atraíram. Isso e o fato de ela ter prendido a respiração quando ele a tocou.

Agora Joe a soltava, os dedos abandonando lentamente o calor do braço nu.

– Demi, você se lembra de Joe Fraser? – cutucou Selena quando nenhum dos dois falou por um longo momento.

– Sim. – Ela disse a palavra com uma deliberação lenta enquanto Joe sorvia o aroma da morena. Era algo novo e fresco, tão sutil que ele ficou tentado a se inclinar mais para identificá-lo.

– Eu gostaria de conversar com você em particular – informou Joe, necessitando colocar uma mesa como barreira entre eles, caso quisesse ter uma conversa proveitosa.

E essa deveria ser a prioridade, mesmo que alguma coisa a respeito de Demi deixasse os sentidos dele em alerta total. Talvez porque o corpo dela fizesse lembrar o de Natalie. Proporções básicas iguais. Talvez até a mesma altura, se Natalie não estivesse usando os saltos altíssimos ostentados durante sua dança.

– T-tudo bem. – Mais uma vez, a fala dela pareceu mais lenta, como se estivesse falando com uma criança. Algo naquele esse padrão estranhamente cadenciado também o fazia se lembrar de Natalie. – Venha comigo.

Ela passou por ele sem dizer palavra. Selena desaparecera, provavelmente retornando à sua sala para se debruçar sobre as páginas da Variety. Embora, nesta cidade, talvez isso rendesse bons negócios, mesmo se você não estivesse na indústria cinematográfica.

Joe seguiu Demi pelo corredor, entregando-se à visão da traseira dela sem qualquer pudor. Demi Masterson não mostrava seus dotes com o mesmo abandono de Natalie… aquele tapinha atrevido no bumbum veio tentadoramente à mente… mas a figura dela era tão sedutora quanto.

No escritório, Demi gesticulou em direção às poltronas perto de uma janela aberta antes de fechar a porta atrás deles. Joe ficou grato por ela ter levado a sério seu pedido para uma conversa em particular. Ainda assim, ele não se sentou até ela se juntar a ele, perto das poltronas que combinavam entre si, ao lado de uma mesinha de cerejeira. Quando ela finalmente sentou-se, ele fez o mesmo.

– Como posso ajudá-lo? – Demi vestiu o casaco.

Joe ficou se perguntando por que ela se escondia por trás de roupas disformes e sapatos confortáveis. E como também não usava maquiagem, o esforço para minimizar sua atratividade natural parecia deliberado.

– Você incluiu algumas informações em seu relatório a meu respeito que não devem chegar ao conhecimento do público. – Em um esforço para manter o olhar longe das pernas dela, Joe ficou observando os detalhes do escritório. Diploma da Universidade da Califórnia. Um quadro de cortiça com uma foto dela segurando uma margarita entre um monte de outras mulheres fazendo a mesma coisa. Ela parecia diferente. Relaxada e feliz.

O que o interessou na foto, no entanto, foi o fato de as mulheres estarem ajoelhadas em tapetinhos vermelhos diante de um poste de dança prateado reluzente. Dada sua recente introdução de cair o queixo às sutilezas do pole dancing, ele não conseguia evitar pensar em Natalie.

Droga.

– Não acho que tenha incluído qualquer coisa particular. – Ela franziu a testa, e o movimento fez deslocar um trio de sardas leves perto da boca.

Joe se perguntou distraidamente qual era o gostinho da pele dela ali naquele ponto.

– Você fez referência a uma possível expansão dos negócios, além da agência de talentos – lembrou-lhe ele, tentando se conter.

Demi não deve ter precisado do arquivo para saber a quê ele se referia, porque concordou imediatamente.

– Sim. Eu me lembro.

– Ninguém sabe sobre isso. – A tensão tomou os ombros de Joe. Diabo, talvez seu pai já estivesse ciente de seus planos profissionais. Isso explicaria o súbito interesse em filmes mais artísticos.

– Não? Eu sei. – Um sorriso curvava os lábios dela agora, e indiferente ao fato de Demi ter lhe lançado um olhar ligeiramente triunfante, Joe tinha de admirar o orgulho óbvio que ela ostentava pelo trabalho.

– Preciso saber quem foi sua fonte para essa informação.

– Não tenho permissão para dizer. – Ela empinou o queixo ao mesmo tempo que entrelaçou os dedos em um nó apertado.

Joe notou que Demi não usava aliança. Será que ela estava saindo com alguém?

Não que ele estivesse disponível. Depois de ter uma aliança devolvida pela única mulher com quem tentara ter um relacionamento sério, ele não estava com pressa para percorrer esse caminho novamente. Heather o abandonara durante um de seus muitos desentendimentos com o pai, sendo que a atriz promissora preferira dar razão a Thomas. Isto fez Joe se perguntar se ela havia ficado com ele pela pessoa que ele era, ou se ficara impressionada com o nome de família e com o acesso a um produtor famoso. Mas dois anos depois daquele rompimento, Joe estava curioso a respeito de uma pessoa nova.

– Você está longe de ser uma jornalista. Suas fontes não são protegidas.

– Se você se tornar um cliente da Sphere, vai agradecer nosso compromisso com a discrição.

– Não se isso violar minha privacidade.

– Sr. Fraser…

– Joe – corrigiu ele.

– Joe – amenizou ela. – Qualquer coisa que descobrimos em nossa pesquisa não vai além do analista que assume a conta do seu negócio. Nesse caso, Selena.

Ele se inclinou no assento, determinado a deixar bem claro o quanto vinha cuidando para que seu plano de negócios permanecesse confidencial.

– Com base em uma jogada profissional que meu pai fez ontem, tenho de questionar se a informação já se espalhou. – Ele a encarou e desejou que ela compreendesse. – Se houve um vazamento pelas poucas pessoas que ainda trabalham para mim, preciso saber.

Ela olhou para o chão, os lábios contraídos de indecisão. Ele aproveitou aquele instante de hesitação.

– Demi… Posso chamar você de Demi?

Diante do breve aceno de cabeça, ele continuou:

– Meu pai é o homem de negócios mais cruel que você vai conhecer. Claro, ele assume uma fachada encantadora em público, mas tem uma mentalidade de tubarão quando vê o sangue na água, e neste momento ele está vendo o meu.

– Uau. – Ela deu um sorriso torto, os joelhos de ambos tão perto que estavam quase se tocando. – Acho que não sou a única com um genitor que não acredita em mimos.

– É mais ou menos isso. – Ele retribuiu o sorriso e sentiu-se estranhamente honrado por saber algo pessoal a respeito dela. Ele não a via como o tipo de mulher que era fácil de se conhecer. – Eu teria sido sábio a ponto de escolher uma profissão bem longe do circuito de Hollywood, mas acabei tomando gosto pelo ramo do cinema.

Ela o observava com os olhos cinzentos frios, no entanto Joe notou um latejar sutil começando na veia azulada da têmpora dela. Ele conseguia sentir o coração de Demi batendo em um ritmo acelerado, um ritmo que combinava com a pulsação dele.

– Você me convenceu, Joe. – A voz dela atingiu uma nota gutural que o fez pensar em longas noites rolando na cama.

Na cama dele. Na cama dela. Tanto faz.

Talvez ele só estivesse desperdiçando seu tempo ao tentar descobrir o paradeiro de Natalie Night. Talvez devesse buscar o lado aventureiro de Demi Masterson em vez disso.

– Estou disposto a colocar todas as minhas habilidades persuasivas em ação. – Ele queria puxá-la, tirá-la da poltrona e colocá-la no colo. – Isso é importante assim para mim.

EU PRECISAVA respirar fundo.

Muito, muito fundo.

Porque se não conseguisse um pouco de ar em breve, iria derreter aos pés de Joe Fraser pela segunda vez em 24 horas. Uma coisa era a dançarina Natalie Night flertando descaradamente com aquela figura conhecida em Hollywood; para mim, no entanto, essa possibilidade não existia. De. Jeito. Nenhum.

– Isso não é necessário – informei a Joe. – Não será preciso me persuadir mais.

Embora eu pudesse ficar em vias de exigir respiração boca a boca caso Joe chegasse mais perto com seu terno de seda italiana, suas mãos bronzeadas de aparência tão perspicaz apoiadas nos joelhos. Eu definitivamente sentia um desmaio chegando.

Joe era o equivalente a um prêmio para uma garota com a mais modesta das aspirações românticas. Naquele momento, eu devia dar um jeito de tirá-lo do meu escritório antes que ele descobrisse minha verdadeira identidade. Dali do meu assento ao lado da janela, via alguns fragmentos de provas contundentes que poderiam me trair, caso ele os notasse. Um deles era um passe VIP do Backstage que eu tinha guardado como um maldito troféu para me lembrar do meu triunfo na noite passada. Não estava supervisível, mas preso em minha bolsa perto da minha cadeira.

Também guardei uma plumagem branca, que estava decorando o tampo da minha mesa, bem na frente, bem no centro. Sim, eu era realmente uma idiota.

– Sério? Você vai me contar onde conseguiu a informação? – Ele se endireitou, e me perguntei se ele empregava a sedução como técnica coercitiva com frequência. Só pensar no assunto já era o suficiente para me fazer ceder ao que ele quisesse.

Além disso, quanto mais cedo ele saísse da Sphere, melhor.

– Bem. – Lambi os lábios porque minha boca tinha ficado seca. No entanto, por incrível que pareça, não gaguejei. De algum modo, mantive minha compostura e minhas palavras fluíram com breves pausas entre elas. – Na verdade, faço o mais rudimentar da pesquisa, então não fui eu quem descobriu a notícia de que você pode expandir seus talentos abrindo um estúdio.
Ele cerrou os punhos e a boca se contraiu em uma linha reta.

– Então preciso convencer outra pessoa a falar.

– Não. – Eu não iria contar o nome da minha fonte, ou ela nunca mais iria me ajudar com meus perfis novamente. – Estou familiarizada com os métodos dela e posso lhe garantir que notícias como esta vieram de dados desprotegidos na internet.
Joe deu um pulo da poltrona.

– Você pagou alguém para invadir meu computador?

– Claro que não. – Não pude evitar um suspiro. Infelizmente, a maioria das pessoas não sabia o quão vulneráveis seus dados ficavam quando eram armazenados on-line. – Você provavelmente não entende muito de armazenamento na internet. Acontece que eu sei que ela viu seu plano de negócios em um arquivo que surgiu em uma busca de rotina.

– Rotina? – Ele começou caminhar pelo meu escritório, passando a mão no cabelo. – Você chama invasão de privacidade de rotina?

– Nossas pesquisas são agressivas, mas nunca antiéticas. – Eu acreditava firmemente nisso, ou não teria protegido a empresa de pesquisa. – Você não pode esperar que a gente não procure pistas na internet sobre os negócios de um cliente. É como se você estivesse postando informações em um mural público e, em seguida, pedisse às pessoas para não olhar.

Mais ou menos como colocar uma peninha branca estúpida na minha mesa na esperança de que Joe não fosse notá-la. Mas quem teria pensado que ele iria aparecer na Sphere hoje, pedindo para ver a mim dentre todas as pessoas?

Ele parou ao lado da minha mesa, tão perto da pena, que quase podia tocá-la. Eu tentava manter o contato visual e não entregar a pista sobre a verdadeira identidade de Natalie Night. Mas era impossível não notar o elefante na sala.

Um suor nervoso irrompeu pela minha testa, e embora meu cabelo o cobrisse, perguntava-me se minhas bochechas também estavam num tom vermelho vivo. Só de pensar nisso, eu corava mais.

– Entendo. – Os dedos dele roçaram minha mesa, se apoiando ligeiramente ao lado de uma foto da minha casa depois de eu reformá-la. – Talvez você possa me dizer como proteger melhor as informações no futuro. Gostaria de me livrar de todos os vestígios de quaisquer planos de negócio.

Os belos olhos escuros de Joe encontraram os meus, e me perdi por um minuto. Ele era incrivelmente bonito. Tinha nuances dessa coisa toda de amante latino rolando, mas também possuía um senso de cuidado caloroso que lisonjearia qualquer mulher. Deus do céu, para ele eu era apenas uma analista de pesquisa aleatória que havia entrado em contato com seu mundo, e ele estava fazendo eu me sentir o centro de sua completa atenção. Era uma coisa inebriante.

– Demi? – chamou ele.

– Hum? – Eu tentava parar de pensar no abdome tanquinho que Selena tinha jurado que ele tinha, porém fiquei observando seu tronco secretamente, procurando vestígios daqueles músculos na abertura de seu paletó desabotoado. – Realmente não sou a melhor pessoa para aconselhar alguém sobre segurança digital.

– Tenho certeza de que você sabe o suficiente para não cometer os mesmos erros que eu. – Ele não parecia nada dissuadido. E então aconteceu.

Joe olhou para minha mesa. Seus olhos pousaram na plumagem.

Tenho certeza de que um suspiro audível escapou dos meus lábios porque ele olhou para mim abruptamente.

– N-n-nesse caso – gaguejei no começo, então acelerei meu discurso para botar as palavras para fora antes que pudesse estragá-las mais – Ficaria feliz em lhe dar algumas dicas sobre como proteger suas informações on-line. Vou lhe enviar minhas observações ao final do dia.

Ele ainda olhava para a peninha. Ai, droga.

Fiquei de pé, na esperança de o gesto sinalizar o fim da reunião, para que pudéssemos seguir nossos respectivos caminhos. Em vez disso, ele pegou a plumagem branca elegante e me lançou um olhar demorado.

Meu coração disparou. Estaria morta se ele me reconhecesse. Imagens de mim mesma enroscada ao poste de dança na noite anterior voltaram com força total em detalhes vívidos. Eu tinha dançado para ele. Para ninguém mais. Como poderia esperar que ele não soubesse que era eu?

– Demi. – A atenção de Joe se voltou para a pena. Ele alisou as fibras macias entre o polegar e o indicador, um toque lento, deliberado.

Será que com a intenção de me provocar com uma informação perigosa que ele agora poderia esfregar na minha cara?

Ou será que era aquela atenção masculina cuidadosa projetada para me lembrar do quão sedutoramente persuasivo ele podia ser? Não sabia se ficava com medo ou… excitada. Daí, fui capturada em um ponto frenético da situação. Eu não conseguia recuperar o fôlego. Minha boca ficou tão seca que falar não era mais uma opção.

– Hum? – Enfiei as mãos nos bolsos do casaco antes de me agarrar loucamente a ele.

– Você cogitaria se encontrar comigo em particular?

Olhei em volta do escritório, muito consciente da porta fechada.

– Quer dizer – esclareceu ele –, você seria capaz de se encontrar comigo fora da Sphere?

– Não sou gerente de contas. Na verdade, não costumo me reunir com clientes. – O suspense estava me matando. Se ele sabia meu apelido secreto, por que simplesmente não dizia? Por que simplesmente não corria até meu chefe e acabava comigo?

– Então agradeço se você me encontrar fora do expediente. – Ele abanou a peninha, quase como se fosse uma gangorra, entre dois dedos. Então a largou na mesa. – Obrigado.

Será que ele estava me agradecendo por tê-lo encontrado ontem à noite no clube? Ou estava supondo que eu concordaria com o encontro que ele havia acabado de propor?

Sua expressão não me dizia nada.

Mas não importava se havia uma chance de 50 por cento de ele ter me reconhecido e poder me chantagear para sempre: Joe ainda era o homem mais atraente que já vira. Além disso, ele tinha me notado no dia anterior, mesmo antes de eu colocar os trajes do espetáculo para assumir o lugar de Natalie no Backstage. Não conseguia me esquecer do jeito como ele me convidara para a sala de reunião, os olhos encarando os meus como se eu fosse uma mulher atraente, e não apenas mera funcionária da Sphere.

– Acho que consigo uma brecha no horário de almoço. – Manteria a postura profissional. Despesa da empresa. Não havia nada em meu contrato que dissesse que eu não poderia trazer novos negócios. Se muito, havia incentivos financeiros para fazer exatamente isso.

– Hoje? – incitou ele. – Há várias coisas que gostaria de discutir com você.

Tais como? Eu queria gritar, meus nervos tensos ao ponto de ruptura. Mas se o que ele queria dizer tinha algum tipo de relação com o trabalho clandestino da noite passada, seria melhor encontrá-lo fora do escritório mesmo. Talvez pudesse convencê-lo a guardar meu segredo.

No mínimo, poderia me render à atração tépida que dispensei na noite anterior, quando dei o bolo nele. Parecia justo recuperar a chance, já que ia perder meu emprego por causa de um erro.

– Tenho uma reunião interna no horário de almoço hoje. – Tive de me aproximar dele para espiar o calendário semanal aberto na área de trabalho do meu computador. – Que tal amanhã?

Senti-me incrivelmente ciente da presença dele, de pé ao meu lado, um pouco mais perto do que o estritamente profissional.

Remexi as coxas sob a saia em um esforço para acabar com o calor repentino, entretanto o gesto do intensificou a sensação.

– Que tal hoje à noite? – pressionou, baixando a voz para poder falar bem próximo ao meu ouvido.

Um arrepio varreu meu corpo. Foi só o que pude fazer para não fechar os olhos, inclinar a cabeça para trás e lhe conceder pleno domínio sobre meu pescoço. Ombros. Qualquer outra parte que ele quisesse.

– Uma reunião no almoço provavelmente seria mais apropriada. – Eu soava como uma puritana, mas me agarrei à esperança de que ele não me reconhecera. De que minha consciência culpada estava pregando truques em mim e via perigo onde não havia nenhum.

Ele assentiu, mas não recuou. A plumagem permanecia sobre a mesa, no espaço estreito entre nós.

– Se você insiste. Posso buscá-la ao meio-dia amanhã?

Péssima ideia. Isso só iria levar a problemas. No entanto, assim como na noite anterior, descobri que não era capaz de recusar.

– C-c-claro. – Engoli em seco. – Espero que eu tenha o suficiente a oferecer para fazer valer a pena.

Era a emoção de uma mulher insegura – e uma que eu não devia ter verbalizado. Sabia que não devia me minar.

– Mais do que suficiente. – Joe sorriu, do mesmo jeito que o lobo mau teria feito após degustar a vovó. – Até lá então, Demi.

Joe deu meia-volta com seus sapatos de couro polido, e achei ser capaz de respirar de novo. No entanto, ele fez uma pausa entre minhas estantes para pegar a foto no porta-retrato de prata que – tinha notado – estivera espiando mais cedo.

Era uma foto da despedida de solteira da nossa recepcionista, no ano anterior, a festa que me apresentara ao pole dancing. Perguntava-me por que Joe quereria olhá-la com mais atenção.

Ele largou a foto e partiu antes que pudesse perguntar. Quando dei outra olhadinha no retrato, no entanto, fiz uma boa ideia do motivo.

O poste de dança não estava tão óbvio ao fundo, uma vez que poderia ser confundido com um apoio para o teto ou com a base de uma luminária de pé alto. No entanto, não poderia haver nenhuma dúvida em relação ao logotipo na parede dos fundos do estúdio de dança. Se você olhasse de pertinho, notaria o nome Naughty by Night pintado na parede de tijolos.

Meu coração foi à garganta enquanto me perguntava o que Joe pensara ao ver aquela foto. Será que ele conhecia meu segredo?

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Seis comentários pro próximo
xoxo
PS: É importante que vocês comentem, pois assim sabemos se estão ou não gostando.

19.10.15

Minha Dupla Vida - Capitulo 3


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– JÁ NOS conhecemos? – soltou Joe com todo o requinte de um garoto no colegial chamando uma garota para sair pela primeira vez.

Que delicado, cara. Realmente elegante.

A diva da dança vestida com lantejoulas prateadas balançou a cabeça negativamente, o negro e o prateado em sua máscara reluzindo quando ela se mexia. De perto, ela não era tão alta quanto parecia no palco. Ela ainda se movimentava com graça atlética, mas havia uma diferença sutil no modo como se portava, como se um pouco de sua confiança tivesse se esvaído assim que ela saiu dos holofotes.

Ele desejava poder enxergar por trás da máscara.

– Não? – Joe sentia-se um idiota por tê-la seguido após a apresentação, mas ele ficara tão hipnotizado que nem pensou no que estava fazendo. Além disso, havia algo de familiar nela. – Sou Joe Fraser – apresentou-se, na esperança de que aquilo fosse ajudá-la a se lembrar dele. – Sei que soa como uma cantada, mas sinceramente, achei que já nos conhecêssemos.

Estendendo a mão, ele esperou que ela retribuísse a saudação, mas o segurança do clube surgiu em um instante. Tardiamente, Joe percebeu que outros caras que tinham visto o show haviam tido a mesma ideia que ele, e agora estavam logo atrás, à espera de uma palavra com a loura sexy.

Droga.

– Sr. Fraser. – Um dos seguranças se dirigiu a ele educadamente enquanto outro musculoso afugentava o restante da multidão que salivava. – Tenho certeza de que a Srta. Night ficaria feliz em conversar com você nos bastidores, onde as dançarinas têm um camarim.

– Não queria incomodar você – disse Joe contornando o sujeito fortão que estava entre ele e a loura. – Você foi ótima lá em cima.

Antes que ele pudesse se virar, o segurança colocou um braço em volta dos ombros da bailarina e a arrastou alguns passos mais para perto de Joe.

– Não é incômodo, Sr. Fraser – assegurou o empregado do clube, endireitando uma gravata azul-escura e lançando um sorriso insinuante. – Tenho certeza de que é um prazer para a Srta. Night.

O que significava que era parte do trabalho dela.

E não é que aquilo colocou as coisas em perspectiva para Joe? Que diabos ele estava pensando, seguir uma dançarina como se fosse um arroz de festa de áreas VIPs que achava que qualquer coisa no local fosse sua por direito. Ele odiava tal ideia por saber que isso era exatamente o tipo de porcaria a que seu pai recorria o tempo todo. Thomas Fraser II passara a vida presumindo que o mundo era dele por direito.

– É claro – disse a dançarina muito suavemente. Ela se adiantou para enlaçar o braço de Joe. – P-p-por aqui, por favor.

Ele a acompanhou apenas para se certificar de que ficariam longe dos ouvidos do segurança. Ela o guiou para trás de uma cortina preta, até uma pequena recepção com uma portinha, a qual ela deixou aberta. Havia um sofá compacto e um par de poltronas em torno de uma mesinha de café com um grande arranjo de orquídeas e folhagens. Uma garçonete apareceu tão logo eles entraram, mas quando a dançarina sacudiu a cabeça para recusar serviço, Joe deu uma gorjeta à garçonete e a liberou. – Srta. Night, não é?

– Natalie – falou ela rapidamente, num fôlego só. – Nome artístico.

Ele se lembrava de ter visto vagamente o nome “Natalie Night” na programação afixada na entrada do clube.

Lá no palco, outra artista já entretia a multidão, a música sussurrada e a batida do baixo pontuados por alguns gritos masculinos de aprovação.

– Bem, Natalie, não vou segurar você por muito tempo. Só vim aqui porque não queria causar problemas entre você e a administração do clube. – Ele captou o espelho com moldura dourada atrás do sofá e no teto, supondo que aquele quarto fosse designado para danças particulares e muito mais. Embora já tivesse estado em clubes como aquele, nunca pagara por algo “extra”, nem uma única vez. O que mais Natalie poderia oferecer, caso ele estivesse inclinado a aceitar?

– Tudo bem – assegurou ela, puxando a alça de seu traje para a beiradinha do ombro. – Hoje foi apenas um período de experiência para… – Ela fez uma pausa. Sorriu, sem graça. – Para mim.

Ela parecia falar com uma paciência deliberada, articulando lentamente, como se estivesse incomodada por ter de conversar com um fã. Não que Joe a culpasse por isto. Mas ele ficou muito curioso com o comentário dela para ir embora.

– Esta é sua primeira noite nesse emprego?

– Foi um teste público para um papel na… – Ela passou a mão pelo cabelo, os fios platinados de comprimento médio voltaram ao lugar. – Temporada de outono.

O movimento distraiu Joe das palavras dela, os olhos indo para toda a pele nua que o traje expunha. Com uma ferocidade súbita, ele percebeu que não a queria na temporada de outono. Nem um pouquinho.

– Você não quer trabalhar aqui. – Ele imaginou os seguranças do clube a empurrando para salas VIP com convidados abonados que ficariam muito felizes em distribuir dinheiro em um showzinho particular. – Sei que você seria destaque com seu talento, mas alguns frequentadores de clubes não respeitam os limites das dançarinas. Você não ia gostar de ter que… você sabe… entreter os clientes aqui atrás.

Então, novamente, ela devia saber o que o trabalho envolvia. E ele provavelmente avançara bem os limites ao querer dizer a ela como viver sua vida, mas droga. Ela era talentosa demais para ficar lidando com idiotas ricos.

– Vou me preocupar com isso quando chegar a hora. – Ela falou tão baixinho que ele precisou se inclinar para ouvi-la.

Perto o suficiente para captar o perfume dela: uma fragrância leve, que mal dava para sentir.

– Não é da minha conta lhe dizer o que fazer. – Ele tentou recuar e sair de lá, mas se flagrou ainda muito perto dela.

Joe queria dar uma olhadinha por trás da máscara e ficou parado para tentar discernir a cor dos olhos sob a peça negra. Azuis, talvez.

– Você não gostou da dança? – perguntou ela, distribuindo o peso do corpo sobre um dos saltos altíssimos, os lábios pintados com esmero se movimentando com uma precisão lenta enquanto ela falava.

Apanhado pelo desejo de lamber todo aquele gloss cor-de-rosa até ser capaz de enxergar a cor verdadeira por baixo dele, Joe sentiu o sangue ferver. Queria aquela mulher, mesmo sem saber absolutamente nada a respeito dela.

– Gostei muito da dança. – Aquilo não explicava o que o havia feito segui-la. Ou o que o fizera continuar por ali quando ele não tinha planos de pagar por uma performance particular. – Muito mesmo. Talvez por isso não ache que você deva executá-la em um lugar como este, onde as bailarinas são encorajadas a fazer horas extras.

Era difícil avaliar a reação dela sob a barreira da máscara. Mas a boca se curvou em um sorriso sexy e manhoso que elevou a temperatura em alguns graus.

– Você foi uma ótima plateia – confidenciou ela naquele tom suave que o fez sentir como se já fossem íntimos. – Não conseguiria ter feito aquilo sem você.

Ele estava perto o suficiente para beijá-la. E o jeito como ela falava com ele o fazia achar que ela poderia aceitar bem o beijo. Mas o relógio na parede tocou bem naquele instante, chamando a atenção dela.

– Tenho que ir – anunciou ela, aprumando os ombros.

O tempo dele já havia acabado? Joe se perguntou se deveria dar uma gorjeta a ela, embora eles só tivessem conversado.

– Espere. – Ele estava tão distraído esta noite que não sabia bem o que estava fazendo. Mas não achava que seria capaz de se concentrar no trabalho ou no plano contra seu pai caso não encontrasse logo algum alívio para seu estresse. E aquela mulher definitivamente tinha flertado com ele. – Podemos nos encontrar mais tarde? Sem compromisso?

Ele poderia mandar Eric para casa com o motorista e pegar um táxi para seu apartamento.

– Tenho certeza de que é contra a política do clube. – A rejeição dela pareceu cuidadosamente redigida.

Porque ela era cautelosa, ou porque estava tentando dispensá-lo com delicadeza?

– Mas você não começa a trabalhar aqui oficialmente até o outono.

– Eu não vou fazer horas extras… nem agora nem depois – lembrou ela, jogando as palavras na cara dele.

– Então me encontre mais tarde. – De repente, aquilo soou como a melhor razão já apresentada. Ele tinha planejado, traçado e pensado cada movimento seu tão cuidadosamente ao longo dos últimos seis meses, fechando totalmente sua vida pessoal para se concentrar em ressuscitar sua carreira e seu nome.

Por que não fazer uma coisa só porque ele queria? Só porque Natalie Night era sexy e intrigante?

– Você realmente gostou da dança, não é? – Se aquela pergunta tivesse vindo de outra mulher, Joe acharia que ela estava caçando elogios. Mas Natalie pareceu genuinamente surpresa.

E isso não fazia sentido. Dançarinas exóticas buscavam o palco porque desejavam ser o centro das atenções e eram confiantes a respeito de seus corpos.

– Acho que é de você que gosto – admitiu, tocando a pontinha da máscara e deslizando o dedo ao longo do rosto dela. – Posso?

Ele puxou ligeiramente para cima, à espera de aprovação.

– Não. – Ela se afastou rapidamente. Vacilante. – Encontro você mais tarde, mas a máscara permanece em meu rosto.

– Sério? – Joe não sabia o que o surpreendia mais. O fato de ela concordar em se encontrar com ele ou de querer permanecer anônima.

Embora uma imagem de Natalie em cima dele, com as coxas esguias o envolvendo enquanto usava nada além de tecido e plumas o tenha golpeado com tanta força que lhe tirou o fôlego.

– Você pode estar na porta dos fundos em 15 minutos? – Então o olhar dela se voltou para o relógio na parede outra vez.

– Sim, mas será que não vai haver uma multidão reunida lá para ver você?

– Sério?

Mais uma vez, aquela surpresa aparentemente inocente não fazia sentido. Ela estava brincando com ele?

– A segurança vai acompanhá-la até seu carro, mas acho que eles não vão incentivá-la a se encontrar com qualquer frequentador do clube uma vez que você estará fora do expediente.

Ela franziu a testa.

– Eu resolvo isso – disse ela finalmente, dando um passo para trás. – E Joe?

– Sim? – Ele ouviu a música mudando e soube que uma nova apresentação ocorria no palco.

– Estou muito feliz por você ter vindo esta noite.

Natalie deu meia-volta e saiu da sala, os quadris rebolando em uma caminhada delicadamente feminina e sem a intenção de ser sedutora. Ou assim pareceu para ele.

Joe estava tendo um trabalhão para decifrar aquela mulher.

Será que realmente iria encontrá-lo, ou já estava planejando mandar a segurança atrás dele assim que aparecesse no estacionamento? Joe não fazia ideia. Mas ela havia sido a mulher mais quente, a mais divertida na qual ele já tinha colocado os olhos.

E ele planejava aproveitar todos os momentos possíveis que pudesse ter com Natalie Night. No dia seguinte, haveria tempo suficiente para interrogar a analista da Sphere Asset Management e obter as respostas que desejava.

Talvez depois de se entregar à sua fantasia sensual superaquecida com Natalie, ele seria capaz de olhar nos olhos cinzentos de Demi Masterson e enxergar a mulher egoísta que ela realmente era, e não a analista sexy que o cérebro dele evocara.

ISSO ERA ruim. Muito ruim.

Tropecei no camarim e peguei minha bolsa, desesperada para sair do clube antes de Joe perceber que fui embora. Porque mesmo que meu coração estivesse batendo como as asas de um beija-flor, um zilhão de vezes por segundo, eu sabia que levar as coisas mais longe com um cliente estaria fora de questão. Ao contrário de Selena, eu não tinha headhunters empilhando ofertas de emprego aos meus pés.

Era fato que eu não deveria ter planejado encontrá-lo. Mas fiquei travada e soltei a primeira coisa que me veio à mente ao passar por ele e seguir para o vestiário. Percebi que ganhei 15 minutos para não ter que dar desculpas ou me explicar.

– Bom trabalho no poste, novata. – Outra dançarina sorriu para mim enquanto eu enfiava meus tubos de rímel e de glitter corporal na bolsa.

Com pelo menos 1,83m, a mulher era uma mistura étnica ao estilo Jennifer Lopez e totalmente linda. O fato de ela estar quase nua e aplicando tinta cor-de-rosa no seio esquerdo só acrescentava à sua aparência deslumbrante. Parecia que ela estava vestindo um corpete de tatuagens.

– Ah. Hum. – Difícil fazer contato visual com uma mulher seminua, mas tentei. – Obrigada. Sou De… isto é, sou Natalie. Por mais que precisasse ir embora, não queria indispor Natalie com suas futuras colegas.

A beleza pintada de rosa riu.

– Você não é a única escondendo a identidade, Natalie. Amamos nossos nomes artísticos nesse ramo. Sou Kim, mas todo mundo aqui me conhece como Kendra.

– Prazer em conhecê-la. – Com a bolsa arrumada, levei um minuto extra para admirar a borboleta que de alguma forma ela havia pintado de cabeça para baixo em seu peito. – Sua arte é incrível.

– Sério? – Ela endireitou-se e olhou-se criticamente em um espelho ornado por lâmpadas fluorescentes. – Tudo fica meio esverdeado nesses espelhos.

– É muito bonito. – Cacei um vestido de praia disforme na bolsa para cobrir meu traje.

– Você viu Eric Reims no meio da multidão? – perguntou ela, mergulhando seu pincel fino em uma paleta com tinta preta.

– Quem? – Fechando a gola, senti-me mais como a velha “eu” outra vez.

– O ator na primeira fila. Ele esteve em alguns filmes adolescentes, mas no verão passado fez uma comédia romântica de baixo orçamento. – Ela sombreou o fundo de uma flor com leves pinceladas. – Você não pode deixar de ver. Ele era o cara mais gato perto do palco.

Pessoalmente discordava, mas tinha uma vaga impressão de ter visto um homem loiro bem jovem e elegante sentado ao lado de Joe. E, sim, ele era bonito, se você gostasse dos tipos com cara de bebê. Eu só tinha olhos para Joe.

– Acho que sei de quem você está falando. – Dando um passo para trás, minha vontade era telefonar para Natalie e lhe dar a boa notícia. O dono do clube já havia me falado que meu lugar estava garantido para a temporada de outono.

Isso significava que Natalie tinha conseguido o emprego. Era bom pensar que eu havia pago parte de minha pequena dívida com minha instrutora de dança. Eu nunca poderia ter vivido uma noite como esta, tantos níveis de emoção, sem ela.

– Ele estava sentado ao lado de Joe Fraser, o filho cabeça quente de Thomas Fraser, o grande produtor. – Kendra pegou uma latinha de strass e aplicou cuidadosamente nas antenas da borboleta. – Acho que li em algum lugar que o filho é agente de Eric Reims agora.

À menção do nome de Joe, comecei a me agitar novamente. Nunca tinha sido do tipo louca pelos meninos, nem mesmo quando era pré-adolescente e todas as outras garotas salivavam pelos caras mais populares da escola. Talvez soubesse que não poderia competir, ou que só iria fazer papel de boba. Mas até o momento não tinha namorado muito, nem mesmo ao longo da faculdade ou da minha vida profissional. Só alguns relacionamentos aqui e ali. Nada perto dos sentimentos loucos de tirar o fôlego que Joe inspirava.

A ideia de fugir da chance de estar com ele hoje à noite doeu um pouquinho de novo. Quantas oportunidades como essa surgiam por aí?

Antes que pudesse responder a Kendra, o cara que parecia ser o chefe da segurança enfiou a cabeça no vestiário, batendo com atraso na porta aberta.

– Srta. Night?

Com os nervos tensos, aprumei-me. Quanto mais permanecia ali, mais preocupada ficava de estragar as coisas para Natalie. Sentia-me como Cinderela à meia-noite, e os sinos já estavam tocando.

– Sim – respondi, minha máscara ainda no rosto.

– O Sr. Fraser está esperando por você na porta dos fundos. Posso acompanhá-la?

O pânico explodiu no meu peito enquanto Kendra soltava uma risada grave e gutural.

– Parece que a novata estava dominando tudo melhor do que eu imaginava. – Ela largou a latinha de strass e ergueu a palma.

Levei um minuto para perceber que ela estava à espera de um “toca aqui”. Deus sabe que, para mim, não era um momento de comemoração.

Por fim, dei-lhe o cumprimento necessário e tentei sorrir.

– A-a-acho melhor ir. – Tropecei um pouco nas palavras porque estava super nervosa. Não podia sair pela porta dos fundos caso Joe estivesse esperando por mim lá. Ele estava pelo menos cinco minutos adiantado em relação ao que tínhamos combinado.

Rezando para conseguir pensar em um plano de fuga, ajeitei a alça da bolsa maior no ombro e segui até o leão de chácara que me escoltaria.

– Não faça nada que eu não faria – disse Kendra, um tom de brincadeira na voz sugerindo que eu deveria fazer o que diabos quisesse.

Quem me dera.

– Posso levar isso para você? – perguntou o sujeito enorme. Parecia que ele tinha passado todos os dias da vida na academia, e fiquei espantada por ele ter encontrado um paletó de terno que servisse naqueles ombros.

– Não, obrigada. – Saí em disparada, correndo na frente, antes que ele pudesse insistir em carregar minha bolsa.

– Por aqui. – Ele gesticulou para a esquerda e assenti humildemente, esperançosa de que ele não tentaria puxar conversa.

Precisava despistá-lo e encontrar uma saída.

A música vindo da pista de dança tinha se transformado em um vocal feminino estridente por sobre bumbos pesados. O resultado soava como gemidos de alguém fazendo sexo, e me imaginei saindo do estacionamento com Joe e ficando suada e nua.

Obrigando-me a retornar à realidade, percebi que não havia muitas portas ao redor, muito menos alguma com uma placa vermelha luminosa indicando a saída.

Mas assim que vi de relance o piscar de luzes roxas estroboscópicas, soube que devia estar perto da entrada do clube e do palco principal. Assim, sem dizer uma palavra para o Sr. Musculoso, fiz uma curva à esquerda e segui pelo corredor em direção à música.

Era minha imaginação, ou ouvi uma voz masculina me chamando alguns segundos depois?

Não olhei para trás quando passei por garçonetes seminuas e por homens com olhos vidrados e bêbados. Alguns rapazes se materializaram diante de mim, mas os contornei com facilidade. Eu era uma mulher em uma missão. Vendo uma multidão ao redor da entrada, enfiei-me no meio e empurrei a porta de aço pesada que estava destrancada.

Chegando à calçada com uma corrida, deixei o Backstage para trás e segui para meu carro no estacionamento. Quando liguei o motor e manobrei para fora da vaga, soube que podia ficar aliviada. Tinha conseguido um emprego para Natalie e fugido de Joe Fraser. Ele nunca saberia que a dançarina misteriosa no palco era uma das especialistas em gestão de bens responsável pela conta da empresa dele.

No entanto, a única coisa que senti quando cheguei à autoestrada foi um profundo sentimento de perda por ter enganado o único homem que me deu bola. O único homem que tinha me abordado para ter um casinho de uma noite.

Pior ainda: seria uma decepção enorme voltar à minha vida normal depois de tudo aquilo. Mas pelo menos meu papel nos bastidores da Sphere iria me manter longe de Joe. Depois dessa noite, não havia nenhuma razão no mundo para vê-lo novamente.

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Como eu amo ler os comentários de vocês kkkkkkk
xoxo

18.10.15

Minha Dupla Vida - Capitulo 2


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AULA DE dança. As luzes, a música, as pessoas de todas as classes sociais fumegando, exatamente como eu.
Só de caminhar no salão minha pressão já baixava e eu me sentia em casa. Aqui, ninguém me julgava. Você pensaria que este lugar estaria lotado de mocinhas de 20 e poucos anos aprendendo pole dance para seus namorados lindos. Mas não era nada disso. As mulheres que vinham para cá muitas vezes eram mais velhas, algumas tinham acabado de ter um bebê, e todas estavam procurando um jeito de sentir-se bem consigo mesmas. Não era apenas o pole dancing que atraía aquela clientela. Era nossa instrutora incrível, Natalie Night, que tinha uma forma de fazer aquela sensação de estranheza ser bem-vinda ali. Ela era a razão pela qual eu voltava, semana após semana.
– Estamos prontas, meninas? – perguntava ela agora, caminhando pelos tapetes vermelhos do estúdio em meio à turma avançada. Vestindo um collant preto simples por baixo de uma camisetinha rosa com o nome de uma banda local, ela ligou a música e se aproximou do poste.
Fui até o meu, também grata por finalmente ser capaz de tirar Joe Fraser da cabeça. O que havia naquele homem para me deixar tão perturbada?
– Vamos fazer nosso aquecimento em um minuto – garantiu-nos Natalie, envolvendo uma perna ao redor do poste para se erguer. – Mas primeiro eu gostaria de falar sobre o movimento que todas nós tivemos problemas para fazer da última vez. Estas suspensões estão nos matando.
Ela escalou o poste rapidamente para demonstrar a técnica adequada, e sabíamos que deveríamos esperar para vê-la, para que explicasse o que fazer. Então, de repente, ela deslizou.
Bam.
A queda aconteceu tão depressa que mal tive tempo de processá-la. Com o coração na garganta, corri até nossa instrutora.
– Natalie? – Fiquei parada olhando para ela, totalmente em pânico. – Você está bem?
Eu estava pirando ao ver a professora de dança mais ágil, linda e talentosa caída no tapete debaixo do poste, a perna inclinada em um ângulo apavorante. Duas alunas estavam atrás de mim, suas múltiplas imagens refletidas assustadoramente nos espelhos que nos cercavam. A melodia do rap pesado ainda tocava nos alto-falantes, e a música que normalmente me animava agora parecia terrivelmente inadequada.
– Acho que devemos chamar uma ambulância – sugeriu uma das mulheres. Era novata na turma avançada, e eu tinha me esquecido do nome dela, mas ela usava um piercing diferente no nariz a cada vez que a via. Hoje era uma margarida roxa.
– Não – respondeu Natalie finalmente, seu único movimento era o esvoaçar das pálpebras cheias de glitter. – Acho que é apenas uma torção no tornozelo, mas me deixem… Deem-me só um minuto, está bem?
– Uma torção? Seu tornozelo parece estar deslocado – murmurei assim que alguém desligou a música. – Eu estava temendo pelo seu pescoço ou sua cabeça. Você caiu tão depressa que não sei dizer o que aconteceu.
Então, novamente, fui distraída por pensamentos em Joe e por minha saída desajeitada após conhecê-lo. Mas Natalie nunca tinha caído. Ela era como uma deusa no estúdio de dança, seu corpo era tão forte e flexível que ela poderia fazer qualquer coisa. Natalie tinha sido minha primeira professora, desde a época em que fiquei morrendo de medo de experimentar aquela modalidade louca em uma festa de despedida de solteira de uma das mulheres com quem eu trabalhava. Eu nem mesmo tinha querido ir para a festa, mas daí fui arrastada por colegas bem-intencionadas para o estúdio contra minha vontade.
Enquanto as outras mulheres no escritório entraram no espírito da dança sexy, eu fiquei travada. Mas Natalie fez eu me sentir bem-vinda, dando-me uma aulinha particular para que eu não ficasse envergonhada. Ela me incentivou tanto que voltei novamente porque, maravilha das maravilhas, eu meio que era boa em dança. E gostei porque não exigia qualquer tipo de habilidade verbal.
Surpreendentemente, continuei dançando. Em particular. Secretamente. Ninguém do trabalho sabia. Mas Natalie fora fundamental para me oferecer esta arena onde me sentia talentosa. Ela ainda era minha professora favorita, mesmo agora que eu já era uma aluna da turma avançada.
– Maldito óleo de bebê – murmurou Natalie de maneira sombria, abrindo os olhos para encontrar meu olhar. – A aula das iniciantes foi aqui, antes da nossa, e alguém provavelmente usou óleo hidratante para o corpo ou coisa assim.
– Caramba. – Quando comecei a dançar no poste, aprendi que qualquer tipo de creme era proibido. A gente quer ficar presa ao poste, não escorregar dele. – Posso levá-la ao hospital assim que quiser.
– Absolutamente não. – Ela segurou minha mão, as unhas perfeitamente manicuradas com estampa de leopardo, um trabalho artístico que deve ter levado algum tempo. – Demi, meu primeiro show no Backstage é hoje à noite.
O olhar urgente em suas íris verde-claras fez eu me lembrar de como aquilo era importante para ela. Natalie estava tentando invadir a cena noturna há meses; no entanto, não era fácil se tornar a estrela de um bom show de dança em uma cidade repleta de atrizes lindas e desempregadas. Mulheres talentosas como Natalie eram contra modelos lindas menores de idade que mentiam sobre os aninhos de vida e que topariam tirar toda a roupa entre as séries de dança para arrecadar gorjetas em clubes de cavalheiros.
Natalie teve uma ideia para um show burlesco, algo elegante, que exigia coreografias vigorosas. Mas ela precisava de alguém para lhe garantir uma “entrada” em um bom clube, a fim de erguer o espetáculo. A casa de shows Backstage lhe abrira espaço para um teste, para fazer uma versão abreviada do show, que destacava o pole dancing. Eu a tinha visto praticar o número, era sexy para diabo sem ser… gráfico.
– Vou telefonar para eles – ofereci, procurando pela minha bolsa de academia, onde eu tinha enfiado meu telefone. Ficaria feliz em ajudar.
No último ano, eu desenvolvera alguma confiança pessoal muito tardia graças àquela mulher. Eu devia a ela.
– Demi, ouça bem. – Ela sentou-se e todas as suas três alunas, eu incluída, nos apressamos para apoiá-la. Ela nos enxotou com a mão, impaciente, porque era uma garota teimosa e forte.
– Estou ouvindo – assegurei a ela, apontando silenciosamente para a máquina de venda automática na parede mais distante, até que uma das outras meninas correu até lá para pegar uma bebida para Natalie. – Só não exagere até você ter certeza de que não vai colocar qualquer pressão nesse tornozelo. Ele já está inchado.
– Vou pegar um pouco de gelo – murmurou a menina do piercing roxo antes de desaparecer.
– Demi. Querida. – Natalie se inclinou para segurar meu rosto, como se eu tivesse 5 anos. Suas pulseiras tilintaram quando ela empinou o queixo até encontrar meus olhos. – Você é uma ótima dançarina.
Envaideci-me um pouco por dentro, meu coração se aquecendo por ouvir elogios de alguém que eu admirava em todos os sentidos.
– É porque você tem sido tão paciente comigo – lembrei a ela, me recordando das noites em que ela havia ficado muito tempo depois de as outras alunas terem saído só para que eu pudesse enfrentar o poste sem tantos espectadores.
– É porque você é muito esforçada e tem uma disciplina que nenhuma outra aluna minha tem.
Preparei-me para dissimular um pouco mais, porque uau. Não tinha habilidades para enfrentar tantos elogios. Pergunte-me sobre meus mecanismos de defesa para a crítica, no entanto, e seria capaz de apresentar relatos completos que narrassem minha experiência, com datas e tudo. Minha mãe, uma famosa decoradora de interiores com um programa próprio de televisão, me dissera muito cedo que eu nunca deveria falar diante de seus clientes, de sua equipe de câmeras ou de qualquer outra pessoa em sua vida profissional porque eu era um constrangimento para ela. Ouvir esse tipo de censura da própria mãe é… prejudicial, para dizer o mínimo.
Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, as outras alunas retornaram com a água para Natalie e o gelo para o tornozelo dela, o qual apoiamos sobre uma toalha dobrada.
– Meninas… – Natalie virou com expectativa para nós três quando finalizamos nossos esforços de primeiros-socorros. – Preciso de alguém para assumir o número de dança experimental para mim hoje à noite no Backstage.
Ela estava falando sério? Ninguém era capaz de substituí-la.
Lembrei-me de que tinha que pegar meu celular e ligar para o clube em nome de Natalie.
– Demi deveria ir.
– Demi, você tem que ir no lugar dela. – As outras dançarinas falavam ao mesmo tempo, e deve ser por isso que meus ouvidos estavam me enganando.
– Hein? – Eu já estava pegando minha bolsa de ginástica para achar meu celular. – Vou telefonar para o Backstage…
– Você não vai fazer isso. – Natalie pegou meu telefone, aparentemente encontrando-o dentro da bolsa antes de mim. Ela o colocou atrás das costas enquanto me olhava pelo reflexo do estúdio revestido de espelhos. Ventiladores de teto enormes zumbiam suavemente, agitando o ar viciado, vagamente suado.
Meus batimentos cardíacos ficaram ainda mais altos do que quando Joe Fraser apertou minha mão. E aquele gesto estava dizendo algo.
– Você está louca? – protestei. – Você precisa cancelar.
– Esforcei-me muito para conseguir esse teste. – Ela me encarou daquele jeito firme e paciente que outrora me dera a coragem de tentar meu primeiro movimento de borboleta estendida no poste. – Dem, preciso daquele emprego.
Eu sabia que era verdade. O ex-marido calhorda de Natalie conseguira arrastar o divórcio nos tribunais apenas por tempo suficiente para limpar todas as economias dela. Seu emprego como instrutora de dança provavelmente pagava algumas contas, mas Los Angeles era uma cidade cara. Natalie fora às alturas de satisfação quando conseguira marcar a apresentação com o dono do clube.
Uma bola de medo se retorcia em meu estômago.
– Vou estragar tudo para você – sussurrei quando o suor começou pingar em minha testa.
Minhas colegas de turma discordaram de mim, se intrometendo para apoiar Natalie, mas eu não conseguia distinguir as palavras delas. Todo meu foco permanecia em minha amiga e naquele olhar que parecia sugerir tolamente que eu era capaz.
– Prefiro perder dessa maneira do que simplesmente telefonar e cancelar. Pelo menos, se você fizer o número por mim, vou ter uma chance. Assim que a temporada começar, no outono, meu tornozelo vai estar melhor. – Natalie tirou a franja de cima dos meus olhos. – Tenho uma peruca loira que você pode usar. Vai ser como atuar. Só que sem nenhum diálogo para recitar.
O grande problema da minha amiga querida era que ela sabia exatamente os pontos que deveria pressionar. E Natalie estava perfeitamente consciente de que uma das maneiras com que me convenci a permanecer fazendo pole dancing foi assumindo uma nova personalidade sempre que pisava no estúdio. Quando chegava aqui, não era mais Demi Masterson, analista financeira.
Transformava-me em uma pessoa completamente diferente. Alguém capaz de se perder no ritmo do rap e nos movimentos de pole dancing.
Nesse momento, quase consegui imaginar que uma peruca iria me ajudar a enfrentar a coisa toda caso eu substituísse Natalie no teste. E vamos encarar: não importava o quão insegura eu estivesse, não podia dizer não para a pessoa que me dera o dom da dança, para começo de conversa. Meu desempenho seria um desastre, e eu definitivamente faria papel de idiota.
Mas por Natalie, iria pelo menos tentar.
– Quero a peruca – falei finalmente. – E todo mundo aqui deve jurar segredo, certo? Vou ser demitida se alguém…
Qualquer outra coisa que eu pudesse ter acrescentado, outras condições e um rol de preocupações, se perderam em um abraço esmagador quando as mulheres em torno de mim gritaram e prometeram levar meu segredo para o túmulo.
Droga.
– Só gostaria de saber uma coisa. – Sabia que provavelmente iria ficar enjoada antes de dirigir para o Backstage, que era do outro lado da cidade. – A que horas devo ir para lá?
O PRIMEIRO espetáculo começa às 23h. Joe olhava para o relógio enquanto aguardava seu cliente terminar de alimentar o cão, o peixe e as duas cobras que estavam enroladas em uma gaiola apoiada na mesa da sala de jantar da casa de praia de Malibu do sujeito.
Joe sabia muito bem que Eric Reims iria tentar escapar daquele passeio, a menos que ele aparecesse para arrastá-lo pela orelha. Joe vinha dizendo ao ator há três meses que ele precisava aparecer mais aos olhos do público, ficar na rua até tarde e provocar algumas cenas, porém o sujeito nunca obedecia. Eric era jovem demais para ser um tipo tão caseiro, mas era um daqueles artistas cuja personalidade só se ressaltava diante das câmeras. Durante o restante do tempo, estava muito mais para um observador discreto da vida.
No entanto, como tantos outros atores, Eric se deu mal quando Thomas interrompeu a continuidade do filme dramático e emocionalmente sombrio que Joe planejara, causando estragos na credibilidade de Joe no ramo e destruindo seus laços profissionais. Para fazer as pazes, e em um esforço para manter sua reputação, Joe entrara no negócio de gestão de talentos há seis meses somente para reposicionar todos aqueles atores de volta ao mercado de trabalho. Metade dos talentos afetados já estavam bem direcionados, mas Joe jurara que iria encontrar um papel para cada um dos novos jovens rostinhos que tinham se vinculado ao projeto. Sendo assim, sua agência de talentos era coisa recente, porém Joe era dedicado para diabo e, um por um, ele iria encontrar papéis para seus clientes. Claro, seu sobrenome famoso ajudava.

Ele não se importava com o que a imprensa pensava a seu respeito com a mesma intensidade com que se preocupava com sua dívida para com o elenco do filme que nunca chegara a fazer. Uma vez que cumprisse seu intento, encerraria a empresa de gestão de talentos e seguiria para a próxima fase: abrir o próprio estúdio independente nos próximos meses. Ele ainda detinha os direitos sobre o filme que engavetara quando era produtor no estúdio do pai e tinha todas as intenções de fazer o tal filme. Mantendo o tipo de integridade artística que imaginara desde o início.
– Estou quase pronto – disse Eric do aquário que dividia a sala de bilhar da sala de jantar. – Gostaria de pegar a primeira apresentação da noite para poder chegar em casa mais cedo.
Joe serviu-se de uma bebida no bar ao lado da mesa de sinuca, tentando se concentrar na casa reformada de seu cliente em vez de no potencial problema profissional que certa analista financeira da Sphere Asset Management lhe criara. Ele devia estar incomodado por ter seus assuntos particulares fuçados e, até certo ponto, estava mesmo. Mas outra parte dele simplesmente queria vê-la novamente.
Não era preciso ser um gênio para descobrir qual parte.
– Você tem 26 anos. – Joe se obrigou a se concentrar em seu cliente. Ele serviu uma bebida para Eric também, notando que o sujeito precisava relaxar. – Por que você precisa estar cedo em casa? Os peixes não vão dar festas de arromba enquanto você estiver fora.
O pai de Eric era um ator de primeira linha, mas o velho não ajudara o filho no ramo. Joe se identificou imediatamente. Além disso, ele gostava de Eric por seu talento e sua ética profissional, embora o outro não tivesse nenhuma noção sobre o ramo do cinema.
– Clubes de striptease não são… meu ambiente.
Joe imaginava que aquilo fosse um eufemismo, a julgar pelas prateleiras e mais prateleiras de livros que cobriam a sala de bilhar. Se Eric tivesse lido sequer uma fração deles, devia pelo menos passar um bom tempo com um livro na mão.
– O Backstage não é um clube de striptease… está mais para um local de dança exótica. Um monte de dançarinas de sucesso começaram lá. – Detalhes insignificantes, talvez. – Embora, com toda sinceridade, as apresentações fiquem mais ousadas conforme a noite avança.
Assim ele ouviu dizer.
Pegando sua bebida, Eric sorriu.
– Você não estaria me arrastando para lá se o lugar tivesse uma reputação ilibada.
– Ei, dei a você oportunidades de sair e fazer loucuras sozinho, cara. – Joe tilintou seu copo contra o do amigo antes de virar o resto da vodca gelada que ele havia encontrado no congelador do frigobar. – Agora você está preso comigo, porque preciso que você apareça no radar de mais alguns agentes de elenco, e este passeio vai ajudar.
– Você não precisa ir comigo, cara. Dessa vez eu vou mesmo para lá. Sério. – Eric fez uma careta depois que bebeu sua dose.
– Não é que não confie em você, mas vou junto. – Ele ia mandar Eric para um teste na semana seguinte e queria colocar o rosto do sujeito nas páginas das revistas de fofocas de celebridades. Era decisivo fazer a coisa toda na época certa. – Preciso que você consiga o papel principal na semana que vem.
– Quando você coloca dessa forma… – Eric ajeitou a gravata. – É melhor eu ir.
– É isso aí. – Joe colocou o copo sobre o balcão e pegou o celular. – O carro está nos aguardando, então vamos.
Quarenta minutos e muito tráfego de fim de semana depois, chegaram ao Backstage, onde as batidas graves ressoavam tão alto que o som vibrava até nos sapatos de Joe. Ele estava a poucos metros atrás de Eric quando passaram pelas cordas de veludo da entrada VIP. Uma fila considerável tinha se formado à entrada principal, mas não havia ninguém diante das cortinas da entrada VIP, exceto o segurança com uma lista de convidados.
Não havia paparazzi ali, mas isso não importava. Eric tinha participado de alguns filmes para adolescentes altamente reconhecíveis. Bastaria que algumas pessoas o reconhecessem e começassem a tirar fotos ou a fazer vídeos com os celulares. Diabos, até mesmo as dançarinas faziam isso nos intervalos, então era uma prática bastante comum. Joe só precisava manter seu cliente ali durante algumas horas, para se certificar de que o sujeito iria aparecer nos blogs de fofoca no dia seguinte. Após isso, a história se escreveria por si só e rumaria para os tabloides maiores; em duas semanas, Eric de repente passaria a ser visto como um playboy de Hollywood.
Diretores de elenco iriam cair de amores por uma imagem totalmente nova. Joe só esperava que ele próprio não fosse pintado com a imagem de bad boy também. Esse tipo de coisa não apenas era uma distração, como ele também não precisava de mais atenção da imprensa esses dias.
– Entrem, Sr. Fraser. – O segurança já foi abrindo a corda de veludo. Ele usava um fone de ouvido e ajustava o microfone enquanto falava baixinho nele, sem dúvida solicitando assentos na primeira fila.
Como de costume, Joe lutava contra a velha culpa pela forma como seus caminhos muitas vezes tinham sido pavimentados pelo pai. O segurança o teria reconhecido como um Fraser, não por causa de sua agência de talentos incipiente e, definitivamente, não por causa dos filmes que ele ajudara a fazer com nenhum crédito de produção. Seu pai insistira que Joe se daria melhor se forjasse seu próprio caminho no mundo, de modo que tivera o cuidado de não lhe oferecer qualquer reconhecimento profissional.
– Obrigado. – Joe deu uma gorjeta ao segurança assim que entraram, a batida rap ousada tomando o lugar da música lenta que estava tocando momentos antes.
Joe registrou com satisfação que várias cabeças se viraram quando eles passaram pelo corredor principal em direção a assentos tão próximos dos espetáculos que poderiam tocar o centro do palco. Aparentemente, Eric já tinha sido reconhecido. A maior parte do trabalho estava feita, então Joe se acomodou para assistir ao primeiro show. Ele poderia pesquisar discretamente sobre Demi Masterson em seu celular, afinal precisava confrontá-la no dia seguinte bem cedo.
No entanto, um olhar para a loira que se encaminhava para o centro do palco o fez enfiar o telefone de volta no bolso.
Maravilhosa. Droga.
E ele não era do tipo de cara que gostava das “maravilhosas”. E principalmente não das mulheres que dançavam em lugares como o Backstage, onde as artistas legítimas se misturavam às mulheres que o fariam pagar por qualquer coisa na sala VIP, caso tivesse um belo saldo bancário. Os gostos de Joe eram um pouco mais refinados, afinal ele preferia impulsionar uma mulher ao frenesi sexual por ambos estarem no clima, e não porque ele havia pago por uma dança particular.
No entanto, algo na artista que se empinava no poste de dança iluminado pela luz estroboscópica o fez sentar-se ereto. Ela usava um traje de tecido fino com plumagens prateadas estrategicamente colocadas sobre os seios e formando um V em torno dos quadris. Cabelo platinado e liso roçava os ombros, o brilho lustroso e a franja perfeita fazendo-o pensar ser uma peruca. Uma máscara preta e prateada cobria a metade superior do rosto dela, mas Joe conseguia notá-la dando piscadelas para o público através dos buraquinhos.
Ele nem sequer piscava enquanto ela acariciava o poste prateado com uma das mãos e girava em torno dele usando um par de sapatos de salto agulha sedutores. O que havia nela que o fascinava tanto?
– Muito bom. – A voz de Eric ao lado dele o irritou, em parte porque, em sua concentração na dançarina, ele se esquecera de que seu cliente estava lá. Mas ainda mais porque tinha se esquecido de que não era o único a babar em cima da mulher.
O que tinha dado nele hoje? Primeiro a atração perigosa pela tímida analista financeira, e agora isso? Obviamente Joe tinha colocado o sexo tão em segundo plano em sua vida até agora, que sua libido estava fazendo algum tipo de piada à sua custa.
– Pensei que clubes de cavalheiros não fossem seu tipo de lugar – rebateu Joe, tenso de repente.
– Eu definitivamente imaginei algo muito mais suado e brega. – Eric deslizou uma nota de cem dólares para o palco, a poucos metros de onde a loira agora escalava o poste com a graça ágil de um gato selvagem. – Mas dançar desse jeito exige treino. Ela é boa.
Joe cerrou os dentes. Ele devia estar feliz por Eric estar se encaixando. Melhor ainda: uma jovem mulher de braço dado com seu namorado distraído estava mirando um celular na direção de Eric; sendo assim, o cliente bonzinho de Joe tinha acabado de ser filmado dando uma gorjeta a uma dançarina exótica. Aquilo era exatamente o que ele desejava quando planejara aquela saída.
Mas isso foi antes de ver a dançarina em questão.
Inexplicavelmente incomodado, Joe se obrigou a pegar o celular no bolso e pesquisou algumas informações básicas sobre Demi Masterson. Ele continuava a observar discretamente a loura que se arqueava no poste, mas talvez isso se desse apenas porque ela se assemelhava levemente à analista financeira. Mesmo de máscara, a estrutura óssea do rosto parecia semelhante, pelo que ele se lembrava.
Não que ele a estivesse avaliando ou coisa assim.
Aquele pedacinho de negação terminou quando a dançarina se pendurou de cabeça para baixo usando uma perna só, o rosto quase alinhado aos olhos dele. Os olhares de ambos se encontraram por um instante longo e sexy.
Pouco antes de ela lhe soprar um beijo.
OBVIAMENTE, PERDI a cabeça.

Assim que o beijo deixou meus lábios, quis pegá-lo de volta. Estava cortejando o desastre em todos os sentidos possíveis, flertando com um cliente sensual enquanto estava pendurada de cabeça para baixo por uma perna só. Conte comigo: uma só.
Foi uma surpresa não ter quebrado um braço ainda. E sabia com certeza que iria ser demitida da minha empresa conservadora de gestão de riscos caso alguém me reconhecesse. Mas havia entrado na Zona de Dança. Um lugar onde nada podia me tocar, e eu era uma deusa da dança sexy e desejável. Era uma ficção necessária para enganar meu subconsciente, para me fazer enfrentar aquela noite estressante e assustadora.
Precisava disso para conquistar o emprego que Natalie merecia. E havia ainda a vantagem extra de aquilo me fazer sentir como se Joe Fraser tivesse me notado de um jeito que nunca notaria nos escritórios da Sphere, ainda que por alguns momentos.
– Isso, gata – berrou um homem aleatório do fundo do salão, fazendo-me perder a concentração durante minha elevação de super-heroína.
Outro cara assobiou.
Senti um aperto no estômago quando me recordei de que era uma impostora. Será que a pessoa que assobiou estava sendo sarcástica? Enquanto eu estava obcecada sobre tal possibilidade, errei o movimento seguinte e escorreguei no poste.
Não!
Em pânico, meus olhos se voltaram para Joe. Um Joe sensual, másculo, lindo. E ele ainda me olhava como se… Uau.
Senti-me perturbada e sexy novamente.
Então dominei totalmente o movimento seguinte, uma coisa meio lagarta invertida que levei um mês inteiro para dominar. Senti-me uma exibida, flexionando os músculos esguios para benefício de Joe, arqueando e me envaidecendo abertamente. Ver a expressão dele me fazia lembrar por que as mulheres aprendiam danças provocantes, para começo de conversa.
Para seduzir os homens.
Vê-lo me observando era mais excitante do que qualquer coisa que eu já havia experimentado. A coreografia de Natalie não envolvia a retirada de qualquer peça de roupa, pois o traje já era diminuto o suficiente, para começar, mas fiquei tão excitada por causa dele, que consegui me enxergar tirando a roupa para aquele sujeito.
Queria os olhos dele em mim o tempo todo. Queria deixá-lo com água na boca, com o corpo ávido.
A torcida e os gritos da multidão me incentivaram quando desci do poste, aterrissando em uma pose elegante antes de me arrastar de quatro até a beira do palco.
Bem diante de Joe.
As narinas dele inflaram. A mandíbula enrijeceu. Dava para ver o peito dele subindo e descendo com a força da respiração.
Fiz um showzinho lento ao ficar de pé, jogando o cabelo e rebolando lentamente. Agia por instinto, quase sem saber o que estava fazendo. Aquilo era gostoso.
Agora eu me virava para dar as costas a Joe. Mãos nos quadris, arqueei a espinha para lhe oferecer uma boa visão das lantejoulas prateadas da cava da calcinha que mostravam meu… lado atrevido.
Joguei o cabelo uma última vez e olhei por sobre o ombro. Dessa vez não apenas mandei um beijo. Dei um tapinha na nádega e a multidão foi à loucura.
O estalo me trouxe de volta à realidade. O que eu estava fazendo?
Envergonhada, agora que a música tinha acabado, senti minha showgirl interior me abandonando. De repente era só eu, Demi Masterson, sozinha no palco com uma peruca loira e máscara de pateta.
Lançando um último olhar a Joe, notei que o feitiço também tinha acabado para ele. Ele ainda olhava para mim, mas não estava mais na beiradinha da cadeira. Ele conversava com o sujeito ao lado, um ator que eu provavelmente deveria ter reconhecido.
O que me fez pensar: será que Joe Fraser tinha ficado atraído por mim?
Saindo do palco apressadamente, quase virei meu tornozelo ao descer as duas escadarias que levavam para a área de camarins. Só para descobrir que Joe tinha chegado lá antes.
O homem dos meus sonhos estava de pé entre mim e meu retorno à minha vida normal e entediante. Será que ele me reconheceu? Eu não podia nem mesmo perguntar a ele, porque se o fizesse, minha língua ia travar, assim como ocorrera no escritório, e eu iria me delatar, com certeza. Agora, mais do que nunca, eu não podia deixar minha gagueira me dominar. Eu usaria algumas das técnicas de discurso que havia aprendido: fale depressa, fale devagar, fale suavemente, qualquer coisa para contornar aquele maldito obstáculo travando minhas palavras.
Infelizmente, quando encarei as feições bem delineadas e o rosto megamásculo de Joe Fraser, fiquei mais nervosa do que jamais estivera em toda minha vida.

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Mais um capítulo :)
Estão gostando?
xoxo