26.9.15

Escolha - Capitulo 7 MARATONA (1/5)


~

DEMI ESTAVA em sua baia, embaralhando papéis de uma pilha para outra. Estava no escritório há duas horas e não tinha feito nada. Gastara a maior parte da manhã repensando a noite anterior, analisando até morrer cada coisa que Joe tinha feito ou dito. Espiando a foto que tinha tirado, o cartãozinho de troca.

Sob as luzes fluorescentes cruas da BBDA, os eventos com Joe pareciam mais um sonho do que algo que poderia ter acontecido com ela. No entanto, seu corpo estava dolorido, não era resultado do esforço na academia de ginástica. Ela tensionou tanto os braços para segurar a cabeceira da cama que seus músculos queimaram durante a ducha hoje de manhã, e não havia uma contusão em seu quadril. Além das lembranças, é claro.

Ela não tinha nada que pensar nele. Na noite. Nele. Sério, agora. Acabou. Pronto. Era uma recordação que deveria evocar prazer em vez de aquela sensação de perda. Como ela poderia ter perdido algo que ela nunca tinha tido? Nunca poderia ter?

Deus, a manhã toda foi um saco. Os pensamentos já estavam loucos o suficiente antes de ela notar que ele não tinha publicado nada no blog. Mas deveria tê-lo feito. A rotina dele era pontual como um cuco, como tempo atômico. Em vez disso, outras três pessoas haviam postado textos: um fashionista, um perseguidor de celebridades e um apaixonado por gastronomia.

Assim, além de ficar obcecada com o fato de o sexo ter sido mais do que parte do pacote padrão, em vez de um momento romanticamente maravilhoso entre ambos, agora ela estava muito convencida de que, de alguma forma, tinha amaldiçoado Joe. E estava com dor de cabeça.

Surpreendentemente, Rebecca ainda não tinha telefonado, o que era bom porque Demi não sabia ainda quanto sobre a noite queria contar à amiga, e ela queria ser cautelosa a respeito daquela conversa, sem se mostrar extenuada. Na verdade, ela estava pensando seriamente em escapar para um cochilo hoje no horário de almoço. Ela precisava dormir mais do que de comida. Seu celular apitou, e quando viu o nome brilhando na tela, quase engasgou. Clicou no ícone.

Como está se sentindo? JW

Demi olhou para as iniciais, completamente atordoada. Por que Joe estava mandando torpedos para ela? Em nome da boa educação? Será que ela levara algo do apartamento dele por engano? Apertou a tecla responder, mas aí se obrigou a pensar, sem digitar, ainda não.

Aquilo era bobagem. Ela balançou a cabeça enquanto movimentava os polegares.

Estou bem. Obrigada.

Chegou bem no trabalho? JW

No horário e tudo.

Que bom. Almoço? JW.

O quê? Almoço? Será que ele a estava convidando para almoçar? Não, não, aquilo não poderia estar certo. Não depois da manhã de hoje. Demi olhou para o painel cinza de seu cubículo por um instante, depois olhou mais uma vez para o torpedo. Não tinha interpretado errado. Simplesmente não fazia sentido.

Agora seu olhar se erguia acima da parede da baia, mas ela só conseguia enxergar o topo das cabeças que passavam. Não havia uma única pessoa na BBDA que Demi pudesse puxar de lado para pedir um conselho. Ninguém sabia sobre seu encontro com Joe. Ou qualquer coisa a respeito dela, exceto que tendia a ser bem reservada.

Demi digitou um “Volto já” rapidamente para informá-lo de estava longe do aparelho, então pegou o telefone fixo. Dane-se a coisa de não contar a Rebecca sobre o que aconteceu. Demi precisava de ajuda. Depressa. Ela discou, rezando para a amiga atender.

No segundo que ouviu o “alô”, Demi mandou:

– A noite passada foi a noite mais fabuloso na história do planeta, mas esta manhã foi completamente estranha e agora ele está…

– Demi…

– Ai, Deus, você está ocupada. Por favor, não esteja ocupada porque eu nem sequer… espere. Ele está me mandando um torpedo agora, e eu não sei o que fazer.

– O que ele escreveu?

– Ele quer que eu almoce com ele. Hoje.

Rebecca riu.

– Então vá!

– Nós dois surtamos hoje de manhã. Ele me ofereceu cem pratas.

– O quê?

– Para o táxi.

– Ah. Então repito: vá!

– Mas…

– Confie em mim. Eu o conheço. Muito bem. O almoço é importante.

– Importante? Importante não é nada bom. Agora acabou, certo? Ele não repete encontros, e eu tenho um plano, e esse plano não inclui gostar de ninguém. Importante não pode ser a próxima coisa da lista.

– Ouça – disse Rebecca, com um tom que certamente devia usar quando estava negociando com bilionários ou com amigas tendo ataques de pânico. – Vá para o almoço com Joe. Coma. Ouça o que ele tem a dizer. Você pode se surpreender. Então me ligue depois.

Demi tocou seus cabelos e seu rosto quando o estômago revirou de emoção, depois de pavor, depois de emoção de novo. Droga, ela praticamente não havia arrumado o cabelo, a maquiagem consistiu apenas em rímel. E só. Ela mal teve tempo para tomar banho e trocar de roupa, e então saiu aos tropeços para chegar no escritório. – É melhor você estar certa, Rebecca.

– Estou. Boa sorte.

Demi desligou, então posicionou os polegares.

Onde? Quando?

Bistro Truck? JW

Hum…

Mediterrâneo. JW

OK.

Mandando 1 mapa. Vc me diz qdo. JW

13h?

T vejo lá. JW

O celular de Demi avisou que o mapa tinha chegado, e o Bistro Truck ficava a apenas um quarteirão de seu escritório. Ela escreveu o nome em um site de busca para verificar o menu, a fim de se preparar e evitar qualquer coisa que fizesse sujeira. Escolheu wrap de massa folhada vegetariano e batatas fritas, presumindo que seria capaz de comer qualquer coisa. Mesmo que o encontro com ele se revelasse um erro terrível, batatas fritas iriam aliviar a ferida.

Depois de desligar o telefone, Demi olhou para a papelada que precisava finalizar antes do meio-dia, a visão borrando nas palavras. Joe queria vê-la novamente. Por quê? Por quê? E por que Rebecca estava tão segura de que ela deveria ir? Nova York era confusa.

JOE ESTAVA num banco de cimento na East 14th Street, procurando por Demi em meio à multidão do horário de almoço. Apesar de seu vestidinho preto da noite anterior, ele se lembrou do comentário de Rebecca sobre a afeição de Demi por cores, por isso ele se concentrou em qualquer roupa diferente de preto, o que eliminou cerca de 70 por cento das mulheres. O fato de o dia de hoje estar excepcionalmente quente ajudava, de modo que a maioria dos casacos estavam abertos.

Ele se virou, sem se importar com os olhares que ganhava. Aquela era a Union Square às 13h. Ele fazia o que costumava funcionar. E funcionou mesmo, porque lá estava ela. As roupas dela não chamaram a atenção dele, mas os cabelos, sim. Era o mesmo estilo curtinho, mas hoje ela usava um arco com um laço de fita fininho cor-de-rosa. Era ridículo, e aquilo o fez sorrir como um idiota.

Quando Demi se aproximou, Joe se obrigou a olhar para baixo, sem parar no rosto dela, ainda não. Sem casaco. Surpreendente, mas não, porque eles estavam a apenas um quarteirão do escritório e ela já havia provado que preferia congelar até a morte a estragar o conjunto do visual. Ela precisaria de mais um inverno em Nova York até acordar e sentir o gelo de verdade.

Hoje, ela usava uma blusa de mangas compridas abotoada com padrão em xadrez rosa e verde, que deveria ser feia para diabo, mas não era. E uma saia, curtinha, em um tom de verde completamente diferente. Nada daquilo deveria estar em uma única pessoa ao mesmo tempo. Até mesmo as sapatilhas de couro velho estavam erradas. E fantásticas.

Demi vacilou quando Joe lhe chamou a atenção. Ela sorriu, um daqueles sorrisos completamente interioranos que mostravam um monte de dentes. Mas quando ela recomeçou a andar, o sorriso também vacilou. Quando Joe se levantou num salto e a encontrou no meio da calçada, Demi pareceu preocupada. Ou com fome. Não. Preocupada.

– Você está bem? – perguntou ele.

– Sim – disse ela, balançando a cabeça. – Tudo bem, obrigada.

Ele não iria pressioná-la agora. Primeiro, eles precisavam acertar as coisas. – Com fome?

– Claro.

Joe agarrou a mão dela, e antes que dessem mais um passo para entar na fila do imenso caminhão branco, Joe beijou a bochecha de Demi. Ele ficou debatendo internamente sobre aquele gesto durante todo o trajeto até ali. Pareceu-lhe rude não reconhecer a noite deles juntos, mas não queria enfatizar esse aspecto de conhecimento de ambos, apesar de a lembrança de Demi em sua cama ter sido uma espécie de febre constante desde que ele abrira os olhos naquela manhã. Joe não ficou surpreso quando ela parou e o encarou como se ele fosse louco. Não importava. Não se arrependia pelo beijo. Ora bolas, como ele poderia ter resistido? Um olhar para ela com seu arquinho cor-de-rosa e aquela sainha curta…

Tudo bem, droga, direção errada. Ele inspirou profundamente o cheiro de fritura e dos ônibus da cidade, se orientando mais uma vez. Eles não conseguiriam fazer o pedido dentro dos próximos dez minutos, considerando o tamanho da fila, portanto, não haveria comida para preencher o tempo. Poderiam muito bem começar a comer. Ele continuava a segurar a mão dela enquanto se abaixava para perto o suficiente para conversar sem serem ouvidos.

– Eu tenho uma proposta para você.

Demi ergueu as sobrancelhas.

– Ontem à noite, na festa, você foi ótima.

– Obrigada – respondeu ela, com uma leve mudança na entonação no final para transformar sua resposta vagamente em uma pergunta.

– Passei a manhã inteira tentando escrever no blog. Passou-se tanto tempo que acabei postando textos de freelancers para que as pessoas não ficassem impacientes.

– Eu sei. Eu vi.

– Ah. Claro. – Eles andaram meio passo na fila. – Bem, o fato é: você não parou de pipocar no meu primeiro rascunho.

– Eu pipoquei? – questionou ela lentamente, a testa franzida em confusão.

Joe normalmente não confundia as pessoas. Ele as irritava, o tempo todo, mas a clareza não era um problema.

– Percebi que eu me sentia como se a noite passada tivesse sido minha primeira vez na Semana de Moda. Isso não aconteceu nem quando fui pela primeira vez. Enxergar através dos seus olhos foi… diferente. – Ele quase disse “emocionante”. Era verdade, mas informação demais também. – E foi sobre isso que escrevi. Hoje de manhã.

– Tá… bom – disse ela.

Ele não estava se fazendo conseguir entender.

– Atrasei a publicação do texto porque eu queria conversar com você sobre isso. Quero utilizar sua visão, na falta de uma palavra melhor, como gancho para uma coluna. Um inocente na Semana de Moda. Uma perspectiva nova.

– Eu não sou tão inocente assim – protestou ela, seu tom foi brusco e magoado, como se ele a tivesse insultado.

– Você é nova para a cidade. Ainda não demonstra cansaço. Como o Naked New York tem se notabilizado pelo cansaço, eu gosto da ideia de fazer uma coluna sob outro ângulo. Eu não vou zombar de você. Na verdade, não vou usar seu nome ou imagem se você não quiser. Serão minhas impressões a partir das suas impressões. Coisa que nunca fiz, então você pode concordar ou não.

– Você já escreveu o texto?

Ele meneou a cabeça.

– Três versões diferentes. Uma com você especificamente, uma com você obliquamente, e que foca apenas nas minhas impressões. Posso enviar os textos para o seu celular agora se você quiser lê-los.

– Quero ler – disse ela. – Os textos por acaso dizem que eu… nós… – Ela vacilou brevemente, então continuou: – Você sabe, ficamos… na sua casa?

– Não. Não, isso é… não. Isso não é sobre coisas pessoais. É sobre o evento. A festa.

– Ah – retrucou ela, e desta vez a coisa não ficou confusa. – Mande-os então.

Ele se entreteu nos cliques do aparelho quando de repente um grupo de cinco pessoas na frente deles se dissipou, fato que levou Joe e Demi ao primeiro lugar da fila.

– O que você vai querer? Vou pedir enquanto você lê.

– Batatas fritas. Tamanho grande.

– Nada mais?

Ela pensou por um instante, mas não conseguia se imaginar comendo um sanduíche inteiro. Não enquanto seu estômago estava revirando.

– Chá, dois pacotinhos de açúcar.

Ele sorriu. Não conseguiu evitar. Joe ainda não podia acreditar que realmente tinha servido chá em uma bandeja de prata.

Com pinças. Bizarro. Mas daí, tudo na noite anterior tinha sido bizarro.

Ouviu o som indicando que o celular dela estava salvando documentos, em seguida se voltou para o sujeito atrás do balcão. Joe fez o pedido, olhou para Demi, pagou, olhou de novo, então se dirigiram para a fila de espera onde os pratos eram entregues. Ele ignorou tudo, exceto a linguagem corporal dela, as expressões, a velocidade com que lia a tela. Ele não conseguiu decifrar absolutamente nada.

Virando-se, de forma que agora só conseguia vê-la usando a visão periférica, Joe lembrou a si de que qualquer reação da parte dela seria ótima. Mesmo que ela não concordasse, isso não significaria nada. Não no sentido pessoal. Aquilo era totalmente profissional. É isso. Talvez eles tivessem a oportunidade de ficarem juntos outra vez, mas este não era o ponto.

Mesmo que a fita rosa o tenha matado. Na verdade, a fita rosa era o ponto. Nenhuma das pessoas com quem ele saía teria colocado aquela roupa, não sem motivo. Era um visual anti-Manhattan. Aqueles que compareciam à Semana de Moda tinham mais medo de não serem descolados do que serem atropelados por um carro. O tipo de devoção imperturbável de Demi era completamente sincera, sem esperar nada em troca.

O ponto de vista dela soaria genuíno para a maioria de seus leitores, muitos bem mais parecidos com jovens que nunca teriam a chance de ir a uma festa de gala, que nunca ficariam ao lado de ícones da moda e do cinema, que nunca seriam capazes de pagar por um cachecol de qualquer estilista, e muito menos por um vestido de alta-costura. O segredo nesta abordagem era o equilíbrio. Haveria uma pitada de sarcasmo, porque Joe era um filho da mãe sarcástico, mas ele não faria chacota de Demi. Era uma linha tênue, um desafio bem-vindo.

Todo o conceito poderia dar errado, mas ele não achava que daria. Ele tinha bons instintos sobre seus leitores, e aquele lhe parecia bem correto.

Demi mordiscou o lábio com um dentinho pouco visível, branco e perfeito. A vontade de beijá-la o atingiu novamente, só que Joe não queria um beijo no rosto, mas na boca. Ai, Deus, qual era o problema dele? Aquilo era trabalho.

– Ei, você. Cara do blog. Vai sair da fila ou não?

A pergunta veio de um homem musculoso com um bigode fino. Joe se aproximou do caminhão, incintando Demi gentilmente com um leve toque no antebraço dela.

Ela olhou para ele enquanto fechava o celular. As bochechas ganharam um tom rosado que quase combinava com sua fita.

– Oh – disse ela.

Não era informação suficiente. Tirando o excesso de necessidade de parecer tranquilo o tempo todo, Joe não pressionou mais. Ele treinou uma expressão de desinteresse, que era a única postura aceitável durante um encontro estritamente profissional. Demi inclinou a cabeça um pouco para a direita. Sem piscar, apenas encarando-o com um olhar penetrante e: – Por quê?

– Por quê? – repetiu ele.

Ela assentiu.

– Seu blog funciona perfeitamente do jeito que é. Obviamente. Seus números são incríveis. Por que você quer mexer no formato?

– Alterar um pouco as coisas não vai mudar o formato. Se isso não funcionar, vou descobrir depressa e abandonar a ideia. Não é a primeira vez que tentei algo novo, e não será a última.

DEMI FICOU encarando Joe. Aquele almoço estava sendo ainda mais estranho do que ela esperara. E não por qualquer um dos motivos que ela previra. Definitivamente não tinha a ver com o sexo. Claro. Porque isso teria sido loucura.

– Qualquer que seja sua decisão – disse ele –, eu preciso saber logo.

– Claro. Certo. Eu entendo. – Como ela poderia ter se esquecido ao menos por um segundo? Desde que Rebecca mostrara o cartão de troca de Joe, Demi se perguntara o que um homem como ele iria querer com uma garota que nem ela. Foi quase um alívio quando ela finalmente concluiu que a noite tinha sido um favor de Rebecca a ela, e em troca, Joe fizera um favor para Rebecca. Por que outro motivo ele a teria levado para sair no Dia dos Namorados? Mesmo assim, não tinha sido um encontro. Joe fora bem claro sobre o fato de aquilo ser um compromisso de trabalho. Ela duvidava que ele um dia fosse capaz de desviar a atenção de seus negócios. Para começo de conversa, foi assim que ele se tornou Joe Winslow.

Então ele a usara. Não de forma maliciosa, de jeito nenhum. Na verdade, Joe encontrou um jeito de explorar o favor, que bom para ele. Ele agarrou a oportunidade, e por pura sorte aquilo poderia dar a ela um espaço no blog dele. Outras pessoas iriam querer saber quem ela era, como ela havia conseguido marcar um “encontro” com Joe. Nem em sonho Demi conseguiria uma oportunidade melhor. Mas precisava ser esperta. Particularmente inteligente, uma vez que a parte mulherzinha de seu cérebro parecia querer transformar aquilo em um romance. Nada contra romances, mas havia hora e lugar para eles.

Agora que ela havia saltado sobre a grande oportunidade, precisava ser mais clara do que nunca sobre seus interesses a longo prazo, e não se deslumbrar.

– Veja bem… – disse Joe.

– Se você precisa de ter uma resposta nesse minuto – disse ela –, terá de ser não.

Joe congelou e aquele ar de tédio que ele estava ostentando como um casaco confortável desapareceu. Ele parecia decepcionado, mas aquilo sem dúvida tinha mais a ver com seus planos sendo contrariados do com a impossibilidade de trabalhar com Demi.

– Não me leve a mal – disse ela. – Eu gostei.

Ocorreu-lhe que ela deveria ter pedido algo mais para o almoço. Precisava parecer o menos afetada por Joe possível.

– A abordagem é nova para o NNY. Uma boa abordagem de algo que já foi feito até o esgotamento, e você conseguiu me fazer soar como se eu não fosse totalmente estimada. Embora… – Ela clicou no trecho mais pessoal que ele tinha escrito e rolou a tela um pouco para baixo.

Eis o que Demi disse, mas não em palavras:

1. Todo mundo é alto e bonito e tem roupas melhores do que eu. Qualquer um que parecesse ser, de algum modo, normal, era um zé-ninguém. Exemplo: eu.

2. As pessoas podem ser muito mal-educadas, mas ao mesmo tempo, muito adoráveis. Estar com Joe tinha a ver com esta última parte. A primeira parte foi por conta da casa.

3. Todo mundo tem um smartphone. E as câmeras são intrusas, mesmo que seu objetivo seja aparecer nas fotos. E o que mais? Eu realmente não estou mais em Ohio.

– Eu realmente não estou mais em Ohio? – Demi suspirou. – Mesmo assim. Você fez um bom trabalho.

Pelo jeito como os lábios dele se entreabriram, ficou claro que ele não esperara aquela reação dela, especialmente pela forma como ela pronunciara bom. Agora, se ela conseguisse ao menos conservar aquilo. Demi se imaginava como o tipo de mulher capaz de ficar de igual para igual com os maiores nomes de Manhattan, e agora era sua chance.

Ela tinha estado no País das Maravilhas na noite anterior, e não iria pedir desculpas por sentir-se como Alice. Joe tinha capturado isto perfeitamente em seu blog. Mas estava de volta à terra firme agora. Conhecia o roteiro, negócios eram negócios, e se Joe iria usá-la, então ela queria algo em troca.

Sim, ele era Joe Winslow, e o coração de Demi estava acelerado desde que lera o primeiro texto, mas o contexto ali era muito mais grandioso, e seria uma idiota se deixasse a chance escapar por entre os dedos. Ser relacionada a Joe era um selo que ela não podia ignorar.

– O blog ficaria melhor se você usasse minhas fotos. Me usasse.

– Ficaria? – Um lampejo de sorriso veio e se foi. Ótimo. Ambos estavam jogando o mesmo jogo. Era importante para Demi se lembrar de que Joe possuía anos de experiência, ao passo que ela… possuía cara de pau. Teria de ser suficiente.

Joe entregou a ela um prato de batatas fritas e uma xícara de chá de papelão. Ele pagou a conta, o que era bastante apropriado. Afinal ele havia convocado a reunião.

Ao se dar conta disso, Demi sentiu uma pontada de tristeza, arrependimento genuíno e, caramba, ela precisava parar com isso. O sexo tinha sido sexo. Os dois estavam prestes a conversar sobre algo importante e ela não podia se dar ao luxo de ser sentimental, nem por um momento. O sexo tinha sido ótimo. Ponto final. A imaginação dela podia ser um lugar maravilhoso, mas era capaz de feri-la também.

Felizmente, eles conseguiram um banco para sentar. A batata frita estava tão boa que fez Demi gemer, o que por sua vez a fez corar, mas somente até ela vir a manchinha de maionese no queixo de Joe. Se ela fosse a garota legal que seus pais criaram para ser, ela o avisaria. Mas aquilo ela era uma reunião profissional, e vê-lo de forma tão humanizada ajudava.

– Qual é a sua preocupação? – perguntou Joe.

– Não sou tão inocente como você me pintou. Entendo que este é o chamariz, e tudo bem, mas eu gostaria de poder escrever lá. Meus chefes leem o NNY, nossos clientes, também. Pode ser só um blog, mas vai ter um impacto na minha carreira.

Ele deu mais uma mordida em seu hambúrguer, e em vez de Demi olhar para a boca de Joe, se lembrando de como foi senti-la contra a sua, concentrou-se na maionese que pontilhava o queixo.

– Quero que seja mais do que um blog – disse ele depois de engolir.

O olhar de Demi saltou para os olhos dele e por um segundo ela achou que talvez aquilo não fosse totalmente profissional, mas daí se lembrou.

Primeiro da maratona. Ela vai ser pequena, mas se tiver bastante comentário, prolongo ela.
A cada uma hora, um capítulo novo.
xoxo

25.9.15

Escolha - Capitulo 6


~

JOE MUDOU de posição enquanto a beijava. Ele já estava excitado há um tempinho, desde que largara aquela bandeja de chá burlesca. Demi não fazia seu tipo, não havia nenhuma dúvida sobre isso, mas havia nela alguma coisa tão… Alguma coisa.

Tão pequena. Não magra, era uma magreza onipresente, uma coisa a se superar, não para se desfrutar. Pelo menos o tipo de magreza ao qual ele estava acostumado. Demi era diminuta, delicada. Como ele, queria abraçá-la completamente, erguê-la e levá-la para sua cama. Isto era mais absurdo do que o serviço de chá, pois não havia nenhum traço romântico no corpo dele, e nem a bebida fora o suficiente para fazer sua imaginação voar para longe, no entanto, as mãos dele corriam pelo vestido preto, o qual tinha de ser retirado, abarcando os quadris e o traseiro dela.

Em vez de ceder à sua vontade, Joe andou de ré, puxando-a consigo. Ele não precisava olhar, ainda não. Era uma linha reta até o corredor, onde então eles se virariam, em seguida iria por outra linha reta até o quarto.

Eles se beijavam e caminhavam num arrastar desajeitado. Ele a tocava sempre que podia, principalmente nos pontos desnudos, quentes e eriçados. Ele esperava que os arrepios fossem por causa dele, não por causa da temperatura. Optou por não perguntar.

O quarto era obscenamente grande para Manhattan, mas o prédio era da época pré-guerra e o local tinha sido expandido em uma reforma. Ele havia colocado um tapete de pelúcia ali para o próprio deleite, lençóis escandalosamente refinados, preservativos e garrafas de água perto da cama king-size. Demi rompeu com o beijo em um suspiro. Não por causa do luxo do cômodo, ela não o havia espiado ainda, mas para respirar. Para oferecer um sorriso.

Joe acenou com a cabeça em direção à parede, as cortinas eletrônicas de todas as janelas estavam abertas para exibir a vista.

– Não – disse ele. – Eu quero você lá.

Ela se virou. O arfar não foi para tomar fôlego. – Oh, é lindo.

– Perde a graça. – Ele pegou a mão de Demi e a guiou para mais perto das janelas, beijando-a novamente, esgueirando a língua entre os lábios enquanto seus dedos encontravam o zíper dela. Não ouvia nada além da respiração e da circulação sanguínea, mas continuou a baixar o zíper do vestido com a mão esquerda nas costas nuas até chegar ao fim. Tocou a faixa de elástico do cós da calcinha fio dental. O toque foi suficiente para fazer Joe se afastar do calor maravilhoso da boca de Demi.

Ele precisava ver aquilo.

O vestido caiu, formando uma poça aos pés dela, e foi melhor do que ele tinha imaginado. A calcinha não era preta, mas vermelha. Um tom de vermelho escuro, pequena. Vê-lo contra a pele pálida deixou seu membro rijo, o desejo intenso.

Estranha, tão estranha a reação dele. Ela era bonita, realmente era, mas não de uma beleza escultural. Proporções perfeitas, mas não tão magras a ponto de não ter curvas e uma barriguinha que o fazia querer descansar a cabeça ali por uma semana. Deus, e os seios. Eram de dar água na boca, com aréolas rosa claras e mamilos pequenos e firmes, enrugados e à espera.

Demi saiu de seu vestido, e ah, que coisa. Ela nua, usando nada além de uma tanguinha cor de rubi e saltos altos. Impressionante, deliciosa… Deus do céu, a mulher estava a meio metro dele, disposta e ávida.

Joe tirou as próprias roupas em um frenesi controlado, atirando tudo para os lados, em gestos multitarefa, retirando sapatos e meias, se aproximando de Demi enquanto abria o zíper, com a seda da cueca boxer farfalhando enquanto roçava seu pênis cheio de desejo.

Ele a beijou novamente, mas ela estava tremendo e com frio suficiente para ele se render à vontade absurda de tomá-la nos braços. Ela era um peso-pena de carne macia e arfares, e droga, Joe devia ter puxado o edredom da cama. Demi riu dando uma bufada quando ele a pôs no chão, e juntos eles se livraram dos travesseiros extras e retiraram o edredom.

Joe esperou, e quando ela se sentou e se abaixou para tirar os saltos, ele fez um barulho. Não foi um grito ou um gemido, mas algo parecido com ambos. Demi sorriu e levantou-se da cama. Havia um brilho perverso nas pupilas dilatadas de desejo dela, e quando se virou e ficou de quatro no colchão, Joe fez outro barulho, mas este era um gemido, originado diretamente de sua masculinidade. Demi rastejou sobre a cama, rebolando num convite, mostrando-lhe lampejos em vermelho entre as coxas.

Quando ela chegou ao segundo travesseiro, exibiu-se para ele ao se deitar, sorrindo, corada e respirando com dificuldade enquanto posava. Colocando as mãos atrás de si, segurava a cabeceira feita com ripas de teca, com os cabelos escuros contrastando na fronha branca. Demi levantou as pernas, uma inclinada sobre a outra, como uma pin-up dos anos 1940, como uma sereia, como um sonho.

Milagrosamente, Joe não chegou ao ápice de imediato. Ele subiu na cama, devagar, e fechou os olhos antes de tocá-la.

Porque, Deus.

Quando ele lambeu uma trilha pela parte interna da coxa de Demi, ela estremeceu de encontro à língua dele.
DEMI PAROU de respirar quando a boca de Joe avançou pela coxa. A pose sexy não era bem o estilo dela, mas esta noite ela não era a Demi de sempre. Felizmente as mãos dela estavam agarradas às ripas, ou ela teria flutuado até o teto. Queria apressar Joe, o hálito quente provocando-a muito perto dos vincos onde as coxas encontravam a calcinha, mas sem exatamente chegar lá.

Ele pegou o tornozelo esquerdo dela, segurando a perna no ar enquanto a outra mão lhe alisava a coxa direita. Ela o observava, a excitação crescendo, porém estava complicado para Demi manter a cabeça naquele ângulo, com os travesseiros firmes amarrados de um modo meio desajeitado sob suas costas. Por mais que ela quisesse refestelar a cabeça para trás, manter os olhos fechados e soltar o grito preso na garganta, não conseguia fazer nada senão observá-lo, nu, agachado na cama entre os joelhos dela. Sendo assim, ela só ficou observando, incitando-o a se movimentar, permitindo que aquela respiração quente se espreitasse furtivamente sob a pele sedosa, deixando que a língua acompanhasse.

Cada inspiração expandia o peito de Demi, então os seios, pequenos demais para seus mamilos pontiagudos, entraram no campo de visão dela. Quando Joe olhou para cima, sorriu por compartilhar a mesma visão, porém de baixo. Certo, talvez os seios dela não fossem tão pequenos. Pelo jeito como Joe gemia, sempre mantendo a língua na pele de Demi, ele parecia gostar deles. Muito.

Apesar do gemido, o sujeito teimoso se recusava a acelerar.

– Joe – gemeu Demi quando levantou os quadris. Ele queria o que para ir além, um convite por escrito?

A risada baixinha dele marcou a frustração dela.

– Paciência – sussurrou ele, com a boca se movimentando para mais perto de onde ela necessitava. Mas em vez de usar a língua, ele roçou o nariz na fenda, afastando a calcinha. Ele inalou como se ela fosse um buquê de rosas e, ai, Deus, baixou o tornozelo dela enquanto seus dentes agarravam a seda. O puxão foi forte, mas não o suficiente para arrebentar a calcinha, só para arredar as coisas para o lado, para permitir a ela sentir o roçar do ar frio em sua carne nua.

Quando Demi soltou as ripas, as mãos doíam. Tinha certeza de que estavam marcadas com a pressão, mas não se importava. Era necessário tocar Joe. Ela era mais baixa do que qualquer uma de suas amigas, mas a distância entre a cabeceira da cama e o corpo de Joe pareceu se estender por quilômetros. No entanto, Demi chegou a ele sem esforço, tocando o cabelo escuro, macio, os dedos trilhando pelas têmporas.

Ele gemeu, a centímetros de mais uma dobra íntima. Então aquela língua astuta começou a explorar e o corpo de Demi arqueou com o choque.

A batalha contra o travesseiro mal posicionado foi perdida em um instante. Ela pendeu a cabeça para trás, os olhos fechados enquanto ele lambia, sugava e pincelava, até que Demi pôs uma perna pressionando o ombro dele e agarrou os cabelos de Joe de um jeito que deve ter doído muito.

Ele não parou, nem quando ela choramingou, nem mesmo quando o nome dele virou um apelo compassivo nos lábios dela.

Demi chegou ao êxtase com um tranco, o corpo inteiro arqueando e um grito que começou grave e terminou tão agudo que apenas morcegos seriam capazes de ouvi-lo.

Joe a segurou em meio aos tremores, beijando até o umbigo, rumo ao peito. Beijos suaves, beijos fortes, alguns molhados e obscenos, e outros castos e doces. Os dentes arranharam a pele dela, fazendo-a ofegar, no entanto as lambidas posteriores a acalmaram para um suspiro. Quando ele chegou aos seios, ficou ali por um tempo. Demi estremeceu, cada mordiscar e sugada nos mamilos sensíveis provocara tremores.

Ela correu as mãos pelos ombros de Joe enquanto sussurrava o nome dele sem parar, puxando-o para mais perto. Mas o safado obstinado tinha outros planos. Joe abandonou o mamilo com um longo toque da língua e encontrou o olhar de Demi, as pupilas mais dilatadas do que nunca. Os lábios dele estavam molhados com a umidade dela, e o sorriso estava a três passos além do estágio pecaminoso.

– Você precisa alcançar ali – disse ele, apontando para a mesinha de cabeceira. – Abra aquela gaveta.

– Vou abrir.

Joe escancarou o sorriso e Demi sentiu a mão dele descendo furtivamente por sua barriga. – Se você não se importa – disse ele, e ela pôde jurar que a voz dele baixou uma oitava.

– Joe, o que você está fazendo?

– Eu não terminei – disse ele. – Então só vou me divertir até que você achar que vai preferir mais do que apenas dedos.

– Talvez eu tenha uma quedinha por dedos.

– Tudo bem – respondeu ele. Mas ele já estava se posicionando de joelhos até que Demi pudesse vê-lo. Ver seu membro muito, muito duro e pronto.

A mão que não estava acariciando a parte íntima de Demi, brincando no limite dos lábios, envolvia a ereção. Era caprichada e, aparentemente, ele sabia muito bem como usá-la.

Ela engoliu em seco e contraiu seus músculos quando ele percorreu o comprimento do membro até o brilho da lubrificação reluzir na ponta, uma gotinha de pré-ejaculação gotejando obscenamente.

Demi odiava a ideia de ter que desviar o olhar, mas não conseguia levitar. Ela encontrou o preservativo na mesinha rapidamente, abriu o pacote com os dedos trêmulos. Joe fez as honras de vesti-lo, exibindo-se descaradamente, então se deitou em cima dela, apoiado nos cotovelos para não esmagá-la.

O beijo era puro sal e sexo, a língua de Joe dando a ela uma prévia do que estava por vir. Abrindo-a, ele se esfregou para cima e para baixo entre os lábios, orientando-se instintivamente. Durante o tempo todo, ele a encarava com pupilas dilatadas, olhos semicerrados.

Quando ele investiu, o grito que Demi estava segurando ecoou além do quarto, deixando-a sem fôlego.

Tudo a partir de então foi preenchido e se transformou em excitação intensa. Crua e opressiva, cada estocada era seguida por um arfar desesperado dele, e dela.

Demi chegou ao clímax novamente. Espremendo-o no íntimo, puxando-o para si, mais apertado. Então ele congelou, com o rosto em uma máscara de intenso prazer.

Quando Joe retornou do limite do êxtase, ele a beijou. Mais do que o encontro, mais do que o chá, mais do que tudo, o beijo revirou tudo. Longo, lento e profundo, que não foi um agradecimento ou exibicionismo, ou como qualquer outro beijo pós-sexo que ela já experimentara. Foi tão real quanto o céu noturno, e deixou Demi tão tonta quanto se tivesse afogado em um garrafão de champanhe.

Depois, enquanto ela recuperava o fôlego roubado, Joe desabou sem qualquer graciosidade ao lado dela.

Ela ainda estava usando os sapatos de salto.

Quando ele se obrigou a se levantar da cama e ir ao banheiro, ela fechou os olhos, ainda atordoada e confusa. – Feliz Dia dos Namorados, Demi – disse ela baixinho para ele não ouvir. – Uau.

ERAM 6H40. Joe tinha olhado para o despertador às 6h38 e em seguida para Demi, ainda dormindo, ainda com ele. Ele só conseguira enxergar parte do ombro nu e a parte de trás da cabeça dela. Agora ele estava olhando para o teto e tendo um ataque de pânico.

Nunca tivera um, mas o jeito como seu coração estava batendo devia ser um sinal. Como um teste, ele virou a cabeça para captar um vislumbre dela. Que droga. O que diabos ele tinha feito?

Na última vez que se sentira assim, não exatamente assim, mas da maneira mais similar que conseguia se lembrar, com uma vibração semelhante, fora aos 15 anos. Sua primeira vez. Ele estava na casa de Amy Johnson, na cama de dossel, com os pais dela a duas portas de distância no corredor. Ele era louco por Amy, louco dentro daquele conceito de amor aos 15 anos. O sexo tinha sido horrível, mas ele tinha conseguido afinal. Não conseguia imaginar o quão ruim tinha sido para Amy. Ele se sentia o rei dos garanhões; mesmo quando caiu de cara no chão ao fugir pela janela do quarto, considerou a noite um grande sucesso.

Ele certificou-se para que seus pais encontrassem um dos preservativos da caixinha. O ataque fulminante deles perante a inadequação do sexo com uma garota daquele tipo de família. Ela frequentava a escola pública e seu pai era dentista em uma clínica, tinha sido o acontecimento mais gratificante da vida de Joe, até seus 16 anos e meio, quando ele descobriu as delícias das mulheres mais velhas e percebeu o quanto tinha a aprender.

Tais lições tinham sido um prazer sincero.

Mas ninguém e nada desde Amy tinha recapturado a alegria enlouquecedora daquela viagem inaugural. Até ontem à noite.

Independentemente do que tinham feito, Demi definitivamente era inocente. Ah. Tudo bem. Demi o fazia se lembrar de Amy. Não era motivo para pânico. A respiração dele provavelmente voltaria ao normal em breve. A noite anterior tinha sido uma reprise de uma grande noite. Só isso. A reação de Joe nada tinha a ver com a mulher agradável em sua cama. Ele prepararia o café para ela, pagaria o táxi e fim.

Quanto mais cedo melhor. Ela precisava ir para o trabalho, e ele também.

Joe congelou quando Demi se virou e eles se tocaram. A mão dele, a coxa dela. Estava quente, o lugar onde tinham chegado ao ápice juntos, e todo o progresso que ele tinha feito no quesito respiração foi para o inferno.

Por que ele estava ficando excitado de novo? Droga.

Joe a imaginou naquela pose, com as mãos segurando na cabeceira da cama, os mamilos duros como seixos e aqueles sapatos de salto. Jesus. Ela cheirava a mel e tinha o sabor do oceano, e ele não ficava excitado daquele jeito há anos. Conteve um gemido quando imaginou o rosto dela no ato do clímax. Eis o resumo do problema. Ou ele deveria dizer prazer?

Obrigando sua mente a se concentrar, Joe se recusou a validar qualquer reação abaixo da cintura. Se estivesse pensando com a cabeça de cima, e não com a de baixo, ele teria mandado Demi para casa ontem à noite. Assim que ela pediu chá. Chá?

Sério mesmo? E então ele piorou tudo pegando a maldita prataria do jogo de chá. O que foi aquilo?

Dane-se sua excitação. Aquilo era ridículo. Ele estava a trabalho. A noite anterior tinha sido um favor para Rebecca, uma agradável surpresa para ele. Joe não negava que Demi era fantástica na cama, mas isso não era relevante. Não importava. Não precisava de uma boa transa, precisava de vips, mulheres que atraíssem leitores para os blogs, material para fofocas. Ele precisava de Mia Cavendish e suas sósias, quanto mais fotogênicas e controversas, melhor. Queria trending topics, render manchetes na coluna de fofocas do New York Post. Necessitava de receita publicitária e de infâmia. Demi poderia levá-lo exatamente a nada disso.

BOM DEUS Todo-Poderoso, ela estava muito encrencada.

Como era possível que a melhor coisa de sua noite de Cinderela tivesse sido um casinho de uma noite com o rei de Manhattan?

Não é a limusine, não a fama de Joe, nem as estrelas ou os vestidos, e nem mesmo conhecer seus estilistas favoritos. Não. A melhor coisa, a coisa que iria paralisá-la se ela não se aprumasse neste minuto foi fazer… sexo com Joe.

Demi não era nenhuma virgem recatada e tinha noção do que havia acontecido entre os lençóis. Ela já havia experimentado sexo ruim e já havia experimentado sexo incrível, porém o que tinha acontecido com Joe não estava nem na mesma escala do que ela conhecia.

Apaixonar-se por Joe não era aceitável.

Ela realmente precisava sair da cama porque, se ele movimentasse a mão na coxa dela só um pouquinho, não seria capaz de se responsabiliza por suas atitudes.

Onde estava seu vestido? Perto da janela. De algum modo, o quarto não estava iluminado, fato que deveria ocorrer, porque da última vez que ela olhara, não havia nada senão vidro entre eles e o Central Park. No entanto, o parque ainda não estava escuro. Ela ainda não havia aberto os olhos, mas havia algum tipo de coisa dourada ocorrendo sob suas pálpebras, então…

O abajur que havia sido ligado enquanto eles estavam…

Ela inspirou baixinho, se recompondo. Não importava o que Joe estivesse fazendo. Estava no controle de suas ações e pensamentos. Jogaria as cobertas para o lado, sairia da cama, pegaria seu vestido e iria ao banheiro. Não precisaria nem olhar para ele.

Droga. Os dedos de Joe roçaram sua coxa. Então rápido assim a determinação de Demi desapareceu e seu corpo ficou tenso. As coisas estavam acontecendo contra a vontade dela. Os mamilos enrijeceram. Os músculos de Kegel se contraíram. Isso sem mencionar as batidas de seu coração.

Foi só uma vez, Kingston. Uma noite. Você tinha bebido champanhe. Foi como estar em um conto de fadas. Não é de verdade. Coisas assim não acontecem no mundo real. Acabou. Deixe de ser idiota e vá embora.

Depois de uma contagem silenciosa até três, ela tomou uma atitude. Arremessou as cobertas, colocou o vestido, estragou o zíper, pegou os sapatos, correu para o banheiro, bateu a porta, respirou.

Amaldiçoou-se dali até domingo, porque, enquanto ela estava na segurança agradável do banheiro, sua bolsa com seus pertences estava na sala de estar.

Demi suspirou e se recostou na porta, mal contendo a vontade de bater a cabeça contra a madeira até desmaiar. Sua maquiagem já estava um desastre, então chorar não estava fora de cogitação.

Quais eram as chances de Joe ter uma escova de dentes reserva naquele cômodo gigantesco? Só o boxe do chuveiro era maior do que aquilo que ela ridiculamente chamava de quarto.

Ela poderia lavar o rosto com qualquer sabonete que ele tivesse, e enxaguar a boca com alguma coisa que pelo menos pudesse disfarçar o bafo matinal por um tempinho. Tudo o que precisava fazer era estar um pouco apresentável para pegar um táxi, daí poderia começar a esquecer Joe enquanto corria para se arrumar para o trabalho.

Café. Café resolveria tudo. Não, aspirina e café. Era disso que ela precisava, e seu mundo iria voltar ao normal.

Uma batida na porta do banheiro a fez dar um pulo de susto tão intenso que seu vestido quase escorregou até o chão.

– Hum, tem gente – disse ela, puxando-o para cima novamente.

– Sim – disse Joe, e Deus, a voz dele a atravessou como um fogo brando. – Imaginei que você fosse querer sua bolsa.

– Ah. Hum. Isso. Sim. – Ela se virou, segurando o vestido com um braço quando abriu uma gretinha na porta. Não era o bastante. Abriu mais um pouco, depois mais, e finalmente conseguiu pegar a bolsa. Demi a segurava como se estivesse conectada a uma ratoeira. – Obrigada. Já vou sair em um minuto. Não se preocupe comigo.

Então veio o silêncio. Demi não sabia se Joe estava bem ali fora ou não, mas ela não se mexeu. Pressionou seu ouvido contra a porta.

– Tudo bem – disse ele, fazendo-a se sobressaltar novamente. – Vou preparar o café.

– Ótimo. Obrigada. Parece ótimo. – Ela se encolheu por causa de sua boca grande e recogitou a coisa de bater a cabeça contra a porta.

Finalmente, ela se virou, conformada que não haveria aspirina e café suficientes no mundo.

– O QUE é isso? – perguntou Demi.

Joe olhou para a nota de cem que ele estava estendendo para ela.

– É para o táxi.

– Cem? Você acha que moro em outro estado?

– Eu não tinha certeza. Olha, sinto muito, eu não posso levá-la, mas o blog…

– Tudo bem. Mesmo. Já entendi – disse ela enquanto segurava seu copo descartável de café. – Obrigada pelo café.

– Mas assim você não vai se atrasar para o trabalho?

– Não. Não, se eu sair agora.

Demi não olhou para ele. Nem uma vez. Pelo menos, ele achava que não. Joe estivera evitando olhar para ela, então não havia nenhuma certeza, mas aparentemente ela não olhara.

Se nada mais lhe dizia que a noite tinha sido um erro colossal, o constrangimento desta manhã o teria feito. Foi épico. Ambos aos tropeços, resmungando, envergonhados e basicamente agindo como idiotas. O problema era que Joe não sabia por que Demi estava se comportando como se ele fosse um leproso. Ele achou a noite ótima, e o sexo fantástico. Bom demais.

Talvez só ele tenha achado, no entanto.

Não. Tinha sido espetacular, e ele sabia do que estava falando. Demi estava esquisita por outra razão. Joe bem que gostaria de culpar o dinheiro excessivo para o táxi, mas a esquisitice tinha começado assim que ela saíra da cama.

Demi estava chegando na porta de entrada, embora simplesmente tivesse dado meia-volta e saído. Deu alguns passos para trás, conferiu as próprias costas, em seguida andou mais alguns passos, e aquilo fez Joe desejar beijá-la. Droga.

Ela precisava ir. Agora.

Joe passou na frente dela e abriu a porta.

– Desculpe por não poder encontrar você… – Ele parou antes de repetir a frase inteira.

– Claro. E eu tenho… – Ela estava bem na frente dele agora, encarando-o com aqueles olhos verdes. – Obrigada – disse ela.

– Foi a melhor noite de todos os tempos. Eu nunca vou esquecer você. O evento. A festa. As coisas que fizemos… na festa.

As bochechas dela ganharam um tom muito escuro de rosa, e sim, as pontas das orelhas também. A necessidade de se abaixar alguns centímetros e grudar os lábios aos dela mais uma vez foi mais forte do que Joe estava preparado para admitir.

– Eu me diverti muito também – disse ele, a voz embargada no final. – Nós deveríamos… – Ele se conteve, mordendo a língua. Doeu um pouco. Mas Joe quase disse que deveriam fazer aquilo novamente.

– Bem, vou sair. Pegar o elevador. Para pegar um táxi. – Ela passou pela porta. Quase escondida atrás de seu café, derramando só um pouquinho.

– Certo. Tchau.

– Tchau.

Joe foi fechar a porta enquanto Demi chamava o elevador. Então ele parou. Seria rude da parte dele fechar a porta. Por outro lado, ela parecia desesperada.

Ele escolheu o meio-termo. Deixou a porta entreaberta, mas se afastou. Para a cozinha. E não voltou a respirar até ouvir o ding do elevador.

Mas que droga.

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Amanhã começa a maratona. Fiquem ligados.
Quero ver muitos comentários.
xoxo

23.9.15

Escolha - Capitulo 5


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A LIMUSINE chegou, e graças a Deus, Joe conhecia o motorista porque todas as limusines pareciam idênticas, exceto pelos radicais que gostavam de ostentar seus utilitários e seus Bentleys longos e deslumbrantes. Demi ficou contente por ver que o cavalheirismo não estava morto quando Joe se posicionou para bloqueá-la e lhe oferecer segurança enquanto ela sentava-se no banco de trás. Quando ele sentou-se logo depois dela, puxou-a para si, o braço em volta dos ombros. – Foi incrível – disse ela, esfregando as mãos na tentativa de se aquecer.

– Foi. Todo mundo compareceu esta noite.

– Eu ainda estou tentando absorver os acontecimentos, acreditar que não foi um sonho.

– Não. Vai ter um monte de fotos e vídeos no Naked New York esta noite. Vou garantir cópias para você, o que acha?

Demi olhou para ele, espantada.

– Sério? De tudo?

– Sim. Gravado num CD, assim você pode usar um editor de imagem em quem quiser. Só me faça um favor: não publique nada. Isso pode complicar as coisas.

– Não vou fazer isso, eu juro. Não a parte do editor de imagem… isso eu vou fazer. E vou economizar cada centavo até poder comprar uma impressora colorida, mas juro que não vou publicar. Não vou abusar do privilégio.

– Não estou preocupado.

Ela não conseguia parar de olhar para ele.

– Como pode não ficar? Você não me conhece. Eu poderia ser qualquer um. Uma concorrente. Eu poderia trabalhar para Perez Hilton ou para o Gawker, e o que isso causaria a você?

– Mas você não trabalha. Porque Rebecca gosta de você.

– Ela também quase não me conhece.

– Rebecca tem instintos excelentes sobre as pessoas. Vai ser bom para você ser amiga dela. Não diga a ela que eu falei isso, mas ela é muito, muito inteligente. A mais inteligente da família, e olha que temos alguns juízes federais em nosso clã, além de um bando de políticos.

– Falando nisso, ultimamente eu tenho visto todos esses cartazes pedindo votos para Andrew Winslow III. Nem pensei nisso, mas vocês são parentes?

A expressão de Joe azedou.

– Começou… ele é um primo. Um do qual não gosto muito, embora eu não goste da maioria deles. Rebecca é a exceção.

Interessante o desgosto dele pela família. Tão diferente da experiência de Demi. E triste também. Ela não sabia o que faria sem o apoio da família. Melhor voltar a falar da parente que ele gostava:

– Estou adorando a amizade até agora. Rebecca é absurdamente engraçada. E ela conhece a cidade do jeito que eu gostaria de conhecer um dia. Todos os lugarezinhos e segredos.

– Por que Nova York? – questionou ele.

– Tudo começou com o prédio da Chrysler – disse ela. – Amo art déco, embora não soubesse o que era art déco quando vi fotos do prédio pela primeira vez. Então descobri a moda, aí o teatro e tudo o mais que estava disponível aqui, algo incrível em todas as ruas. Eu me apaixonei por esta cidade, mesmo antes de pisar aqui. E sim, graças a Woody Allen, descobri uma partitura de George Gershwin. Acho que devo ter morado aqui em outra vida. Não que eu necessariamente acredite em reencarnação, mas, se for verdade, então eu vivi aqui. Este é meu lar.

– Este lugar tem uma pulsação que ou está em sincronia com seu ritmo, ou não. Percebo sua ausência sempre que viajo. Se você é um dos escolhidos, Manhattan se torna seu lar, e toda vez que você retorna, é como se você finalmente pudesse respirar de novo. Para mim, pelo menos, é assim.

Demi sorriu para ele, como se eles tivessem compartilhado um aperto de mão secreto. Ela presumia que o tivessem feito de fato. Então inclinou-se, a cabeça descansando suavemente no ombro de Joe.

– Obrigada, Joe. A noite de hoje entrou para a história.

Joe fechou os olhos ao mesmo tempo que a puxava para mais perto. Ele concordava com a opinião sobre aquela noite. Não tinha sido fácil deixar Demi enquanto ele trabalhava, e quando algo parecido havia lhe acontecido? Ele não conseguia se lembrar.

Não que Joe não tivesse gostado das mulheres com quem saíra… ele gostou, sim. Gostava de mulheres de todos os tipos, mas tinha algumas preferências fortes, não ia negar. Ele não saía com elas visando apenas a própria diversão, afinal de contas. Sua imagem era parte da marca Naked New York, bem como as mulheres com quem ele era visto. Algumas eram melhores do que outras. Havia as que conseguiam conversar, outras eram incapazes de formar duas frases coerentes, mas, como mulheres, elas eram um tipo.

Demi não chegava nem perto desse estilo.

Até agora ela o havia surpreendido em quase todos os aspectos, no entanto, conforme vasculhava através de todo o resplendor, ele tentava se lembrar da última vez que tinha existido alguma surpresa na mistura. Escândalos eram esperados nos dias de hoje, com roteiro ou não. Diabos, escândalos eram o ponto principal, fossem causados por celebridades ou por si mesmo. Festas eram apenas pretextos para ser visto ou ouvido ou fotografado. Tudo era farinha do mesmo saco, e ele era tanto o trigo quanto o moinho. Surpresas? Raramente.

Ele queria saber mais sobre a mulher que aquecia a lateral de seu corpo, que também era rara, pelo menos naquela circunstância. Joe sempre estivera interessado em pessoas. Por isso começara o blog para início de conversa. Bem, por isso e para acabar com os planos horrorosos de seus pais para ele. Ele queria saber mais detalhes sobre Demi. As minúcias da vida da qual ela havia aberto mão para estar aqui, quem esperava se tornar. Algo a ver com a moda, obviamente. Será que aquele vestido dela era um modelo novo? Tinha sido projetado para se destacar? Joe podia conviver com a alta-costura muito mais do que uma pessoa normal deveria, mas isso não significava que ele era um membro do ramo. Até onde sabia, o vestido de Demi era bonito. Ele destacava as formas dela, a aparência da pele, as curvas e a pele macia das coxas. Ele gostava. Mas era moda? Ele não fazia ideia.

Por outro lado, talvez ele não quisesse saber mais. Ele dificilmente a veria novamente, mesmo com ela sendo amiga de Rebecca. O calendário social de Joe girava em função da necessidade, não de seus desejos, e por mais que ele tivesse gostado de Demi… qual era o sobrenome dela? Ela não estava na pauta do dia. Não podia estar. O que quer que tivesse motivado Rebecca a armar este encontro, não era para se tornar sério. Joe soubera disso no momento em que ele pusera os olhos na garota de Ohio. Mas ele não estava arrependido pelo tempo passado com ela. Ela fizera a noite dele.

Demi ficara absolutamente faiscante pelo modo como o evento a deslumbrara. Ele tinha que lhe dar crédito; ela lidara com a situação lindamente diante de tantos desafios, mas, mesmo assim, não escondera sua empolgação. Era provável que ela não tivesse noção de como se comportara. Joe tinha a sensação de que ela ficaria incomodada se soubesse que havia se iluminado como um letreiro toda vez que via alguém famoso. A fã ideal, na verdade. Nenhum grito ou agitação ou “Ai, meus Deus”. Só aquela luz interior, a centelha nos olhos, o jeito tímido e encantador como mordia o lábio quando a emoção era demais.

Ele a sorveu, contente porque os perfumes da noite não a tinham dominado. Outra surpresa veio quando ele percebeu que passou todo o trajeto acariciando-a. Passando a mão no braço dela. Assim que o carro parou, Demi estava praticamente ronronando e, pelo seu olhar, exausta. Provavelmente por causa da queda da adrenalina. Ela sentou-se, olhou para o edifício, depois de volta para ele.

– Então, terminamos por aqui?

O sim estava na ponta da língua dele. Mas, em vez disso, ele falou: – Só se você quiser que termine.

Demi ergueu as sobrancelhas, bem como os cantos da boca, mas um segundo depois, hesitou e foi tomada pela preocupação. – Você não precisa. Quer dizer, isso foi…

– Você tem que trabalhar amanhã?

Ela balançou a cabeça com pesar.

Joe fez uma pausa de um segundo.

– Você quer subir mesmo assim?

DEMI SE perguntou se estava interpretando a situação corretamente. Ela respirou fundo quando se lembrou do beijo dele, do jeito como ele a tocou. Se estivessem em Ohio, ela saberia exatamente o que ele queria. Em Nova York? Ela teria que assumir o risco.

– Quero – respondeu, esperando ter soado muito mais confiante do que se sentia. Ela iria subir até o apartamento dele. Para o quarto dele! Talvez!

Joe a ajudou a sair da limusine e passou o braço ao redor de seus ombros enquanto ela agradecia ao motorista. Ambos cumprimentaram o porteiro meneando a cabeça, mas nada foi dito enquanto Demi e Joe cruzavam o saguão, o braço dele nas costas dela, seu toque cálido.

Ficaram em silêncio enquanto o elevador subia. Ela estava encaixada na lateral dele, cuidadosamente instalada. Era incrível ser abraçada por ele, ser aquecida por uma fricção suave. Ela o avaliou na cabine espelhada, mas só chegou até os olhos, que a encaravam também.

Eles desceram no décimo oitavo andar e as portas se abriram para um pequeno átrio à entrada da casa dele. Joe abriu a porta e ficou de lado para deixar Demi entrar primeiro.

Mesmo depois de ler a Architectural Digest durante anos, e assistido sobre a vida das pessoas ricas em reality shows, ela não estava preparada para a beleza e a elegância da sala quando adentrou.

– Isso é… – disse ela, dirigindo-se diretamente para as janelas que compunham a maior parte da parede oposta. A vista era espetacular, o Central Park em toda sua glória invernal, as reluzentes luzes da cidade.

Demi queria verificar o mobiliário, o lindo trabalho de design em art déco do piso em preto e branco, a magnífica lareira de mármore e a pura novidade de ver tanto espaço para circular. Mas ela não conseguia parar de olhar para a cidade. Dezoito andares acima, a vista deslumbrante cobria uma distância muito grande para se absorver, não quando havia tantas outras coisas nas quais se pensar. Porém, ela podia vir a ter outra chance, ou não. Que diabos, ela poderia ir a qualquer arranha-céu em Manhattan para conferir a vista, mas Joe era uma oportunidade única.

Joe falou atrás dela:

– Gostaria de beber alguma coisa?

Ela se virou para ele, não muito segura, mas sabia que estava com sede.

– Chá? Se você tiver.

A hesitação dele fez Demi considerar que seu pedido não correspondia a algo que ele costumava ter em sua despensa.

– Acho que sim – disse ele. – Dê-me um minuto. Fique à vontade.

Joe largou o casaco nas costas de uma poltrona antes de desaparecer na cozinha. O pequeno vislumbre que Demi teve através da porta vai e vem mostrou um monte de aço inoxidável e possivelmente a beiradinha de um armário de madeira teca. Estranho ele não ter dito que compartilhavam a mesma paixão quando ela mencionara seu amor pelo art déco. Ou talvez o apartamento dele fosse obra de um decorador?

A coisa estranha sobre a tangente mental dela sobre a decoração não era a coincidência de gostos, mas sua reação a Joe. Ela estava fascinada por ele, além do óbvio. O que demandava a pergunta: será que teria concordado em subir se ele fosse qualquer outra pessoa? Ela estava sinceramente atraída por ele, tal quanto seus hormônios a teriam feito acreditar, ou foi a ideia de Joe Winslow que a deixava louca para se despir para ele e fazer com ele todas as coisas safadinhas nas quais ela conseguia pensar?

Ela abriu a bolsa e pegou furtivamente o cartão de troca de Joe. Depois de uma rápida conferida para certificar-se de que ele não iria flagrá-la no ato, virou o cartão para ler o verso:

* Restaurante favorito: Grand Central Oyster Bar.

* Casamento, encontro ou de uma noite apenas: uma noite apenas é o seu máximo, mas vai ser uma noite fabulosa!

* Paixão secreta: no fundo ele é antiquado. Eu sei, surpreendente, hein?

* Cuidado com: o idiota é obcecado por trabalho. Ele precisa de uma folga.

* Conselho final: divirta-se! Basta ser você mesma!

Demi sorriu diante das respostas personalizadas de Rebecca. Aquele era um cartão que não iria retornar para a pilha, com certeza. Não, aquele era um presente de Rebecca para Demi, e Demi não iria permitir que sua insegurança se tornasse um obstáculo para o restante da noite mágica.

Ela virou o cartão de novo para ver a foto. Objetivamente, ele era um homem bonito. A beleza de Joe estava bem documentada em revistas, na televisão e na internet. Mas ela estava completamente atraída por ele de uma forma que não tinha a ver exclusivamente com a aparência.

Sabia o que sentia. Houve momentos na faculdade e ali em Nova York nos quais tinha gostado da aparência de um homem e simplesmente corrido atrás. E tinham sido bons momentos do ponto de vista hedonista, mas não era algo que Demi fazia com frequência. Mas ela precisava avaliar por que ela estava ficando ali, presumindo que não era apenas para beber o chá. Seu coração acelerado era coisa de uma fã ensandecida ou reflexo de um desejo comum, rotineiro… será que isso importava mesmo?

A resposta foi tão instantânea quanto física. Ela o desejava de uma forma incomum e nada rotineira. Desejaria-o mesmo que Joe não fosse o rei de Manhattan. Ele tinha sido uma surpresa. Agradável. Cativante. E compartilhava boatos privilegiados com ela propositalmente para que Demi pudesse sentir-se menos como uma impostora tentando entrar no palácio. Ele a procurou, e riu de suas piadas, e a aqueceu. E aquele beijo foi…

Bem, ela precisava ficar alerta esta noite, só isso. Se terminasse na cama, o que não era uma coisa certeira já que parecia haver um mundo totalmente diferente de sinais e insinuações dos quais ela não estava ciente naquele ar rarefeito dele, mas se os sinais fossem reais, teria de ser cuidadosa.

O jeito como Joe a fazia se sentir, isso podia ser perigoso. Essa era a diferença. Os outros caras, ambos, tinham sido divertidos nessa coisa empolgante e arriscada, quando você já tomou todas as precauções e então não está exatamente com medo, mas ele era novo, e se fosse terrível na cama, ou se seu órgão fosse minúsculo, ou se quisesse usar a calcinha dela?

Joe podia ter todos esses problemas, mas isso não era perigoso. O verdadeiro medo de Demi era que ela pudesse gostar dele. O tipo de gostar que não significava nada além de problemas. Gostar de um cara não era parte de seu plano de cinco anos. Na verdade, ele era a antítese do plano de cinco anos, a única coisa capaz de transformar até mesmo aquele golpe inacreditável de sorte em um desastre de proporções épicas.

Depois de enfiar o cartão de volta na carteira fininha, Demi apoiou o quadril no braço de um lindo sofá de couro branco. Ela continuou a esperar, se perguntando por que Joe estava demorando tanto. Quando o olhar dela atravessou a paisagem da cidade, lembrou-se de Susan. Ambas tinham sido colegas da faculdade quando Demi era caloura, e elas se deram bem desde o primeiro dia. Susan resolveu estudar Política. Já havia estudado Direito e tinha escolhido três faculdades para se inscrever; na verdade, fora Susan quem mostrara a Demi a sabedoria e o poder do plano de cinco anos. Susan tinha sido brilhante. Memória formidável juntamente a uma mente sagaz e uma presença poderosa. Era fácil pensar nela como uma senadora em potencial ou até mesmo presidente.

E então apareceu Nick.

Susan foi se apaixonando lentamente. Gradativamente. Mas daí ela se apaixonara tão intensamente, que saiu totalmente do rumo em relação aos seus planos. Fora para a faculdade de Direito, sim, mas para a Universidade da Califórnia, só por causa de Nick. Susan tinha sido aprovada em Yale e em Harvard, mas ela estava apaixonada. Demi fora dama de honra em seu casamento, e as duas mantiveram contato pela internet, e agora Susan tinha um bebê, e era dona de casa, e tudo bem. Claro que era bom. Mas não era o sonho.

Se só tivesse ocorrido com Susan, Demi não teria dado tanta atenção. No entanto, não foi. Quase todos os amigos da época da escola e dos primeiros anos da faculdade, ou melhor, todas as amigas, de algum modo, arruinaram seus sonhos por causa do amor. A experiência de Demi podia até ser uma anomalia estatística, mas era muito assustadora.

Demi não tinha nada contra relacionamentos, mas isso ficaria para mais tarde. Ela nem sequer vislumbrava o casamento antes dos 30, e possivelmente até além disso. Nada de ter filhos enquanto estivesse em seus 20 anos. Ela nem mesmo tinha certeza se queria ter filhos. Não era algo com o qual precisava se preocupar no momento, graças a Deus, mas gostar de Joe? Isso era uma possibilidade distinta.

Claro, ele gostar dela também era altamente improvável. No mesmo nível de ganhar na loteria. O que era pior em alguns aspectos, porque apesar de ter sido uma noite, e de Demi ter uma leve quedinha por ele, havia todas as razões para acreditar que poderia haver faíscas no quarto. Seria tão típico de Demi se flagrar encantada por Joe, só para depois desabar em um ataque de saudades e paralisia apaixonada pelo tempo necessário para superar aquilo. Isso também não seria bom para o plano.

Aquela decisão sobre fazer sexo estava sendo mais complicada do que ela imaginara. Graças a Deus ela não havia se rendido a mais doses de champanhe.

Demi não estava usando relógio, mas Joe realmente tinha saído há muito tempo. Ela se ergueu do sofá e foi em direção à cozinha, esperançosa de que não houvesse nenhum problema. Dois passos depois e a porta se abriu, e Joe entrou carregando uma bandeja de prata. Em cima dela havia bule, um bule de chá de verdade, feito de porcelana fina, decorado com flores e videiras. Havia xícaras combinando, duas, e pires, também dois. Uma tigelinha de creme, uma tigela com pacotes de açúcar, pinças de chá, rodelas de limão, um coador, e ela precisou se aproximar para ver que as latas continham diferentes variedades de chá. Ela olhou para Joe, e ele retribuiu o olhar. Foi um… momento.

Parte dela queria rir, mas uma maior queria saber… o que diabos?

– Aparentemente, eu tenho um serviço de chá completo – disse ele, em voz baixa e perversamente inexpressiva. – Eu nunca soube disso. Não cozinho muito, e tenho gente para limpar minha cozinha. Mas pensei, por que não? Pode ser que ninguém nunca mais peça chá de novo.

– Estou vendo… ah, esse aqui não é chá. São biscoitos?

– Biscoitinhos ingleses – disse ele. – Frescos, de acordo com o pacote. – Ele colocou a bandeja na mesinha de centro depois que ela correu para tirar algumas revistas dali. – Meu palpite é que a minha faxineira é aficionada por chá. Ela vem três vezes por semana, e eu não presto atenção aos seus hábitos de lanche. Faz sentido, no entanto. Ela enche a geladeira. O jogo de chá se parece com algo que minha mãe teria, e espera que eu tenha também.

– E cá estava eu pensando em uma caneca e um saquinho de chá barato. Mas isso serve.

– Serve, não é?

Demi assentiu.

– Tantos tipos diferentes – disse ela, investigando atentamente. Havia camomila, chá verde, chá preto e um outro do qual ela nunca tinha ouvido falar. Ela apontou para ele.

– Devo preparar?

– Vá em frente.

Demi estava muito feliz por estar acostumada a chá a granel enquanto colocava as folhas em água quente, deixando-as em infusão a seguir. Ela usou a pinça para colocar dois torrões de açúcar em sua xícara, serviu um pouco de leite e esperou nervosamente, quando percebeu o quão perto eles estavam juntos no sofá.

Aquilo era diferente de ter o braço dele ao redor dela na festa ou mesmo ficar sentada grudadinha nele na limusine. Agora havia um quarto envolvido, a poucos passos de distância.

Ela poderia optar por uma dentre estas duas abordagens no minuto seguinte: falar da decoração e ficar se perguntando o que iria acontecer até ele fazer algo óbvio, ou assumir uma postura de mulher adulta e perguntar se eles iam dividir algo mais do que chá.

– Então – disse ela – você gosta de art déco.

Joe olhou para ela, seu próprio torrão de açúcar na pinça, pairando acima da xícara.

– Sim. Gosto.

Mal conseguiu escutá-lo por causa dos xingamentos ressoando na própria cabeça, o que francamente não era muito agradável. Ela não era uma covarde e odiava pensar que o era, mas a única maneira de provar que possuía cojones era fazendo jus a eles.

– O apartamento é todo no estilo art déco? – perguntou, tentando ser sensualmente recatada em vez de assustadoramente dura. – Seu quarto, por exemplo?

Demi fez uma careta. Não conseguiu evitar. Uma garota de 15 anos teria se saído melhor.

O açúcar caiu na xícara com um baque suave e Joe sorriu.

– Você gostaria de vê-lo? Depois do chá, talvez…

Demi assentiu, então se ocupou em coar as folhas e servir-se. Ela concluiu que já tinha dito o suficiente, mas Joe não se apressou para preencher o silêncio. Deve tê-la visto olhando pela janela; ela não sabia ao certo porque não se atreveu a olhar para cima. Já era o suficiente desejar ter firmeza nas mãos e calma e compostura nos pensamentos. Algo tinha acontecido nos últimos segundos; talvez fosse o jeito como a voz dele baixara, e como o murmúrio rouco deslizou na pele de Demi como uma promessa vibrante e tépida… ela não fazia ideia do que era.

Não, ele definitivamente estava concentrado nela, concluiu Demi quando o peso do olhar dele pareceu agitar o ar ao redor. Ela podia de fato senti-lo observando-a, aguardando, sem perder nada. Demi colocou a chaleira na mesa, pegou a xícara e bebeu um gole, sentindo mais o calor do que o sabor quando o silêncio se prolongou entre eles. O elemento de surrealidade, como as pinças de prata e o fato de ser duas da madrugada, deixava o tempo mais trêmulo e lento. Bebericou mais uma vez, a xícara delicada incitando-a a levantar o dedinho.

Ela finalmente olhou por cima da xícara e viu que Joe estava, de fato, encarando-a. Também levou a xícara aos lábios, bebeu em silêncio, a mão grande e os dedos longos, os olhos fixos em cima dela o tempo todo, nunca vacilando.

Demi estava totalmente ciente de que ele poderia ter fitado seus seios empinados por causa do sutiã especial ou as coxas descobertas. Se o tivesse feito, Joe teria notado os tremores intermitentes, a pele que, Demi tinha certeza, não estava rosada apenas nas bochechas, mas também nas pontas das orelhas.

Aquele olhar era insuportavelmente sexy, com olhos escuros tão grandes, sem piscar. Como se ele pudesse enxergar mais do que ela queria.

Conforme cada segundo passava, o calor se intensificava, até que Demi não aguentou mais. Ela piscou.

– O chá está gostoso – disse ela surpresa, com a voz firme.

Ele lambeu o lábio inferior com a pontinha da língua; só uma leve pincelada, apenas o suficiente para a luz captar a umidade ali.

– Embora eu não faça ideia do ingrediente principal deste aqui. Tem gosto de… chá.

Ele baixou sua xícara.

– Tenho uma janela no meu quarto – disse ele, a voz ainda suave e grave atravessando-a como um trovão distante. – Quero tirar seu vestido lentamente. Deixar deslizar pelo seu corpo. Durante horas fiquei me perguntando o que há embaixo dele. Meu palpite é: preto, talvez rendas, talvez seda, mas definitivamente preto. Você vai ficar incrível perto da janela com as luzes da cidade como pano de fundo.

Demi quase deixou sua xícara cair, desajeitada e inábil quando uma onda de calor úmido fluiu por ela. E estivera tão composta. Completamente calma, racional e avaliando as coisas. E então ele tinha que vir e dizer aquilo.

Ela estava oficialmente em outro plano de existência, porque não havia ninguém no mundo que conhecia capaz de dizer aquelas palavras naquele tom, com aquele olhar. Se já não soubesse, ela teria pensado que havia alguém sentado atrás dela, algum modelo ou atriz, ou praticamente qualquer pessoa que não fosse Demi Kingston.

– Demi? – O sorriso de Joe era lento e controlado enquanto ela hesitava.

Deus, por que ela estava hesitando? Mais alguns segundos e talvez conseguisse fazer suas pernas obedecerem.

Joe se levantou e estendeu a mão para ela. Com o coração dançando flamenco, a cabeça girando em uma nuvem de luxúria e esquisitice, ela se levantou, sem derramar chá, sem tropeçar ou emitir quaisquer sons infelizes.

Em vez de puxá-la para mais perto, Joe entrou em seu espaço pessoal, e então a invadiu. O corpo dele a tocava do peito à coxa, e ele era quente e grande, e cheirava como se tivesse acabado de caminhar em uma floresta. Olhar para cima não era novidade para Demi, mas encontrando o olhar dele tão perto, sentir sua respiração adocicada pelo chá acariciando seus lábios era atordoante. Quando ele se abaixou, os olhos dela se fecharam no último segundo possível, e depois, e depois…

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Então pessoal, querem maratona?
xoxo