15.12.16

Um Amor em Meus Braços - Capitulo 4


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Joe abriu a porta da suíte dela, não a soltando até colocá-la na cama. Para alívio de Demi, ela achou que nenhum dos empregados os havia visto.

Os olhos dele a encararam.

— Não ouse erguer um dedo. Voltarei daqui a pouco e trarei uma bandeja com o jantar para você. Poderá tomar as vitaminas então. — Ele parecia mais preocupado do que uma mamãe galinha com seus pintinhos. Depois daquele turbulento começo, ela jamais teria imaginado que Joe possuísse aquele lado.

— Não preciso de ninguém me servindo.

— Discordo. — A boca dele estava tão perto que ela conseguiu sentir-lhe a respiração nos lábios antes de Joe se levantar. — Se quiser me desobedecer, faça isso por sua própria conta e risco.

Joe era uma força com a qual ela não desejava entrar em conflito no momento. Ela abriu as mãos.

— Certo. Mas, por favor, não diga nada a Geoff.

Ele não pode se preocupar.

— Concordo — Joe murmurou, antes de sair do quarto.

No momento em que a porta se fechou, Demi se levantou e foi para o banheiro. Depois de ser pega pela chuva e examinada na clínica, precisava tomar um banho e lavar os cabelos.

Após o banho, ela se enxugou e deixou os cabelos soltos para secarem mais rapidamente. Pôs uma camisola amarela e um robe combinando. Ao voltar para a cama, sentiu-se bem.

Mal havia se aconchegado sob as cobertas quando a porta se abriu e ela viu Joe entrar carregando, em uma das mãos, uma bandeja e, na outra, um monte de revistas.

Ela percebeu que ele também havia tomado banho. Vestia uma camisa de seda em um tom escuro de café e uma calça bege. Fosse com roupas formais ou o cáqui militar, ele era tão atraente que Demi descobriu que não conseguia desviar os olhos dele.

Enquanto ele ia até ela e começava a baixar a bandeja para a mesa de cabeceira, Demi viu uma das pinturas em tamanho natural de Lancelot na parede, logo atrás dele. O belo cavaleiro se inclinava sobre a rainha em seus aposentos, como se tivesse acabado de retornar da caça e estivesse ávido por provar-lhe a boca antes de se juntar a ela.

O maravilhoso homem que servia Demi estava praticamente na mesma posição. Naquele instante, ela não conseguiu separar as duas imagens em sua mente. A pulsação em seu pescoço começou a acelerar loucamente.

Joe provavelmente percebera a reação dela, pois fixou os olhos naquele traidor local por um tenso momento antes de continuar a lenta subida até o rosto de Demi.

O calor tomou o corpo e a face dela. Os olhares se fundiram.

— Como se sente agora? — A voz dele ressoou profundamente dentro dela.

Ela inspirou tremulamente.

— Eu... eu estou bem.

— Bem o suficiente para tentar comer algo?

Demi olhou para as revistas e a bandeja que ele colocara ao lado dos comprimidos dela. Havia chá quente, sopa, fatias de maçã, suco de uva, água e um rolinho. Ela imaginou que ele próprio escolhera tudo. Apesar de não estar com fome, não queria que ele a achasse uma ingrata, então, pegou uma fatia de maçã e começou a mastigar.

O gesto pareceu deixá-lo feliz. Ele se afastou. Demi pensou que ele pretendia se retirar. Em vez disso, pegou uma cadeira acolchoada e levou para o lado da cama antes de se sentar para beber uma xícara do fumegante chá.

Recostado e de pernas cruzadas, ele parecia o epítome do aristocrata francês, relaxado em sua luxuosa casa. Algo bem distante do homem de roupa camuflada que se movia pela floresta, furtivo como um gato selvagem. No entanto, as duas coisas faziam parte do mesmo homem fascinante que cuidava dela.

— Boa? Ruim? — ele perguntou, lembrando-a da fruta que acabara de engolir.

— Na verdade, boa. Estou surpresa. — Ela pegou outra fatia. — Você é um ótimo enfermeiro. — Era um homem com muitos talentos. — Sinto muito por você ter voltado para casa e descoberto que tem dois pacientes de quem cuidar.

Joe a olhou por sobre a borda da xícara.

— Como os dois estão se recuperando, não tenho do que reclamar.

Demi pegou o copo de suco de uva e bebericou.

— Falou com seu pai desde que voltamos da clínica?

— Sim. Como ele teve uma visita hoje, disse que ele precisaria de uma noite tranquila. Que era melhor que vocês se reunissem somente amanhã, para o almoço. Ele concordou, com uma condição.

— Qual?

— Ele quer que eu faça companhia a você. — O coração dela acelerou sem motivo algum. — Disse a ele que não seria nenhum esforço.

— Seu pai é incrível.

— Vou fazer a vontade dele — Joe disse em um tom grave.

Ela assentiu.

— Eu também faria. Jamais conheci alguém com tanta ternura e bondade. Ele disse que sua mãe era assim também.

Joe pôs a xícara na bandeja. Linhas de expressão marcaram seu rosto.

— A essa altura você deve estar se perguntando como eles podem ter gerado um fracasso como eu.

Ela ficou sem fôlego.

— Fracasso?

— Não precisa fingir. Vi o choque em seu rosto quando descobriu que eu era filho dele.

Ela se sentou na cama.

— Se demonstrei essa emoção, foi porque percebi que sua experiência no serviço militar era o motivo de ter me tratado como se fosse o inimigo.

— Infelizmente, algumas experiências em minha vida me fizeram desconfiar das mulheres. Nesse ponto, sou exatamente o oposto do meu pai.

— Sei bem disso. — Demi o observou atentamente por um momento. — O que achou que eu estivesse fazendo na floresta naquela noite?

Os olhos dele brilharam.

— Para falar a verdade, esqueci que não estava numa missão. Minha reação automática foi a de deixá-la indefesa e, em seguida, matá-la ou mandá-la embora, dependendo do meu pressentimento.

Ela estremeceu.

— O que seus instintos lhe disseram?

Ele franziu o cenho.

— Quando você não recuou, percebi que havia me transformado em um tipo de monstro.

— Dez anos na força de elite devem fazer qualquer pessoa mudar, ainda mais com você achando que eu tinha interesses escusos com relação ao seu pai.

Depois de um estranho silêncio:

— Você tem medo de mim, Demi? — ele perguntou lenta e suavemente.

Arrependendo-se de ter dito o que pensava, ela pegou o rolinho e deu uma mordida.

— Como pode me perguntar isso? Você me salvou hoje. Se eu não fui clara, permita-me ser agora. Estou muito agradecida por sua ajuda, mas você não precisará se preocupar muito mais comigo. Depois de amanhã, devo estar me sentindo bem o suficiente para voltar para casa.

A expressão dele permaneceu indecifrável.

— Ainda que isso seja verdade, meu pai não concordaria. Ele ficou doente durante todo o tempo que você permaneceu no château. Acho que você terá que ficar por mais algum tempo.

"Assim que ele estiver bem o suficiente para voltar a andar por aí, papa pretende alegrá-la com um passeio especial pela propriedade. A experiência lhe dará a oportunidade de tirar mais fotos para acrescentar ao livro do seu marido. Foi por isso que você veio, n'est-ce pas?"

Ela baixou os olhos.

— Sim, mas...

— Nada de mas. A questão está resolvida. Enquanto você recupera seu apetite, o médico falou para repousar e beber muito líquido. Estou aqui para garantir que isso aconteça.

Em um rápido movimento, ele se levantou.

— Se precisar de alguma coisa, tudo o que tem a fazer é pegar o telefone e digitar 2. Eu atenderei. — Ele continuou olhando para ela. — Vamos torcer para que o pouco que você comeu a faça se sentir melhor. Volto mais tarde para lhe dar boa-noite.

Demi percebeu que Joe não queria sair.

— Vou ficar bem. Obrigada por tudo.

Ele apertou os lábios.

— Não quero voltar e encontrá-la caída no chão.

— Se eu me sentir fraca, prometo que vou chamá-lo.

— Certifique-se disso — foi a rápida resposta, e ele saiu.

Sentindo-se estranhamente só, depois da partida dele, ela pegou uma das revistas para manter a mente ocupada. Era cheia de artigos sobre arquitetura Europeia. Apesar de estar tudo em francês, ela não precisava de tradução para apreciar as fabulosas fotografias.

No entanto, nada do que via se igualava à magnificência do Château Du Lac. Ou do próprio Joe...

Seus pensamentos se voltaram para o que ele dissera na clínica. Receber a notícia a seu lado me fez sentir como se eu fosse o pai. Adorei a experiência.

Ele parecia estar sendo sincero. Que homem incrível... Depois de colocar a revista de volta na mesa, o olhar dela viajou até as pinturas na parede. Guinevere parecia exatamente como antes. Mas, dessa vez, quando Demi observou Lancelot, era o rosto e o corpo de Joe Malbois que ela via em toda parte. O jeito como os olhos dele apreciavam a rainha encheu Demi de uma estranha inveja.

Pela primeira vez, ela se viu curiosa a respeito da mulher com quem Joe se casaria. Será que ela despertava o mesmo tipo de admiração nele?

********
A Galerie Bouffard em Rennes ficava aberta até 21 h30 nas quintas-feiras, Joe foi da seção de livros da movimentada loja até o departamento de câmeras.

Depois de explicar do que precisava ao vendedor, o homem lhe mostrou diversos modelos mais modernos que o que Demi estivera usando. Não demorou muito até que Joe escolhesse algo top de linha para substituir o que seu cavalo havia esmagado em mil pedaços.

Acrescentou um pacote de filme à compra e perguntou onde ficava o departamento infantil. Jamais comprara roupas de bebê na vida, mas o fato de saber que Demi estava grávida o deixara com vontade de fazer algo para ajudá-la a comemorar. Como não sabia se ela esperava um menino ou uma menina, Joe decidiu-se por branco e amarelo, cores neutras, como a vendedora lhe havia garantido.

Depois que a jovem funcionária lhe mostrara tudo, ele saiu da loja com meia dúzia de pequenos conjuntos, duas mantas de bebê nas mesmas cores, um livro do bebê e Fifi, o poodle, na caixa, que tocava uma música francesa; tudo embrulhado para presente. Em meio às fitas, a vendedora amarrara três sininhos que ele escolhera.

Quando lhe entregou a bolsa com os pacotes, deu uma piscadela para ele.

— Seu bebê tem sorte de ter um pai como você.

Ela chegara a uma conclusão errada, mas ele gostou de como aquilo soara.

— Sou eu quem tem sorte.

— Volte sempre. Bebês crescem.

De fato, cresciam. Joe se sentiu ansioso para ver Demi florescer. Durante aquele momento no lago, quando ele a ajudara a chegar até a superfície, sentira seu coração acelerar á medida que os contornos do corpo dela eram pressionados contra o dele. A sensação ainda permanecia, fazendo-o ter pensamentos que ele não tinha havia muito tempo.

— Merci, mademoiselle.

Depois de sair do ascenseur, ele foi até a porta principal da loja.

— Eh, bien, se não é Joe Malbois, seu diabinho lindo. Geoff não contou a ninguém que você estava de folga, em casa.

Ele olhou por cima do ombro para descobrir Helene Dupuis, a esposa do melhor amigo de seu pai. Era uma boa pessoa, mas fofoqueira. Joe esperava manter sua volta para casa em segredo, por ora, mas encontrar com ela aniquilara aquela possibilidade.

— Bonsoir, Helen. Comment ça va?

— Estou muito bem, e preciso lhe dizer que estou feliz por ver que você também está. Geoff se preocupa com você. Não me admira que ele esteja tão doente que nem Yves e eu tenhamos permissão para visitá-lo — ela o repreendeu.

Henri sabia o que estava fazendo. Apesar de bem-intencionada, uma visita de Helen seria exaustiva demais.

— Ele está melhorando agora. Esta semana, irá querer ver vocês dois.

— Yves ficará muito feliz por ouvir isso. Por quanto tempo ficará dessa vez?

Joe achou melhor contar a verdade, já que ela seria de conhecimento geral de qualquer forma.

— Eu me afastei do serviço.

— Está em casa de vez?

— Oui.

Os olhos dela se avivaram.

— Oh... Eu preciso organizar uma festa!

Ele balançou a cabeça.

— É muito gentil da sua parte, mas nada de festas. Tenho muito trabalho a fazer. Agora, se me der licença... Papa está me esperando.

— Mas é claro. Volte para ele, e nos veremos em breve.

— A bientôt, Helene.

— Conheço alguém que vai pular de alegria ao saber que você está em casa — ela disse para as costas dele.

Mas Joe fingiu não ouvir enquanto caminhava a passos largos até o carro. Corinne era mais uma das coisas desagradáveis com as quais ele teria que lidar, mais cedo ou mais tarde.

Enquanto colocava os embrulhos no assento do carona, a luz do sinal luminoso refletiu em um dos sininhos de bebê. Aquilo fez seus pensamentos se voltarem para Demi, que poderia ou não estar dormindo quando ele retornasse. Joe esperava que ela estivesse acordada, já que estava ansioso para ver sua reação quando abrisse os presentes.

Mal podia esperar para voltar ao château, e subiu os degraus para o terceiro andar de dois em dois.

********
Quando a governanta entrou, às 20h, para levar embora a bandeja do jantar, trazia consigo um rádio a pilha para Demi.

— Joe disse que você estava cansada. Como este quarto não tem conexão para tevê, ele achou que talvez pudesse gostar de ouvir música no rádio dele — ela explicou antes de colocá-lo na mesa de cabeceira.

Joe pensava em tudo! Será que dissera aos empregados que ela estava grávida? Se sim, Brigitte estava sendo discreta. Ela também era incrível. Demi daria qualquer coisa para saber falar francês tão bem quanto a senhora sabia falar inglês.

— É muito gentil da parte de vocês. A propósito, como está Geoff?

— Melhor do que ontem.

— Fico aliviada por ouvir isso.

— Se precisar de mim, é só discar 4.

— Farei isso. Merci. — Era uma das palavras básicas que Demi tinha aprendido até então.

Depois de alguns minutos brincando com o rádio, ela encontrou uma estação de música e se recostou no travesseiro para ouvir. Era divertido ouvir canções em francês, ainda que não entendesse a letra.

Enquanto observava as pinturas na parede, sorriu para si mesma, lembrando-se da ternura de Joe no consultório.

Absorta em seus pensamentos das revelações daquele dia, ela perdeu a noção do tempo. Quando ouviu uma batida na porta, ficou surpresa ao ver que seu relógio de pulso marcava 21h45. A ideia de que pudesse ser Joe fez seu coração acelerar.

— Entre.

O fôlego lhe faltou por um intenso momento, quando os olhares se encontraram.

— Como se sente?

— Bem.

— A verdade — ele ordenou.

— Eu me sinto bem, de verdade. Se quiser provas disso, pergunte a Brigitte. Ela veio buscar a bandeja e poderá lhe dizer que comi o rolinho inteiro e bebi metade do suco. Até agora, nada de enjoo.

— Fico feliz por saber.

Depois de fechar a porta, ele andou até ela carregando as bolsas de compras e lhe entregou a menor.

— Olhe dentro. Se não for o que você quer, posso devolver.

Intrigada, Demi se sentou apoiada na cabeceira e pôs a mão dentro da sacola para descobrir uma nova câmera e filmes. Ele já até havia ido à cidade comprar! Ela não conseguia acreditar.

— Não precisava ter feito isso — ela disse, tirando-a da caixa. Havia instruções em quatro idiomas, incluindo inglês. Ela examinou todas as funções. — É perfeita, mas é muito mais cara que a minha.

— Se servir para você, é tudo com que Tonnerre se imporia.

Ela riu suavemente.

— Foi muito generoso da parte dele. Por favor, agradeça a seu cavalo por mim, Joe.

Um dos cantos da irresistível boca dele se ergueu.

— Vou me certificar de fazer isso.

— O que o nome dele significa?

Estou curiosa.

— Trovão.

Ela sorriu.

— Muito adequado.

Ele se sentou na cadeira que puxara antes e entregou a ela a sacola maior.

— Este é um presente meu.

Demi balançou a cabeça.

— Não posso aceitar mais presentes.

— Não são para você. Não exatamente.

No momento em que ele falava, ela viu um sininho amarrado na fita. Soltando um pequeno grito de felicidade, ela ergueu a cabeça.

— O que você fez?

— O que qualquer futuro pai empolgado faria ao ouvir a notícia de que sua esposa está grávida.

As palavras de Joe não deveriam tê-la feito estremecer, mas fizeram...

Para disfarçar sua emoção, ela pôs a mão na sacola e tirou caixa após caixa embalada em papel branco com adoráveis rostinhos de bebê desenhados. Logo abriu tudo e ficou quase coberta por roupinhas de recém-nascido e suaves mantas.

Lágrimas brilharam em seus cílios quando olhou o livro do bebê. Ele comprara vários livros em inglês sobre como criar um filho. Ela ficou tão emocionada com os presentes que lágrimas lhe rolaram dos olhos. Em poucos segundos ela estava chorando convulsivamente.

— O que foi, Demi? — ele disse com a voz rouca. — Fiz algo que a chateou?

— Oh, não, Joe... — Ela ergueu o rosto úmido e viu a profunda preocupação nos olhos dele. — Longe disso. É que dói saber que Richard não estará aqui para fazer essas coisas pelo bebê. Não verá nada disso, e nosso bebê jamais o conhecerá.

"Não acredito que tudo isso só esteja acontecendo agora... Ele deveria estar aqui para me ajudar! Não consigo acreditar que ele não estará por perto para cuidar do nosso bebê. É injusto que tenha sido levado antes de poder vivenciar a alegria de saber que seria pai.

"Sei como me senti quando descobri que meus pais haviam morrido e eu cresceria sem conhecê-los. É tão cruel com uma criança inocente! Não quero que meu filho cresça sem o pai."

As lágrimas continuavam a cair. Ela se sentia como um poço jorrante.

— Desculpe, Joe. Não queria desabar assim na sua frente. Você tem sido tão bom comigo e tomou esse dia tão especial.

"Veja só todas essas maravilhosas roupas que você se deu o trabalho de comprar. Mas, ainda assim, é muito triste que não tenha sido Richard a fazê-lo. Ele iria querer fazer isso." Ela balançou a cabeça. "Por que a vida é tão difícil?"

Demi tentou abrir o outro embrulho que ele pusera na cama, mas estava com dificuldade. Joe provavelmente ficou impaciente, porque esticou a mão e terminou de abrir o brinquedo que comprara para ela. Um poodle francês pulou da caixa. Ele tocava uma música, mas ela não conseguia ouvir, por causa do rádio. Então, ela se inclinou para desligá-lo.

Ela apertou novamente o botão e o fofo cachorro branco pulou novamente para fora, acompanhado da canção "Alouette".

Demi sorriu tristemente enquanto lágrimas pingavam de seu queixo.

— Conheço essa música. Acho que é a única coisa que sei cantar em francês.

— Prove — ele a desafiou naquela voz profunda.

Ela sabia que ele dissera aquilo para tentar animá-la. Depois de todo o trabalho que ele tivera, Demi não quis decepcioná-lo. Ela fechou a tampa, apertou o botão novamente e cantou junto.

— Meu sotaque é horrível — ela disse quando terminou.

O olhar dele se concentrou na boca de Demi.

— Eu acho encantador.

O coração dela batia aceleradamente.

— Joe... Você me surpreendeu com esses presentes.

— Era a minha intenção. — Ele se levantou. — Agora, faça um favor ao meu pai e fique no château pelo tempo que você quiser. Sei que quer honrar a memória de Richard com o livro. Eu gostaria de fazer tudo o que eu puder para ajudar, para me redimir de meus pecados.

— Você já fez isso — ela sussurrou.

O corpo dele se enrijeceu.

— Sei o quanto você amou seu marido. Não importa o quanto negue, eu disse e fiz coisas para magoá-la, alheio à sua tristeza. Deixe-me tentar compensar.

Devia ser raro ver Joe implorando daquele jeito. Mas quanto mais tempo ela ficasse ali, mais tempo passaria perto do espantoso filho de Geoff. Ela não precisava daquela complicação em sua vida, especialmente estando grávida do bebê de Richard.

— Contou ao seu pai que estou grávida?

— Não é da minha alçada fazer isso. — Depois de um momento repleto de tensão, ele disse: — O médico disse que você precisava de repouso. Diga a verdade. Não há nada urgente que a obrigue a voltar imediatamente para Connecticut.

— Não — ela murmurou.

— Então, caso encerrado. — Antes que ela pudesse respirar, ele colocou os presentes de volta nas sacolas e as pôs na beirada da cama. Em seguida, entregou a ela os comprimidos e o copo de água que estava sobre a mesa.

Depois de tomar um, ele disse:

— O que mais posso fazer por você?

— Nada. Já fez demais. Preciso lhe agradecer pelo rádio. Ele tem me feito companhia.

Ele assentiu.

— Quando preciso me distrair, eu prefiro o rádio à televisão, mesmo agora que já não estou mais no serviço. Mas posso mudá-la para o segundo andar, se estiver sentindo falta da tevê.

— Ah, não. De qualquer forma, eu não entenderia nada. Prefiro ficar neste quarto, onde posso olhar todas essas pinturas.

Ele lhe lançou um olhar que ela não conseguiu decifrar.

— Consegue adivinhar qual é a minha preferida?

Demi sabia de qual ela gostava mais. Era a de Lancelot se inclinando sobre a rainha nos aposentos, com um olhar de amor e desejo ardendo em seus olhos. Não parava de observá-la.

— Como você cavalga como se seu cavalo fizesse parte de você, imagino que seja a que mostra Guinevere cavalgando na floresta com Lancelot. — A rainha estava apoiada na dobra do braço dele e acariciava-lhe o queixo enquanto era devorada pelos olhos de Lancelot.

Joe inclinou sua cabeça de cabelos escuros.

— Quase. Eu colocaria essa em segundo lugar. Pense mais e me diga depois.

Ela desejou que não tivesse posto aquilo em sua mente. Agora, passaria o resto da noite tentando imaginar qual das cenas tinha um significado mais profundo para ele.

Provavelmente, era a que mostrava Lancelot deitado de barriga para cima em um prado florido. Havia tirado a armadura. Guinevere se inclinava sobre ele, fazendo-lhe cócegas com uma longa pena de faisão de seu chapéu. Sorriam um para o outro, como se não tivessem nenhuma preocupação.

Joe Malbois tinha tantas preocupações, que guardava para si mesmo, que Demi imaginou que aquela fosse a pintura preferida dele. Representava um momento atemporal, no qual Lancelot poderia esquecer o mundo e amar aquela mulher com todo o seu coração, sem medo de ser surpreendido pelos outros cavaleiros.

Ciente dê que ele ainda estava ali, ela disse:

— Antes de você ir quero agradecer novamente pelos presentes. São tão adoráveis que jamais os esquecerei.

— Fico feliz por ter gostado deles.

— Um dia você se tornará o maravilhoso pai de alguma criança de sorte.

— Não. — Ele balançou a cabeça.

— Não seja ridículo, Joe.

Quando ela ergueu o olhar para ele, percebeu uma desolação em seus olhos. Depois de um momento de tensão, ela o ouviu dizer:

— Ajudaria se eu dissesse que a vida também não foi justa comigo?

A atenção dela se voltou imediatamente para a cicatriz dele.

— Se está se referindo a seu ferimento, na minha opinião, ele o torna mais atraente e interessante. Pergunte a qualquer mulher, c ela lhe dirá a mesma coisa.

— É sempre bom ouvir isso — ele disse de modo seco —, mas estou me referindo ao outro.

Ela mordeu o lábio.

— Há mais do que essa cicatriz? — A voz dela estava trêmula.

— As vezes, os ferimentos internos causam mais estrago.

Ele conseguira a atenção dela.

— O que há de errado com você?

Houve um silêncio forçado no quarto antes que ele dissesse:

— Não posso ser pai, Demi, sou impotente.

O impacto daquelas palavras foi tão doloroso que ela sentiu o coração cair aos seus pés. Ela pressionou a mão contra a boca para abafar o grito, mas ele escapou mesmo assim.

Eles se encararam enquanto diversas palavras silenciosas fluíam entre eles.

— Você é a única pessoa que conheço que sabe como é descobrir que jamais poderá criar uma vida a partir de seu próprio corpo. Na verdade, é a única pessoa a quem já contei isso — ele admitiu, sério.

Ela soltou um gemido ao se lembrar da empolgação de Geoff com a volta permanente de Joe para casa. A expectativa de ser avô dera um brilho renovado a seus olhos.

As lágrimas novamente afloraram aos olhos dela.

— Oh, Joe... Como isso aconteceu? Quando?

Depois de inspirar profundamente, ele disse:

— Durante uma de minhas missões no Oriente Médio fui exposto a um agente químico que me deixou algum tempo no hospital. Foi há sete anos. Depois que me recuperei, me disseram que jamais poderia ter filhos.

Ouvir aquilo era como receber uma espécie de sentença de morte. Ela compreendia. Ah, como compreendia...

Ele jamais conheceria a alegria de ver a si mesmo em seu próprio filho. Não haveria um bebê com seu sangue para crescer e ter a aparência da família Malbois.

— Se você não tivesse entrado para o serviço militar...

— Mas entrei. — A raiva mal contida dele revelava sua dor. — Diferentemente de você, no entanto, não há milagre que possa reverter minha condição.

Demi não tinha nada a dizer a respeito daquilo. Não havia palavras que pudessem dar a ele um mínimo de esperança. Ela jamais se sentira tão incapaz de fazer algo.

— Acho que não preciso dizer que não são muitas as mulheres em idade fértil que querem se casar com um homem que não pode lhes dar um filho.

Aquela não era a hora de tranquilizar Joe, dizendo que havia muitas mulheres que dariam qualquer coisa para serem sua esposa, se ele demonstrasse paixão por elas. Concordariam com a adoção. De modo algum a mulher que quisesse ser sua esposa acharia a questão de ter filhos um problema.

Mesmo assim, pensando no passado, ela percebia que a própria infertilidade havia importado para Richard. Ele não quisera discutir adoção. Se ela tivesse descoberto que era infértil antes do casamento, ele teria perdido o interesse nela e ido embora. Era um homem que gostava de uma vida bem-ordenada, tudo em seu devido lugar. Qualquer coisa menos que perfeita não servia.

Demi se mostrara menos que perfeita. Talvez fosse por isso que a vida sexual deles havia deteriorado durante o casamento.

Poderia ser o motivo pelo qual ele havia mergulhado tanto em seus livros.

Ao lembrar de tudo, Demi percebeu que fora ela quem tomara a iniciativa no dia em que ele morrera, com esperanças de avivar aquela chama ausente.

Ela enterrou o rosto nas mãos.

— Seu pai vai se sentir péssimo por você. É sua raison d'être.

— Ele vai lidar bem com isso.

— Mas e você, Joe? Honestamente... — Com o coração dolorido por ele, ela ergueu a cabeça para olhá-lo.

— Por alguns momentos, hoje, na clínica, quando o Dr. Semplis nos deu parabéns, me senti como se eu e você tivéssemos gerado seu bebê juntos. Gostei da sensação. Gostei tanto que quero ser o pai dele permanentemente.

Ela se endireitou. O que ele estava querendo dizer?

— Você me pediu uma reação sincera. Então, deixe-me fazer uma pergunta a você. Quer se casar comigo?

Pela segunda vez em um dia o mundo dela parou. Demi precisou de um minuto até que conseguisse falar.

— Está falando de um casamento de conveniência? — ela perguntou, em dúvida.

— Acho que se pode dizer isso — ele respondeu lentamente. — Desde o início está claro que você e seu marido tiveram um ótimo casamento. Sei que um amor assim só aparece uma vez na vida.

"E a vida destruiu nossos sonhos, então, não vou pedir o impossível. Mas, se me permitir, gostaria de lhe dar meu sobrenome. Assim, poderei estar sempre a seu lado para ajudá-la durante a gravidez, e depois dela. Posso sustentar você e o bebê pelo resto de minha vida. Tudo que eu tenho será seu.

"Não posso lhe prometer que não será difícil dizer que o filho é meu. Depois de ouvir as batidas de seu coraçãozinho, já me sinto ligado a ele. Quais são as chances disso acontecer novamente? é o mais perto que chegarei de fazer o papel de pai desde o nascimento da criança.

"Pense nisso, e conversaremos amanhã, depois que eu voltar de Rennes. Se estiver se sentindo bem e quiser, vamos sair de carro para jantar.

"Até lá, faça o favor de seguir as orientações do médico, Vou dar instruções na cozinha para mandarem suas refeições para cá amanhã. Assim, você pode dar chance de os comprimidos fazerem efeito enquanto repousa.

"Bonne nuit, Demi."

Ainda em choque, ela o observou sair, sabendo que não haveria repouso para ela dali em diante. Não quando o futuro Duc Du Lac havia acabado de lhe pedir em casamento, para que ele pudesse ter um bebe.

O bebê de Richard!

Mas Richard havia morrido, e Joe, que estava muito vivo, apesar de jamais poder engravidar uma mulher, estava preparado para assumir seu lugar e ser pai do bebê de Demi.

Aquilo significava que ela jamais teria preocupações financeiras. Poderia ser a mãe presente, o tempo todo em casa, que sempre sonhara ser, e seu bebê teria um pai que cuidaria dele e o amaria.

Demi não tinha dúvidas a respeito da devoção de Joe a seu bebê. A reação dele na clínica e a empolgação em seus olhos quando ele saíra para comprar os presentes mostravam a ela que ele seria um ótimo pai. Afinal, era filho de Geoff E não havia exemplo melhor.

Seu bebê herdaria um avô que despejaria todo o seu amor no neto.

Três pessoas que haviam conhecido a dor da perda amariam a criança a qualquer custo. Ela seria muito feliz recebendo tanto amor!

A única coisa que tomaria a decisão de se casar com Joe inconveniente seria se, por acaso, ele conhecesse uma mulher e se apaixonasse loucamente por ela.

Demi não tinha dúvidas de que ele sempre estaria presente para o filho deles, mas Joe se sentiria preso ao casamento com ela. Aquele seria o risco que ela assumiria se dissesse sim a ele naquele momento, e, mais tarde, ele quisesse desistir.

Durante o resto da noite ela ficou rolando na cama, desejando não poder sentir ou compreender a dor dele por não poder procriar.

Jamais deveria tê-lo ouvido, jamais deveria ter lhe dado a chance de abordar o assunto com ela. Algo lhe dissera que haveria um preço a pagar se ela o fizesse.

E havia um preço mesmo.

Ele a privara de toda a tranquilidade mental. Joe sabia que ela ficaria emocionalmente envolvida e propositalmente a deixara para se remoer enquanto ponderava os prós e os contras de sua escandalosa proposta de casamento.

Era uma medida desesperada vinda de um homem muito desesperado. Se ela concordasse, o que se tomaria?

Uma completa tola por sequer considerar algo que poderia lhe trazer indescritíveis dores e angústia no futuro.

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Estou tão feliz que vocês estejam gostando. <3 
Se continuar nesse ritmo, posso até fazer uma maratona, hein!
xoxo

13.12.16

Um Amor em Meus Braços - Capitulo 3


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Com uma sensação de déjà vu, Joe bateu na porta de Demi, mas não houve resposta. Depois de deixá-la no lago, no dia anterior, ele fora para Rennes a negócios e voltara tarde da noite.

Naquela manhã, seu pai já se sentia bem o suficiente para perguntar se Demi queria se juntar a eles no café da manhã. Mas, depois de passar os últimos minutos tentando acordá-la, Joe imaginou que ela já tivesse saído para a floresta.

Demi Fallon era uma mulher excessivamente independente. As mulheres do passado de Joe haviam sido completamente diferentes.

Ele foi para a cozinha, esperando que algum dos empregados pudesse lhe explicar. Depois de muito perguntar, descobriu que ninguém a vira. Henri o lembrou de que ela costumava acordar muito cedo.

Franzindo o cenho, Joe foi até o quarto do pai e lhe disse que traria Demi de volta para o almoço.

Sem muita fome, ele pegou uma maçã e saiu do château para encontrar um céu nublado. Tudo indicava que choveria. Sendo verão, não duraria muito, mas Demi ficaria ensopada se fosse pega desabrigada.

Não havia como saber para onde ela fora naquela manhã, mas não importava. A cavalo, ele a encontraria bem rapidamente.

Ao chegar na cocheira ele montou em Tonnerre. Como ela ainda poderia querer ver um animal perto de uma fonte de água, ele foi, primeiro, para o lago.

Em pouquíssimo tempo ele o circundou, sem perceber qualquer sinal dela. Talvez tivesse tentado encontrar a fonte da juventude, sobre a qual o pai de Joe lhe contara, e se perdera.

Joe apressou o cavalo na direção do lugar.

Não encontrando Demi, cavalgou velozmente até o topo de uma colina próxima, de onde se avistava o Val Sans Retour, onde sua voz alcançaria mais longe.

Seria exatamente o lugar para onde Demi poderia ter ido para tirar fotos. Novamente, nada.

Talvez não tivesse sequer ido à floresta. Era possível que tivesse caminhado até o vilarejo de Lyseaux, usando a estrada principal.

Enquanto ele cavalgava descendo o outro lado da ladeira relvada, começou a sentir gota após gota de chuva o atingindo, Determinado a voltar para o château e pegar o carro, não viu o corpo curvado de lado da mulher ao pé da colina até que já estivesse quase em cima dele.

Manobrando Tonnerre abruptamente para evitar atropelá-la, Joe desceu do cavalo e correu até ela. Um dos cascos do animal esmagara sua câmara. Ele estremeceu ao pensar o dano que teria causado se tivesse pisado 15 centímetros mais à frente.

— Demi! — ele gritou, alarmado, se agachando. Como ela poderia ter caído e machucado o pescoço ou a coluna, ele não ousou movê-la.

Ouviu os gemidos. Para seu alívio, ela se virou para ele, aparentemente, sem esforço, mas exibindo uma palidez que o fez perceber que estava machucada.

— Joe — ela disse em um sussurro trêmulo. Depois da maneira como haviam se separado no dia anterior, ela não teria respondido daquele jeito se não estivesse com problemas.

O corpo dele ajudou a bloquear a chuva que caía, cada vez mais forte, no rosto dela.

— O que aconteceu com você?

— Durante minha caminhada eu me senti mal e me deitei, mas ainda não passou. Acho que, no final das contas, é gripe mesmo.

— Você já estava doente?

— Sim — ela admitiu, uma voz fraca.

Quando ele viu gotículas de suor na testa dela, engoliu em seco.

— Deve ter contraído o vírus do meu pai. Está terrível.

Sem hesitar, ele a ergueu nos braços e a carregou até o cavalo.

— Vou levá-la para o médico, em Lyseaux. Se estiver mal demais para conseguir se apoiar em mim, eu a colocarei deitada em Tonnerre.

Ela balançou a cabeça.

— Eu... eu consigo me sentar... eu acho...

Joe sabia que ela estava muito mal, mas Demi conseguiu se aguentar tempo suficiente até que ele subisse no cavalo, atrás dela.

— Fique apoiada em mim e deixe que eu faça o resto. — Com uma das mãos segurando-a pela cintura, ele usou a outra para guiar o cavalo.

O ritmo do galope fazia com que seus corpos se unissem. Depois da experiência do dia anterior, quando ele sentira as ricas curvas dela, Joe estivera ansioso para repeti-la.

No momento, ela estava imóvel contra ele. Apesar de preocupado pelo motivo que a deixara naquele estado, ele tinha que admitir que estava gostando de ela precisar dele daquela maneira. Depois da forma como ela se portara com ele no lago, Joe não esperava que conseguisse chegar tão perto de Demi novamente.

Quando chegaram à cobertura das árvores, escaparam da pior parte da chuva. Joe conhecia um atalho que os levaria até a entrada dos fundos do château, onde seu carro estava estacionado.

— Estou indo rápido demais para você? — ele murmurou para o perfumado cabelo dela. Tinha cheiro de damasco.

Ela o tirou do rosto, como fizera no dia anterior.

— Não — respondeu, quase gemendo.

Aquilo era bom. Ele queria examiná-la assim que fosse humanamente possível.

Logo saíram da floresta e chegaram ao caminho de brita. Ele guiou o cavalo até o lado do carona do carro. Felizmente, o temporal havia se transformado em uma suave chuva.

Com um rápido movimento, Joe desceu de Tonnerre. Carregando Demi nos braços, abriu a porta e a colocou lá dentro. Depois de reclinar o assento para que ela pudesse ficar recostada, ele fechou a porta.

Joe deu um tapinha no lombo do cavalo, sabendo que ele voltaria para a cocheira, pulou para o assento do motorista e ligou o carro.

Lyseaux ficava a apenas pouco mais de 6 quilômetros de distância. Demi não tentava falar. O coração de Joe ficou apertado ao pensar nela deitada sozinha na chuva.

Se ele não tivesse estado em casa, o pai teria enviado alguém do château para procurá-la. Mas, naquelas circunstâncias, Joe ficou feliz por ter sido ele a descobrir o corpo dela caído no chão. Não conseguia suportar a ideia de alguém sem escrúpulos poder tê-la encontrado.

Ele afundou o pé no acelerador, indo diretamente para a clínica. Se o médico dissesse que ela precisava ir para um hospital, Joe a levaria até Rennes.

Os minutos seguintes se tornaram um borrão de atividade. Assim que a surpresa recepcionista o viu passar pela porta carregando Demi, levantou-se de um pulo e os conduziu até uma das salas do corredor.

— Vou chamar o Dr. Semplis.

— Não quero ninguém que não o Dr. Foucher examinando Demi.

— Sinto muito, monsieur, mas hoje é o dia de folga do Dr. Foucher.

Joe resmungou um xingamento. Não conhecia o Dr. Semplis e detestava a ideia de um estranho cuidando dela, mas não tinha escolha. Ela precisava de cuidados imediatos.

— Ela está muito doente.

— O Dr. Semplis já vem.

Com o som da voz da mulher, os olhos de Demi se abriram. Joe olhou para eles enquanto a colocava na mesa de exames.

— O socorro já está vindo, chérie. — A ternura surgiu do nada, de algum lugar profundo, e o deixou completamente surpreso. — Estamos no consultório do médico.

— Obrigada — ela murmurou.

Aquilo pareceu ser sincero, o que significava que ela estava ainda mais doente do que ele imaginava, ou sequer estaria falando com ele.

Assim que a recepcionista saiu, uma enfermeira entrou na sala.

— Pode, por favor, aguardar lá fora, monsieur?

A última coisa que Joe queria era sair dali, mas não tinha escolha.

— Se precisar de mim, estarei logo aqui fora, Demi.

Ela mal conseguiu assentir com a cabeça antes de seus olhos se fecharem novamente.

Da última vez em que ele deixara um amigo ferido no hospital de campanha, em um estado quase inconsciente, o pobre-diabo jamais se recuperara. Era o tipo de coisa que atormentara Joe em seus pesadelos nos últimos dez anos.

Ele inspirou asperamente e saiu da sala. Enquanto esperava no corredor, pegou o celular do bolso do jeans e ligou para a cocheira.

Depois de saber que Tonnerre havia retornado em segurança, Joe ligou para o pai c lhe contou que ele e Demi tinham decidido dar um passeio de carro até Lyseaux antes de retornar ao château. Almoçariam todos juntos um outro dia.

O pai pareceu não se importar, especialmente porque um grande amigo o visitava.

Joe disse que o veria no jantar e desligou, aliviado pelo pai ainda não saber sobre Demi. Agora que ele estava vencendo a luta contra a pneumonia, Joe tentava evitar qualquer contratempo.

Sua principal preocupação era descobrir o que havia de errado com Demi e se certificar de que ela se recuperasse. Por algum motivo inexplicável, sentia-se responsável por ela. Ele fez uma careta ao pensar em algo que pudesse ter posto a vida dela em risco.

— Monsieur? — Joe se virou para ver um jovem médico vindo pelo corredor — Sou o Dr. Semplis.

— Grâce à Dieu tem alguém de plantão! Demi ficou doente na floresta. Não conseguia se sentar, muito menos andar por conta própria. Tive que trazê-la carregada. Acho que pode ser gripe.

O outro homem o observou, curioso.

— Não terei ideia até examiná-la, mas não se preocupe. Logo saberemos. Por que não se acomoda na recepção?

— Vou ficar aqui — ele declarou.

— Como quiser, mas pode demorar.

Seu rosto ficou tenso.

— Que demore.

*******
Demi oscilava entre dormir e despertar, assombrada por sonhos de Lancelot vencendo os elementos da natureza para carregá-la para a segurança em seu maravilhoso corcel.

Quando conseguiu se manter acordada, ouviu o médico lhe dizer que estava desidratada. Pediu uma aplicação intravenosa. Um técnico de laboratório logo tirou uma amostra de sangue dela.

Ela se sentiu sonolenta novamente. Mais tarde tomou consciência da presença de Joe. Ele puxara uma cadeira para o lado da mesa de exames.

Não a forçou a falar, apenas perguntou se podia fazer algo por ela. Pelo taciturno silêncio dele, no entanto, ela percebeu que havia algo sério em sua mente.

Mesmo que Geoff o tivesse obrigado a ficar, ela, Demi, achava emocionante que um homem tão feroz e dominante, que provavelmente detestava um confinamento como aquele muito mais do que a maioria das outras pessoas, estivesse de guarda a seu lado.

Aquilo a fez se sentir culpada, pois em vez de estar com o pai, que precisava dele, Joe se preocupava com ela.

Sentiu-se um pouco mais forte e virou a cabeça para olhar para ele.

— Eu devia ter ido embora ontem.

Ele se inclinou para frente, observando-a com olhos semicerrados.

— Para onde? Para uma casa vazia cheia de lembranças?

— Um apartamento — ela o corrigiu, pensando no tom selvagem dele.

— Quem cuidaria de você?

— Tenho uma amiga, esposa de um dos colegas do meu marido.

— E sua família?

— Quando meus pais morreram, a irmã da minha mãe, tia Kathy, e seu marido, Rob, me criaram junto com suas duas filhas. Ainda moram em New Haven, mas são muito ocupados. Não iria querer incomodá-los, não depois de tudo o que já fizeram por mim.

Linhas de expressão escureceram o belo rosto dele.

— Então, devemos ficar agradecidos por você ter ficado aqui. Poderia ter desmaiado no voo de volta.

Como aquilo era claramente possível, Demi não pôde negar.

— Sinto muito por afastá-lo de seu pai.

— Ele está melhorando. É com você que me preocupo. — Ela viu as mãos dele se fecharem em punhos. — Não entendo por que o médico está demorando tanto para dar um diagnóstico. O Dr. Foucher devia estar aqui.

— Acho que você passou tempo demais no campo de batalha, onde tudo acontece tão rápido e decisões precisam ser tomadas em uma fração de segundo. As coisas funcionam mais devagar quando se está na civilização.

Ele esfregou a nuca bronzeada.

— Você está certa. — O olhar dele percorreu o rosto dela. — Suas bochechas estão mais coradas.

— Estou me sentindo um pouco melhor. Deve ser a aplicação intravenosa.

— Dieu merci.

— Queria lhe dizer uma coisa — ela sussurrou. Ele pareceu se imobilizar.

— Diga.

— Você se redimiu hoje.

— Achei que não houvesse redenção — sua voz áspera comentou.

— Eu estava errada. Você salvou uma donzela em apuros. É o que fazem os heróis, mesmo se sua coroa tiver caído.

— Nunca tive uma — ele respondeu, abnegado. — Está imaginando coisas.

— Não. Estou acordada, e estava com você quando aconteceu. Ninguém, e falo sério, conseguiria ter feito o que você fez, a menos que seu nome fosse Lancelot Du Lac. Preciso admitir que estou encantada.

— Certo, Demi... — O médico entrou no quarto, fazendo Joe se levantar. — Finalmente descobri o que há de errado com vocês dois.

— Nós dois? — O olhar ansioso de Demi se fixou no de Joe. — Você está doente e não me contou?

O Dr. Semplis riu.

— Você terá um bebê, maman. — Ele se virou para Joe. — Parabéns, papa.

— Um bebê?

— Mas é impossível! — Demi gritou, tentando se sentar. — Quero dizer, não posso estar grávida!

— Mas está. — O médico interrompeu antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. — Na verdade, de 12 semanas.

— Doze... — O grito dela ressoou na pequena sala.

O médico olhou para os dois, divertido.

— Estou surpreso por nenhum de vocês ter reconhecido os sintomas. Nessas circunstâncias, eu os deixarei a sós por um minuto e já voltarei para falar com vocês.

— Espere...

— Obrigado, Dr. Semplis — Joe disse, assumindo o controle, como se estivesse acostumado a lidar com ela. Ele pôs suas mãos fortes nos ombros dela para fazê-la se acalmar — Precisamos mesmo de algum tempo sozinhos.

A porta se fechou.

Chocada com as emoções que a bombardeavam, Demi começou a soluçar. E não conseguia mais parar.

Joe disse o nome dela, alarmado, diversas vezes, e lhe entregou uma caixa de lenços de papel.

— Demi, me diga o que está acontecendo — ele pediu.

— Você não entenderia. — As palavras trouxeram outro jorro de lágrimas. Como ele poderia entender quando ela própria mal conseguia compreender?

— Você disse que era impossível. Isso significa que seu marido não é o pai?

Ela ficou sem fôlego.

— Não... Sim... Quero dizer, nunca estive com outro homem; então, só pode ser do meu marido. Mas me disseram que isso só aconteceria com um milagre.

— Por quê? — ele perguntou com suavidade. Suas mãos massageavam os braços dela, mas ele sequer parecia perceber.

Ela ergueu os molhados olhos castanhos para ele.

— Porque tive uma menopausa prematura há muitos anos, o que acabou com as chances de eu engravidar. Acontece com um pequeno percentual das mulheres. Minha especialista me disse que, no meu caso, as chances de ovulação eram tão astronômicas que eu jamais deveria ter esperanças de ter um filho.

Demi se perguntou se os olhos dele haviam escurecido graças a algum truque que a luz lhe pregava.

— Ela tem me ajudado a tentar com ervas e terapia hormonal para manter meu coração saudável. Imaginei que as mudanças físicas no meu corpo fossem resultado dos hormônios. Minhas mãos têm estado tão inchadas que deixei meus anéis em casa.

— Então, essa é a explicação — Joe murmurou.

Ela assentiu.

— Desde a morte de Richard tenho estado mais cansada do que o normal, e ficado muito nauseada. Mas achei que os sintomas fossem causados pela depressão e pelos hormônios.

"E pensar que estou quase no fim de meu primeiro trimestre de gravidez sem sequer saber! Estou... estou chocada." Ela o observou com olhos marejados.

— Oh, Joe... Richard queria tanto um bebê. Agora, ele se foi e jamais conhecerá nosso filho, nem poderá me ajudar a criá-lo.

Ele permaneceu em silêncio enquanto outra explosão de lágrimas irrompia dos olhos de Demi, mais profusa do que a anterior quando finalmente parou, ela disse:

— No começo, tínhamos planos de constituir uma família. Ele era filho único. Queríamos dois ou três filhos, para que pudessem ser amigos. É maravilhoso quando os irmãos têm uns aos outros.

"Então, descobrimos que eu não poderia ter nenhum. Ficamos arrasados. Eu... eu queria ter um bebê com ele. Quando recebemos a terrível notícia, ele ficou tão mal...", ela disse soluçando novamente.

"Depois do enterro, achei que tudo estivesse acabado. Vim tão vazia para a França e agora..."

— Agora, tudo mudou — ele murmurou, em uma voz grave.

Ela sentiu Joe esfregar-lhe o braço que não estava com o soro. Demi esfregou os olhos.

— Mas meu bebê vai crescer sem o pai. Eu fui privada do meu pai e da minha mãe. Eu... eu não suporto pensar que a história pode se repetir Toda criança precisa de um pai.

"Por que Richard teve que morrer..." O lamento ecoou pelo quarto.

Em silencio, Joe envolveu-a com um braço. Ela soluçou contra o largo ombro dele. Depois de um momento, percebeu que o estava deixando completamente molhado e, envergonhada, se afastou.

Pegou alguns lenços de papel e assoou o nariz.

— Sinto muito por desabar assim. Você deve estar achando que sou desequilibrada.

— Estou achando que Richard foi um homem de muita sorte. Com um você como mãe do filho dele, seu legado será perpetuado. Talvez haja um futuro professor crescendo dentro de você. Os tais instintos maternos não lhe dizem se é menino ou menina?

— Que instintos? — ela perguntou, e pigarreou. — Eu sequer sabia que havia um bebê morando dentro de mim até alguns minutos atrás. Ainda não consigo acreditar que estou grávida!

— Graças a Deus, o diagnóstico foi bom! — Joe exclamou. — Quando você estava lá, caída na grama, tão mal, muitos pensamentos negativos me passaram pela cabeça.

— Também fiquei com medo. — Os olhos dela se encheram de novas lágrimas. — Outra vez, obrigada por ter me ajudado. Eu... eu sinto muito pelo médico ter achado que você era o pai. Quando ele voltar, vou explicar.

Um meio sorriso surgiu no canto da boca sensual de Joe.

— Receber a notícia a seu lado me fez sentir como se eu fosse o pai. Adorei a experiência. Sabia que meu coração quase parou quando ele contou?

Ela mordeu o lábio.

— O meu também.

A expressão dele ficou mais séria.

— Se eu soubesse que você estava grávida, não teria pedido que fosse comigo até meu tesouro submerso ontem.

Demi se lembrava da experiência, especialmente do momento quando ele segurara o corpo dela contra o seu para levá-la à superfície. O bebê ficara comprimido contra o físico musculoso e rígido dele.

— Foi uma experiência única — ela admitiu suavemente. — Um dia, quando meu filho tiver idade suficiente para nadar sozinho, terei que trazê-lo à França para que possa mergulhar no lago e descobrir por conta própria seus segredos.

— Então, está achando que é um menino. — Joe abriu para ela um outro raro meio sorriso, que transformou sua expressão e fez o coração dela acelerar.

— Acho que sim.

— Espere mais um mês e descobriremos se está certa a respeito do sexo — o médico interveio.

Demi não o ouvira entrar na sala.

— Eu bati na porta, mas vocês não me ouviram. Querem ouvir as batidas do coraçãozinho do bebê?

Ele pôs o estetoscópio e encontrou o ponto certo na barriga de Demi. Em seguida, deixou-a ouvir. Pareciam os cascos de um cavalo galopando pelos prados.

— Não acredito. — Todo aquele tempo, o bebê estivera crescendo dentro dela sem que ela soubesse.

— Seu bebê mede aproximadamente 9 centímetros e está se desenvolvendo muito bem.

Joe pegou o estetoscópio para poder ouvir também. Um lento sorriso surgiu no canto de sua boca, novamente destacando suas belas feições. Quando devolveu o instrumento, o olhar dele ainda estava concentrado no dela.

— Depois de ter ficado sem saber o que tinha acontecido com ela, doutor, a notícia que você nos deu me deixou muito feliz.

— Fico feliz por saber.

Calor tomou a face de Demi. Ela olhou para o médico.

— Há algo que precisa saber. Você interpretou mal a situação. Sou hóspede do Château Du Lac. O monsieur Du Lac não é meu marido.

O Dr. Semplis envolveu-lhe o braço para tirar a pressão.

— E o que impede que vocês se casem?

— Você não está entendendo. O bebê não é dele.

O médico ficou estupefato.

— Então, o pai biológico precisa saber.

— Não posso contar a ele. — A voz de Demi estava trêmula. — Na manhã em que provavelmente concebi este bebê, meu marido saiu para o trabalho. À noite, ele morreu de um aneurisma cerebral. Isso foi há três meses.

— Demi...

A compaixão no tom de Joe a fez fechar os olhos.

— Sinto muito pela perda — o médico disse —, mas ele deixou um maravilhoso legado para você.

Exatamente as mesmas palavras de Joe.

— Eu sei, mas mal consigo acreditar.

— Milagres costumam afetar desse jeito as pessoas. Estou feliz por anunciar que você é uma mulher saudável. Se começar a tomar o remédio para náusea que receitei, logo vai se sentir muito melhor. Tome três vezes ao dia, antes das refeições. Pode pegá-lo na recepção.

"Também prescrevi vitaminas, que você precisará começar a tomar. Quero vê-la daqui a uma semana para ter certeza de que está tudo indo bem. Faremos outro exame de sangue, para o caso de você ainda estar com deficiência de ferro."

— Vou voltar para os Estados Unidos daqui a alguns dias. Então, gostaria de lhe agradecer por toda a ajuda.

— Nesse caso, não esqueça de entrar em contato com seu médico imediatamente.

— Eu vou.

Ele parou à porta.

— Você pode ir assim que a enfermeira tirar a medicação intravenosa. Lembre-se de se manter hidratada, comer o que tiver vontade e repousar bastante nos próximos dois dias.

— Ela vai fazer isso — Joe afirmou.

Demi tentou esconder o sorriso. Aquele ele era o jeito dele, e ela não se importava.

Quando o médico saiu da sala, a enfermeira entrou, evitando que Demi falasse com Joe até que a outra mulher retirasse a agulha e se retirasse.

Sem que nada lhe tivesse sido dito, Joe abriu o armário e tirou a sacola que continha as roupas dela. Ele se virou para ela.

— Precisa de ajuda para se vestir? Posso pedir para ela voltar.

— Não. Eu consigo, mas obrigada mesmo assim.

O olhar dele a observou com preocupação.

— Então, eu a verei na recepção.

Depois que Joe fechou a porta, ela tirou a túnica da clínica e sentiu a barriga, que havia inchado e estava rígida. Por que não percebera que havia um bebê crescendo dentro dela?

Quando sentira o jeans apertado, deveria ter imaginado o motivo, ainda que a especialista tivesse afirmado que seria um milagre se ficasse grávida.

Nos últimos anos, Demi havia abandonado qualquer esperança de ter um filho de seu próprio ventre. A notícia de que estava grávida era fantástica!

Naquele momento, sentia-se suspensa entre dois mundos, onde nada parecia real, mas já lhe haviam provado que carregava o bebê de Richard. Para sua consternação, no entanto, fora Joe Malbois que recebera a notícia junto com ela. Se não fosse por ele, ela ainda poderia estar caída na floresta, frágil demais para se mexer.

Como poderia se esquecer de que haviam sido os olhos dele que haviam brilhado ao receber a incrível notícia, quase como se ele fosse o pai do bebê e estivesse maravilhado. Até o médico achara que eles eram um casal.

Demi não conseguia entender a reação de Joe. Ela não significava nada para ele, era apenas uma hóspede de seu pai. Ainda assim, aquele deveria ser o motivo. Ele se sentia responsável por ela. Naquelas circunstâncias, o melhor que Demi tinha a fazer era ir embora da França assim que se sentisse bem o suficiente para o voo de volta.

Saber que se tornaria mãe dali a curtos seis meses mudou sua opinião a respeito de voltar para New Haven. Talvez pudesse trabalhar em meio expediente para seu antigo chefe no estúdio de fotografia. Se não, talvez o departamento de Literatura da universidade pudesse precisar de seus serviços. Gastaria o resto do tempo começando a preparar o quarto de seu bebê.

Precisava comprar tantas coisas: um berço, um cercadinho, um daqueles adoráveis balanços, um carrinho de bebê... Coisas disponíveis às mães dos tempos modernos. Agora, ela também seria uma mãe!

Não importava se fosse menino ou menina. Ela já amava o bebê. O conhecimento de que carregava uma vida dentro dela preenchia o espaço vazio em seu coração.

Apesar de ser sempre grata à tia e ao tio que a haviam criado depois da morte dos pais, o lugar de Demi não era com eles. E pensar que teria um filho todo dela, para amar e de quem cuidar!

Depois que o bebê chegasse, ela faria render o pouco dinheiro que restara do seguro para poder ficar em casa com ele. Com seus vários contatos na universidade, talvez pudesse conseguir trabalhos de processamento de texto em casa, para ganhar mais algum dinheiro.

Um acidente fatal de carro a privara dos pais c um coágulo tirara a vida do pai de seu bebê. Demi estava determinada a estar sempre ao lado do filho e não perder um minuto de seu desenvolvimento, se pudesse.

Se o remédio para a náusea funcionasse do jeito que deveria, estaria se sentindo bem o suficiente novamente em alguns dias, e voltaria para casa para organizar tudo. Com um novo sentido em sua vida, sentia-se capaz de suportar o estado físico em que estava.

Quando terminou de se vestir, foi até o banheiro e, em seguida, se encaminhou para a recepção. Joe estava de pé na lotada sala de espera, perto da porta. Seu rosto e seu físico rígidos atraíam o olhar de todas as mulheres, inclusive as da equipe médica. De jeans que lhe moldava as coxas e casaco preto, era o homem mais espetacular que Demi já vira.

Ela pôde sentir a inveja das mulheres quando se aproximou dele.

— Está com a receita?

Os olhos preocupados dele observaram o rosto dela com uma intimidade que fez o coração de Demi acelerar.

— Sim. Vamos? — Ele abriu a porta para ela e a levou até o carro.

Sem dizer nada, ajudou-a a entrar no lado do carona, deu a volta para o lado do motorista e partiram para a farmácia no centro do vilarejo.

— Fique ai — ele ordenou. — Já volto.

Demi tinha certeza de que, mesmo antes de ele ter se tornado militar, era ura homem feito para comandar. O serviço apenas refinara aqueles instintos, o protetor e os outros. E ela não reclamava.

Ele a encontrara na floresta e, de seu jeito nada ortodoxo, atendera as necessidades dela com incrível rapidez. Se ela tivesse que escolher uma pessoa no mundo para ajudá-la a sobreviver em uma situação difícil, escolheria Joe, sem dúvida.

Aquele francês fazia mais do que jus a seu lendário nome, o que devia ser algo único entre os homens. Na verdade, Demi tinha a sensação de que o pessoal do serviço militar não deveria estar feliz por ele ter deixado o serviço. Não tanto quanto a mulher com quem ele se casaria.

Demi conseguia entender perfeitamente que uma enteada que não tinha nenhuma relação de sangue ficasse apaixonada pelo filho de Geoff. Como ela estava começando a descobrir, não havia homem que se comparasse a ele.

Em poucos minutos ele retornou.

— Tome. — Ele tirou a tampa e entregou um comprimido a ela. — Tem que tomar isto com água. — Pegou uma garrafa de água mineral. — Pode começar com as vitaminas à noite, para não irritar seu estômago.

— Sim, doutor — ela provocou antes de engolir o remédio. — A água está boa. Obrigada. — Ela pôs os frascos com os comprimidos na bolsa.

Os olhos de cílios compridos e escuros dele encontraram os dela. Seus rostos estavam a poucos centímetros de distância.

— Vamos torcer para que seu apetite melhore até amanhã. Antes de voltarmos para casa, tem algo que você precise comprar?

Demi desviou o olhar.

— Não consigo pensar em nada.

— Eu consigo. Uma nova câmera. O casco de Tonnerre esmagou a sua. Depois de levá-la para casa, irei até a cidade e comprarei uma nova. Mas acho que o filme foi destruído.

— Não se preocupe com isso, Joe. Coloquei um novo cartucho hoje de manhã. Então, não perdi nenhuma foto. Quanto à câmera, acho que não preciso de outra agora. Vou esperar até chegar em casa e comprarei uma com meu antigo chefe. Ele vai me dar algum desconto.

Joe ligou o carro e eles foram embora para o château. Com o temporal que caíra mais cedo, a vegetação ao lado da estrada estava molhada e revigorada. Ele dirigia sem se movimentar muito.

— Onde você trabalhava?

— Em um estúdio de fotografia.

— Gostava?

— Na medida em que um emprego pode ser bom, o meu era. Comecei a trabalhar lá em meio expediente, quando estava no colégio. Depois que me formei passei a trabalhar o expediente inteiro para guardar dinheiro para a faculdade.

— Estudou em Yale, como seu marido?

Parecia que Geoff e Joe haviam andado conversando.

— Ah, não — ela zombou. — Eu era uma aluna medíocre e não teria conseguido. Fiz algumas aulas noturnas em uma universidade local antes de conhecer Richard. Depois disso, eu meio que me tornei a assistente não oficial dele.

— E esposa — Joe acrescentou. Ela assentiu.

— Sim.

— Não estudou mais?

— Não. Um dia, vou tentar conseguir um diploma ou algo assim, mas, agora que o bebê está a caminho, isso terá que esperar até que o meu filho possa ficar na escola o tempo todo.

— Em outras palavras, não planeja deixar que alguém cuide dele.

— Há trabalhos que eu posso fazer de casa. Vou tentar de tudo para poder ficar sempre com meu filho — ela afirmou.

— Parece decidida.

— É como me sinto.

Ela o ouviu respirar fundo.

— Então, seu filho terá sorte. Até o dia em que minha mãe morreu, esteve sempre ao meu lado.

— Geoff me contou que ela faleceu enquanto você estava na universidade.

Ele reduziu a velocidade para fazer a curva para a propriedade Du Lac.

— Isso mesmo. Tive uma criação tranquila. — Subitamente, ele virou a cabeça para ela. — Você era muito jovem quando perdeu seus pais?

— Tinha 4 anos. Só me lembro deles por fotos. Saber que vou ser mãe torna isso minha prioridade número 1; farei o que for preciso.

— No momento, você precisa é de repouso. — Ele parou o carro e saiu para ajudá-la.

Demi teria conseguido por conta própria, mas ele segurou seu cotovelo para ajudá-la a entrar. Quando chegaram ao foyer, ela se viu novamente nos braços dele. Seu rabo de cavalo balançava para frente e para trás.

— Não precisa fazer isso — ela protestou, mas ele a ignorou e a carregou pelos dois lances de escada, como se ela fosse leve como o ar.

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Hey gente, o que estão achando da fic? Comentem para o próximo.
xoxo